Abrindo vagarosamente os olhos, sentia-me confusa com o sítio onde me encontrava. Tudo se iluminava pela suave luz do amanhecer, que passava por entre as folhas das árvores ao pé da janela. Tinha a mente vazia e um grande nó no estômago, pela fome que sentia. Ao virar a cabeça, de um lado apenas vi uma cortina fechada, mas do outro, notei que estava a Ichigo. Ela dormia profundamente, sentada numa poltrona azul, reclinada ao pé da cama onde eu me deitava. Parecia-me estar cansada, algo que confirmei assim que notei as grandes olheiras escuras por baixo dos seus olhos. Para além disso, era verdade que eu não me sentia fisicamente bem, mas era um certo alívio saber que ela estava ali por mim, mesmo que parecesse estar um pouco exausta, algo que assumi ter sido culpa minha. Não a queria acordar, então levantei-me com cuidado.

Encostei a ponta dos dedos àquela cortina esverdeada, que desviei para o lado. Por reflexo, tapei a boca com a mão. Mal podia acreditar naquilo que via, ou melhor, eu não queria acreditar... Todo o braço direito e uma metade do peito do Yusuke estavam descobertos, fazendo com que eu notasse as graves queimaduras que lhe tinham sido provocadas... Passei levemente os dedos pelas texturas deixadas em algumas das feridas no seu corpo, que já haviam cicatrizado. Ao fazê-lo, senti de imediato o meu coração cair em mim, pesado como cimento. Sentei-me na cadeira ao pé da cama onde ele dormia e segurei na sua mão. Não conseguia olhar para elas, sem sentir que a culpa fosse minha. Eu é que devia estar no seu lugar e, no entanto, eu só tinha ficado com uma simples marca de queimadura no pulso... Ele salvou-me.

- Não devia ter sido assim... — sussurrei para mim.

Eu não queria deixar cair as lágrimas que se acumulavam nos meus olhos, mas parecia impossível. Mesmo quando tentei agarrar a sua mão com mais força, era difícil manter-me firme.

- Akaluri Hazuki? — ouvi uma voz desconhecida perguntar.

Eu olhei para trás, pensando que provavelmente seria um médico. Reconhecia que estávamos no hospital onde trabalhava o pai do Ichiro, mas parecia-me ser uma voz mais jovem.

- Como sabes o meu nome? — perguntei, olhando para ele.

- A Hyuna falou-me bastante de ti.

- Oh... Mas quem és tu?

- Boa questão... É um pouco difícil explicar quem sou, então talvez isto ajude.

Com bastante cuidado, vi o rapaz alto e de cabelo loiro retirar algo brilhante da sua bolsa de couro.

- O que é isto? — perguntei, assim que ele pousou o tal objeto incandescente nas minhas mãos.

- Uma estrela.

- Tu és uma estrela? Não entendo...

- Não! Essa foi a estrela que caiu no outro dia, à qual fizeste um desejo à noite... Lembras-te?

- Quando o Yusuke saiu do restaurante?

- Sim.

- Como é que sabes isso? Eu não disse a ninguém, muito menos à Hyuna... Tu consegues ler pensamentos?

- Eu apenas senti. Sabes, quando alguém de bom coração pede um desejo genuíno a uma estrela cadente, eu consigo senti-lo, especialmente se estiver num local próximo. Por isso, acabei por ficar ligado a ti nesse momento.

- Então estás a dizer-me que... Consegues realizar desejos? Como um génio?

- Sim, entendeste a ideia geral. Muito bem.

- Tenho a leve impressão que estás a gozar comigo, mas não acho que seja o melhor momento... Mas porque dizes que ficaste ligado a mim?

- Tens razão. — comentou ele — Eu fiquei ligado a ti justamente porque a minha função é realizar desejos, mas não é a qualquer pessoa, nem a qualquer momento... Ao contrário do que costumam pensar sobre criaturas como eu, há circunstâncias muito específicas para que isso aconteça, que não me apetece estar a elaborar, mas, resumidamente, a pessoa tem que merecê-lo, digamos. Então aqui estou eu! Prazer, o meu nome é Seishou, sou um ser mágico puro.

A minha boca abriu-se ligeiramente, pelo espanto. Um ser mágico puro? Ali? Nunca antes me havia encontrado com um... Saberia ele alguma coisa sobre o meu pai? O que estaria a acontecer no mundo deles? Teriam as coisas melhorado, para ele conseguir vir e manter os seus poderes? Tinha incontáveis perguntas para lhe fazer, mas, havia algo muito mais importante a ser falado naquele momento.

- Eu acho que o Yu iria merecer muito mais do que eu, ter os seus desejos realizados...

- Mas é por isso mesmo que a pessoa que os teve foste tu, Akaluri. Não só foste tu quem desejou a uma estrela cadente, o que é algo raro de acontecer, mas necessário para eu poder agir, como também tu já estás a pensar em alguém que os deveria ter no teu lugar. És alguém altruísta, empática e com uma forte moral de justiça, que se nota especialmente quando é algo relacionado às pessoas que mais gostas.

Eu apenas olhei nos seus olhos, não sabendo o que responder por uns instantes. Seria verdadeiramente altruísmo, se as pessoas que eu mais quisesse ajudar fossem as que eu já conhecesse e gostasse? Não seria isso mais parecido com... egoísmo?

- Ahm...

- Vá, Akaluri, limpa esses olhos. Eu sei que está a ser um momento extremamente difícil para ti, mas pensa naquilo que mais desejas e talvez te consigas sentir melhor. Tens dois pedidos por fazer ainda! Quando estiveres pronta, segura a estrela com as duas mãos e fala.

"O que mais desejo...?", pensei. Não era de facto uma questão nada fácil, muito menos naquela situação. Havia tanta coisa que poderia desejar, mas ao mesmo tempo nada me parecia ser bom o suficiente... E eu sabia que não me queria arrepender, de todo. Passado uns longos segundos, eu passei as costas da mão pelos meus olhos, limpando toda aquela água acumulada de um choro que forçava não sair.

- Posso só... ficar a pensar mais um pouco? — perguntei.

- Claro, mas eu sinto que o teu coração já se decidiu, pelo menos notei isso no primeiro desejo. Foi aquele que pediste à estrela cadente, que acabou por salvar o teu namorado. Foi realizado quando ele foi atingido pelas chamas. Sem esse desejo, ele não estaria aqui. Agora, tens chances de usar o teu segundo e penúltimo desejo. E sabes que eu sinto essas coisas, ainda melhor quando a pessoa é fácil de ler, como tu. M-mas isso não é nada de mal, a sério! Honestamente, eu por vezes gosto de pessoas assim, que não me fazem sentir incerto.

- Hm... Está bem, obrigada... — respondi, cortando o seu monólogo.

Respirando fundo, eu segurei a estrela cintilante com as mãos e fechei os olhos. Para o meu segundo desejo, foi como se as palavras simplesmente tivessem saído da minha boca num simples sussurro, sem grande esforço de pensamento. De seguida, uma luz da cor do céu estrelado saiu das suas mãos, levitando levemente por cima do Yusuke, até integrar o seu corpo; a mesma cor de luz que havia notado antes de desmaiar. Era como um milagre que acontecia em tempo real: eu conseguia ver as suas cicatrizes passarem de enormes manchas escuras, para umas pequenas manchas claras, até dissiparem, quase por completo. Aí, ele acordou.

- Luri? — disse o Yu, abrindo vagarosamente os olhos e franzindo as sobrancelhas.

- Yu! — exclamei, debruçando-me carinhosamente sobre ele — Estás bem?

- Bem... Fisicamente, sim... Quer dizer, melhor do que me lembro estar ontem, pelo menos. — Ele olhou para os seus braços e peito — Parece que cicatrizei à velocidade da luz.

- Foi graças a ele! — exclamei, apontando para trás de mim.

- Graças a quem?

Olhando para trás, apercebi-me que já não estava lá ninguém. Eu ainda tinha mais um desejo por pedir, mas não foi difícil supor que provavelmente ele só iria aparecer quando eu realmente precisasse. Guardei então a estrela na minha bolsa, que estava pousada na mesinha de cabeceira. Não sabia se era boa ideia contar aquilo a alguém, mas o Yusuke merecia saber a verdade de qualquer das formas. No entanto, talvez não fosse o melhor momento para lhe explicar. A sua saúde era mais importante que todo o resto.

- Esquece, ele já não está aqui. Depois falamos sobre isso. O que importa é que, pelo menos, pareces estar melhor; mas como te sentes?

- Luri... Tu sabes o quão a Honoka era importante para mim. Acho que se entende a razão de eu não me estar a sentir bem, embora ache que, por um lado, ela foi para um sítio melhor do que aqui, onde quase só sofria constantemente...

- Como assim? O que queres dizer com isso?

- Tu não sabes? O que aconteceu com a Honoka...

De repente, tive um breve flashback das suas labaredas vermelhas aumentarem de tamanho a um nível estrondoso. Não só eu sabia do destino reservado a quem era atingido por aquelas chamas — incluíndo a própria portadora — como também o Seishou me havia há pouco relembrado qual era: morte.

- Oh... Eu.... Na verdade só acordei mesmo há pouco. Não faço ideia do que aconteceu depois de ter perdido a consciência, mas acho que consigo deduzir... Desculpa, eu sinto muito, a sério...

O Yu olhou para mim e, no fundo dos seus olhos, percebi uma profunda e pesada melancolia. Senti o meu coração apertar no peito, uma dor silenciosa que ecoava a tristeza dele, como se fosse a minha. Instintivamente, aproximei-me e envolvi-o nos meus braços, tentando transmitir-lhe o que não conseguia expressar em palavras, que eram inúteis, naquela situação. Senti alguma hesitação da sua parte por um breve instante, mas o Yu logo cedeu, correspondendo o abraço. Ele apertava-me com força, sem dizer nada.

- Peço desculpa por interromper. — ouvi uma familiar voz masculina falar.

- Ah, não faz... — respondia, virando a cabeça para notar que tanto o Ichiro quanto a Manaka se encontravam lá presentes — ...mal.

- Akaluri! — exclamou a Manaka, abraçando-me com força — O que aconteceu? Estás bem?

- Estou bem, sim... Como é que sabiam que estava aqui?

- Foi graças à Hyuna... Ela foi a nossa casa e contou-nos tudo para que pudéssemos ajudar. Ela sabe que o pai do Ichiro é um médico especializado em seres como nós, então...

- Foi a decisão mais lógica. — concluiu o Ichiro.

- Entendo. — respondi — Mas... é de manhã. A Hyuna não costuma andar fora assim... Isso quer dizer que ela vos contou?

- Se estás a falar do facto de ela se disfarçar durante o dia, sim, ela contou sobre a identidade dela, como Ichigo. — disse ele — Teve de ser.

- Olha, Akaluri... — interrompeu a Manaka — Eu sei que tenho andado meio distante estes tempos, mas... Quando ouvi a Hyuna falar sobre o que tinha acontecido, eu senti um pânico de tal forma, que nem consegues imaginar. Sei que deves pensar que não estou a ser a melhor das amigas, mas, só queria que soubesses que penso muito em ti e que és mesmo importante para mim.

- Eu percebo, não precisas de te justificar... Sei que tens andado ocupada. Eu também tenho tido as minhas coisas para lidar ultimamente, por isso não estás sozinha nisso...

- Eu sei, mas gostava de ter estado mais presente para ti. Com as notícias que recebi, acabei por fazer uma introspetiva de como tenho sido e confesso que não me sinto muito orgulhosa...

- Não importa, a sério, não tens culpa. Não acho que esta conversa seja o mais importante, por agora...

O Ichiro segurou levemente na mão da Manaka, que parecia ligeiramente abalada. Ele fechou a cortina ao pé da cama e assim saíram os dois para fora do nosso quarto do hospital, talvez entendendo que queria um momento a sós com o meu namorado, especialmente no estado em que estávamos. Notou-se que, todo aquele tempo, o Yusuke apenas ficou a olhar para o vazio, parecendo estar bem distante dali. Fiquei alguns minutos a refletir, com a minha mão pousada na sua, só que, logo quando decidi dizer algo, ouvi a tal cortina abrir novamente.

- Akaluri? Estás bem?

- Oh, Ichigo... Sim, estou bem; e tu?

- Também. Felizmente, não nos aconteceu nada de grave, mas... o Yusuke parecia estar num estado horrendo. Como ele melhorou tanto da noite para o dia? O pai do Ichiro disse que a chance de ele voltar a ficar em boas condições, era... bem... quase nula.

- Como assim? — perguntei, fingindo-me desentendida.

- Ele tinha manchas enormes de queimaduras em todo o lado e a sua pele não estava a recuperar. Os seus pulmões ficaram cheios de fumo ao ponto de terem sofrido danos que pareciam ser permanentes. O Yusuke foi atingido pelo fogo mais potente da Honoka, embora ele tenha usado todas as suas forças com a sua magia protetora, que foi a única coisa que ajudou minimamente... Mas, quando ele o viu, o pai do Ichiro fez mesmo questão de dizer que era um caso crítico... Só que, vendo-o assim, já não sei. Quase parece um milagre ou coisa do género.

- Não digas isso. — respondeu o Yu — Nada disto pode sequer ser relacionado com a palavra "milagre". Não me importa se sobrevivi, mas porquê eu? E porque não a Honoka também? Ou só ela? Não foi só em mim que usei a magia... Ela também devia ter ficado melhor.

- Yusuke. — continuou a Ichigo — Já pensaste que, se calhar, o fogo que ela criou não era especificamente destinado para mais alguém a não ser ela própria? Ela estava a tentar atingir-se mais a si mesma, do que qualquer outra pessoa.

- O que estás a dizer? Ela claramente tentou atingir a Akaluri, mesmo tentando atingir-se a si própria. Fui eu próprio que a desviei da Honoka, mas... queria ter conseguido impedi-la.

- Já era tarde demais naquela altura. Nós todos tentamos, Yusuke, mas não podemos controlar ninguém, muito menos a Honoka. Não te culpes por isso. A intenção dela era desaparecer e foi isso que ela fez. Agora é apenas um monte de cinzas das quais, desta vez, não poderá renascer. Não era nada que o destino já não estivesse a prever um dia. E, pensa também noutra perspetiva. Estás a falar sobre preferires ter sido tu no lugar da Honoka, mas já pensaste em como ficaria a Akaluri sem ti?

O Yu ficou calado durante uns momentos. Assumi que estivesse a processar o que acabara de ser dito pela Ichigo, não podendo negar nada.

- Não sei como consegues falar assim... — respondeu o Yu, parecendo desapontado — És sempre tão fria...

A Ichigo não respondeu, limitando-se apenas a cruzar os braços. Eu sabia que a situação também não era fácil para ela. Talvez o que lhe saíra da boca tenha sido uma forma de defesa interior e, ao mesmo tempo, para tentar tirar algum peso de cima dos ombros do Yu e defender-me ao mesmo tempo. Embora não concordasse muito com a forma tão direta que ela o dissera, acabava por entender a sua razão... Por isso, não comentava nada, segurando apenas na mão do Yusuke durante algum tempo. Enquanto isso, a Ichigo saiu do quarto.

Ele mostrava um olhar distante, sem qualquer direção específica. Eu sentia o aperto da sua mão na minha, como se a minha mão quente conseguisse aliviar o peso da água que enchia os seus olhos, que ele se esforçava tanto para que não se transformassem em lágrimas. Era a primeira vez que o via assim e, ao mesmo tempo que a sua vulnerabilidade para comigo me deixasse contente, vê-lo assim tão triste fazia-me sentir uma enorme dor no coração. Mas, naquele momento, eu sabia que era melhor não falar; o Yu só precisava da minha presença.

- Obrigado... — afirmou ele, limpando os olhos.

- Não tens que agradecer Yu, eu estou aqui para ti. — respondi, passando-lhe carinhosamente a mão pelo braço.

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[Manaka P.O.V]

Há muito tempo que não sentia aquela sensação. A água fresca que passava por entre os dedos dos meus pés, que se moviam no lago, era tão reconfortante... Na verdade, já faziam alguns dias que o verão tinha começado, mas tinha acontecido tanta coisa nos últimos tempos, que parecia ter esquecido da existência do meu sítio favorito, um lugar onde não me lembrava sequer da última vez que havia voltado. A minha cabeça estava claramente um caos...

- Já te sentes melhor? — perguntou o Ichiro.

- Sim... Obrigada. — agradeci, forçando um leve sorriso.

- Vá, deita para fora o que precisas de falar.

- Mas...

- Fala. — insistiu ele, com um tom mais sério.

O Ichiro já me conhecia há tanto tempo que era praticamente impossível eu fingir fosse o que fosse. Ele sabia que eu ainda me sentia mal e não estava errado, mas também não queria estar mais uma vez a chateá-lo com os mesmos discursos de ultimamente.

- Só estou em baixo... Eu sabia que a Akaluri estava a passar por um mau bocado, mas tive tanto para lidar com o trabalho e os estudos, que nem tive oportunidade de estar ao lado dela e acabei por perder um pouco a noção do tempo... E, vendo como estão as coisas na vida dela agora, acho que já é tarde demais para eu poder fazer alguma coisa.

O Ichiro colocou o braço por trás de mim e pousou carinhosamente a sua mão no meu ombro.

- Não fiques presa nisso. Sei que tens andado bastante sobrecarregada, mas é só um momento e tudo volta ao normal outra vez. Depois poderás descansar um pouco de todo este stress; estas coisas acontecem e eu sei que consegues ultrapassar. Já passaste por muito.

Soltei um leve suspiro, não conseguindo negar o que o Ichiro me dizia. Apenas acenei com a cabeça, concordando. Porém, não era o trabalho ou os estudos que me preocupavam mais naquele momento, mas sim em reatar com a Akaluri. Arrependia-me bastante de tê-la deixado passar pelos problemas dela sozinha ultimamente.

- Mas o que faço em relação à Akaluri? Eu não sei como abordá-la agora. Se eu continuasse ali no hospital a insistir, ela ainda me ia expulsar.

- Não tens que insistir, sabes que ela lá no fundo quer estar contigo, mas apenas está magoada de momento. Ela gosta de ti, mas não está com cabeça para lidar com esse drama agora, logo depois do que aconteceu.

- Talvez tenhas razão... Só que, mesmo assim, eu preciso de arranjar uma forma de falar com ela. Talvez um sms?

- Não acho que uma mensagem seria boa ideia. Tens que lhe perguntar as coisas pessoalmente, mostrar que estás de novo presente na vida dela agora, entendes?

- Pessoalmente era melhor que uma mensagem, sim, mas duvido que ela queira estar longe do hospital, antes de ter a certeza que o Yusuke esteja bem o suficiente para sair. Podia falar com ela lá no quarto...

- Com o Yusuke lá?

- Ele precisa de descansar, então é provável que durma bastante, por isso não acho que seja má ideia.

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[Akaluri P.O.V.]

Soltei um grande suspiro, enquanto me encostava à porta do quarto que acabara de sair. "Tenho que deixar o Yu descansar por enquanto", pensei, ao mesmo tempo. Talvez fosse um bom momento para ir buscar comida, afinal, o meu estômago já roncava.

- Tens fome? — ouvi alguém perguntar a meu lado.

- Hyuna? — questionei retoricamente — Pensei que tinhas ido embora.

- Não, só fui à cafetaria buscar algo. Assumi que tivesses fome por esta altura. E, já agora, tenta não me chamar Hyuna em público... Lembra-te, é Ichigo. Não criei outra identidade para nada; estou com a peruca e as lentes.

- Entendi. E, por acaso, estou mesmo com fome.

- Toma. — disse ela, estendendo-me uma sanduíche de atum em pão baguete.

- Obrigada...

Juntas, fomos para uma área com máquinas de venda de comida, onde havia igualmente mesas e cadeiras. Depois de lá comprarmos uma bebida para cada uma, sentamo-nos frente a frente e começamos a almoçar.

- Então? — perguntou a Ichigo — Como está o Yusuke?

- Acho que está bem, pelo menos fisicamente... Ele está a dormir agora.

- Hm... Ainda esta noite ele parecia estar num estado caótico... talvez não o suficiente para não se recuperar, claro, mas de certeza que da noite para o dia não iria melhorar tanto. Aconteceu alguma coisa?

Peguei na sanduíche e dei-lhe uma mordida, para ver se poupava algum tempo ao mastigar, enquanto pensava no que lhe responder. "Deveria contar-lhe? Será que ela vai acreditar? Quer dizer, talvez devesse... o Seishou referiu que a conhece. Mas será que ela sabia que ele tinha ficado ligado a mim, por causa do desejo?", questionava-me. Ao mesmo tempo, o que aconteceu não me parecia ser algo completamente descabido, especialmente para alguém como nós. E, para além disso, ele não me falou de regras, sobre não contar a ninguém, por exemplo.

- Akaluri! — ouvi alguém chamar à distância.

Quando olhei na direção que o som vinha, notei que era a Manaka. Não sabia muito bem como lidar com ela, logo depois de ter ignorado o seu pedido de conversa numa das alturas mais importunas do universo. Entretanto, ela chegou ao pé de mim.

- Olá, Manaka.

- Desculpa, por esta manhã... Não te devia ter forçado a falar comigo daquele assunto, muito menos com o Yusuke naquele estado.

- Deixa estar; isso não importa agora.

- Mas eu preciso mesmo de falar contigo... Achas que agora seria uma boa altura?

Acenei com a cabeça, fazendo um gesto para ela se sentar ao lado da Ichigo.

- Achas que eu devia ficar aqui sentada? Parece que a Manaka te quer falar de algo privado.

- Ah, não tem mal, mesmo! — respondeu a Manaka. — Não é nada que seja propriamente privado, digamos.

- Mesmo assim, acho que vou à casa de banho por enquanto. Aproveito e dou também uma olhada no Yusuke por ti, Akaluri, está bem?

- Ok, obrigada Ichigo. Qualquer coisa, manda mensagem.

- Sem problema. — respondeu ela, levantando-se.

Assim que a Ichigo saiu, a Manaka começou a falar comigo, enquanto acabava o meu almoço.

- Wow... A Hyuna parece uma pessoa completamente diferente, agora que sei que ela também é a Ichigo. Sabes, como ela era no início e tal... e como ela parece ser agora: preocupada, simpática, prestativa...

- Sabes que, lá no fundo, ela sempre foi meio assim, certo? Apenas... é complicado. A vida que ela teve acabou por fazê-la levar por certos rumos que alteraram a forma como ela age com os outros. Não é fácil para ela confiar em alguém, muito menos abrir-se.

- Pois, imagino... mas, para mim, vê-la assim é como se estivesse a comparar o dia à noite.

- Eu percebo. Também perdi muito tempo a ter sentimentos negativos por ela, quando na verdade estava enganada a seu respeito.

- Hm... Estás a dizer isso como se ela não te tivesse feito nada. Tens mais do que razões suficientes para não gostares nada dela. E eu igual.

- Tecnicamente, sim... mas quando fazes o esforço de realmente ouvir e conhecer alguém, essas coisas tornam-se mais compreensíveis e perdem o seu peso inicial. Entendes?

- Claro, eu penso o mesmo, mas não foi como se ela tivesse simplesmente perdido a tua caneta, por exemplo... Tu sabes que vocês literalmente discutiram e até chegaram a lutar, mais do que uma vez.

- Mas as coisas já não são assim agora... Olhando na perspetiva dela, eu também estava a ser difícil de lidar, do meu lado. E, honestamente, desde que me envolvi mais na vida dela, tenho vindo a perceber muita coisa sobre a forma que ela pensa ou age, apesar de nem sempre concordar com as decisões que ela toma...

- Hm... Mas sabes, um dia, essas ações que ela decide fazer e não concordas, podem afetar-te a ti.

- Duvido... Ela não teria motivos para isso.

- Não sabes.

- Bem, não importa... — convencer a Manaka a mudar de perspetiva era um trabalho àrduo — Querias falar sobre o quê?

- Apenas te queria pedir desculpa e explicar o que aconteceu. Tenho andado extremamente ocupada com o café e com os estudos. Houve um grande layoff ou até mesmo desistência de alguns colegas... E conciliar esse trabalho extra com estudos em biologia e ainda tomar conta da casa com o Ichiro... Bem, não está a ser muito fácil.

- A sério que aconteceu isso? Não fazia ideia... Há algum tempo que não meto os pés no café... Tinha andado ocupada com os testes e exames finais, com a minha relação com o Yu, com a inscrição na universidade, com outros problemas pessoais... Nem tudo mau, mas cada coisa exigindo o seu tempo.

- A tua relação com o Yu? — perguntou ela, levantando a sobrancelha.

Aí, lembrei-me que não lhe havia contado nada nos últimos meses. Era estranho a Manaka ter passado de alguém a quem contava tudo, para alguém que nem sabia as coisas recentes mais importantes que me aconteciam. De alguma forma, fazia-me lembrar da minha relação com a Naomi, e até com a Sara, que acabaram por se dissipar por completo, com o tempo. Não queria que o mesmo acontecesse com a Manaka, mas nem sempre era fácil manter contacto regular, sobretudo tendo vidas separadas.

- Sim... — confirmei, hesitante — Nós começamos a namorar.

- Oh! — exclamou ela, sorrindo — Estou muito feliz por ti. Há quanto tempo? É a primeira vez que gostas de alguém, certo?

- Hm... Mais ou menos. Claro que já cheguei a gostar de outras pessoas antes, mas não se compara ao que sinto pelo Yu... de longe. É tão diferente que eu não entendia bem o que sentia no início e demorei a perceber.

- Como é que te deste conta?

- Honestamente, eu já tinha notado alguns sinais, tanto da minha parte, como da dele. Mas o receio que tinha de sentir esse tipo de coisa, ou até mesmo entrar eventualmente numa relação, fez-me apenas ignorar esses sinais ou interpretá-los de forma diferente, quase como se me estivesse a enganar a mim mesma, por uns tempos. Acho que só consegui realmente dar-me conta do que sentia quando nos beijamos pela primeira vez. Foi quando ele se declarou a mim também... De repente, tudo ficou claro.

- Ahh! — exclamou ela, entusiasmada ao ponto dos seus olhos cintilarem — E como foi? Conta tudo!

A conversa com a Manaka durou horas a fio, que passaram sem que eu me desse conta. Cada uma de nós foi metendo a outra à par de todas as coisas que haviam acontecido nos últimos meses e os nossos planos para o futuro. Estava contente de me voltar a aproximar dela, especialmente num momento difícil, em que ambas precisávamos de algum apoio. No final, prometemos nunca mais nos afastarmos daquela forma, não importando o que acontecesse. Combinamos arranjar sempre tempo uma para a outra, apoiarmo-nos, contarmos as novidades, sairmos, conversarmos e, principalmente, voltarmos a divertir-nos como antes.

- Oh não! Já passou tanto tempo! — disse, levantando-me de repente — Tenho de ir ver como está o Yu...

- Desculpa, não sabia que ia demorar horas... mas, sim, é melhor ires.

- Não tens culpa e, de qualquer das formas, ainda bem que falamos e conseguimos colocar as coisas em dia. Vou indo então, fica bem!

- Akaluri! — lembrou-se a Manaka — Espera! Tenho uma coisa para te dar. Quase me esquecia...

Depois de mexer uns segundos na sua pequena sacola rosa, a Manaka retirou de lá dois papéis. Quando os colocou na minha mão, reparei que pareciam bilhetes, para algum evento.

- O que é isto? — perguntei.

- São bilhetes para o festival de fogo de artifício, que vai haver daqui a uns meses. Era suposto acontecer no início de setembro, mas adiaram o evento para meados de novembro. Eu ia com o Ichiro, por isso ele comprou dois bilhetes, mas nessa altura vou estar ocupada com a universidade, para além do trabalho... Então, visto que queria algo para te recompensar e, já que é somente umas semanas depois do teu aniversário, pensei que seria boa ideia que ficasses tu com eles. Leva o Yusuke contigo!

- Hm... Obrigada, a sério, mas... — respondi, hesitando guardar os bilhetes — supostamente, se tudo correr como estou a planear, eu também vou estar ocupada com a universidade nessa altura e, talvez até com trabalho, ou pelo menos à procura de um...

- Não te preocupes com isso, é num fim de semana. Provavelmente apenas terias de faltar um ou dois dias às aulas, no máximo; e ainda vais estar no início do semestre, por isso não te preocupes. Tens tempo para tudo!

- Um ou dois dias? Onde é que isso fica?

- Na margem sul do país... O Ichiro também reservou um quarto de hotel para três noites, de sexta a domingo, mas ainda tínhamos de cancelar essa parte. O que pensei fazer, ao invés disso, era simplesmente alterar as datas para quando tu fosses, e assim, a estadia e o evento em si, ficavam como sendo a nossa prenda para o teu aniversário! Apenas terias de pagar transporte para ti e para o Yusuke. Que achas?

Não estava muito ansiosa para mais outro aniversário, ainda por cima festejá-lo tão longe. A situação não estava propriamente alegre para pensar em algo assim tão festivo, mas talvez fosse boa ideia aceitar, nem que fosse só para desanuviar de tudo o que se havia passado. Aliás, se fosse para eu ir sozinha, ou com outra pessoa, eu acabaria por recusar; no entanto, o Yusuke precisava mais de algo assim do que qualquer outra pessoa que pudesse pensar. Ele passou por muito, por isso precisava de algum tempo para recuperar, antes de começar a distrair-se. Então, assumindo que outubro já fosse tempo suficiente para que ele se começasse a sentir melhor, pensei que poderíamos partilhar aquela experiência juntos. Parecia-me algo que talvez lhe desse um sorriso, e, principalmente, boas memórias.

- Está bem. — respondi — Obrigada, Manaka.

- Yay! Ainda bem que aceitaste! Sabes, eu e o Ichiro já tínhamos falado sobre esta possibilidade hoje, quando saímos os dois do hospital, por isso não te preocupes com nada! Nós tratamos de todas essas mudanças e depois informamos-te, ok?

- Ok! Ficarei à espera. Até logo!

- Até logo, Akaluri!

Pensativa, fui andado rapidamente até chegar de novo ao quarto de hospital, onde se encontrava o Yu. Assim que lá entrei, a Ichigo, sentada na poltrona ao pé da sua cama, cruzou olhares comigo.

- Demoraste. — comentou.

- Eu sei... Não era o meu objetivo, mas obrigada por teres ficado aqui com o Yusuke. Como é que ele está?

- Eu também fiquei porque quis... Eu preocupo-me com ele também, já para não falar do facto que me sinto um pouco mal com a forma que lhe falei mais cedo, mas, ele está bem; ainda dorme.

- Ainda? Não o devíamos acordar para comer alguma coisa?

- Talvez, sim, mas aqui a nada já devem vir trazer-lhe um lanche. Só não vieram até agora porque ainda não fui informar ninguém sobre ele ter acordado antes. Estava à espera que chegasse o pai do Ichiro, para ver se ele consegue decifrar o que aconteceu ao Yusuke, sobre a sua melhoria repentina.

- Não faças isso!

- Huh? — questionou a Ichigo, confusa — Porque não? Não estás preocupada também? Não queres entender o que aconteceu?

- Na verdade... É por minha causa, mais ou menos. Eu não sei se vais acreditar em mim, mas... No dia em que tudo aquilo aconteceu, eu tinha desejado a uma estrela cadente ser capaz de proteger quem mais gosto. Foi apenas uma coisa estúpida que fiz, sem pensar muito. Só que...

- Só que...? — interrompeu a Ichigo, impaciente.

- Eu não sabia, mas isso acabou por me ligar a um génio, que veio do mundo dos seres mágicos... Quando houve o conflito, o Yusuke apenas conseguiu sobreviver graças a esse meu desejo de proteção. Hoje, pouco depois de ter acordado, esse génio apareceu para me contar sobre o assunto e me dizer que ainda sobravam dois desejos. Acabei por usar um deles para a tal "milagrosa" melhoria do Yusuke...

Estranhamente, a Ichigo não comentou absolutamente nada sobre o que acabara de dizer, parecendo apenas pensativa. Teria sido assim tão ridículo, ou ela apenas estava a processar toda aquela informação?

- Ok. — respondeu ela.

- Huh? Acreditas no que acabei de dizer?

- Claro que acredito. Isso significa que conheceste o Seishou então, certo?

- Ah! Pois... É verdade, ele referiu o teu nome, já me tinha esquecido disso.

A Ichigo sorriu discretamente, desviando o olhar.

- Ao menos já sei o porquê dele andar meio desaparecido desde ontem à noite.

Que tipo de relação haveria entre aqueles dois? Mais importante ainda, como se teriam eles conhecido? Tudo aquilo me parecia um pouco estranho, mas, vendo o olhar carinhoso que ela mostrava ao pensar nele, não me fazia preocupar muito com qualquer resposta que ela me pudesse dar sobre o assunto. Talvez o Seishou se tivesse tornado alguém especial para a Ichigo, por isso, decidi apenas não a questionar por enquanto, limitando-me a ficar contente por ela; era raro vê-la com uma expressão daquelas.

Pouco tempo depois, ela saiu, deixando-me sozinha com o Yu, que ainda dormia profundamente. Aproveitei aquele momento de silêncio para refletir sobre o que tinha acontecido, não só nas últimas horas, mas também nos últimos meses. Sentia-me exausta, tanto física como emocionalmente, e a necessidade de desanuviar levou-me a pegar no telemóvel. Pensei em ligar à minha mãe e inventar uma desculpa sobre onde tinha passado a noite, mas hesitei. A ideia de envolver a Manaka, que usaria os seus poderes para alterar a perceção da minha mãe, parecia fácil. Contudo, sentia um desconforto por continuar a viver daquela forma, sempre a remediar as situações e a adiar tomar decisões importantes... Naquele instante, senti vontade de amadurecer, de crescer um pouco interiormente e alcançar um novo nível.

Enquanto ponderava sobre o que dizer, a realidade começava a pesar sobre mim, especialmente as escolhas que ainda precisava de fazer... Parecia impossível ignorá-las. Olhei novamente para o Yu, ainda adormecido, e uma sensação de urgência invadiu-me. Precisava de encontrar um novo caminho, algo que me permitisse retomar o controlo da minha vida. Não queria que situações como aquela se repetissem. Foi então que entendi que, para avançar, precisava de olhar um pouco mais para o futuro e, sobretudo, planeá-lo. Não podia continuar a viver presa no presente, à espera que as coisas se resolvessem sozinhas. Naquele momento, apenas uma palavra me veio à mente: universidade. Era uma nova oportunidade para finalmente colocar tudo em ordem, um novo começo. Ao tomar essa decisão, eu sabia que estaria a dar o primeiro passo para um novo capítulo da minha vida.