Ficara perplexa ao virar-me e perceber que era a Sara que estava atrás de mim. Com a mochila quase a escorregar do braço, ela tentava recuperar o fôlego, visivelmente ofegante da corrida até minha casa.

- Sara? Estás toda encharcada! O que é que aconteceu?

Ela hesitou, os lábios a tremerem ligeiramente antes de responder.

- E-eu só queria… — ela parou uns segundos para respirar fundo — Queria passar a noite cá, se possível…

- Aqui? Hoje? Porquê?

- Eu depois explico tudo… pode ser? Não te importas?

Olhei para ela, tentando perceber o que poderia ter causado aquele estado de aflição. A preocupação que notava no seu olhar fez com que simplesmente lhe acenasse com a cabeça, antes de abrir a porta.

- Entra. Precisas de tomar um duche quente e trocar essa roupa molhada.

Após entrarmos em casa, fomos diretamente para o meu quarto, onde pousamos as nossas coisas. A Sara pousou a mochila no chão, e eu observava o seu comportamento para tentar entender o que lhe acontecera, enquanto ela se mexia com uma certa rigidez e nervosismo.

- Onde estão os teus pais? — perguntou a Sara.

- Só chegam amanhã… Como eles foram passar o ano novo à família do meu padrasto, decidiram ficar lá uma noite a mais, ao invés de estarem a voltar depois de uma noite em branco. Podes ir ao banho agora… Tens algum pijama para vestir depois?

- Sim, eu trouxe as minhas coisas.

A Sara tirou da mochila alguns produtos de higiene e uma elegante túnica cinzenta para dormir. Sem dizer nada, dirigiu-se à casa de banho integrada no meu quarto. Enquanto ela se preparava, aproveitei para arrumar no armário as coisas que ainda estavam na minha mochila, acabada de trazer do bungalow. O som da água a correr no chuveiro fez-me lembrar, de repente, de um dia em que eu e o Hikari fomos apanhados de surpresa pela chuva. Rimo-nos imenso enquanto corríamos à procura de abrigo e, por sorte, acabámos num café onde serviam waffles deliciosos. Uma memória aleatória, mas que me fez sorrir um pouco.

- Nunca mais fomos lá… — sussurrei para mim.

Hesitante, eu peguei no meu telemóvel, na esperança de poder ter uma conversa com ele, por mais simples que fosse. Tentei ligar duas vezes, mas o Hikari não atendeu. Pensei que talvez ele estivesse ocupado, então decidi apenas mandar-lhe uma pequena mensagem de feliz ano novo. Já estava a acostumar-me novamente à sua ausência, por mais que isso me doesse. Não havíamos passado um único dia juntos nas férias de Natal. Antes disso, as únicas vezes que nos víamos era quando nos cruzávamos na escola e quando, por acaso, decidíamos ir trabalhar ao mesmo tempo. A comunicação entre nós, outrora constante, estava a perder-se desde que ele se mudara para a casa do Ren. Sentia o peito apertar com essa realidade, quase como se ele nunca tivesse realmente voltado da capital. Antes que pudesse afundar-me ainda mais em pensamentos, o telemóvel vibrou com uma chamada inesperada. Atendi sem olhar para o ecrã, na esperança de ouvir a voz do Hikari.

- Hikari?

- OUTRA VEZ? Que déjà vu!

- Oh! Desculpa, Ryuu. — eu ri, nervosa — É que… Eu tentei ligar ao Hikari algumas vezes, mas ele não atendeu, então pensava que era ele.

- Estás desiludida por ser eu, é isso? — perguntou ele, num tom de brincadeira.

- Claro que não! Mas… porque me estás a ligar?

- Só queria saber se chegaste bem a casa.

- Eu cheguei bem. E tu?

- Cheguei todo molhado, mas cheguei. É o que interessa!

- Foste tomar um duche e trocar de roupa? Se não, ainda ficas constipado…

- Já fui fazer essas tretas todas. Estou agora quentinho aqui no sofá, a fazer companhia ao Wolfo.

- Ele deve ter tido muitas saudades tuas!

- Óbvio! Quando abri a porta, ele estava tão animado que quase me derrubou!

- Que fofinho!

- Ele é adorável… Um dia tens que vir cá a casa visitar.

- Temos de combinar algo todos juntos…

- Mas então e tu, já foste ao banho? Espero que não tenhas apanhado muita chuva…

- Ainda não fui, mas estava a preparar-me pra ir.

- Oh, nice! Vou deixar-te então. Vemo-nos depois de amanhã na escola! — despediu-se o Ryuu, desligando a chamada.

Falar com ele quase me fizera esquecer de como me sentia antes, em relação ao Hikari. No entanto, ainda tinha um mau pressentimento. Peguei no meu caderno de rascunhos e comecei a folheá-lo vagarosamente. Era o meu refúgio, o lugar onde desenhava e escrevia aquilo que não conseguia expressar de outra forma. Cada página era uma pequena janela para o meu interior, algo que raramente mostrava a alguém.

- Estavas a falar com alguém? — a voz da Sara trouxe-me de volta à realidade. Ela tinha saído da casa de banho, já vestida com a sua túnica cinzenta, que lhe ficava adorável. Passava uma toalha pelo longo cabelo húmido, observando-me.

- Há pouco, sim. O Ryuu ligou-me.

- Passa-se algo entre vocês?

- Em que sentido?

- Não sei… Algo de bom, algo de mau…?

- É complicado… Podemos falar sobre isso daqui a pouco? Vou tomar um duche e vestir o pijama. Depois conversamos com calma durante o almoço.

- Está bem.

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- É complicado explicar o que se passa entre mim e o Ryuu… — disse, enrolando um pouco de esparguete no garfo — Sara, tu gostas de algum rapaz?

- Eu? — perguntou ela — Eu não gosto de rapazes… Eu sou lésbica.

- Oh, não fazia ideia!

- É normal, eu não te disse... — ela bebeu um golo do seu sumo de laranja, observando a minha reação — Mas porquê a pergunta? Tu gostas do Ryuu?

- Huh? Eu? Eu não acho que… Bem… Na verdade, eu não sei.

- Como assim, não sabes?

- Eu não sei o que sinto… Nunca estive realmente apaixonada por ninguém, então não entendo como é suposto sentir-me.

- É difícil explicar esse sentimento…

- Imagino que sim… mas, já o experenciaste? Como o descreverias?

A Sara pensou por um momento, com os olhos focados em algo distante.

- Acho que é diferente para cada pessoa. Para mim, amor é quando sentes um carinho especial por alguém, de uma forma que não sentirias por qualquer outra pessoa. É quando sentes que a felicidade de alguém é mais importante do que a tua e queres sempre o melhor para ela.

- Em que é que isso é diferente de uma boa amizade?

- Na intensidade e nas sensações. Amor é quando a pessoa não te sai da cabeça, quando sofres ao vê-la triste e quando não te importas de fazer certos sacrifícios por ela, mesmo que ela nunca saiba e mesmo se não receberes nada em troca. O amor não se calcula e não se prevê, mas também não aparece da noite para o dia. Diria que é algo que vai crescendo com o tempo.

- Acho que já percebi.

- É isso que sentes pelo Ryuu?

Fiquei em silêncio por um momento, pensando nas palavras dela.

- Ainda não tenho a certeza. Preciso de passar mais tempo com ele para entender melhor o que sinto… Não quero dar-lhe a resposta errada à declaração que ele me fez e magoá-lo. — Fiz uma pausa, mudando ligeiramente de assunto. — Mas, já que não gostas de rapazes, há alguma rapariga pela qual estejas apaixonada?

- Bem… Não diria apaixonada, mas… — a Sara corou ligeiramente, antes de continuar — Acho que sinto alguma coisa pela Naomi.

- Uma paixoneta? — perguntei.

- É assim que se diz?

- Acho que sim… — respondi, rindo — E como descobriste que és homossexual? Foi algo que sempre soubeste?

- Descobri ao mesmo tempo que tu descobriste que és heterossexual. Alguma diferença? — a Sara deu uma pequena risada.

Sinceramente, a resposta da Sara fez tanto sentido que até senti que a minha pergunta tinha sido um pouco estúpida. Ficamos em silêncio durante uns longos segundos, enquanto continuávamos a comer o almoço. Havia demasiadas coisas na minha mente, que precisavam de ser processadas ao mesmo tempo. Era uma surpresa para mim, descobrir que a Sara era lésbica e que ela tinha uma paixoneta pela Naomi. Deveria tentar juntá-las? Ou seria a Naomi contra esse tipo de coisa? E se as conseguisse juntar, entenderia melhor os meus próprios sentimentos?

- Estás bem, Akaluri? — perguntou a Sara, interrompendo a minha interminável corrente de pensamentos.

- Sim, estava só a pensar… Ainda não me disseste a razão de teres vindo cá tão de repente… Passou-se alguma coisa?

A Sara suspirou profundamente, enquanto os seus olhos evitavam os meus.

- É preciso saberes tudo para entenderes o que se passa agora… E eu não contei isto a praticamente ninguém.

- Estou aqui para te ouvir, Sara. Podes demorar o tempo que for preciso.

Nos próximos momentos, eu apenas me mantinha em silêncio, ouvindo com atenção o que ela tinha para me dizer. Não me vinha nenhuma frase à cabeça com a qual pudesse reagir àquilo que ela me estava a contar. Era triste, era horrível, era algo demasiado pesado. Quanto mais a história avançava, mais eu me sentia desconfortável por dentro, tentando pôr-me no seu lugar. Mal podia acreditar que durante tantos anos, o seu próprio irmão lhe tenha feito coisas tão horríveis, ao ponto de a traumatizar àquele nível. Violar a própria irmã? Era algo tão mau, que quase não me parecia real...

- E… — continuou ela, com a voz a tremer — Quando os meus pais finalmente entenderam a minha situação, ao invés de o denunciarem à polícia, decidiram apenas expulsá-lo de casa.

- Ele foi para a rua?

- Não. Foi acolhido pelos padrinhos.

- Eu até consigo entender porque é que não quiseram denunciá-lo, visto que é um filho, mas… Não é justo tu passares por algo assim e ele não ser repreendido, como qualquer criminoso, porque apenas mandá-lo embora para os padrinhos, não é o que o vai fazer mudar…

- Nem imaginas o quanto tens razão… — murmurou ela.

- Como assim? — questionei preocupada, notando o tremor nas suas mãos.

- Bem...

A Sara respirava fundo, com as mãos que tremiam ligeiramente. Eu reparava que ela se estava a preparar para me contar algo muito importante, então não queria apressá-la. De certeza que já era preciso muita coragem para me contar aquela parte do seu passado, então não queria insistir com ela. No entanto, antes que a Sara pudesse continuar, recebi uma chamada. Como não era costume o Yusuke ligar-me do absoluto nada, deduzi que fosse importante. Pedindo desculpas à Sara e um pequeno instante, atendi.

- Akaluri, tens falado com a Ichigo?

- Não... Porquê?

- Ela já devia ter voltado da sua cidade natal. Estou há quase duas horas na estação de comboios, à espera dela. A Ichigo não estava no comboio que disse que vinha. Já mandei mensagens a perguntar se se passava algo, mas ela não me responde.

- Achas que aconteceu alguma coisa?

- Não tenho a certeza, mas… Não é normal isto acontecer.

- Há algo que eu possa fazer para ajudar?

- Não sei… Só se me quiseres acompanhar àquela cidade. Não posso ir com a Honoka, porque alguém tem que estar em casa, caso a Ichigo apareça.

- Está bem. Vou contigo.

- Obrigado... Vou comprar os bilhetes para o próximo comboio, que é daqui a uma hora e meia.

- Achas que vamos ter tempo de ir, encontrá-la e voltar com ela no mesmo dia?

- Provavelmente, teremos que dormir lá… Mas não sei onde. Eu vou rápido a casa buscar sacos-cama e volto.

- Ok… Eu levo comida. Até logo.

O Yusuke desligou e eu pousei o telemóvel, voltando a concentrar-me no que restava do almoço.

- Passa-se alguma coisa? — perguntou a Sara.

- Sim… a Ichigo desapareceu.

- Ichigo? Quem é?

Eu gostava muito da Sara e confiava nela, mas não sabia se devia contar-lhe que a Ichigo era a Hyuna. O segredo tinha-me sido confiado; então, decidi ser vaga.

- É uma amiga… Ela foi à sua terra natal visitar a mãe no ano novo e desde então nunca mais voltou nem disse nada a ninguém. O Yusuke foi esperá-la à estação, mas a Ichigo não estava no comboio e não temos tido notícias dela.

- Isso parece grave… O que vais fazer?

- Tenho que ir lá com o Yu, procurá-la.

- Yu?

- O Yusuke... mas eu não te quero deixar aqui sozinha. Posso chamar a Naomi, para vir cá passar a noite contigo? Temo que só devo voltar amanhã…

A Sara hesitou por um pequeno momento, antes de acenar com a cabeça.

- Está bem. Eu entendo que seja algo urgente...

- Obrigada e desculpa, a sério... — eu abracei a Sara — Eu adoro-te.

- Não faz mal. E eu também te adoro. — ela sorriu ligeiramente — Boa sorte!

Perturbava-me não saber a continuação da sua história, mas depois da chamada do Yusuke, só conseguia pensar nos sarilhos que a Hyuna se podia ter metido na sua terra natal. Ela podia mesmo estar em grande perigo... Acabei o almoço rapidamente e subi as escadas, levando comigo os restos do esparguete e alguns petiscos. Assim que entrei no meu quarto, mudei rapidamente de roupa e preparei a minha mochila com dinheiro, a tal comida, e também um kit de primeiros socorros. Liguei então para a Naomi, explicando que era importante ela dormir em minha casa, mesmo sem lhe poder dizer qual era a verdadeira razão. Ela concordou e seguiu caminho quase de imediato, embora achasse um pouco estranho. Depois de me despedir das duas, fiz o meu caminho até à estação de comboios, onde me encontrei com o Yusuke.

- Olá! — ele deu-me um breve abraço, o que foi suficiente para me fazer sentir um pouco mais tranquila — O comboio vai partir daqui a dez minutos. Vamos entrar?

- Sim, vamos.

Sentámo-nos lado a lado, o comboio já a preparar-se para a partida.

- Já alguma vez andaste de comboio? — perguntou ele, tentando descontrair um pouco.

- Algumas vezes, desde que entrei para o secundário; mas nunca em viagens muito longas… E tu?

- Eu costumo ir mais de autocarro, mas prefiro o comboio.

- Quanto tempo dura esta viagem? — questionei.

- Três horas e meia.

- Oh… isso ainda é um pedaço. Quanto te devo pelo meu bilhete?

- Não me deves nada, deixa estar. E sim, é longa a viagem, mas estamos a fazê-lo pela Ichigo...

- Espero que não tenha acontecido nada de grave.

- Mesmo se tiver acontecido, vamos conseguir ajudá-la.

A confiança na voz do Yu fazia-me sentir um pouco menos ansiosa. Eu admirava imenso a estima que ele tinha pelas pessoas que lhe eram próximas. Por vezes, chegava a perguntar-me se ele também me daria essa mesma estima a mim. Seria eu alguém tão importante para ele, assim como ele era importante para mim? Poderia eu considerar-me como uma amiga próxima ao Yu, assim como a Ichigo ou até mesmo a Honoka? Mesmo que uma parte de mim pensasse que sim, outra ainda tinha certas dúvidas. Como ele era alguém gentil com toda a gente, era um pouco complicado saber quem se encontrava nas suas prioridades. Durante alguns minutos, onde ambos passamos perdidos nos nossos pensamentos, acabamos por não ter mais conversa até o comboio começar a andar. Aí, eu decidi falar sobre o assunto que pensei.

- Yu… Consideras-me uma pessoa próxima a ti?

- Claro. – ele sorriu, virando-se para mim — Desde o dia que nos conhecemos, sempre achei seres alguém muito interessante. Normalmente, demoro muito mais a abrir-me para as pessoas, mas contigo foi diferente; nunca senti que foi um esforço. Em pouco tempo, acabaste por te tornar uma das pessoas mais importantes que conheço, para te dizer a verdade.

- Achava que era a única que pensava dessa forma…

- Porque pensavas isso?

- Bem… Tu és muito gentil com toda a gente e fazes muito pela Ichigo e pela Honoka. Então, é um pouco difícil saber quem tem um lugar especial no teu coração... Comparada a elas, eu sentia-me distante em relação a ti e marginalmente menos importante, quase como se não fizesse diferença para ti eu estar lá ou não…

- Não sabia que era assim tão importante para ti seres alguém especial para mim…

As palavras dele deixaram-me sem resposta. Era a primeira vez que falava com alguém sobre este tipo de sentimento, e parecia-me estranho dar tanta importância à ideia de ser especial para alguém. Normalmente, não me questionava tanto àquele ponto.

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[Sara P.O.V]

Era muito estranho estar na casa da Akaluri sem a sua presença. Pelo menos não estava sozinha, mas por estar lá a Naomi, sentia-me na mesma muito nervosa.

- Então, que filme queres ver? Temos que escolher as duas! Não quero escolher algo que não gostes…

- Eu não gosto de filmes de terror.

- A sério?! Mas era exatamente o que ia sugerir! – ela riu – Gosto muito de filmes de terror. Não pareces o género de pessoa que não gosta, pelo contrário!

- Porque dizes isso?

- Tens uma aura misteriosa; cabelo azul-escuro que cobre um olho… E uns lindos olhos dourados. Devias mostrá-los mais, já agora! — A Naomi desviou o cabelo que tapava o meu olho esquerdo. – Acho que ficavas ainda mais linda com um pequeno gancho!

- Achas?

A Naomi estar sentada tão próxima a mim, a mexer no meu cabelo, dava-me a sensação que o meu coração me iria saltar pela boca a qualquer momento. Eu sentia as palmas das minhas mãos começarem a suar ligeiramente, enquanto corava.

- Queres experimentar colocar um e veres-te ao espelho?

- Pode ser… Mas onde íamos arranjar um?

Ela retirou um dos seus dois travessões rosa que usava, afastou a minha franja e prendeu-a com ele. Levou-me então até à casa de banho mais próxima, colocando-me em frente ao espelho.

- Vês? – ela sorriu – Estás muito bonita!

O reflexo que me olhava de volta no espelho, era uma Sara ligeiramente diferente da habitual. Sentia-me estranha com o travessão cor-de-rosa, mas não achava que me ficasse mal. Um pouco embaraçada, retirei o gancho e devolvi-o à Naomi.

- Já está a ficar tarde… — comentei – Acho que devíamos ir dormir.

- Tens razão. Também tenho muito sono.

Fomos então para o quarto da Akaluri, onde ela nos tinha dito para dormir. Assim que chegamos, fiquei parada ao pé da porta, sem saber muito bem o que fazer.

- Seria desconfortável para ti se eu mudasse de roupa aqui?

A sua pergunta deixou-me sem resposta. Já estava habituada a ver as raparigas trocarem de roupa no balneário da escola, incluindo a Naomi, e isso nunca me tinha incomodado, mas toda aquela situação era diferente... por estarmos sozinhas, num quarto, a meio da noite. Seria estranho de repente mandá-la ir mudar de roupa na casa de banho, sobretudo porque já a vira sem roupa diversas vezes antes, no balneário... mas, se ela alguma vez soubesse os meus sentimentos por ela, não iria a Naomi olhar para trás naquela situação e pensar que me estava a aproveitar para a ver despida...? Sem que antes lhe pudesse responder, ela apenas começou a tirar a roupa devagar. Enquanto isso, peguei na minha escova de dentes, tentando não olhar diretamente para ela. Felizmente, eu já estava de pijama. Depois de lavarmos os dentes, deitamo-nos na cama, puxando os cobertores ao mesmo tempo. Aí, a Naomi desligou a luz, desejando-me boa noite. Demorei muito tempo a adormecer, por não conseguir tirar várias coisas da minha cabeça, mas poder olhar para ela dormindo calmamente, ajudava-me também a sentir-me mais confortável.

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[Akaluri P.O.V.]

Apesar de poder ser perigoso, decidi que seria melhor contar ao Yu tudo o que sabia sobre a Hyuna. Isso incluía o seu presente e o seu passado. Pensei que, se lhe contasse tudo, poderia ser útil para conseguirmos ajudá-la. De certeza que a Ichigo não levaria a mal. Graças a isso, ele descobriu várias coisas pelo que eu lhe disse, fazendo-me descobrir a mim também outras. Ele confessou que estava um pouco nervoso ao convidar-me para ir com ele, caso eu não soubesse sobre a outra identidade da Ichigo. No entanto, falar sobre o assunto pareceu aliviar uma certa tensão entre nós, permitindo-nos trabalhar em conjunto de forma mais eficaz.

Durante a viagem, aproveitamos para petiscar um pouco e íamos igualmente reunindo pistas, tais como o nome da vila em que ela morava, a descrição da sua casa e o seu antigo apelido. Assim que chegamos, começamos a andar pelas ruas daquela pequena vila, lendo os nomes de todas as caixas de correio das casas germinadas. Entretanto, já se tinha passado bastante tempo. Continuamos a nossa procura quando finalmente me dirigi até ao portão de uma casa germinada, que ficava ao pé de uma rua ingreme. Lá, debrucei-me sobre a caixa de correio e li os nomes.

- "Taíssa Harmon e Violet Harmon". Yu! É esta casa!

- Finalmente… — respondeu ele, aliviado.

- A mãe dela não tirou o nome da filha, mesmo depois de quase três anos…

- Talvez ela ainda tenha esperança... E com razão.

- Porque é que… — disse eu, olhando para o chão — O chão… Porque é que está cheio de sal?

- Sal? Tens a certeza, Akaluri?

- Bem, pelo menos parece muito.

- Se calhar é uma armadilha. Há gerações que o sal é utilizado para afastar seres demoníacos. E como a Ichigo é a Hyuna…

- Isso funciona?

- Acho que sim. Pensas que ela está dentro de casa?

- Pelo que eu sei, ela disse-me que não queria estar mesmo fisicamente com a mãe, porque tem medo que ela descubra tudo. Deduzo que ela só a venha visitar para poder matar saudades, observando-a discretamente à distância.

- Pois, faz sentido… O que achas que devíamos fazer então?

- Não sei bem, Yu… Achas que, se nos transformássemos, poderia ajudar em alguma coisa?

- Talvez, mas e se alguém nos vir?

- Quase ninguém passa por aqui... E eu tenho visão noturna quando me transformo, então isso poderia ser útil. Não tens algo que também te possa ajudar quando estás transformado?

- Bem… Como sou um ser que pode utilizar magia, consigo também detetar quando ela está a ser utilizada por perto, se eu me concentrar.

- Isso seria uma ótima ajuda! Talvez consigas dar uma direção na qual ela possa estar!

- Mas não temos a certeza se ela está a usar magia agora ou se há alguns restos por aí, pelo menos.

- É mais provável que sim, especialmente se ela estiver em sarilhos... Mais vale tentar, pelo menos.

O Yusuke concordou, e ambos nos transformamos. No meio do silêncio, ele fechou os olhos e um grande círculo azul brilhante apareceu magicamente no chão, à volta dos seus pés. Ele estava a tentar detetar o uso de magia. Para não o desconcentrar, apenas observava, enquanto esperava que ele dissesse alguma coisa primeiro.

- Já está.

- Encontraste alguma coisa, Yu?

- Sim… No entanto, é uma energia muito fraca.

- Isso significa que ela está longe?

- Não sei… Pode significar que ela está longe ou que ela está enfraquecida. De qualquer das formas, vem desta direção.

O Yu apontou para uma rua e uma pequena bússola mágica levitava ligeiramente por cima da sua mão, a seta apontando para a origem da magia detetada. Depois de andarmos discretamente durante uns poucos minutos com os olhos bem abertos, a bússola desapareceu. Tínhamos acabado de chegar a um típico armazém abandonado.

- Nada clichê, sem dúvida. — comentei, ironicamente.

O Yusuke riu disfarçadamente, concordando comigo. Na verdade, era um pouco impróprio rirmos naquela situação, mas talvez tivesse sido do nervosismo. Com o ambiente das coisas, as nossas suspeitas estavam cada vez mais a ser confirmadas. Tínhamos a certeza que algo bem estranho e possivelmente perigoso se passava com a Hyuna. Explorando silenciosamente pelo armazém, eu e o Yusuke cruzamos olhares quando ouvimos um estranho barulho. Pareciam passos.

- Ouviste? — sussurrou ele — De onde achas que vem o som?

Eu olhei em todas as direções, movendo igualmente as minhas orelhas de gato, procurando a origem.

- Parece vir da direita, talvez do outro lado desta porta.

Fui em direção à porta mais próxima, abrindo-a o mais silenciosamente que conseguia. O barulho dos passos parecia afastar-se cada vez mais, como um som que descia.

- Deve estar a descer as escadas… — sussurrou o Yusuke – Vamos seguir esta pessoa. Talvez seja a Ichigo ou, pelo menos, poderá levar-nos até ela.

Destransformámo-nos para não sermos descobertos, seguindo a tal pessoa pelas escadas. Finalmente, chegámos a uma porta. Aí, espreitamos escondidos, para tentar identificar a pessoa, enquanto ela abria a porta com uma chave. Era complicado definir um género, pois a pessoa estava com gorro e máscara, completamente vestida de preto da cabeça aos pés.

- Quem achas que é? – perguntei, sussurrando.

- Não faço ideia…

Assim que a pessoa entrou na sala, aproximámo-nos com cuidado. Lá dentro, vimos a Hyuna, que fez contacto visual comigo, por breves segundos.

- Não se aproximem! – ouvi a sua voz ecoar telepaticamente – Escondam-se, já!