Repentinamente, senti a mão do Yusuke segurar na minha, puxando-me com rapidez para trás de um alto armário no canto da sala. Como o armário era estreito, acabamos por ficar extremamente próximos um ao outro, o que não só dificultava o nosso esconderijo, mas também acabava por me deixar um pouco tensa. A minha respiração ficou presa na garganta por uns instantes, enquanto tentava ajustar-me à situação. Com o silêncio na sala, as minhas orelhas de gato conseguiam até escutar o seu alento abafado e a sua pulsação ligeiramente acelerada, enquanto ele ainda segurava a minha mão, com uma certa firmeza. Tentava acalmar-me, concentrando-me em respirar silenciosamente, mas, estando tão perto do pescoço do Yusuke, não conseguia evitar sentir-me nervosa, sobretudo ao notar os pequenos cabelos da sua nuca se mexerem ligeiramente, cada vez que eu expirava.

- Tenho um plano. — ouvi a Hyuna comunicar, telepaticamente.

Inclinei-me ligeiramente para espreitar por cima do ombro do Yu, ainda ciente do quão próximos estávamos. Estando completamente encostada a ele, sentia um leve cheiro a maçã verde e menta, vindo do seu cabelo negro, ligeiramente despenteado. Lá à frente, a Hyuna estava no chão, presa a um canto da sala. Os seus pulsos estavam presos à parede e os seus tornozelos ao chão, com correntes. Ela estava coberta de sal, da cabeça aos pés. Um arrepio percorreu-me a espinha quando vi quem se ajoelhava à sua frente, tirando o gorro e a máscara: era o Hideki.

- Então… — falou ele — Já mudaste de ideias? Está na hora de uma nova dose de sal.

- Quanto tempo mais planeias continuar isto?

- Até ter uma confissão tua; ou talvez mais algum tempo até… Estou a gostar demasiado de te ver assim, tão fraca e vulnerável. Já não me consegues impedir de fazer o que quiser contigo.

- Tens a certeza? — a Hyuna passava levemente a extremidade da sua cauda pelo pescoço do Hideki — Não queres tentar e verificar? Hm?

- H-huh?! O que estás a fazer?! — a voz dele expressava surpresa, e um desejo mal disfarçado.

A situação estava a ficar desconfortavelmente íntima. Hyuna estava a usar a sua cauda de forma provocante, e eu senti um nó no estômago, ao observar a forma tão calculista e insensível, como ela manipulava as emoções do Hideki.

- Nunca pensaste em fazer nada comigo, especialmente agora…? — enquanto ela separava ligeiramente as suas pernas, o toque da sua cauda ia descendo pelo corpo do Hideki, até chegar à zona onde se situavam as suas partes íntimas — Não sentes nada...?

O rapaz estava claramente nervoso e embaraçado. A proximidade entre eles era perturbadora. A sua respiração estava a tornar-se um pouco mais pesada e a sua testa começava a suar ligeiramente. A forma como a Hyuna o estava a controlar, deixava-me confusa e enjoada. Estaria ela a gostar daquilo? O que estava realmente ali a acontecer? Quase não parecia a mesma Hyuna que eu conhecia...

- O que estás a sugerir!? — gritou ele, tentando esconder a sua crescente excitação, apesar da sua voz o denunciar — Não estou aqui para brincar, Violet.

A Hyuna enrolou a sua cauda à volta do tronco do Hideki, puxando-o ainda mais próximo a ela. Eles estavam tão perto um do outro, que quase se tocavam com as pontas do nariz. Aquilo não me parecia correto, em nenhum nível. Eles não se odiavam?

- O teu tom parece sério, mas o teu corpo diz outra coisa. — a voz da Hyuna tinha um tom estranhamente suave, quase hipnótico — O Shinji achava que tinhas sentimentos por mim. Foi por isso que ele te contou que sou um demónio? Para te afastar? Não acho que ele tenha sido sempre o melhor dos amigos para ti… Não concordas?

O Hideki engoliu em seco, sentindo a ponta da língua da Hyuna subir lentamente pelo seu pescoço.

- Não sei o que estás a fazer, mas não é com mentiras que te vais safar. És nojenta. — disse ele, mas as palavras eram fracas e sem convicção.

Ele tentou afastar-se, só para ser novamente puxado de volta pela Hyuna, envolvendo-o num beijo intenso. Ele não rejeitou o beijo, muito pelo contrário. Eu não fazia ideia do que estava a acontecer e, honestamente, sentia um pouco de medo do que poderia acontecer depois.

- Ainda pensas que estou a fingir? — perguntou ela, ainda no mesmo tom sedutor.

Ele não lhe respondeu, sendo ao mesmo tempo libertado da cauda da Hyuna. Ele saiu da sala apressadamente, deixando-me e ao Yusuke livres para sair do nosso esconderijo.

- O que foi tudo isto?! — sussurrei para a Hyuna, chocada e confusa.

- O meu plano era fazê-lo sair. O sal que ele vai buscar para mim é já aqui ao lado, mas duvido que ele tenha qualquer tipo de contracetivo à mão, por isso vai demorar algum tempo até que ele volte. Usei o pouco de magia que me restava para intensificar os seus sentidos e os seus desejos, e ele não resistiu.

- Mas tinhas mesmo que o beijar? — perguntei, ainda tentando compreender a situação.

- Ele não estava a acreditar em mim até o ter feito. Não posso controlar o que as pessoas pensam ou sentem na sua origem, mas apenas manipular os seus sentidos e intensificar pensamentos e emoções que já existam nelas. Se isto me pode salvar de tortura ou morte, então vale a pena. De qualquer das formas, não é como se isto tivesse significado alguma coisa.

O Yusuke ajoelhou-se frente a ela, tentando desprendê-la daquelas correntes, mas não conseguia.

- Precisas de uma chave. — afirmou a Hyuna — O Hideki costuma andar com ela no casaco.

Sem poder libertá-la, o Yu passava a mão pelos braços da Hyuna, tentando tirar todo o sal que conseguia.

- É verdade que o sal te magoa? — perguntei.

- Sal puro, por cima de mim, reduz muito os meus poderes e capacidades, podendo mesmo até eliminá-los completamente, se a quantidade for extremamente grande. No entanto, círculos de sal no chão, por exemplo, são só uma treta… Posso claramente passar por cima deles.

- Como é que vieste aqui parar? — perguntou o Yu.

- Algum tempo antes de ser meia-noite, eu transformei-me para ir até à casa da minha mãe. Quando lá cheguei, sentei-me no ramo da mesma árvore onde me costumo sentar todos os anos, para observar a minha mãe de lá. Essa árvore fica mesmo ao pé do portão de entrada, dando vista para a grande janela da sala, onde ela costuma passar o ano novo. Mas, de repente, notei que o meu pé estava preso numa corda. Assim que tirei a corda do pé, um enorme saco aberto caiu na minha cabeça, cobrindo-me de sal. Com isso, perdi as minhas forças e caí no chão… Quando acordei, já estava assim, aqui presa.

Enquanto o Yu continuava a limpar o máximo de sal que conseguia de cima da Hyuna, eu ficava de vigia. O tempo parecia arrastar-se, até que comecei a ouvir passos ao longe.

- Ele está a voltar! — avisei.

- Escondam-se, rápido! — mandou a Hyuna.

O Yusuke correu para o esconderijo, mas antes que eu conseguisse reagir, senti alguém agarrar-me por trás, prendendo-me os braços agressivamente. Algo fino e afiado tocava no meu pescoço. O Yu, escondido, olhou para mim com horror.

- Chamaste uma amiguinha para te vir salvar? — perguntou o Hideki, com uma voz fria — Eu sabia que era tudo um plano.

De repente, com uma expressão de fúria contida, o Yusuke saiu do esconderijo, transformando-se.

- Correção: ela chamou duas amiguinhas. — falou ele — Larga a faca.

- Obriga-me. — desafiou o Hideki, apertando mais a lâmina contra o meu pescoço — Se fosse a ti eu não tentava fazer nada, passarinho. O tempo que demorares a fazer alguma coisa, a faca já terá rasgado o pescoço desta albina.

O Yusuke cerrou os punhos e bateu as suas asas com força, criando uma pequena, mas forte, corrente de vento para tentar intimidar o Hideki. Antes que acontecesse alguma coisa, a Hyuna falou:

- Eu não chamei ninguém. Explica-me como é que eu podia fazer isso acorrentada e sem sequer saber onde estou. Tu trouxeste-me para aqui inconsciente, palerma.

- Não sei. Talvez tenhas feito algo com as tuas bruxarias. Nada me diz que não me estás a mentir agora mesmo, tal como me mentiste há pouco sobre quereres f*der comigo.

- Se tinhas tanta certeza que eu estava a mentir, o que é isso que está a cair do bolso das tuas calças?

O Hideki olhou para os bolsos fronteiros das suas calças enquanto colocou uma mão num dos bolsos de trás. Sem se aperceber, ele acabou por me desprender os braços. Aproveitei a oportunidade para afastar a sua outra mão do meu pescoço e lhe fazer uma rasteira, que o pôs no chão. Assim que ele caiu, eu transformei-me e peguei na faca, sentando-me rapidamente em cima das suas pernas, enquanto lhe prendia os pulsos com as mãos. O Yusuke entendeu a deixa e agiu rapidamente, roubando as chaves do casaco de Hideki e libertando Hyuna de seguida.

- Preciso mesmo de um duche. — disse ela, levantando-se com dificuldade enquanto se sacudia do sal — Akaluri, Yusuke, agradeço a vossa ajuda, mas preciso que saiam agora.

A voz dela estava carregava uma determinação aterradora. Ainda de faca na mão, recuei, juntamente com o Yusuke. A Hyuna estalou os pulsos e o pescoço, colocando-se a seguir ao pé do Hideki. Ela enrolou a cauda à volta do seu pescoço, levantando-o do chão.

- Vio….let….

- É Hyuna, otário. — disse ela, apertando cada vez mais o pescoço dele com a sua cauda — Eu avisei-te para não te meteres mais comigo.

Enquanto lutava para conseguir respirar, o Hideki tentava desesperadamente libertar-se do aperto da cauda da Hyuna e os seus olhos imploravam por misericórdia.

- PARA! — gritei.

- Eu disse para saírem daqui! — exclamou a Hyuna, com uma voz pesada de raiva e de dor acumulada.

- Hyuna, não faças isso… — implorei — Nós já falámos sobre isto.

- Eu já o avisei. vezes sem conta. Mas ele volta sempre, cada vez pior. Não posso deixá-lo continuar.

- Talvez desta vez ele entenda. — sugeriu o Yu, tentando acalmar a situação.

- Não o faças, Hyuna… — insisti — Tu és melhor do que isto.

A ranger os dentes da raiva contida, a Hyuna respirou fundo, cerrando os pulsos com força. Lentamente, ela pousou o rapaz no chão, enquanto o desprendia da sua cauda. Assim que o Hideki voltou a respirar, ele começou a tossir bastante.

- És uma cobarde… — murmurou ele.

Fora o suficiente para a fúria da Hyuna explodir de vez. Os seus cabelos começaram lentamente a levantar-se, enquanto ela levitava. Intensos raios de luz violeta, cada vez maiores, multiplicavam-se nas suas mãos. De imediato, o Yusuke colocou-se à minha frente, abraçando-me com força e fechando as suas asas por cima de mim. A quente temperatura das minhas mãos pousadas no seu peito, fazia contraste com o frio da sua pele macia. Uma fina e translúcida esfera azul envolveu-nos de seguida, criada pela sua magia protetora. Eu ainda não entendia bem quais eram realmente os seus poderes, mas percebia o que ele estava a tentar fazer. No entanto, mesmo sem poder ver nada, eu ainda conseguia ouvir os gritos de agonia do Hideki, juntamente com o barulho dos raios que o atingiam. Imaginando o que se devia estar a passar naquela sala, eu não conseguia deixar de me sentir apavorada. O meu coração batia cada vez mais depressa, enquanto os meus membros tremiam e os meus olhos se enchiam de lágrimas. Senti o Yusuke apertar-me ainda mais, tentando oferecer-me algum conforto, no meio de todo aquele caos. Mas como se sentiria ele, com o que estava a acontecer?

___________________________________

Já fazia algum tempo que caminhávamos em silêncio pela rua, cada um perdido nos seus próprios pensamentos. Enquanto isso, o Yu colocou um braço por trás das minhas costas, pousando assim a mão no meu ombro. Ele fez-me um olhar ligeiramente entristecido, para me fazer entender que também não gostava da situação. Estávamos a ir em direção ao campismo onde estava alojada a Hyuna. Assim que chegamos, montámos os sacos-cama em silêncio, cada um mergulhado nas suas próprias reflexões. Fomos os três então tomar um duche rápido, trocando depois de roupa, para uma mais confortável. Quando voltamos para a tenda, cada um se deitou.

- Boa noite. — disse a Hyuna.

- Boa noite. — respondi, em coro com o Yu.

Durante uns minutos, que mais pareceram uma eternidade, eu virava-me de um lado para o outro de olhos fechados, sem conseguir dormir. Era quase impossível processar corretamente tudo o que tinha acontecido naqueles últimos dias, especialmente naquela noite. No momento em que estava pronta a desistir de me forçar a adormecer, eu abri os olhos. Reparei que o Yusuke estava sentado por cima do seu saco-cama, esfregando a testa com um ar de desconforto.

- Yu? — sussurrei — Sentes-te bem?

- Não... Dói-me só um pouco a cabeça, mas não é nada… É melhor dormires Akaluri, tu precisas.

- Eu também não estou a conseguir dormir… Queres ir lá fora comigo, apanhar um pouco de ar?

O Yusuke levantou-se, estendendo a seguir a sua mão para me ajudar a levantar também. Saímos os dois para fora da grande tenda, e ficamos a olhar em volta, à procura de um sítio para nos sentarmos.

- Está frio cá fora. — comentou ele, passando as mãos nos seus braços — Tens algum casaco para vestires?

- Vou ver na minha mochila. — respondi, voltando para dentro da tenda.

- Traz também a minha manta, se não te importares.

Assim que entrei na tenda, reparei que o meu telemóvel tinha acabado de vibrar. Era muito estranho alguém me estar a mandar mensagens àquela hora da noite, então fui logo ver. Era uma mensagem do Hikari: "Olá Akaluri. Eu sei que é um pouco tarde, mas gostava de falar contigo". Senti uma pontada de preocupação e liguei-lhe de imediato.

- Akaluri? — perguntou ele, ao atender — Pensei que me ias responder por mensagem.

- Está tudo bem? — sussurrei, tentando não acordar a Hyuna — O que se passa?

- Sim, está tudo bem. Não se passa nada, apenas gostava de te contar umas coisas, visto que não temos falado... — ele hesitou durante uns segundos — Desculpa. Eu sei que te esforças para manteres contacto comigo, mas eu apenas… Eu não me sinto da mesma forma que antes em relação a passar tempo com amigos. E isso está a acontecer com toda a gente ao mesmo tempo, não apenas contigo. Não quero que penses que isto significa que eu não gosto mais de ti, porque gosto muito.

- Eu também gosto muito de ti, mas... desde que estás apaixonado por alguém, tu apenas…

- Não é isso! — negou ele — Já faz algum tempo que eu e ele começamos a namorar, não foi agora. Eu apenas não me lembrei de te dizer. Estava a tentar arranjar uma solução há imenso tempo, mas é claro que não iria ficar cá apenas por uma amiga...

- Oh… — falei, sentindo-me como se acabara de ser esfaqueada pelas suas palavras, embora soubesse que ele tinha uma certa razão.

- Eu tenho andado mesmo ocupado nestas últimas semanas; nem imaginas... Tem-se passado muita coisa. É por isso que eu quase não tenho vindo falar por mensagens e nem sequer tenho estado contigo.

- Comigo também se tem passado imensas coisas, mas arranjava sempre um tempo para tentar falar. Não és apenas um amigo qualquer para mim, mas... o que querias falar comigo?

- Eu tenho andado ocupado porque decidi procurar um novo trabalho, no qual receba realmente um salário, mesmo que, por enquanto possa apenas fazer part-time. O pouco que recebo no café não me ajuda a pagar o que preciso para ter uma vida independente, no apartamento do Ren. Tal como vocês, eu ajudei durante uns meses, mas a este ponto já não são precisos todos os voluntários que lá estão, por isso decidi retirar-me. Assim, com a minha saída, há também menos uma pessoa com a qual partilhar o dinheiro.

- Então se já sabes que não vais trabalhar mais lá, é porque já arranjaste outro emprego? Isso significa que já não nos vamos ver mais no café... — falei, suspirando — Bem, pelo menos sempre temos a escola!

- Quanto a isso… Eu já tratei também dos papéis para me transferir para outra secundária. Tem outra escola mesmo entre o trabalho e o apartamento, a mesma onde estuda o Ren e uma amiga que conheci como cliente no café.

- Nova amiga, novo trabalho, nova vida… Vejo que tudo te tem andado a correr bem... Tens tido bastante sorte…

- Pode dizer-se que sim. No entanto, a forma que o dizes faz-me pensar que não estás assim tão contente por mim…

- É claro que estou, mas, ao mesmo tempo… Deixa-me triste que todas essas coisas novas te estejam a afastar de mim.

- Akaluri… Não é só isso. A minha saúde também não tem andado muito boa. Eu desmaiei no outro dia, por exemplo… Eu não quero andar a depender das pessoas, nem a deixá-las mal por coisas minhas.

- E não me dizes nada? Tu sabes que me preocupo e que gostava de te ajudar… Mas nunca me dás oportunidade!

- Eu sei, mas… É complicado. Só gostava de poder voltar para o que éramos antes, mas custa-me bastante agora... Calculo que tudo isto te tenha magoado bastante, Akaluri. Peço desculpa.

- Não precisas de te desculpar… — eu suspirei, sentindo que o estava novamente a perder.

- Para ser sincero, acho que és das únicas pessoas que ainda querem saber de mim realmente, mas eu às vezes não sei como agir contigo porque me sinto culpado por me estar a afastar, quando na realidade não o queria... Mas eu só faço isso porque fico desmotivado, a pensar que sou "podre" e desinteressante para todos. Consegues entender isso?

- Eu percebo, mas não gosto que penses assim sobre ti. Mesmo que não o sintas, tu és alguém especial para mim e estou agradecida por tudo de bom que passamos... Quero que saibas que eu acredito que és forte e que vais conseguir ultrapassar esses pensamentos. Sei que não posso fazer muito para ajudar, mas eu tento... Foi por isso que eu continuei a falar sempre bem contigo, mesmo estando profundamente triste com tudo isto. E também porque me partia o coração se eu não tentasse nada e apenas te deixasse ir embora.

- Obrigado. Eu não sei o que dizer… Também gosto muito de ti, mas preciso mesmo de desligar agora, infelizmente. Por favor, fica bem, Akaluri. Até à próxima.

- Fica bem, também… Adeus, Hikari.

Desliguei a chamada com uma sensação de vazio. Fiquei então parada uns segundos, com uma forte sensação que aquela seria a nossa última conversa. Apesar dele ter dito "até à próxima", tudo me indicava que não iria haver uma próxima vez.

- Passa-se algo? — ouvi telepaticamente.

Eu não queria responder à Hyuna. Era muito raro alguém conseguir deixar-me naquele estado, porém não era a primeira vez que ela o fazia. Ela já tinha tido inúmeras chances de provar que o seu comportamento havia melhorado depois da conversa que havíamos tido, quando revelou a sua identidade, mas não me convencera. Não me queria continuar a envolver com alguém homicida. Assim sendo, engoli em seco e cerrei os pulsos, começando então a procurar um casaco na minha mochila, enquanto ignorava a Hyuna.

- Eu sei que me estás a ouvir, Akaluri. Não preciso que me respondas. Apenas te quero dizer que entendo que estejas zangada. Não tens nenhuma obrigação de continuar a manter uma relação comigo, se te opões completamente à forma que penso ou ajo. Eu sei que é horrível, mas, para mim, não havia outra solução.

Não havia nada que ela pudesse dizer que me fizesse sentir vontade de falar com ela naquele momento, então apenas saí da tenda com a manta e um casaco. Quando cheguei lá fora, entreguei a tal manta vermelha ao Yu e vesti o meu casaco fino.

- Vamos sentar-nos um pouco… — disse ele — Tem ali um pequeno degrau de pedra, ao pé da árvore.

Depois de nos sentarmos, nenhum de nós sabia muito bem o que dizer. Eu ainda estava muito perturbada com tudo o que se havia passado recentemente... O Ichiro tinha perdido um olho, havia conhecido uma Manaka completamente alterada, o Ryuu tinha-me beijado completamente bêbedo e declarado os seus sentimentos por mim... Já para não comentar sobre o facto de algo me ter dado a sensação que a Honoka sentia desdém de mim, que a Sara me revelou sobre o abuso que sofrera e sobre os seus sentimentos pela Naomi, que havia perdido definitivamente o Hikari, e toda a recente situação com a Hyuna e a morte do Hideki. Não faltavam coisas na minha cabeça para pensar e repensar, por mais que me quisesse livrar de todo aquele peso, de uma vez por todas. Era extremamente frustrante que tudo à minha volta estava a acontecer sem que eu pudesse sequer ter algum controlo, por mais que afetasse a minha vida. E era quase impossível para mim acreditar que maioria daqueles acontecimentos se haviam passado em menos de quarenta e oito horas. Queria tanto voltar à vida mais pacífica que tinha anteriormente… Seria tudo apenas um enorme pesadelo? Parte de mim só esperava que fosse.

- Passa-se algo, Akaluri?

Eu não queria preocupar o Yu com os meus problemas, então apenas neguei, fazendo um gesto com a cabeça. Ele não quis insistir com a pergunta, mas ao mesmo tempo, não desistiu de tentar confortar-me. Ele sentou-se mais próximo a mim, partilhando comigo a sua manta.

- Devias guardar a manta só para ti, eu estou a vestir um casaco…

- Mas esse casaco é tão fino, é melhor te cobrires um pouco com a manta também. De qualquer das formas, o meu pijama é mais quente do que o teu. E é mais importante te aqueceres tu, porque eu posso regenerar-me, se me constipar; tu não consegues fazê-lo.

- E não o farias por mim também? — perguntei, com tom de brincadeira.

- Claro que o faria, mas não consigo garantir isso sabendo que não estou sempre contigo... Se mais tarde estiveres sozinha e constipada, não te vou poder ajudar!

- Nem se eu te chamasse? — continuei a questionar, brincando com ele.

- Vá, está caladinha e aquece-te direito. — respondeu o Yusuke, rindo.

- Falando nisso... Sempre quis perguntar-te uma coisa.

- O quê? — questionou o Yu.

- Quais são os teus poderes, exatamente?

- Para ser honesto, nem eu os entendo muito bem… Ninguém me explicou nada sobre a minha magia, como deves conseguir deduzir pelo meu passado. Apenas, com o passar dos anos, fui fazendo certas coisas por instinto e acabei por aprender tudo sozinho, mas tenho a certeza que ainda há muito mais por descobrir sobre isso... — ele fez uma pequena pausa — Então e tu? Tens a certeza que não se passa nada contigo? Eu não quero insistir contigo, mas o teu tom de voz e a forma como falas, parece-me triste…

- Oh... Desculpa, eu estava a tentar disfarçar.

- Não é assim tão difícil notar... E eu não me sinto bem ao ver-te assim, não só porque não te quero ver mal, mas também porque as tuas emoções acabam por contagiar como eu me sinto… — ele suspirou — Tu sabes que podes falar sempre comigo, não sabes?

- Eu sei…

- Então, o que tens? Conta...

Eu não sabia por onde começar. Havia tanta coisa que me perturbava, que era complicado organizar os momentos na minha cabeça. O Yusuke tinha estado presente em algumas das situações, mas ele não sabia sobre a integridade do meu problema com a Hyuna, nem da minha história com o Hikari, nem o que havia realmente acontecido entre mim e o Ryuu. Aliás, ninguém sabia exatamente sobre nenhum desses assuntos por completo. Não era costume eu contar aquele tipo de coisas a ninguém, por isso, tinha receio que ele não me compreendesse ou que estivesse apenas a contar coisas à toa, sem necessidade que ele soubesse... Pensei que, se calhar, ele nem tinha mesmo interesse em saber; se calhar apenas sentia pena de mim ou apenas me havia perguntado o que se passava, porque notou que estava triste e queria ser educado... ou estaria eu a pensar demasiado e, na verdade, ele importava-se realmente comigo?

Acabei por deixar de lado o receio que sentia e falei com ele sobre todas as coisas, excluindo a situação com o Ryuu. Por alguma razão, não tive coragem de lhe contar sobre esse assunto. Enquanto as palavras me saíam da boca para fora, a minha garganta começava a desfazer aos poucos o nó que nela sentia. O Yu olhava para mim com um certo apreço, ouvindo atentamente o que eu dizia. No final, tinha-me deixado extremamente aliviada o facto dele ter entendido o que lhe havia contado, sem que eu tivesse que explicar muito.

- E é isso… — concluí — Desculpa se falei demasiado ou se te chateei com as minhas coisas, mas obrigada por me ouvires...

- Não tens que pedir desculpa, Akaluri. — o Yu pousou a mão na minha bochecha e passou o polegar por cima das maçãs do meu rosto, limpando as minhas lágrimas — Primeiro, se fui eu que perguntei, foi porque quis saber. E, segundo, pelo que ouvi, tu precisavas mesmo de falar. Não devias guardar tudo isso para ti, senão acabas por te afogar dentro de ti mesma... Eu até pensava que estava a passar um mau bocado, mas agora que me contaste o que tens na mente… Já não sei qual de nós está pior.

- Yu… Eu não te queria preocupar…

- Não penses assim. É claro que me preocupo contigo, mas isso não é algo mau; apenas significa que quero saber de ti.

- Eu sei, mas… Tu também tens os teus problemas.

- Os meus problemas não são assim tão importantes, pelo menos por agora. Diria que são mais emoções e pensamentos, não situações mesmo reais e específicas, como as tuas…

- Mesmo assim, são coisas que te afetam.

- Mas são coisas que não preciso particularmente de deitar para fora, apenas tenho que me abstrair um pouco. Foi por isso que senti vontade de vir cá para fora quando sugeriste; eu precisava.

- Já te sentes um pouco melhor, pelo menos?

O Yusuke olhou para mim uns segundos e começou a rir.

- Eu é que te devia perguntar isso! Mas, sim, já me sinto um pouco melhor e espero que tu também te sintas, agora que falaste. Obrigada.

Ele abraçou-me ligeiramente. Com medo que a manta caísse dos nossos ombros, ficamos alguns segundos apenas assim, sentados em silêncio, com o ambiente à nossa volta tão pacífico quanto silencioso, algo que contrastava com a nossa mente agitada. O céu noturno estava especialmente bonito naquela noite de lua cheia, não conseguia deixar de o notar.

- O céu está lindo… — comentei — Gosto tanto de ver a lua e as estrelas.

- Concordo, eu também gosto bastante.

E com isso, mais uma vez, o silêncio voltou a reinar à nossa volta. Apenas havia um pequeno barulho de ramos de árvore cheios de folhas, que se mexiam com o passar de uma leve brisa. O frio daquela noite era abafado pelo calor do nosso abraço, e a vastidão do céu noturno agia como um calmante para os nossos pensamentos. Eventualmente, voltámos para a tenda, onde o sono finalmente nos encontrou, apesar de tudo o que havia acontecido. Sentia-me um pouco mais leve.