Notas iniciais
Olá, gostaria de dizer que gosto desse capítulo porque nele saberemos um pouco mais sobre a personagem que eu considero a minha favorita na história... Acertou se está pensando na Ayana, ela juntamente com Chris e Jin, são os meus personagens favoritos da trama. Boa leitura ♥

A claridade da manhã entrava no quarto pelos vidros das janelas que eu havia me esquecido de fechar as cortinas, por mais que não fosse verão, aquela luminosidade conseguia me impedir de abrir os olhos, a luz piorava a dor de cabeça latejante decorrente da bebedeira da madrugada, dor que piorava ainda mais quando tentava bloquear a luz e abrir os olhos.

Levantei a cabeça do travesseiro e me virei de bruços, afundei minha cabeça no travesseiro e respirei fundo. Já tinha tido ressacas terríveis, mas como aquela foi a primeira vez, não lembrava como havia voltado para o quarto nem o que tinha acontecido depois que a Ayana tinha chegado ao bar enquanto nos preparávamos para voltar ao hotel. O resto da noite era um verdadeiro breu na minha mente.

Sabia que não estava nua, sentia minhas roupas no meu corpo, mas precisava abrir meus olhos então tive que fazer um esforço, virei minha cabeça na direção oposta a da luminosidade e abri meus olhos vagarosamente, minha cabeça continuava a latejar, mas precisava levantar, então mesmo indisposta me sentei na cama e vi que havia um balde com vômito a frente da mesa de cabeceira, meu vestido estava no chão sujo com algo que fedia a álcool e então reparei que não estava vestindo as minhas roupas, estava vestida com uma camisa social branca muito mal abotoada, desabotoei e abotoei de novo.

Fiquei sentada por uns minutos até perceber que tinha alguém no chuveiro, então levantei da cama e observei o resto do quarto, parecia ter passado um terremoto ali, minhas roupas da mala estavam por todo o quarto e o mais bizarro de toda aquela situação era que Jin estava dormindo da poltrona sem camisa e com a cueca vestida por cima da calça, havia um lençol amarrado no pescoço dele como se fosse uma capa, o rosto dele estava pintado com maquiagem, parecia uma maquiagem de gueixa, foi impossível não rir olhando aquilo, não fazia ideia de como ele foi parar ali e de quando eu havia maquiado ele.

Ri bastante até ouvir a voz feminina na porta do banheiro:

— Sei que Jin está engraçado, mas você já se olhou no espelho?

Passei minhas mãos pelo meu rosto e lápis de olho preto sujou meus dedos, andei até a penteadeira e vi que eu tinha desenhado em meu rosto bigodes, cavanhaque e sardinhas. Foi impossível não rir também.

A voz feminina no banheiro era de Ayana, ela saiu do banheiro de toalha e se sentou na segunda poltrona do quarto dizendo:

— Antes que pergunte o que eu faço aqui, já digo que encontrei vocês dois aos prantos no bar, bebendo uísque feito loucos. Trouxe os dois para o hotel, mas você estava bem pior que o Jin.

— Bem pior como?

— Você se vomitou inteira então precisei te dar banho e te trocar. Jin não quis ajudar então fiz tudo sozinha. E você vomitou em mim, então tive que pegar umas roupas emprestadas.

Só depois que ela disse que eu percebi que as roupas que ela estava vestindo ali na minha frente eram minhas, mas eu ter vomitado nela não justificava a bagunça, então tive que dar uma leve bronca nela:

— Obrigada pela ajuda com o vômito, mas não precisava fazer essa zona no quarto e nem na minha mala.

— Não fui eu que fiz essa zona – respondeu sorrindo – foi você depois que tomou o banho frio e ficou consciente.

— O que? – questionei pegando a cadeira da penteadeira e levando para perto de Ayana – Me conta tudo que aconteceu ontem a noite.

— Tudo bem.

A empolgação de Ayana enquanto contava a noite agitada que tivemos foi assustadora. Relatava rindo como segurou meu cabelo para que eu vomitasse, depois como foi difícil me impedir de sair pelo quarto nua para pegar roupas e depois como Jin me deu a camisa dele para que eu parasse de querer andar nua pelo quarto. Quando melhorei nós pedimos mais champagne, vinho e uísque para o quarto e eu bebi uma garrafa de vinho sozinha (entendi minha dor de cabeça) e depois brincamos de verdade ou consequência (sim, não entendi porque fizemos isso), nos pintamos e durante uma parte mais melancólica da noite, depois de várias fotos e vídeos, a tatuagem de Jin me lembrou o Kei e eu comecei a chorar, então Ayana sugeriu que Jin cobrisse a tatuagem com lençol, ele o fez, porém colocou a cueca por cima da calça e disse que era o Superman. Acabei rindo muito durante o relato, foi impossível não rir, um pouco de momentos alegres me faziam falta e por mais que eu não me recordasse por completo, alguns flashes de lembranças faziam a história de Ayana ter sentido.

Fiquei pensativa por alguns instantes até Ayana dizer:

— Eu te odiava sabia.

— O que?

— Queria que você morresse – ela disse desviando o olhar – minha irmã morreu porque queria o amor do Kei e ele estava você. Ela não era a pessoa mais perfeita do mundo, mas era minha irmã. Um garota boa na maioria das coisas que fazia, mas que não se achava boa o suficiente para o cara que amava. Eu ainda não me acostumei com a ideia de continuar sem ela. E sinceramente, acho que nunca vou me acostumar.

Ayana dizia isso com muita sinceridade, era perceptível pela forma como desviava o olhar para se conter. Estava diante de alguém que estava vivendo meu maior pesadelo, perder um irmão.

— Te entendo – disse a olhando nos olhos — Tenho um irmão e não sei como agiria se ele morresse por causa de alguém. Ele é o meu melhor amigo.

— Pei era minha única amiga. A única que aguentava meu temperamento difícil, como diz o meu pai.

— Isso porque ela não podia fugir – respondi espontaneamente – a família nunca pode fugir.

Percebi que havia falado como a minha avó naquele momento, era o que ela dizia sobre me tolerar e sobre a paciência que Chris tinha comigo, todas as merdas que eu fazia ele estava lá para dizer que tudo ia dar certo. Depois de dizer isso pensei que Ayana não fosse entender bem o que eu queria dizer, então levei minha mão até a boca, espantada com o que havia dito, Ayana sorriu e então me expliquei:

— Esse sempre foi o lema da minha família, segundo a minha avó. Toda vez que eu me metia em confusão e pedia ajuda ao meu irmão ele dizia que não podia evitar me apoiar. Dizia que eu era uma peste, mas que ele não podia fugir do fato de ter que cuidar de mim, porque família não pode abandonar.

Fiquei melancólica assim que me recordei que eu estava em Xangai correndo atrás de um cara que havia me abandonado enquanto meu irmão estava em uma UTI, aquele que não podia evitar ser meu amigo e que no meu aniversário de quinze anos, me disse em um discurso lindo de príncipe da debutante que se pudesse fugir, também escolheria ficar.

E ainda tinha o fato de que Kei tinha sido responsável pelo estado atual do meu irmão, suspirei e Ayana percebeu que aquele assunto havia me afetado, mas ficou em silêncio até que eu a questionasse:

— A tentativa de assassinato – hesitei – Ayana... Meu irmão estava comigo e infelizmente ele não teve a mesma sorte que eu.

Ayana me olhou surpresa e em seguida afirmou:

— Às vezes eu queria que não tivesse sido a Pei, que tivesse sido eu. Eu aguentaria a decepção que ela viveu. Todo o jogo psicológico do Kei.

— A todo instante, eu queria estar no lugar do meu irmão, ele só se meteu nessa história por minha causa.

— Kei nos colocou nessa situação – afirmou Ayana com firmeza – Se tem alguém que merece punição, esse alguém é ele.

— Para quem mais ele fez mal?

Ayana olhou para Jin adormecido e disse:

— Ele não te contou sobre a Saori?

— Sim, ela morreu de câncer e o Kei impediu que ele se matasse em um incêndio.

Ayana revirou os olhos e suspirou, percebi então que Jin não havia me contado toda a história:

— Seja lá o que eu não saiba sobre essa história, estou aqui para ouvir.

— Quando Saori descobriu que o câncer havia retornado e mais agressivo que antes, ela tentou contatar Jin, mandou cartas, mensagens, ligou, mas não conseguiu falar com ele.

— Como? – a história estava diferente do que Jin havia dito – O Jin disse que...

— Você e o Jin são ridículos – interrompeu nervosa – Vocês tentam relativizar a merda que o Kei fez na vida de vocês. Não acredito que o Jin não te contou a verdade!

— Então conta Ayana! – me levantei gritando.

Gritei tão alto que Jin se remexeu no sofá, quase acordando, então nós duas nos calamos até ele voltar a ficar quieto dormindo.

— Kei interceptava as cartas, mensagens e ligações de Saori.

— Jin não soube da Saori por causa do Kei, porque ele fez isso?

— Kei era o parceiro do Jin e não sei se o Jin te contou, mas ele entrou na máfia para pagar os estudos dele.

— Sim, ele me contou.

— Kei achava que o noivado do Jin atrapalhava os rendimentos dele na faculdade e no trabalho, achava que a Saori atrapalhava o trabalho em equipe dos dois e decidiu agir. Foi pior quando Jin quitou a dívida com o Yamada e decidiu que sairia da máfia para casar com a Saori.

— Então era isso que ele queria dizer.

— Não há diferença entre ser amado ou odiado por Kei. Se ele precisar te ferir para conseguir o que quer, ele não vai hesitar. E é por isso que preciso da sua ajuda.

— Minha ajuda para que?

Ayana se levantou e procurou no meio da bagunça do quarto por algo, enquanto ela procurava por este algo, peguei meu celular e observei que havia um vídeo de uns três minutos e várias fotos que se dividiam entre nós três bebendo exageradamente, usando minhas maquiagens e até um beijo triplo, enfim, a nossa festinha no quarto estava documentada em fotos e um vídeo no meu celular.

— Desde quando somos amigas Ayana?

— Desde as 3 da madrugada – respondeu ainda procurando algo – Quando você me disse que só tinha amizades tóxicas e precisava de gente que te fizesse se sentir bem.

Deslizei meu dedo na galeria olhando as fotos e vi diversos momentos da festinha, inclusive uma foto minha sentada no colo da Ayana, uma foto minha abraçada com Jin, uma foto de nós duas batendo nas nádegas do Jin e por fim o vídeo de três minutos, cujo frame era apenas Jin deitado no chão sem camisa e eu estava por cima dele. Dei inicio ao vídeo com o coração nas mãos para não usar um termo chulo e me surpreendi porque quem começou a filmar foi o Jin, ele já estava sem camisa e quando começou a me filmar me assombrei com o que vi, eu estava vestida na camisa de Jin, com o cabelo molhado, sentada no colo da Ayana na poltrona, nós duas parecíamos bem intimas, estávamos rindo enquanto bebíamos vinho da mesma garrafa, Jin então pegou uma garrafa e disse:

— Eu não me divertia assim há muito tempo, vocês são as melhores pessoas do mundo!

Ele se jogou por cima de nós duas enquanto gritávamos rindo para ele sair, nossas faces tão felizes, juntas e alegres no vídeo pareciam ser de outras pessoas, foi quando Ayana disse:

— Eu não gostava de você Alice e nem do Jin porque ele me dispensou, mas agora amo vocês dois.

— Vocês são meus melhores amigos – eu disse abraçando os dois – Amo muito vocês, demais!

— Agora cumpre o desafio, Ali! – cobrou Ayana – Beije o Jin.

— Sem problemas – respondi destemida.

Jin se deitou no chão forrado com as minhas roupas e então foi quando eu me vi descer da poltrona sorrindo, sentei sobre Jin, como se monta em um cavalo e o beijei, foi uma coisa longa com direito a aplausos e risos por parte da Ayana, não foi um beijo de amigo com certeza, foi um beijo quente, com direito a apalpadas em locais indiscretos, não consegui ver os três minutos, parei o vídeo quando vi a mão de Jin passar por baixo da camisa.

Coloquei meu celular sobre a mesa de centro sentindo meu rosto queimar de tanta vergonha, Jin dormia feito um anjo na poltrona, nem parecia que tínhamos feito o inferno no chão daquele quarto umas horas atrás.

Fiquei preocupada com o vídeo e principalmente se aquela situação tivesse evoluído para algo maior do que só uma pegação, então perguntei para Ayana:

— Ayana, eu vi o vídeo.

— Deve estar muito envergonhada, não é. – afirmou parando sua procura – Não se preocupa, quando eu vi que as coisas estavam ficando tórridas demais, separei vocês dois. Ninguém transou aqui, mas pelo vídeo você deve ter percebido que não foi por falta de vontade.

Agora sim eu estava envergonhada ao extremo e não consegui pensar em nada melhor para dizer do que:

— Tá. Precisa de ajuda?

— Não, obrigada.

Percebi que Ayana tinha encontrado o que procurava com tanta pressa e para mudar de assunto porque estava a ponto de morrer de vergonha perguntei:

— O que procura Ayana?

— O celular do Jin – me mostrou o telefone – vou te dar um número para você ligar.

— Porque eu tenho que ligar?

— Jin queria esperar o momento certo para que você falasse com o Kei, mas eu acho que o momento certo é agora. Vamos ligar para ele e marcar um encontro. Se for você que ligar é certeza de que ele vai atender.

— Kei era meu noivo Ayana! – disse revirando os olhos — Óbvio que eu tinha o telefone e tentei ligar! Só que ele nunca atendeu.

— Esse telefone que vou te dar é outro. Esse ele é obrigado a atender.

— Por quê?

— É a linha direta dele com o pai... O senhor Yamada.

Peguei o meu celular e digitei os números que Ayana me ditou e liguei, liguei com o coração palpitando, respirava rápido por causa da ansiedade e então aquela voz rouca e que há muito tempo eu não ouvia disse:

— Alô.

Fiquei paralisada ouvindo aquela voz, tudo em mim tremia, quando consegui falar algo, disse o mais óbvio naquele momento:

— Porque você me deixou?

— Esse número é de Xangai, o que está fazendo em Xangai, Alice?

— Queria saber que fim deu você! O Jin me trouxe aqui.

— Cadê o Jin? Quero falar com ele.

— Ele está dormindo e acho que não vai acordar tão cedo.

— Tem mais alguém ai com você?

— Tem sim a Ayana.

No momento em que eu citei o nome da moça, percebi que o tom de voz de Kei mudou, sua respiração antes calma, se tornou enérgica e preocupada, ansioso ele disse:

— Não se assuste e responda minhas perguntas apenas com sim e não. Ok?

— Sim.

— Ayana está te encarando?

Procurei por Ayana e não a vi no meu campo de visão, então respondi:

— Não.

— Ótimo, agora você está vendo o Jin?

— Sim.

— Ele está respirando?

Me aproximei do Jin tensa e percebi que ele respirava:

— Sim.

— Jin tem uma pulseira preta no pulso direito, a pulseira tem um botão que se você apertar ela fica verde. Faz isso pra mim, aperte o botão na pulseira.

Me reaproximei dele e apertei o botão da pulseira, assim como Kei disse a luz verde acendeu, porém ficou violeta e então novamente Kei disse:

— A pulseira está verde?

— Não. – respondi tremendo e então questionei – O que está acontecendo?

— Fica calma, que cor está a pulseira.

— Violeta.

— O paletó do Jin está em algum lugar perto de você?

— Não sei, acho que está, vou procurar.

Olhei ao meu redor e encontrei o paletó em um vão embaixo da poltrona, peguei e voltei a falar com Kei:

— Achei.

— Tem uma caneta prata no forro, você vai precisar rasgar, faz isso rápido.

Obedeci e achei a caneta, ela era bem grossa e tinha um detalhe transparente na lateral que mostrava um liquido incolor, tentei ler o que estava escrito e não entendi porque estava escrito em mandarim, então Kei disse:

— Achou?

— Sim.

— Aperte o botão lateral da caneta, vai aparecer uma agulha, então injete o conteúdo da caneta no Jin, você consegue fazer isso apertando o topo da caneta.

Aquela situação estava confusa e eu tremia tanto que mal conseguia organizar minhas ideias olhei para a caneta e pensei que talvez aquilo fosse algo perigoso, talvez injetar aquilo em Jin o matasse. Tive que questionar:

— O que é isso?

— Confia em mim.

— Por quê? – já não conseguia conter as lágrimas — Você tentou me matar! E se isso matar o Jin?

— Ele vai morrer se você não fizer isso!

— O que tem na porra da caneta, Kei?

— Glucagon*. Faz o que estou pedindo.

Peguei o braço do Jin e ele estava frio, então entendi o que estava acontecendo, rapidamente injetei o glucagon no braço dele e respirei fundo. Kei pareceu sentir o meu alivio e disse:

— Agora saia daí, corra para o mais longe que você puder de Ayana.

— Por quê?

Antes que Kei pudesse me responder senti uma dor queimando no meu pescoço e quando olhei para trás, Ayana segurava uma seringa, me senti tonta imediatamente e então ela pegou o celular da minha mão e disse:

— Encontrei outra coisa que eu procurava.

Tentei andar para longe da Ayana, mas minhas pernas falharam e eu cai no chão, minha visão estava embaçada, estava perdendo a consciência e tudo que aconteceu depois que eu sai foi uma sequência de sons confusos, ouvi meu celular tocando e a voz de Ayana dizendo:

— Não é nada pessoal, Ali. Eu até gosto de você.

Notas finais
*Glucagon: um hormônio produzido pelo pâncreas que tem um efeito contrário ao da insulina, ou seja, ele aumenta os níveis de glicose no sangue.