Akai Ito, o fio vermelho do destino.
10 Olha o que você me fez fazer (Parte 1)
Notas iniciais
Acordei no hotel com uma desordem descomunal, estava tonto, mas aos poucos retomava minhas forças, me lembrava de beber feito um louco com Ayana e Alice.
Essa segunda parte da noite de bebedeira não estava no script. Meu braço doía e então percebi que fiquei tão mal que foi preciso usar glucagon em mim, droga de diabetes.
Alguém estava batendo na porta do quarto, então me levantei e andei até a porta, era o serviço de quarto trazendo o café da manhã, permiti que o funcionário do hotel entrasse com a comida e depois que ele saiu comecei a comer, o glucagon não ia me manter por muito tempo, ainda tremia devido a hipoglicemia.
Não entendi porque bebi tanto, nem porque estava sem camisa e principalmente porque o funcionário do hotel saiu rindo do quarto, não entendi até ir ao banheiro e me olhar no espelho, respirei fundo e disse:
— Gueixa... Sério Ayana?
Lavei o rosto e foi difícil tirar toda a maquiagem e foi neste momento que estranhei o silêncio do quarto. Ayana e Alice deviam estar na cama pensei, até que meu celular começou a tocar, andei até a sala e o peguei na mesinha de centro, era Kei:
— O que houve?
— Me responde você – disse furioso – O que deu na sua cabeça para colocar a Ayana no plano?
— Colocar a Ayana no plano? A Ayana era o plano! Combinei com ela que se recuperasse o seu computador a levaria até você. E recuperei seu computador ontem.
— O seu plano sequestrou a Alice e está me pedindo para encontrá-la. Eu não tenho nada a ver com isso, se você não tivesse socorrido aqueles dois depois do acidente a situação atual não teria se complicado tanto! Agora decida o que vai fazer, porque eu não vou sair de onde estou.
— Você se ouviu? O que é você, Kei?
— Apenas eu, Jin. O cara que não te mandou trazer a ex-noiva dele para Xangai.
Suspirei e tive que concordar, infelizmente Kei estava certo, então voltei a focar no que realmente importava:
— O que a Ayana disse que vai fazer com a Alice se você não for encontrá-la?
— Ela me mandou um vídeo e disse que eu tinha 24 horas, isso foi há três horas.
— Ela só está viva por sua causa, Jin. – disse sério — Já fez isso uma vez, o que seria mais uma?
— Você adora me culpar por situações complicadas que você mesmo provoca – gritei – Adora me colocar para limpar a bagunça que você faz. E não se importa com as consequências... Em pensar que eu te poupei de detalhes porque achei que você se importasse com ela.
— Nossa – debochando – ele tem sangue quente nas veias. Não se esqueça que foi você que prometeu que...
Antes que ele completasse a frase eu o interrompi:
— Não era só ela no carro.
— Sim, eu sei. Era ela e o irmão.
Senti meu sangue ferver pelo ódio que a apatia e o deboche dele despertavam em mim, minha respiração ficou rápida, cerrei o meu punho e tentei me conter, queria perfurar Kei com uma adaga, mas seria impossível fazer isso de tão longe, então usei a adaga que sempre acreditei que fosse a mais afiada entre todas as adagas existentes, as palavras:
— E o seu filho.
— O que? – E finalmente senti que estava falando com um humano de voz trêmula e ressentida – Do que você está falando.
— Então ainda corre sangue quente em suas veias.
— Porque você trouxe ela?
— Não consigo proteger alguém de longe. O Hiroshi precisava de mim em Xangai.
— Tanto faz – Kei disse bufando — Vou te mandar o vídeo e você tenta descobrir o local para onde Ayana a levou.
— Você não vai sair daí?
— Você sabe por que não.
Desliguei o celular e procurei minha camisa pelo quarto, não encontrei e o motivo era óbvio, Alice estava com ela.
Terminei de me vestir no meu quarto, com pressa, peguei o computador de dentro da maleta e abri meu email, lá estava o vídeo de Ayana, cinco minutos de vídeo, respirei fundo e dei início.
No vídeo, Alice estava sentada em uma cadeira de madeira marrom, amarrada com cordas grossas presas a seu corpo com alguns nós de escoteiros, dignos de Ayana. Ela estava amordaçada com um pano branco, seus pés estavam sujos de grama e terra, então pensei que ela pudesse estar escondida em algum tipo de galpão com um grande campo aberto ao redor. O local parecia pouco arejado e haviam alguns toneis com liquido inflamável, havia algum tipo de liquido no chão ao redor de Alice, um liquido levemente turvo. Alice estava visivelmente dopada, tentava movimentar a cabeça, mas não conseguia, e então a Ayana apareceu no vídeo, com uma seringa na mão e usando galochas, o que não fez muito sentido até ela explicar quando começou a falar:
— Kei, seu desgraçado! Olha o que você me fez fazer. Não pensou mesmo que eu iria cair na conversa de que o Jin ia te entregar depois de reaver o computador e me ofende que você tenha insultado a minha inteligência dessa forma. Agora eu estou aqui com a única garota que você já amou na vida e olha cara, ela é chata a primeira vista, mas eu gostei dela. Ela se ofereceu para ser minha amiga e se sentiu mal pelo que você fez com a Pei. – Ayana respirou frustrada e então começou a gritar – Ela se sentiu mal por algo que ela não fez! Por algo que você fez! Ela nem sabia da Pei, não a conheceu e se sentiu mal por ela, algo que você não foi capaz de sentir seu doente. Estou falando isso porque infelizmente a Alice não é uma boa amiga apenas para mim, ela é para o Jin também, nunca o vi tão alegre na presença de alguém, mas infelizmente se você não se entregar em 24 horas eu vou ter que matá-la. Como já deve ter percebido, esse galpão está cheio de gasolina e eu vou incendiá-lo se você não vier. Já me desculpei com a Alice, ela sabe que não é nada pessoal. Um último aviso, não mande o Jin aqui. Se eu ver o Jin o galpão vai queimar independente das 24 horas terem acabado.
Ayana injetou o conteúdo da seringa em Alice e depois encerrou o vídeo. Aquela situação me deixou espantado, precisava fazer algo, mas se eu tentasse fazer alguma coisa Alice morreria, pensei em ligar para o Sr. Yamada, mas ele não poderia fazer nada, Xangai era território dos Yamagoshe, um Yamada em serviço sem autorização poderia ser executado por um Yamagoshe. Teria que pensar e pensar muito, mas não tinha tempo para isso. Kei era a minha única alternativa, mas se ele colocasse os pés para fora do Japão, não estaria mais sob a proteção do Sr. Yamada e poderia ser morto.
O suicídio da Pei causou graves instabilidades no relacionamento da família Yamada e Yamagoshe, isso porque o senhor Hideo Yamada nunca retira suas palavras, ele prometeu que protegeria Kei assim que o adotou, e com a morte da sobrinha e o ódio do senhor Hiroshi Yamagoshe, Hideo agora se vê obrigado a cumprir suas palavras, mas desde que Kei permaneça no Japão. Se colocar os pés em Xangai, Kei já pode se considerar um homem morto e conhecendo Kei, como eu conheço, sabia que seu instinto de sobrevivência iria falar mais alto, ele nunca abandonaria a segurança do território Yamada por causa de ninguém e muito menos por Alice.
Pior que o sentimento de impotência que me dominava naquele instante, era saber que quem poderia fazer algo, não estava disposto. Decidi então fazer algo enquanto pensava em uma solução para aquela situação. Enquanto pensava arrumei minhas malas e as malas de Alice, depois que eu a resgatasse a enviaria de volta para o Brasil imediatamente, nem que fosse amarrada na área de carga. Me sentia culpado devido a incapacidade de dizer a ela que Kei era um maldito egocêntrico que apenas se importa consigo, me arrependi de não ter dito a ela a verdade por trás do atentado que ela sofreu com o irmão. De certa forma se ela soubesse a verdade, ficaria quieta em casa. Falar a verdade seria a primeira coisa que eu faria assim que a visse novamente.
Após fazer o check out no hotel, aluguei um carro e segui pelas ruas de Xangai, olhando em mapas locais que se encaixassem nas observações que eu fiz do lugar onde Alice estava.
Enquanto eu dirigia rumo ao primeiro local, meu celular tocou e eu atendi rapidamente quando vi que se tratava da Ayana:
— Aonde você levou a Alice, Ayana?
— Não liguei para dizer isso, sabe que não é você que tem que vir.
— Ayana... Ela não tem nada a ver com o suicídio da Pei.
— Eu sei.
— E o Kei não vai vir.
— Jin, para de querer salvar as pessoas que não querem ser salvas. – gritou Ayana – Isso irrita!
— O que?
— Alice veio comigo contra a vontade dela, mas depois que ela recuperou a consciência eu a convenci a me ajudar. Afinal, se ela morrer, o irmão dela vai ter o coração que tanto precisa.
Congelei ao ouvir essas palavras, principalmente porque sabia que ela havia aceitado essa proposta ridícula porque contava com o amor de Kei, contava com a presença de Kei, mas eu sabia que ele não viria, um sentimento de pesar e raiva tomou meu coração e então urrei em um grito indescritível, Ayana ficou em silêncio pelo telefone esperando que eu falasse algo e da minha boca apenas saiu a confirmação de algo que ela já sabia:
— Ele não vem, Ayana.
— Não queria te dizer isso Jin, mas... – disse Ayana com pesar – Alice vai morrer.
Ouvir aquilo sabendo que a Ayana também estava mal em ter que fazer isso me congelou por dentro, eu não sabia o que fazer, me sentia como uma criança que tem algo negado pela mãe e vê nas lágrimas a única opção de ter o que quer, dei um forte soco no volante do carro e com os olhos mergulhados em lágrimas disse:
— Confiei em você Ayana.
— Sinto muito, mas escolha melhor em quem confiar da próxima vez.
Desliguei o telefone desesperançoso, acreditando que nem um milagre poderia me ajudar a salvar Alice, eu havia prometido protegê-la e falhei. Voltei a dirigir respirando rápido, dirigi por horas sem saber ao certo para onde ir até que recebi uma localização por GPS de Kei, abri a localização e era de um galpão há uma hora do local onde eu estava, dei a volta e segui em direção ao local, foi quando Kei me ligou dizendo:
— Onde você está?
— A caminho da localização que você me enviou.
— Acabei de chegar em Xangai.
Não acreditei no que tinha acabado de ouvir, Kei havia saído da área segura para salvar Alice, respirei fundo, soltei um sorriso de alívio e questionei:
— Porque mudou de ideia?
— Isso não interessa – respondeu ríspido – o plano é o seguinte. Vou até o galpão sozinho e você tem que chegar depois, tenho certeza que ela vai me amarrar e torturar na frente da Alice, então você precisa me dar uma meia hora antes de entrar e soltar nós dois.
— E se a Ayana não estiver sozinha?
— Ela vai estar – disse como se fosse algo óbvio de se imaginar — alguém me garantiu que o Sr. Yamagoshe não está sabendo desse plano dela de me matar.
— Então ótimo.
Ouvir a voz do Kei me deu esperança, mas também me deixou apreensivo. Ele veio porque tem algo aqui do interesse dele e se não fosse Alice, ela ficaria arrasada e de novo, eu limparia a bagunça que ele fez na vida dela.
A meu ver, Alice é uma mulher que ama tudo ao seu redor apaixonadamente e que faz valer suas vontades com seu temperamento forte, estranho imaginar que a forma apaixonada com que ela lida com tudo que ama seja justamente sua maior fraqueza... Estar apaixonada é a maior fraqueza dela e não é difícil me colocar no lugar dela, minha maior queda também se deu por causa do amor. Tudo que eu mais queria era reencontrar aquela encrenqueira e mandar ela de volta para a família dela. O mais incrível é que eu posso dizer que nunca tive inveja do Kei, não até conhecê-la. Lembro que senti raiva por estar com ela por todos esses dias desde Frankfurt até Xangai, mas agora... Eu sinto saudades dela.
Cheguei ao local mergulhado nesses pensamentos e faltando poucas horas para o fim do prazo, foi quando observei Kei chegando de motocicleta, como sempre, vestia uma calça jeans escura, sapato social, camisa social e uma jaqueta de couro escura, usava óculos escuros e fumava, parou na porta do galpão e deu seu último trago antes de entrar e então pensei no porque ele estava fumando se ele viu no vídeo que o local estava cheio de liquido inflamável. Imediatamente peguei meu celular e mandei uma mensagem para Kei.
Jin: Porque está entrando com o cigarro acesso? O chão está completamente molhado com liquido inflamável!
Kei não me respondeu e então cronometrei trinta minutos para entrar no galpão, esperar cada minuto foi angustiante, mas seria com certeza pior se eu atrapalhasse os planos do Kei, sempre foi assim e por fim, os planos dele sempre davam certo.
25 minutos se passaram e olhando de fora tudo parecia calmo dentro do galpão até que recebi uma mensagem de Ayana.
Aya: Sei que está ai fora! ENTRA LOGO!
Pulei para fora do carro e nem me dei ao trabalho de fechar a porta, larguei o celular na grama e corri até a porta do Galpão, quando toquei na maçaneta ouvi uma explosão nos fundos do galpão, tentei desesperado abrir a porta, mas não consegui, era uma porta de metal reforçada e estava trancada por dentro, nada que eu fizesse iria abri-la. Andei nos arredores do Galpão procurando outra entrada, os fundos do galpão estavam em chamas, e a todo instante era possível ouvir toneis estourarem em pequenas explosões dentro do galpão, não tinha outra entrada e os buracos abertos pelas explosões estavam em chamas, o desespero me tomou ao ponto de que achei uma boa ideia entrar por um vão em chamas, tomei impulso dando uns passos para trás e pulando para dentro do galpão pelo buraco, cai em um chão de terra e olhei o ambiente totalmente em chamas, andei em meio a fumaça, tossia sentindo o ar quente queimar minhas vias respiratórias, seria pior andar pelo chão, havia fogo e mais combustível em alguns locais, me abaixei e consegui ver alguém amarrado em uma cadeira, pelas roupas pretas, não era Alice, neste momento percebi a imensidão do problema:
— Ayana!
Kei já tinha abalado o relacionamento entre as famílias, mas aquilo... Aquilo iria iniciar uma guerra, não era possível. Matar a única filha do Sr. Yamagoshe no território dele seria como assinar sua própria sentença de morte, nem o Sr. Yamada poderia impedir sua morte caso Ayana não sobrevivesse.
Ao longe percebi que ela estava desacordada e que sua perna direita estava em chamas, corri até lá e vi que havia um círculo de fogo ao redor dela, iria me queimar para tirar ela dali com certeza, mas não poderia deixá-la morrer dessa forma.
Corri entre as chamas sentindo o calor queimar meus sapatos e minha calça, peguei a Ayana com a cadeira e corri para a única região onde o fogo não havia começado a queimar, tirei meu paletó e joguei sobre a perna em chamas dela para apagar o fogo, abafar funcionou perfeitamente, apaguei as chamas da minha calça com as mãos e ignorei possíveis queimaduras, o fogo estava nos alcançando e possivelmente explodiria os últimos toneis que faltavam, tentei soltar Ayana da cadeira, mas os nós eram nível Kei, precisaria cortá-las e eu não tinha tempo, então peguei a cadeira com a Ayana e corri em direção a porta, agora ela estava aberta, típico do Kei, ele deixou a porta aberta e virou a cadeira de Ayana de uma forma que ela veria a saída livre para fugir, mas não poderia fugir, porque estava presa. A mente de um executor, fria e calculista, visando sempre o desespero da vítima.
Corri até a porta, passando por algumas labaredas, estava tonto, quando cruzei a porta e sai do galpão, continuei correndo até que ouvi a última explosão, a explosão que destruiu o galpão.
Coloquei a cadeira no chão e me ajoelhei no chão tossindo, sentindo meu peito arder, meus pés e pernas queimavam e percebi que a Ayana estava recuperando a consciência, tossindo e gemendo de dor.
Minha cabeça latejava de dor quando sentei no chão e novamente tentei desamarrar Ayana, foi difícil, mas consegui e quando as cordas soltaram, ela caiu ainda gemendo de dor em meus braços, a coloquei na grama e então olhei para a perna dela e vi as queimaduras cheias de bolhas e em carne viva, meu estomago se revirou, e então respirei fundo sentindo as dores nas minhas pernas e me neguei a olhar, olhei todo o ambiente em busca de Kei e Alice, quando vi os dois aparentemente tendo uma discussão perto do meu carro, estava tonto demais para conseguir ouvir algo, os dois não tinham me visto, mas quando Alice me viu ela gritou o meu nome e então senti meu corpo cair na grama ao lado de Ayana, não percebi que já havia anoitecido, apenas percebi quando tombei e olhei o céu estrelado, fechei meus olhos e então senti mãos tocando meu rosto, não sabia se eu estava quente demais ou se aquelas mãos estavam frias, mas tremi ao senti-las tocando minha pele. Abri os olhos e então os olhos desesperados de Alice encontraram os meus, senti uma felicidade descomunal, ela estava bem.
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