Ainda Não Acabou - Romione
9 Capítulo 9 - Banho de Sangue
Notas iniciais
O jantar na Toca foi tão ou mais silencioso quanto às refeições anteriores. A Sra. Weasley voltara um pouco mais animada do passeio, mas a decisão de Gina e Fleur de preparar também o jantar não agradou a matriarca.
Percy chegou no meio da tarde e embora tivesse voltado às boas com a família, ainda havia alguns olhares constrangidos.
Já no fim da refeição, uma corujinha muito molhada pela chuva entrou pela janela da cozinha. A avezinha estava visivelmente irritada agitando suas asinhas e bicando a mão do Sr. Weasley quando ele foi desprender o pedaço de pergaminho que ela trouxe. Assim que ele pegou a carta, Pichi levantou vôo, provavelmente com medo de mais uma tarefa em tão curto tempo. O Sr. Weasley leu primeiro para si mesmo, depois para toda a família ouvir.
Pai e Mãe,
Nós estamos bem e permaneceremos bem. Já sabemos onde os pais de Hermione estão e estamos indo encontrá-los. Ela está muito feliz então fico feliz também. Quero ficar com ela, ajudar e estamos muito próximos de encontrar o Sr. E a Sra. Granger.
Espero que vocês também estejam bem, acho que vamos voltar logo.
Rony Weasley
A Sra. Weasley tomou a carta das mãos do marido, releu e a levou ao peito recomeçando a chorar.
– Molly, você não viu que está tudo bem? Logo, logo eles estarão passando por esta porta. – disse o Sr. Weasley, mas em seus olhos podia-se ver que ele continuava apreensivo.
– Mas ele nem disse para onde vão?
– Não, Carlinhos. Ele não se importa com a gente. – respondeu a mãe chorando.
– Sra. Weasley, — disse Harry- tanto Rony quanto Hermione são maiores de idade, muito responsáveis e competentes. Tenho certeza que nada vai acontecer com nenhum dos dois.
Em meio aos consolos de todos a Sra. Weasley tentava em vão controlar o choro. Pretendendo aliviar a tensão, Percy mudou de assunto:
– É tão curioso... Mesmo eu morando fora Errol não me acompanhou, quis permanecer aqui na Toca.
A Sra. Weasley ergueu a cabeça, ficou muito séria e disse:
– Mas é claro! O que tem de curioso nisso? Até mesmo sua coruja sabe que seu lugar é aqui, junto de seus pais! – e recomeçou a chorar.
...
– Acorda, Rony! – gritou Hermione. O ruivo havia dormido a contra gosto no chão, ao lado da cama mofada.
– Que cara amassada! Seus olhos estão inchados, acho que você dormiu demais!
– Eu dormi demais? Eu só consegui dormir de madrugada por causa desse chão duro! – seguiu para o minúsculo banheiro.
– Hermione, não tem água nisso daqui!
– Mas ontem tinha... – respondeu a morena chegando na porta do banheiro. Rony abria a torneira da pia e não saia um gota d’água.
– Como vou lavar meu rosto, Hermione?
– Você é um bruxo ou não, Ronald? Aguamenti! – e uma pequena bacia em cima da pia encheu-se de água.
Voltando para o quarto, Rony encontrou Hermione sentada na cama.
– Acho melhor a gente sair e comprar algo decente para comer e aproveitamos e ligamos para meus pais. Falando nisso, deixa eu pegar o número de telefone... – disse vasculhando o interior de sua bolsinha.
– Peguei... ai! – Hermione tirou a mão de dentro da bolsa e seu dedo indicador tinha uma pequena perfuração.
– O que foi?
– Nada. Eu acho que é só um velho livro encadernado que está soltando o arame. – disse confusa.
– Hum, bem. E onde vamos comer se não temos dinheiro trouxa?
– Vamos procurar a tal cafeteria das irmãs Silver
. Os dois saíram da loja contra a vontade do Sr. Gordan que insistia em servir a eles mais uns “pães de pedra”. O sol já raiava forte àquela hora da manhã e tiveram de andar bastante em busca da cafeteria. Passaram primeiro pela livraria bruxa, mas descobriram que era uma rua sem saída e tiveram que dar meia volta.
– Que milagre é esse de você passar em frente a uma loja com milhares de livros e não para nem para dar uma olhadinha?
– Temos outras prioridades agora. – respondeu seca. O dedo doía e estava inchando.
Depois de mais algumas ruas acabaram encontrando a cafeteria.
– Já não era sem tempo, não agüentava mais andar. Vamos entrar, Rony.
Várias mesas ocupavam o interior da cafeteria, 3 ou 4 delas com alguns fregueses. Pediram um chá com bolo e bolachas , Rony se empanturrou de bolo, mas Hermione apenas bebericou o chá e comeu uma bolacha.
– Não foi ideia sua sair para comer?
– Eu perdi a fome.
– Tem certeza que não vai comer mais nada?
Hermione se levantou sem responder e se direcionou ao balcão. Enquanto pagava, observou um objeto bastante antigo num canto da bancada.
– Senhora, esse telefone... a senhora usa? – perguntou a uma das irmãs donas do estabelecimento.
– Ah? Isso? Não, eu nunca usei. Isso é idéia da minha irmã Dora, ela ama tudo que vem dos trouxas. Ela já usou algumas vezes.
– Então funciona??
– Acredito que sim, minha filha.
– Será que eu poderia fazer uma ligação? É importante.
– Bom, sim. Fique a vontade.
– Obrigada.
Hermione discou o número com as mãos trêmulas enquanto Rony chegava ao seu lado. Mais uma vez ouviu a voz da mãe sem poder dizer realmente quem era. Memorizou o endereço atual dos pais e combinaram de se encontrar na residência deles às 14h.
Após agradecer mais uma vez, Hermione e Rony saíram pela rua novamente em direção a loja do Sr. Gordan. O sol estava ainda mais quente e Hermione começava a sentir dificuldades para caminhar, o ar estava rarefeito e a rua ficava desfocada.
– Hermione, eu nunca vi você suar tanto assim!
– É esse sol, só isso.
– Ainda bem que estamos chegando, então. Está realmente muito quente.
Quando Hermione se deu conta, já estavam no quartinho nos fundos da loja. Ela sentou e levou as mãos à cabeça que doía consideravelmente.
– Mione, está tudo bem? Você continua suando.
– Estou bem. — respondeu com dificuldade- Não estou acostumada com tanto calor.
– Então por que não toma um banho? Vai ajudar a se refrescar.
– Você tem razão.
Hermione juntou o restante de forças que tinha e se encaminhou para o pequeno banheiro. A banheira miserável se tornou momentaneamente atrativa, certamente um bom banho aliviaria toda aquela sensação horrível. Apontou a varinha para a banheira – Aguamenti- e despiu-se com dificuldade. Antes de entrar na água, Hermione apoiou as duas mãos na lateral descascada da banheira.
A sua visão ficava cada vez pior, seu corpo inteiro tremia, ondas de frio e calor e a dor de cabeça que aumentava. Sentiu um calor estranho na face, parecia que algo escorria pelo rosto. Seria ainda tanto suor? Em questão de segundos percebeu que aquilo pingava na superfície da água e não era transparente, tinha uma tonalidade forte e cheirava a... ferrugem?
Apertou os olhos tentando o máximo de nitidez que podia e concluiu: não era suor, tão pouco ferrugem. Era sangue, seu sangue. Levou a mão ao nariz e à boca e esta saiu banhada em sangue.
Suas pernas não suportavam mais o peso do corpo, estava caindo naquele chão imundo e antes que perdesse totalmente os sentidos conseguiu dizer:
– Ron...!
...
Rony aproveitou que Hermione fora tomar banho e se jogou na cama. Não era muito boa, mas certamente aliviaria a dor nas costas que o chão havia lhe causado durante a noite anterior. “Talvez dê até para tirar uma soneca” pensou ele. Fechou os olhos decidido a tentar dormir e em instantes pareceu que alguém lhe chamava.
– “Ron...!”
Abriu os olhos assustado, mas não podia ser nada. Ele estava sozinho no quarto, Hermione continuava no banho e o Sr. Gordan estava atendendo na loja. Certamente a voz era fruto de sua imaginação, estava cansado e com muito calor também.
Alguns minutos se passaram e embora Rony tentasse, não conseguiu dormir. Aquela suposta voz o estava perturbando. “Acho que preciso de um banho também.” Se levantou e aproximou da portinha do banheiro:
– Mione, sei que as mulheres demoram no banho, mas você está querendo quebrar o recorde?
Silêncio.
– Mione, também quero tomar um banho. — disse novamente perto da porta.
–Hermione?? Você está me escutando?
A essa altura Rony suspeitava que não tinha imaginado aquela voz
. — Se você não me responder eu juro que entro aí. Estou falando sério!
Como não obteve resposta novamente, Rony girou a maçaneta e abriu a porta apenas alguns centímetros e chamou novamente:
– Mione? Vou entrar mesmo, hein!
Respirou fundo e abriu totalmente a porta. O choque tomou conta de seu ser. Hermione estava caída no chão, de lado, inteiramente nua e inconsciente. Seu rosto estava banhado em vermelho e uma poça de sangue se formava no chão. Levou alguns instantes para Rony constatar que aquilo era mesmo real, correu até a moça chamando seu nome e sacudindo-a:
– Hermione? O que houve? Acorda! Fala comigo, por favor. Acorda!!
Mas Hermione não esboçou nenhuma reação, continuava desacordada e respirando fracamente. Pegou-a no colo e voltou ao quarto colocando a amada sobre a cama, manchando de vermelho o lençol encardido.
– O que eu faço? O que eu faço? – a aflição dificultava muito seus pensamentos.
Viu a bolsinha de Hermione e disse:
– Tem que ter algo que sirva aqui.
E começou a vasculhar o interior da bolsa: tirou 2 frascos vazios, 1 frasco com Essência de Ditamno que considerou usar em Hermione, mas logo pensou “ Ela não está ferida, está sangrando, mas não está ferida. Não vai servir.” Tirou também uma conhecida caixinha com bezoar. “ Isso vai ajudar!” Abriu a boca de Hermione fazendo-a engolir a pequena pedra e esperou que ela acordasse. Nada.
– Droga, não está funcionando!
Cobriu Hermione com o próprio lençol da cama e correu para a porta:
– Sr. Gordan! Por favor, Sr. Gordan!
Voltou para a amada passando a mão em seus cabelos sujos de sangue.
– Você vai ficar bem, fique tranqüila.
A porta se abriu e o velho dono da loja entrou.
– Mas que gritaria! Até os clientes ouv... mas o que aconteceu com ela?- perguntou quando pôs os olhos em Hermione.
– Eu não sei. Encontrei caída no banheiro assim, sangrando. Nos ajude!– suplicou o ruivo.
– Não posso ajudar sem saber o que causou isso. – disse indiferente.
– Então me ajude a descobrir o que é! – gritou Rony descontrolado.
Pegou mais uma vez a bolsinha de Hermione e sem paciência para revistá-la novamente, virou todo seu conteúdo no chão imundo. Vários livros, roupas, a garrafinha com água, algumas moedas e outros objetos caíram fazendo enorme bagunça. Dentre os objetos, caiu também um animalzinho cheio de patas e meio atordoado.
– Arania Exumai! – gritou Rony. E tudo ficou claro em sua mente.
– Então é isso! Essa aranha picou Hermione hoje cedo, não era o arame do caderno!
Olhando para a mão direita da moça ele pôde notar que um dedo estava bastante vermelho e inchado. O Sr. Gordan se aproximou e disse:
– Mas essa é uma aranha da areia. Uma aranha do deserto!
– Acho que ela se enfiou na bolsa quando passamos pelo Egito. Pode nos ajudar agora?
– Sinto muito, meu jovem. Se a menina foi ficada por esta aranha, nada pode ser feito.
– Mas como não? – Rony explodiu – Alguma coisa tem que ser feita, ela não pode ficar assim! Tem algum hospital bruxo por aqui? – perguntou mais aflito que antes. O velho encarou Hermione por alguns instantes antes de responder:
– Até existe, mas será perda de tempo, e é melhor tirar ela daqui o quanto antes. Não quero morte no meu estabelecimento. – e saiu do quarto.
Aquela palavra ecoou pela cabeça de Rony: MORTE! Uma morte ali, sua tão amada Hermione estava... morrendo.
– Não! – ele gritou tomando Hermione nos braços.
– Acorda meu amor, acorda. Você tem que abrir os olhos, você precisa viver! – gritava e chorava.
– Você não vai morrer, não vai!
Tomado de um impulso, Rony pegou um frasco vazio e colocou a aranha morta dentro. Sacudiu a varinha “Pack” e os objetos voltaram para dentro da bolsinha. Tomou mais uma vez Hermione no colo. “Tenho que conseguir.” ele pensou.
– Me ajude, meu amor. Me ajude. Sussurrou para a inconsciente Hermione e... “crack”.
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