Ainda Não Acabou - Romione
8 Capítulo 8 - Alice Springs
– Você por acaso... trouxe água? – perguntou Rony depois de uns 15 minutos sentados na entrada da caverna.
– Trouxe. Você quer? – perguntou Hermione sem tirar os olhos de uma pedrinha qualquer.
– Não, agora não. Mais tarde talvez.
Hermione parecia não querer conversar, ele não iria insistir, entendia perfeitamente o que certamente passava pela cabeça dela nesse momento. Então se aproximou dela e passou um braço em volta de seu pescoço. O tempo parecia não passar. Era ótimo estar ao lado de Hermione, mas queria que tudo se resolvesse logo. Hermione estava sofrendo e isso o fazia sofrer também.
– E se der errado, Rony? E se eles nunca se lembrarem de mim? – perguntou Hermione ainda fitando a pedrinha.
– Nada vai dar errado.
– Como pode ter tanta certeza?- perguntou deixando a pedrinha de lado e se virando para encarar Rony.
– Por que você é uma bruxa maravilhosa, muito inteligente e competente, extremamente teimosa e sei que não vai se dar por vencida tão facilmente e principalmente porque eu estou com você.
– Tirando a parte de que eu sou teimosa eu agradeço. E se não fosse pelo fato de eu precisar muito de você, eu te chamaria de convencido!
Rony foi se aproximando ainda mais de Hermione, seus olhos azuis fixos aos castanhos da moça. Menos de 10 cm separavam seus rostos.
“Foco Hermione, foco. Não pode deixar acontecer agora, não estrague tudo, foco!” – pensava a garota.
“Por Merlin, se não for agora...”
– Você quer a água agora? – perguntou Hermione virando o rosto.
– Quê? Ah... a água. É. Pode ser. — respondeu Rony sem ânimo algum.
Hermione abriu a bolsinha de contas, enfiou um braço até a metade procurando em seu interior por quase um minuto e finalmente tirou uma garrafinha de água. Entregou a garrafa à Rony e deixou a bolsinha aberta no chão.
Rony bebeu uns goles sem vontade, era fato que Hermione o estava evitando. Será que ele tinha tomado a decisão correta? Bom, ele não ia voltar atrás. Bebeu mais um pouco de água automaticamente e olhou mais para dentro da caverna.
– A- aranhas! – falou agarrando no braço de Hermione e puxando-a mais para fora.
– O que você está fazendo? – perguntou Hermione sem entender o que Rony dissera.
– Aranhas! — repetiu apontando.
Hermione olhou na direção em que Rony apontava e viu cerca de uma dúzia de aranhas se aproximando deles. Somente podia distingui-las por estarem em movimento, pois eram da mesma cor da areia.
– São pequenas, Rony!
– Mas continuam sendo aranhas! – exclamou o ruivo com os olhos arregalados.
– Arania Exumai! – disse Hermione apontando a varinha na direção das aranhas.
– Satisfeito? Bom, acho que já podemos ir.
– Certo. — disse Rony ainda olhando no interior da caverna a fim de verificar que não sobrara aranha alguma.
– E para onde nós vamos?
– Estive pensando, fazendo alguns cálculos e...
– É preciso fazer cálculos para aparatar? – interrompeu o ruivo.
– E... – continuou Hermione- talvez possamos ir para a Austrália de uma vez.
Embora estivesse contando os minutos para rever os pais, Hermione não podia evitar uma reviravolta no estômago toda vez que pensava que este momento estava cada vez mais próximo.
Pegou sua bolsinha que ainda estava no chão, guardou a garrafa com o restante da água e saiu da pequena caverna, seguida por Rony. Dando a mão ao ruivo, os dois desaparataram.
– É bom que você saiba que Alice Springs é uma cidade inteiramente trouxa. – comentou Hermione logo que seus pés pousaram em chão firme novamente.
– Portanto é melhor você trocar sua roupa.
Mas Rony não respondeu. Estavam numa estradinha de terra na encosta de um morro e ele estava com o corpo tombado para frente, as mãos apoiadas nos joelhos, que tremiam.
– Rony, você está bem?
O rapaz relutou um pouco antes de responder:
– Tem idéia de quantos quilômetros nós viajamos em segundos? – perguntou ofegante.
– Milhares. –respondeu Hermione entendendo o que se passava.
Rony levantou a cabeça e aos poucos foi se reerguendo, as pernas parando de tremer. Observou que Hermione estava perfeitamente bem como se aquela viagem não tivesse mais que 5 metros percorridos.
– E você diz isso na maior cara limpa?Podia ter me prevenido.
– Te prevenido? Creio eu que você já viu algum Mapa Mundi pelo menos uma vez na vida! Sabia a distância que iríamos percorrer.
– Tá. Está bem. Mas tem certeza que estamos no lugar certo? – perguntou olhando a sua volta.
Tudo que podia ver era um morro atrás deles e uma planície a perder de vista do lado oposto. A vegetação era rasteira e estava quase completamente seca. Até mesmo a estrada em que estavam não parecia receber algum viajante há tempos.
– Claro que tenho certeza!
Hermione abriu a bolsinha e tirou uma bermuda cáqui e uma camisa branca.
– Se vista.
– Mas eu já estou vestido!
– É mesmo? Com uma calça para enfrentar nevascas e uma camisa escrita: CHUDLEY CANNONS 21 VEZES CAMPEÃO DA LIGA DE QUADRIBOL DA GRÃ – BRETANHA, nem vamos chamar atenção, não é? – e jogou a roupa para Rony.
– E você? Não vai se trocar?
Hermione usava uma calça jeans e camiseta. O casaco ela já havia tirado assim que chegaram ao Egito.
– Agora não. Talvez quando chegarmos a alguma pensão.
– E eu vou me trocar aqui no meio da estrada?
– E porque não? É uma estrada pouco usada, só quem vai ou volta das aldeias nas montanhas passa por aqui.
– Hum... – murmurou Rony, e depois de olhar para todos os lados verificando que realmente não havia ninguém a vista, começou a se trocar. Quando terminou, Hermione já estava uns 100 metros à frente.
– Me espere! – gritou apertando o passo. — Pode guardar minhas roupas?
Hermione parou esperando pelo ruivo, apenas pegou as peças de roupa e voltou a andar enquanto as enfiava na bolsa. Rony parou alguns instantes, Hermione continuava diferente. Desejou que aquilo acabasse logo e quando acabasse ele poderia dizer a Hermione sobre seus sentimentos reais, de como ela era importante e do quanto ele desejava viver ao lado dela.
– Desse jeito não vamos chegar nunca, aperte o passo, Rony!
Em menos de 10 minutos de caminhada eles avistaram a tão esperada cidade. Não era muito grande: casas simples, sobrados e alguns prédios comerciais. Hermione parou de repente:
– Burra! Burra! Burra! – falava para si mesma.
– O que houve?
– Não tenho nem um dólar australiano!
– Não tem o quê??
– O dinheiro trouxa da Austrália! Não pensei nisso, estamos perdidos agora.
– Hum... daremos um jeito. Podemos acampar, você trouxe a barraca, não trouxe?
– Sim, mas sem dinheiro não tenho nem como ligar parar meus pais!
Hermione andava de um lado a outro. Quem passava pela rua já começava a observar.
– Pára, Hermione. Já estão nos reparando.
– Eu tenho que pensar! Como vamos fazer? Como vamos fazer?... Mas é claro!
– Qual a solução?
– Vem, você vai ver. Acho que ainda sei onde é.
Andaram quase meia hora. Era um entrar e sair de ruas, quebrar à direita e à esquerda e à direita de novo...
– Você sabe mesmo onde fica esse lugar que você não quis me dizer qual? – perguntou Rony já cansado de andar.
– Faz alguns anos que não vinha aqui e acho que não sei mais onde é ou não existe mais.
– Onde é o quê?
– O hotel em que meus pais e eu ficamos. – disse cabisbaixa.
– Ei! Você tem certeza de que não há bruxos em Alice Springs?
– Pelo menos não há registros na história da cidade e não encontrei com nenhum quando vim com meus pais. Mas por quê?
– Por causa disso.
Rony encarava a fachada de uma loja bem precária, mas de vitrines multicoloridas. PROMOÇÃO DE FEIJÕESZINHOS DE TODOS OS SABORES: entre, confira e aproveite.
– Mas como...?
– Vamos entrar e descobrir. – disse Rony.
A loja era uma mistura de Dedos de Mel com Cabeça de Javali. De um lado havia vitrines e prateleiras com enorme variedade de guloseimas coloridas e do outro lado algumas mesas e cadeiras empoeiradas e vazias. Atrás de um balcão um senhor bastante curvado os observava. Tinha um olho maior que o outro, o nariz adunco e orelhas semelhantes às de Dobby.
– Olá. – disse Hermione se aproximando do balcão. O homem não respondeu.
– Desculpe incomodar, mas eu estive na cidade há uns cinco anos e não me lembro desse lugar.
– É porque não existia há cinco anos. – respondeu o senhor fitando Hermione dos pés a cabeça. Rony se aproximou e passou um braço pela cintura da garota.
– Até existia, mas estava fechado. Pertenceu aos meus pais e reabri há quase dois anos, quando deixei Londres.
– O senhor é de Londres? Também somos daquela região. E por que veio parar aqui então?
– Muitos bruxos se esconderam quando Você – Sabe – Quem retornou ao poder, meu rapaz. E eu sei quem são vocês dois.
– Sabe?? – perguntaram os dois juntos, surpresos.
– Ainda acham que existe alguém no mundo bruxo que não conhece o trio responsável pela queda D’aquele- que – não- se- deve- nomear?
Rony e Hermione se entreolharam. Nunca tinham pensado nisso. Sabiam que seus nomes saíram em todos os jornais, mas fama não era esperada.
– Bom Senhor...?
– Gordan.
– Sr. Gordan, — continuou Hermione- Estamos procurando um lugar para ficar por uns dias. O senhor pode nos indicar algum?
– Sinto muito senhorita, mas não existem muitos estabelecimentos bruxos na região.
– Provavelmente só o senhor por aqui, não é mesmo? – perguntou Rony revirando os olhos.
– Não, jovem. Há também a loja de vestes do Sr. Peterson, a livraria da Madame Luckers, a cafeteria das irmãs Silver... Mas se vocês realmente estão necessitados, tenho um quartinho nos fundos. Nunca hospedei ninguém, mas nessas circunstâncias...
Os dois aceitaram o miserável quartinho apertado nos fundos da loja. Tinha uma cama de lençóis mofados, um guarda roupas caindo aos pedaços, um tapete cheio de traças, uma janela emperrada...
– Doze sicles a diária por isso? – protestou Rony quando o Sr. Gordan os deixou no quarto.
– Pare de reclamar, tem até um banheiro. – disse Hermione empurrando uma porta de madeira podre. – Mas isso parece bem antigo, vamos torcer para não precisarmos ficar muito tempo aqui.
Passaram o resto do dia discutindo planos que pudessem dar certo. O jantar que o Sr. Gordan ofereceu lembrava bastante a comida de Hagrid.
– Que saudade da comida da mamãe!
Hermione nada disse, apenas lançou um olhar fulminante ao ruivo.
– Mas vai valer à pena, tenho certeza que pelos seus pais vai valer à pena. – emendou tentando consertar a frase anterior e enquanto tentava partir um pedaço de pão.
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