Ainda é cedo.

6 Capitulo 6 - Dois jovens com hormônios à flor da pele


Notas iniciais
Parte I - Só queríamos estar ali Oi gente! Quero dividir um pouquinho sobre a construção desses dois porque quando decidi voltar a postar sobre eles, me cansei um pouco desse inicio bobinho. De como fiz uma história tão cliche e bobinha, mas então eles tomaram forma de um jeito que notei que na verdade, eles não são bobinhos, são apenas dois jovens! Mas quis mostrar que apesar de jovens, os dois tem uma bagagem pesada que sempre carregaram sozinhos. Espero que vejam o crescimento deles como eu consigo ver. E espero que gostem do ponto inicial desse casal porque daqui pra frente, tudo muda!

Manuela

Sempre preferi as coisas desse jeito: fingir que nada aconteceu no dia seguinte.

E foi assim, fingi que nada tinha acontecido, e ainda bem, ele também fez isso. Pela primeira vez, não prestei atenção na aula. O professor explicava algo sobre exames de imagem dos ossos, mostrando algumas imagens que simplesmente passavam pela minha visão como os borrões que eram.

Eu ouvia a batida de novo, e de novo. Minha mãe gritava. Outra batida. Outro grito.

-Manuela?

Outra batida. O sangue dela. O sangue dele.

-Manuela?

Dessa vez era só o professor, me despertando para a realidade.

-Desculpe, pode repetir?

-Essa é uma imagem de uma articulação iliacofemural, feita por ressonância magnética. Sabe me dizer o tipo de corte feito?

Pensei, pensei. Malditas palavras complicadas.

-Longitudinal?

-Isso é uma afirmação ou uma pergunta?

-Afirmação — novamente mais pareceu uma pergunta.

-Certo... Laura?

Foi aí que fui me lembrar: Laura. Ainda estava com a chave do seu carro, e ela ainda estava com cara de ressaca.

-Professor?

-Nessa radiografia das vértebras lombares. Sabe me dizer que tipo de radiografia é?

-Lateral?

Ela apoiava as bochechas nas mãos, parecendo extremamente entediada.

-Não, Ântero-Posterior Laura.

-Ah professor, as vértebras são todas iguais...

E nisso começou uma discussão sobre não ser tudo igual. Aproveitei a confusão na sala e sai, direto pra casa. O caminho inteiro da volta eu pensei o quanto também já quis fugir de alguma dor que sentia, tentando sobrepor uma dor a outra. Eu nunca tinha chegado a me machucar fisicamente nessas tentativas, mas eu sabia que meus machucados eram internos. Eram emocionais. E cada joguinho que eu entrava com alguém e depois fugia para não sentir demais, cada situação que eu tentava controlar, cada noite sem dormir ou os dias que estava tão nervosa que nenhuma comida descia, eram reflexo disso. Eu não queria julgar o Eduardo porque também tinha meus demônios. Eu não socava paredes, mas já tinha extrapolado minha cota de me ferir.

Eu sabia de tudo isso mas ainda não estava pronta para enfrentar.


Eduardo

Não tive paciência pra aula. Juntei meu material, peguei o computador e voltei ao projeto do semestre. O básico da minha planta baixa estava quase pronto.

A Manu chegou super cedo, disse que também não estava com paciência para a aula.

Passou um tempo no quarto e voltou de shorts e camiseta, se sentando na minha frente.

-Ta muito ocupado?

Empurrei as coisas para o lado, lhe dando espaço pra falar.

-Ta acuado desde ontem... Acha que to com medo de você?

-Sinceramente? — ela acenou com a cabeça — Sim.

Ela sorriu de forma suave.

-Não estou. Acredite: não foi bonito o que vi e realmente me preocupa que você reaja assim a algo. Não é por sua causa que surtei ontem. Foi o barulho...

Ela começou a perder o foco do olhar, olhando pra cima para não ter que me encarar e eu já sabia o que estava por vir.

-Não precisa contar.

-Eu quero. Se vamos dividir esse apartamento, temos que começar a saber mais sobre o outro. Quer ouvir? — acenei com a cabeça como ela havia feito — Eu era mais nova, e em resumo, minha mãe surtou. Ela tem alguns problemas de saúde, precisa tomar remédios e eu meio que descuidei uns dias. Ela resolveu suspender as medicações todas de uma vez só por conta própria e bem... O resultado não foi bom. Esse seu machucado não foi nada perto de como ela ficou. Foi mais ou menos como você... — ela apertou os olhos, como se lembrar lhe causasse dor — E eu tava sozinha com ela. Foi meio caótico, muitas coisas foram quebradas. Acalmei, cuidei e botei ela pra dormir. A única coisa que eu pensava no dia era que tinha que limpar todo aquele sangue antes do Sam e da Mel chegarem. E eu limpei, porque a minha vida dependia daquilo... Se eles chegassem e tudo estivesse um caos, eu teria que explicar o caos e não me sentia capaz de explicar aquela cena que havia rolado ali. Eu sabia que ela não tinha feito por querer. Quando eles chegaram eu apenas falei que ela tinha se machucado e quando ela acordou, não se lembrava do que tinha acontecido. Era quase como se não fosse ela ali, e eu sabia que era culpa da suspensão súbita dos remédios, mas depois daquele dia, parece que nunca saí do estado de alerta.

Ela abriu os olhos novamente. Não haviam lágrimas nem nada, estavam completamente vazios.

-Não tenha dó de mim, nem diga que lamenta, por favor.

-Como quiser... — eu não sabia o que dizer.

-Sei lá, eu não sei qual foi seu gatilho, e não tô aqui pra te julgar, todo mundo tem seus momentos... Mas se aceita meu conselho, não é saudável se ferir assim pra tentar sobrepor outra dor. Não vai resolver e enfim... Só quis te contar porque como disse, acho que todo mundo tem uns momentos que não se orgulha... E desde que a gente vá se entendendo, não teremos problemas maiores. Você tá bem?

Ela apoiou o rosto em uma das mãos, esperando minha resposta. Ela parecia tão calma, controlada, tão... Fria. Então eu entendi uma coisa sobre a Manu: ela tinha medo. Tanto medo que a fazia ser assim, dura como uma rocha. Sem querer se envolver com ninguém, nunca mostrava o que realmente sentia. Mesmo agora, me falando sobre isso tudo, ela não aparentava sentir algo. Quase como se tivesse treinado esse discurso várias vezes até dominá-lo racionalmente. E me ver descontrolado daquela forma ontem, deve ter sido torturante dentro dela. Ela não podia se desesperar, não podia perder a calma, ela tinha que cuidar de tudo da mesma forma que fez com a mãe.

Eu não queria alimentar isso.

Mas eu não ia falar nada disso, sabia que não era a hora.

-To bem, mas minha mão tá doendo pra caramba.

Ela riu e ficamos mais um tempo ali, falando sobre outras coisas.

-Preciso estudar, perdi a aula então... — ela levantou e colocou a cadeira no lugar, indo em direção ao quarto.

-Manuela?

Ela se virou já no meio do caminho.

-Obrigada por me ajudar e... Me contar sobre o que aconteceu. Desculpa te assustar, vou me atentar mais sobre isso que disse. Mas sei que é difícil expor as coisas assim.

-Putz, eu já chorei na sua frente... Não tenho mais nada pra esconder de ti garoto.

***

Levei um susto com a campainha. Era a tal de Laura, a bêbada.

-Oi — ela parecia envergonhada — a Manuela mora aqui?

-Só um minuto...

Bati na porta e abri.

-Sua amiga bêbada ta ai.

Ela riu e pegou algo dentro da bolsa. Depois me deu um tapa.

-Não chame ela assim.

Não voltei para a sala até a tal ir embora. Quando ouvi elas se despedindo, voltei para o meu trabalho.

A Manu ficou parada na porta, com um sorriso de deboche.

-Não vai acreditar no que ela disse.

-O que ela disse?

-Que achou que fossemos namorados.

E me olhou com aqueles olhar de "acredita nessa doida?".

Levantei, encarando ela, que não desviava o olhar.

-Pra mim não parece ser tanta loucura, Manuela.

Segurei sua cintura, aproximando seu corpo e prendendo no meu. Ela olhou para minhas mãos e em seguida para mim, com um olhar tipo "sério que ta fazendo isso?". Esboçou um sorriso e ficou na ponta dos pés, sussurrando perto da minha orelha.

-Depois eu que to brincando com fogo, né?

Respondi no mesmo tom.

-Digamos que eu também gosto do calor.

Pude sentir seu sorriso mais largo. Ela me empurrou e saiu da sala como quem nada quer. Eu só fiquei olhando, acompanhando seu corpo ir.

Se isso continuar desse jeito, não vai prestar... Não mesmo.


Manuela

O sol já estava baixando quando parei de estudar e fui tomar um banho. Deixei a água descer por um bom tempo, escorrendo pelo ralo. Quando fechei o chuveiro, escutei uma música baixinha vindo do outro cômodo.

Me sequei e vesti qualquer roupa e fui em direção a música, com a toalha ainda presa na cabeça. Conforme me aproximei, reconheci a música: I Found You, The Wanted.

Não bati antes de escancarar a porta para dar um susto. Entrei no seu quarto cantando mais alto que a música. Ele se assustou mas eu também ao me deparar com aquele cara de óculos me olhando, com a mão no peito.

-Porra, Manu. Quase enfartei.

A carinha dele após o susto e com esse óculos... Que pecado! O cabelo estava bagunçado como sempre. A camiseta cinza era folgada e o short preto estava dobrado no meio da coxa.

Continuei cantando e me aproximei, apenas com uma desculpa de estar mais perto. Segurei suas mãos e fiz ele soltar o lápis que usava, puxando seus braços para dançar comigo.

Ele ria, se divertindo e me acompanhando na dança.

-Você é louca, sabia?

-E você adora isso!


Eduardo

Eu estava tão concentrado que quando ela entrou, quase morri de susto! Meio minuto depois, estávamos juntos dançando no meio do meu quarto e rindo como se fosse a coisa mais divertida do universo. E naquele momento, era mesmo.

A música acabou e ficamos os dois, caídos de qualquer jeito na minha cama, dando risada como dois bobos.

Quando consegui controlar o riso, percebi que ela me observava. Ela se virou, apoiando a cabeça no braço.

-Que foi?

-Fica uma gracinha de óculos, sabia?

Seu olhar mostrava algo diferente. Tinha a intensidade que não estava ali segundos antes.

-O que quer, Manu? — questionei me virando de lado e apoiando o rosto no braço.

Ela se ajeitou, se sentando com as pernas cruzadas. Se aproximou de mim e tirou meus óculos, colocando no canto da cama.

-Quero propor algo...

Seu olhar estava me deixando nervoso. Sei lá, ela era diferente. Com ela, aquilo era uma competição de quem ia ceder primeiro. E como tava difícil não ceder.

-Fala.

-Quer ficar comigo?

Sério? Não era meio óbvio isso, tipo, não tava na cara dos dois? Ou será que só eu via isso? Porque todas as brincadeirinhas sobre brincar com fogo andavam realmente me dando calor.

-É o que? — achei melhor confirmar para não correr risco de entender errado.

Ela fazia charminho com cada movimento.

-Ficar, Edu! Sem sentimentos, sem amanhã, sem pensar em nada, sem um compromisso. Não tô te pedindo em casamento. A gente não precisa se prender. Sem satisfação ou qualquer coisa que assuma responsabilidade. Apenas... Curtir o momento. Eu não quero um namoro e a gente já mora junto, somos dois jovens com hormônios à flor da pele e totalmente dispostos, então é meio conveniente...

-Quer ficar comigo por ser conveniente?

-Como se você fosse um pobre coitado e eu estivesse sugerindo te usar sem nada em troca.

-E o que eu ganho em troca?

Ela se levantou, ficando de pé na cama. Levantou os braços numa pose bem chamativa e deu uma voltinha.

-Ganha tudo isso aqui e sabemos — ela me olhava de cima, com as mãos na cintura — que você tá querendo sentir esse corpinho.

Uma risada alta me escapou. Sim, eu queria! Muito! E a segurança e confiança que ela disse isso só me fez querer ainda mais.

-Não parece meio clichê de romance adolescente? Se pegar por conveniência e acabar criando sentimento?

-Eu sei muito bem que você é um... — ela se sentou de novo, escolhendo as palavras — Mulherengo? Acho que esse termo é justo. Então não precisa se preocupar, sei no que tô me metendo.

-Ei, não sei porque pensa isso de mim. Nunca nem trouxe ninguém aqui desde que se mudou.

-Existem coisas que são estampadas na cara das pessoas. E na sua cara tá estampado "solteiro, livre e desimpedido".

-Então na sua cara poderia estar escrito "as santinhas são as piores".

Ela riu. Aquela risada espontânea que faz a gente querer rir junto.

-Talvez... Mas se você não quer...

Ela fingiu que ia se afastar, me olhando com firmeza, começando a se levantar.

Não perdi tempo pensando. Meu braço deu a volta na sua cintura, derrubando seu corpo na cama. Ela deu outra risada. Girei por cima dela e a encarei por meio segundo antes de dar o beijo que ela já esperava com os lábios entreabertos.

Primeiramente, um beijo desesperado, como se a vida dependesse disso. Com ela era sempre assim: tudo ou nada. E sua boca era como parecia ser: quente. Seu beijo foi ficando mais calmo, mais delicado... Não havia mais aquela urgência. Ela fazia movimentos ritmados mexendo no meu cabelo. Às vezes parava, me olhava com um olhar que... Meu deus, o que era aquele olhar?

Me afastei para olhá-la. Estávamos realmente fazendo isso? Ela tinha um sorriso diferente de qualquer outro que eu já tivesse visto vindo dela. Hoje ela não estava de batom, e mesmo assim, eu não via coisa mais chamativa e atraente do que sua boca naquele momento. Me abaixei, brincando com sua orelha, sentindo ela se arrepiar.

Ela se contorcia por baixo de mim, o corpo arrepiado. Me sentia triunfante.

Então, assim como começou do nada, ela interrompeu do nada. Apoiou suas mãos em meu peito e me empurrou para o outro lado da cama. Se levantou e parou na porta, jogando o cabelo e olhando pra mim:

-Vou levar isso como um sim. Tá com fome?

Eu ainda estava processando o que tinha rolado ali. Com fome eu tava, mas não era de comida.

Fato: as santinhas são as piores.


Manuela

Se eu surtei? Acho que sim.

Mas é o seguinte: foi um bom acordo, principalmente porque moramos juntos e a atração estava ficando muito evidente, então desde que cada um fique na sua, não tem como se tornar uma coisa estranha.

E não sou dessas de ser acordada com beijinho, não to esperando nada além de alívio físico. Se der vontade, a gente se pega. Simples. A gente não tá atrás de um namoro e pronto, isso que importa.

E sabe que estava tudo dando certo desde já? Fomos para cozinha e jantamos o que tinha sobrado do almoço. Nenhum comentário, nenhuma ação entranha... Nada. Foi como se nada disso tivesse acontecido. Conversamos normalmente, rimos lembrando da Laura bêbada no banco de trás do carro, ele implicou pelo conjuntinho de tigre que peguei por engano da lavanderia, me contou sobre seus planos e me pediu desculpa novamente pelo susto que me deu naquela noite, e me explicou o que tinha acontecido.

Parece que a Suzy tinha ligado, e eles discutiram por conta de um ex dela, que pelo que ele me contou, era um completo imbecil. Até mesmo sem conhecer o cara, já senti nojo.

-Por que ela tá com ele? Pelo que me contou, ela é super legal e muito inteligente.

-Não entendo o que ela vê nele. Fico puto só de lembrar — ele levantou e levou seu prato para pia.

-Eu entendo. Mas não me dê outro susto desse, ok? Se sentir que vai ficar daquele jeito de novo, sei lá, dá uns gritos, sai correndo na rua, eu não sei. A gente compra um saco de pancadas pra você se for preciso.

Ele fez que sim com a cabeça. Eu sabia que era pedir demais, mas ele precisava ver que aquilo tinha me afetado de várias formas.

Lavei a louça e cada um voltou pro seu canto.

Nunca tínhamos muita manutenção da casa. Talvez por já estar sozinho antes, ele não era do tipo super bagunceiro. Eu fazia meu horário de estudo, e até agora não tinha tido dificuldade de verdade em nenhuma matéria.

É, eu posso me acostumar com essa vida.