Ainda é cedo.
7 Capitulo 7: Como quebrar um coração
Notas iniciais
Manuela
Fui pra faculdade mais tarde no dia seguinte. Havia recebido um email avisando que não teria a primeira aula.
Eu só tinha que apresentar um trabalho, que eu já tinha feito há um bom tempo. A partir de quarta-feira, seria semana acadêmica e como eu ainda estava no primeiro semestre, eu não tinha que participar. O professor já tinha avisado:
“Quero apresentações rápidas, sem palavras complicadas. Quero me explique o que é a doença, de uma forma que quando tiverem que explicar ao paciente, ele entenda”.
O trabalho era sobre doenças cardiovasculares, e eu acabei ficando com Aterosclerose.
Olhei para o pessoal do meu grupo, depois para o professor. Respirei fundo.
“Sem gaguejar Manu”.
-Bem, a Aterosclerose é a presença de substâncias na parede das artérias, podendo causar Acidentes Vasculares Cerebrais e Doenças nas Artérias Coronárias – respira – O tratamento consiste em retirar as placas de gordura que estão presas e curar a lesão do local – respira fundo – e pode ser feito através de cirurgia, cateterismo, angioplastia ou através de medicamentos, incluindo reeducação alimentar, entre outras mudanças no estilo de vida – se acalma, ta acabando – Outro tratamento que também se pode indicar é a fisioterapia, pois através dos exercícios feitos com acompanhamento, haverá uma diminuição das placas nos vasos sanguíneos, diminuindo o risco de doenças cardíacas.
Eu me calei, e todos continuaram olhando pra mim. Era só isso que eu tinha pra falar? Vasculhei todos os meus pensamentos, e sim, era só isso. Dei um passo para trás e era a vez do Rodrigo.
Não consegui ouvir mais nenhuma palavra do que disseram. Esse trabalho valia metade da minha nota, e eu precisava de uma boa pontuação, mas tinha pego uma parte super besta para apresentar. Sabia sobre o assunto, tinha estudado e podia explicar todo o trabalho sozinha mas na divisão da apresentação peguei a menor parte. Fisiologia da doença? Tratamentos? Agravos e intercorrências? Poderia ter pego qualquer outra parte, poxa!
Assim que minha mãe soube que eu teria que me mudar, disse “Se você não acompanhar o rendimento da faculdade lá, volta pra casa imediatamente, entendeu?". Muita coisa dependia dessa nota. Eu confiava na minha inteligência mas apresentações assim sempre me deixavam nervosa e eu saía atropelando as palavras, falando super rápido.
Sai ainda de perna bamba da sala. Apesar de ser muito comunicativa, odiava falar em público.
-Você tá bem?
Assustei quando escutei a voz tão perto de mim.
-Oi Rodrigo, tô sim e você?
-Eu não tava quase desmaiando enquanto falava. O que foi, Manu?
-É só que... Preciso muito dessa nota. Muito mesmo. E tenho a sensação que não fiz direito mesmo que eu saiba sobre o tema e tenha me preparado.
Ele sorriu gentilmente pra mim. Rodrigo era um cara legal. Tinha o cabelo castanho claro e os olhos verdes, uma personalidade cheia de boa vontade e disposição. Era muito bonito – até mesmo mais bonito que o Edu, tenho que admitir.
-Quer comer alguma coisa? Podemos conversar um pouco se for te ajudar.
Por que não?
-To faminta.
Ele passou o braço pelo meu pescoço e fomos comer. Sentamos na lanchonete da faculdade, que nunca tinha nada delicioso mas servia nas horas de sufoco. Conversávamos sobre assuntos aleatórios, até que ele ficou calado.
-O que foi?
-Me desculpa por aquele dia na festa, sei que forcei a barra...
-Não, tá tudo bem, relaxa. Isso já tem muito tempo.
Estava sendo sincera mas ele não estava satisfeito pois se instalou aquele silêncio desconfortável. Mas foi ele abrir a boca, que senti falta dele calado.
-E aquele cara?
Meu primeiro pensamento na defensiva foi: não é da sua conta. Mas não tinha porque ser hostil, então apenas escolhi me esquivar um pouco.
-Rodrigo, falando daquele cara... Por que pediu pra Laura ir lá me atrapalhar?
-Eu não sei – sua voz mal saia, e de repente, ele começou a falar mais alto – Quer saber? Eu sei sim o motivo. Eu gosto de você Manuela, gosto de verdade.
Quase engasguei com o suco aguado que tomava.
Ta, não sou tão burra ao ponto de não ter desconfiado, mas quando você escuta, é muito pior. A desconfiança vira certeza.
-Rodrigo...
-Não, me escuta — ele abriu a palma das mãos na minha frente, me pedindo calma — Você pode não acreditar, mas eu gosto de você, Manuela. Gosto de como não sabe prender o cabelo, de como não se importa com a sujeira do tênis e de como passa o batom. Gosto da sua bolsa no ombro e do seu riso fácil. Gosto desde a primeira semana de aula. Você é bonita, engraçada e super aplicada nas aulas. Eu não canto, não danço, sou péssimo com as palavras, super bobo as vezes e desengonçado. Mas eu também sempre quis fazer medicina, e sei que posso me aplicar muito quando eu quero algo. E eu quero você. Quero que me dê uma chance, e não vou desistir. Por favor, Manuela...
A única coisa que passava pela minha cabeça era: FUDEU!
Odeio por admitir isso: não sei dizer não. Sei me resolver muito bem com caras idiotas e bla bla bla, mas caras como o Rodrigo... São como filhotinhos com aquela cara de bonzinho e coitado, não dá pra pensar em fazer mal.
E ai, besta que sou, não soube reagir. Porque por mais que minha cabeça gritasse “Não!”, minha boca disse:
-Sim.
Ele levantou a cabeça com o susto da minha resposta.
-É o que? Tá brincando? Por que não tem graça...
Tive que rir.
“Manuela sua idiota, isso não vai dar certo! Você vai magoar o garoto! Ontem você se agarrou com o Eduardo! O EDUARDO!”
Eu sei, eu sei... Mas, nunca vou conhecer alguém que valha a pena se não tentar nunca com ninguém. Não é assim que funciona?
“Cala a boca Manu! Você sabe muito bem como isso vai terminar... E como vai ser? Vai sair com o Rodrigo, e já que não gosta dele e não o vê como nada mais do que amigo, não vai o deixar tocar um dedo em você. Vai chegar em casa, olhar para o Edu sem camisa e se atracar com ele!”
Mas é claro que não!
“Você sabe que vai ser assim, e isso é errado”.
Não sou dessas, ok?
“Vai mesmo falar isso pra mim? Sabe muito bem que sou seu lado racional, estou sempre certo”.
Não mesmo, só estou pensando no sentimento do garoto, ele pode fazer bem pra mim... Sem falar que eu posso gostar dele mais tarde.
“Você não é tão otimista, então para de tentar arrumar desculpa. E sentimento? Você mesma já disse: Sentimentos são filhos da mãe. Você não pode segui-los. E fazer bem? Ah, mas é claro que ele vai fazer! Mas nós duas sabemos que no final vai magoar o garoto e vai se sentir culpada por não retribuir o maldito do sentimento”.
Ora, cale a boca, não sabe do que fala.
“Cale você”.
Então eu calei os dois.
Mente estúpida.
Coração estupido.
Manuela estúpida.
Eduardo
Cheguei mais tarde em casa porque fiquei na biblioteca estudando e encontrei a Manu deitada no chão, olhando pro nada e cantando alguma coisa. Sentei do seu lado, ela não se moveu, consegui entender o trecho que ela repetiu seguidas vezes.
Once upon a time, I was falling in love
But now, I'm only falling apart
There's nothing I can do
A total eclipse of the heart
Once upon a time, there was light in my life
But now, there's only love in the dark
Nothing I can say
A total eclipse of the heart
-Ta cantando Total Eclipse of the Heart? Levou um pé na bunda?
Ela me olhou fazendo biquinho. Parecia chateada.
-Não – se levantou de uma vez, sentando com as pernas cruzadas – mas vou acabar dando um em alguém. E não quero fazer isso...
-Então não faça.
Não era óbvia a solução?
-Você é menino, não vai entender... — ela bufou, frustrada — Não posso não fazer, mas também não posso fazer. Vou magoar ele.
-Pelo amor, me explica o que aconteceu? O pé na bunda é em mim? Fui tão ruim assim ontem?
Ela balançou a mão no ar, mostrando que eu estava falando bobagem. Ela suspirou de forma dramática e começou a contar o que aconteceu. Falou sobre o tal Rodrigo da faculdade e admito que não estava muito interessado. Sem parar de falar, buscou a caixinha do curativo e começou a mexer na minha mão, que estava ficando ótima. Quem diria que usar uma pomada adequada e manter o ferimento limpo e bem cuidado faria mesmo tanta diferença!
Não, eu não entendi o motivo dela não poder dar um fora nele. E não sabia o porque raios ela tinha aceitado sair com ele. O cara era ridículo.
-Por que aceitou, Manuela?
-Porque sou uma burra! Quer dizer, não consigo dizer não com medo de magoar o coitado, ai acabei aceitando… — ela bateu as mãos na lateral do corpo, visivelmente frustrada — Vou ficar fugindo dele, me sentindo super mal e um dia não vou poder fugir, ele vai me beijar e me pedir em namoro, vou aceitar do mesmo jeito que aceitei hoje, mesmo não sentindo nada, e eu vou terminar muito mais rápido do que poderia ter começado. Tá vendo Eduardo, por isso eu odeio os sentimentos! Por isso!
Ela tampou o rosto com as mãos. Nenhuma palavra que saía dela fazia sentido.
Por favor, que ela não esteja chorando.
-O que eu faço?
A voz abafada pelas mãos não escondia o tom de voz. Ela estava realmente chateada. Pelo Rodrigo. Sim, Rodrigo! RODRIGO! Aquele protagonista de filme adolescente de meia tigela.
-O que você faria se fosse a situação inversa... Digo, se fosse você e uma menina?
-Eu não cairia nessa, primeiramente...
-Edu! — ela repreendeu.
-Tá bom. Eu... Sério, seria sincero com ela o mais rápido possível. Se for pra magoar, magoar antes dele se envolver pra valer com você. Quanto mais tempo, pior. E antes dele te beijar, é claro.
A última parte só escapou. Ela me olhou tipo “o que?”.
Boca estúpida! Pensa rápido, arranja uma desculpa!
-É claro Manu, se ele gosta mesmo de você, um beijo vai... Ah, você sabe.
-Vai...? — o tom dela era pura insinuação.
Não acredito nisso...
-Não tá mesmo fazendo isso, tá?
Ela fez carinha de boba, como se pudesse ser inocente quando já estava subindo a mão no meu peito.
-Isso o que?
-Manuela, você não presta!
-Eu nunca disse que prestava.
Manuela
Me xinguem, me chamem de tarada ou de doida. Só não... Sei lá, depois dos beijos lá no quarto dele, não dá pra passar muito tempo olhando aqueles olhos e aquela boca sem me dar uma puta vontade de pular no seu pescoço.
Meu deus, e o Rodrigo? Vou ligar e cancelar tudo... Pedir desculpas, falar que tudo não passou de um engano. Ele vai me odiar, e vai ser merecido.
Depois de algumas marcas que depois eu teria que inventar uma desculpa – será que alergia a perfume era uma boa? – fui tomar um banho e enviei uma mensagem pro Rodrigo.
“Tá ocupado? Precisamos conversar”.
Fui direta, ele tem que ter percebido que a conversa não era boa porque não demorou a responder:
“Passo na sua casa em 15 minutos”.
Minha casa? Com o Edu por perto? Péssima opção.
“Não! Me espera na sorveteria aqui perto, sabe onde é?”.
“Sei, já estou chegando”.
Nada de batom, nada de perfume. Nada que pudesse fazer ele querer algo. Casaco largo roubado do guarda-roupa do Edu – foi por uma boa causa – calça jeans e uma sapatilha. Sem tênis já que ele disse que gostava.
Ele não demorou pra chegar, e me desviei até mesmo do seu beijo na bochecha.
-Então – ele parecia bem desconfortável – queria conversar? Tá tudo bem?
-Sim, queria mesmo – sem travar Manu – Acha mesmo que isso pode dar certo?
-Isso o que?
-Essa chance que você me pediu. Eu não sou esse tipo de garota que você tá pensando que eu sou. E você é simplesmente incrível... Não posso fazer isso. Eu não quero um namoro e algo me diz que você é do tipo que namora. Não quero estragar tudo antes mesmo de começar. Me desculpa... Se quiser me odiar, tem todo o direito.
Ele sorriu.
-Te odiar? Eu não te odeio... Eu me odeio por te fazer esse pedido, exigindo que aceitasse praticamente – ele tentava disfarçar, mas mesmo assim parecia chateado – Sei que você não é a garota perfeita, mas eu não ligo. Tá tudo bem, mas isso não quer dizer que eu vou desistir. Podemos pelo menos ser amigos até eu pensar em algo melhor do que um discurso de meia boca?
Ele era tão bonzinho e compreensivo que parecia mentira.
-Obrigada.
-Amigos?
Ele estendeu a mão, e eu retribui o gesto.
Voltei para casa aos pulos de alegria. Eu não dei pra trás, como jurei que iria fazer. Assim que entrei em casa, dei de cara com o Eduardo meio bravo.
-Quem deixou pegar minha blusa?
-Era isso ou algo que mostrasse a pele.
Ele fez careta.
-Pegue sempre que quiser.
Só uma coisa pra dizer: ele tinha um cheiro bom.
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