Ainda é cedo.

16 Capítulo 16: Eu não tenho esse costume


Notas iniciais
Parte I - Só queríamos estar ali

Eduardo

Pelo menos dessa vez, e repito o dessa vez, ela não gritou ou brigou pra valer comigo. Quer dizer, eu não sabia se isso era bom ou ruim.

"Gus?"

Enviar.

"Pois não?"

"É bom ou ruim quando se faz algo estúpido, mas não leva bronca?"

"Desde quando pede conselho para mim? Geralmente você já chega com a merda feita".

Gus seu idiota.

"Agora sério cara: o que tu fez dessa vez? Dane-se, não quero saber! Vindo da Manu? Acho que não deve ser bom, mas também não é ruim".

Nossa, como ele ajudou...

E a voz dela ecoava na minha cabeça, repetindo sempre a mesma coisa.

"Falta isso aqui, só isso pra eu desistir, pegar minhas coisas e ir embora".

Meu cérebro paralisou ao ouvir isso. Eu senti medo de um jeito que não sentia há muito tempo. Era algo tão improvável me imaginar morando sozinho agora, sem ela. Eu não queria isso. De forma alguma.

Engraçado como que por mais que eu gostasse da Rachel, eu nunca tinha me imaginado morando com ela ou algo assim. Ela ia encher a casa de enfeites, a pia do banheiro nem teria espaço de tanto produto cosmético. Seria um pesadelo!

A Manu não. Quase não tinha decoração, e eram coisas tão simples que nós mesmos fazíamos e colocamos/deixávamos lá. Fotos e desenhos decoravam alguns lugares, uma ou outra coisa deixada pela Suzy... O que enfeitava de verdade agora eram os meus lápis coloridos pela mesa, ou os livros dela pelo balcão. O cheiro do seu perfume ou de provavelmente algo que ela tentou cozinhar e acabou queimando. Eu sempre fingi uma cara de "nossa, que delicia" mas a verdade era "mas que troço é esse no meu prato?". Tirando pratos que envolviam massa, ela era horrível na cozinha. A pia do banheiro só tinha o sabonete líquido, ela fez questão de por uma daquelas prateleiras de vidro para por xampu, sabonete e essas coisas. E tenho que admitir que gostei disso. A gente ia deixando a casa mais funcional conforme nossa necessidade, sem exageros.

Sei lá, acho que não conseguia mais ficar sem a prateleira e o sabonete líquido...

Quer dizer, claro que conseguia, mas ia ser tão ruim e tão estranho.

-Antes que possa começar a falar – ela já entrou falando enquanto esticava o jaleco e se jogava no sofá – não fale! Cansei de ouvir "eu lamento". Pra um cara como você, é muita lamentação! E nem pergunte como foi com o Rodrigo! Do jeito que ele é, vai me dar um tempo pra poder me acalmar e depois comprar algo pra se redimir... — ela bufou, nervosa — Ele é perfeito – OPA! – Perfeito até demais! Odeio gente perfeita... – EBA – São o pior tipo... Sempre tentando fazer tudo certo e bla bla bla. Não tem como não gostar! E aí eu não consigo dizer não... Droga, não tá fazendo sentido isso, né? To exausta!

Não estava fazendo sentido nenhum mesmo, mas eu nem liguei.

-Acho que preciso dormir.

-Você sempre precisa, Manu...

-Não, dessa vez acho que preciso tipo, de verdade! Meu olhos estão pesados... Não sei se por ter acordado cedo, ou por ter discutido com o Rodrigo, ou por ter feito um esforço pra não estrangular você mais cedo, além de ter pego umas cem crianças no colo... Preciso dormir... Dormir...

Ela encostou a cabeça no sofá e pegou no sono lá mesmo.

Tirei a bolsa do colo dela e estiquei suas pernas no sofá. Fui para o meu quarto e juntei minha roupa suja.

Desci com o cesto e quando estava esvaziando os bolsos, encontrei um cartão.

Anne!

Meu braço ainda não estava bom, passava longe disso. Ainda mais depois do clube. E pelo menos com ela eu ficava à vontade... Não sei se ainda seria assim, mas ok.

Peguei meu celular e disquei o número. A mesma voz chata de antes me atendeu.

-Eu queria falar com a Anne, e antes que diga que não, pelo menos fala pra ela que é o Eduardo.

Isso podia não adiantar muita coisa, mas eu tinha a esperança dela ficar curiosa e atender o telefone. E ela atendeu.

-Disse que não voltaria se eu saísse com você...

Ela foi bem direta.

-As dores estão bem ruins, preciso de ajuda... Por favor, Anne.

Pude ouvir ela xingar baixinho.

-Passa aqui daqui a pouco, eu vejo sua situação e te encaminho se for preciso... Mas já te adianto que não vou fazer suas sessões.

-Obrigado, até daqui a pouco.

Era o máximo que eu ia conseguir, porque ela sequer deu tchau antes de desligar.

Depois de lavar as roupas na própria lavanderia do prédio, subi pro apartamento de novo. Ela ainda dormia encolhida no sofá.

Larguei as roupas em cima da cama mesmo, peguei a chave do carro e fui até o consultório. Eu não sabia se devia estar nervoso ou não, mas estava. Não sabia se ela estava com raiva ou não, mas pelo tom de voz no telefone, eu duvidava que tudo estivesse bem.

Eu sabia que não devia ir atrás dela mas odiava assuntos em aberto e sentia que devia encerrar isso.

Já tinha escurecido, e acho que o consultório já tinha fechado, mas as luzes ainda estavam acesas. Bati de leve na porta de vidro, a secretária de voz chata veio falar comigo.

-Oi, a Anne pediu para vir.

-Nós já fechamos...

-Eu sei mas...

-Tá tudo bem – consegui ver os cachos vermelhos atrás do vidro – Pode ir, seu horário já acabou, eu fecho hoje.

-Anne, tem certeza?

-Relaxa Nay, eu conheço ele.

A garota destrancou a porta e saiu sem me olhar. Ela era ainda menor fora da bancada de secretaria.

-Entra – ela disse ainda sem me olhar.

Fechou a porta assim que eu passei e indicou o consultório. Entrei e me sentei na maca, como da última vez.

-Então Eduardo... Me disse que as dores estavam fortes, o que obviamente não era pra estar acontecendo. Fez algum esforço ultimamente?

-Bem... Na verdade, eu meio que me envolvi numa briga.

-Claro – me interrompeu, revirando os olhos e se apoiou na mesa – Não vou te dar bronca e muito menos perguntar o motivo da briga. Não me interessa. Você vai precisar de mais do que uma sessão... – ela fez uma cara de "que droga" – Eu tenho uma amiga que tem um consultório aqui nesse prédio e ela pode te atender...

-Não, quero que você me atenda!

Eu não sei por que disse isso, só percebi quando as palavras já tinham saído.

-Melhor não Edu... Digo, Eduardo. Falei que te encaminharia se necessário.

-Qual o problema?

Eu sabia muito bem qual era o problema, só que ao mesmo tempo, meu cérebro se recusava a processar isso.

-O problema é que nós saímos, lembra?

-Claro!

-E foi muito bom, mas você se esqueceu completamente que eu tava ali quando atendeu o telefone e ficou todo... Você sabe o que aconteceu.

-O que tem? Quer dizer, eu sei que te devo desculpas e...

-Não, você não me deve nada! Eu nem devia ter saído com você na verdade... E agora não posso te atender por simplesmente sempre ficar lembrando do encontro! Isso não vai dar certo, Edu... Eu tenho que ser fisioterapeuta e não sua colega.

-Mas eu gostei de sair com você!

-Eu também, e por isso tô te encaminhando para outro profissional... Por favor, Edu. Não complica.

-Se quer assim...

-Não fala isso... Porque aí parece que to te obrigando a algo que só eu quero! Mas a gente está nitidamente em momentos diferentes.

-É mais ou menos isso mesmo!

Ela fechou os olhos e suspirou.

-Tá então, deixa! Vou me arrepender depois disso, mas ok! Vou marcar as sessões pra você e como foi minha irmã que deu inicio nisso tudo, não vou cobrar de você. Mas poucas sessões devem bastar, depois, tchau!

Ela não disse mais nada, marcou na agenda, me entregou um papel com as datas e abriu a porta novamente pra mim.


Manuela

Acordei com o telefone tocando.

-É né, não adianta... Eu mando ligar e você nunca liga! Eu vou morrer e você não vai sequer ficar sabendo Manuela!

-Oi mãe, que saudade também.

-Você tá bem? Como está a faculdade?

-Tudo ótimo mãe, e com a senhora?

-Seu primo enlouqueceu! Me inventou agora que quer vender o carro dele pra "guardar dinheiro pro futuro". Ele nunca pensou nessas coisas e agora me vem com essa do nada! Mas não foi pra isso que eu liguei. É sobre sua prima, lembra que ela vai casar né?

-Claro, até prometi que ia voltar no fim do ano pra festa.

-Exato... Ela quer saber se você vai trazer sua amiga Suzy para colocar o nome na lista de convidados.

OPA!

Eu não sabia se devia levar o Edu. Ia apresentar ele como? Amigo? Minha mãe não ia acreditar... Nem o resto da família. Falar que morava comigo era fora de cogitação! Minha mãe me arrancava os cabelos e me arrastava pra casa do jeito que eu estivesse! Ia ser uma passagem só de ida e um adeus pra minha faculdade.

-Sabe mãe, ainda não falei com ela... Vou ver e aí eu ligo pra dar resposta, ta?

-Mas tem que ser rápido viu? Ela tem que confirmar a lista pro buffet!

-Pode deixar, mãe.

Não parecia uma boa ideia levar ele – na verdade não tinha razão pra levar, mas sei que queria isso ao mesmo tempo.

Queria apresentar ele pro Sam, e me livrar do John definitivamente. Mesmo que eu tenha beijado ele naquele dia, ele ainda não era minha pessoa favorita no mundo. E tenho certeza de que se ele estivesse comigo na festa, o John me deixaria em paz. Além de que aquele beijo não significou nada!

Ele entrou na hora que desliguei com minha mãe.

-Que bom que acordou! Trouxe a janta.

Ele segurava uma sacolinha com duas embalagens dentro. O cheiro era bom. Mas sua expressão não estava lá das melhores...

-O que houve?

Ele largou a comida na mesinha de centro e pegou os talheres, se sentando do meu lado.

-Promete que não vai me bater, odiar ou qualquer coisa que eu possa ficar mal ou ferido?

-Ta me preocupando mas eu não faria algo assim se não me desse motivo.

-Promete?

Ele estendeu o mindinho, me fazendo prometer.

-É claro – cruzamos os dedos – Agora fala.

Abri minha janta e comecei a comer, para tentar fazer com que o nervosismo passasse. Eu nem sabia direito o motivo de estar nervosa, mas a ligação da minha mãe encheu minha cabeça.

-É que... Quando você viajou, eu tava puto da vida. Você tinha deixado ele te levar, era como se dissesse "eu prefiro ele!". Eu sei que não quis dizer isso, mas foi o que minha cabeça interpretou na hora. Enfim, acabei brigando com você e sai andando sem um rumo certo. Deu que eu fui atropelado e uma garota que estava no carro é fisioterapeuta, me "atendeu" na hora. Ainda meio nervoso, sozinho e com o braço machucado, liguei pra ela. Saímos, ela veio aqui em casa para ver os desenhos, e aí você ligou e acabou ouvindo a voz dela no fundo. Sei que já resolvemos isso, mas é que fui no consultório dela agora. Meu braço está machucado e preciso de algumas sessões de fisioterapia, porque depois da briga com o Caio... Piorou.

-Por que tá me contando? Não é como se precisasse da minha permissão.

-Não sei... Ela ficou chateada pelo que aconteceu porque quando você desligou na minha cara aquele dia, ela foi embora porque viu que não tava tudo bem. E agora eu saí do consultório dela, e fiquei pensando na vida. Achei melhor te contar, não sei por que. Só que não queria "esconder" isso de você, entende? Não to fazendo nada de errado então não vejo porque não te contar e criar uma situação futura. Eu tô insistindo em fazer com ela porque já tinha começado a tratar com ela. Só não quero que pareça algo errado...

E aí antes que eu percebesse, minha boca abriu e eu disse:

-Eu beijei o John na viagem!

Tapei a boca quase que imediatamente. Ele me olhou confuso.

-É o que?

-Antes de querer me matar, eu não sei por que raios fiz isso! E nem sei por que to te falando, é só que...

-Quem é John?

-Meu primo...

-Ficou seu primo? – ele me olhou incrédulo.

-Em minha defesa ele tentou algo comigo tipo, a vida toda! E aí eu tava lá, e ele veio e aí quando eu vi eu já tava também e aí...

Ele fechou a embalagem da comida.

-Eu sou otário mesmo! To aqui me sentindo mal só porque chamei uma menina pra sair e você ficou com outro cara! E ainda por cima tá tentando se explicar!

Ele levantou e saiu nervoso.

Droga, droga, droga!

-Edu espera...

-Esperar o que? – se virou do nada, me fazendo tropeçar no meio do corredor – Não vou esperar você me contar como foi ficar com esse tal John ai! E muito menos vou ficar pra te ouvir lamentando...

-Peraí! Então você pode fazer a merda que quiser e eu tenho que ouvir suas lamentações, enquanto eu não posso sequer tentar me explicar?

-Exatamente!

-Me poupe, Eduardo!

-Pelo menos quando eu lamentava era de verdade!

-Tá me chamando de falsa? Pelo menos eu não saio apostando com o nome de outras pessoas por aí!

-Vai começar com isso de novo? Ficar jogando na cara a vida toda?

-Vou sim, e sabe por quê?

-Por que Manuela?

-Porque eu posso! Você fez a merda e quem levou um murro fui eu! Além da vergonha né... Pelo amor de deus, qual o seu problema?

-Meu problema? Peraí, você levou um murro e eu fiquei com metade da cara destruída!

-Vamos discutir quem apanhou mais agora? Eu nem devia ter me machucado pra início de conversa, não tinha nada haver com isso!

-Não teria acontecido nada se você não tivesse ficado toda jogada pra cima do Caio!

-Então a culpa é minha?

-Não! – ele parou nervoso. Como de costume, soltou um "tsc" e apoiou uma das mãos na parede – Eu não disse isso.

-Foi exatamente o que saiu da sua boca e com sua voz.

-Você quer mesmo terminar essa discussão?

Eu não queria, mas ao mesmo tempo, queria ir até o fim!

-E se eu quiser? – infelizmente minha voz soou menos segura do que eu esperei.

-Tá falando sério? – ele levantou uma sobrancelha, descrente no que eu tinha dito.

-Mais ou menos...

-Sua indecisão ainda me mata um dia...

-Eu sei... É só que, o que rolou com o John, não significou nada. Mas eu sei que essa menina significou algo pra você, se não, não teria voltado nela.

Doía falar isso em voz alta. Por que era tão difícil tentar explicar algo?

-Esse é o problema Manu? Ela ter significado algo?

-Talvez... Mas pera, você que começou a discutir! — então ele concorda que ela tem significado.

-É claro! Você vira pra mim falando que ficou com seu primo como quem diz "comi um biscoito no lanche!". Como se hoje mais cedo eu não tivesse virado e te falado que estava gostando de você! Só pra deixar claro: eu não tenho esse costume!

-Costume de falar?

-Costume de gostar de verdade!

Fiquei muda.

Eu não sabia o que sentia na realidade. Digo, em relação a ele, é claro. Me afetou a confirmação de que ela não era só um encontro qualquer. Eu não sabia explicar, e eu odiava isso. Odiava o fato de sempre reparar no seu sorriso, e como amava seus olhos. Odiava aquele cheiro que era só dele e me envolvia por completo. Odiava aqueles olhos completamente negros e como eles me dominavam e me engoliam de uma forma inexplicável. Odiava como não conseguia definir nada que vinha dele. Odiava como ele me tratava e me deixava sem ação, sem resposta, sem jeito... Odiava não ter o controle de nada que sentia ou fazia quando se tratava dele.

Ai, o que tá acontecendo comigo?

-Edu, eu...

-Eu sei... Não precisa tentar se explicar. É só que, eu não estou acostumado com isso também, então vamos devagar, ok? Mas, você bem que podia começar a cooperar.

Os dedos passavam de leve pelo meu rosto, num movimento delicado.

-Como assim? — me afastei já em defensiva.

-Primeiro, vamos deixar isso por agora, ok? Vamos esquecer esse seu primo porque querendo ou não, e mesmo não gostando de saber, já aconteceu. Eu vou ter algumas sessões com a Anne...

-Anne?

-A fisioterapeuta. Quero que possa confiar em mim. A última coisa que eu quero agora é fazer mal pra você de alguma forma e... – ele bufou, meio incrédulo nas próprias palavras – Quero que se sinta bem em estar comigo.

O "estar" foi em outro sentido.

-Não fala isso, por favor.

-Por que não?

-Porque aí você começa a ficar fofo, e se eu começar a te ver um cara fofo ou legal... Ferra com tudo! E talvez...

-Talvez?

-Talvez só não seja pra ser entende?

-Manu, eu não tô te pedindo em casamento! To pedindo pra você dar uma chance pra si mesma! Não pra mim, mas pra você Manu... Você merece isso. Merece aceitar o sentimento de alguém que goste de você. E como eu disse mais cedo, eu gosto.

Meus olhos ardiam. Eu confiava nele, confiava demais até, mesmo sem motivos... Eu não sabia o que sentia pelo Edu, e nem mesmo sabia se queria descobrir. E isso me assustava de uma forma inexplicável.

-Vamos deixar tudo como tá? Por favor.

Ele abriu um meio sorriso no canto da boca e concordou, vindo na minha direção. Desviei.

-Vamos jantar então.

Voltei para o meu prato e liguei a TV. Não falamos mais nada durante o resto da noite.