Ainda é cedo.
17 Capítulo 17: Rach e Dudu
Notas iniciais
Eduardo
As coisas ficaram meio estranhas no fim da noite, mas no dia seguinte tudo estava normal.
A aula de sexta da Manu tinha sido suspensa, então quando eu saí pra aula – atrasado por sinal – ela ainda estava dormindo.
Fui quase voando pra faculdade. Tinha um trabalho para apresentar no próximo horário e não podia me atrasar.
Todo o planejamento montado, tudo pronto até virarem pra mim e perguntarem:
-Cadê as anotações?
Putz, eu tinha esquecido. Corri pelas escadas já discando o número da Manu.
-É melhor ter um bom motivo pra estar me acordando...
-Minha carreira é válida? Preciso que pegue uns papeis pra mim e leve na portaria, não tenho tempo pra subir e pegar. São algumas anotações, estão na primeira gaveta da minha mesa, embaixo de uma pasta vermelha. Rápido, já tô passando aí.
Manuela
Ele nem me deu tempo de responder. Me arrastei até o seu quarto e abri a gaveta. Tinha mil papeis de anotação lá e várias pastas. Qual era a cor que ele disse mesmo? Comecei a mexer na gaveta procurando os tais papeis. Depois de bagunçar tudo, achei a pasta vermelha. Peguei e comecei a tentar arrumar a bagunça de folhas que tinha feito. No fim da gaveta, achei uma foto.
Era ele e outra garota, que se você não levasse em conta a maquiagem, o cabelo impecável e a roupa, era muito parecida comigo. Eles estavam tão... Felizes. Virei a foto e li em uma letra completamente cursiva e perfeita:
"Parabens para nós!
Que isso nunca acabe
TE AMO DUDU
Beijos, Rach".
Rach?
Dudu?
Ai Deus, por favor, que eu esteja errada... Era coincidência demais! Azar demais.
O Edu era o tal ex da tal Rachel. Ele era o ex abalado.
-Mas que droga...
Meu celular tocou no quarto. Voltei pra realidade. Fechei a gaveta bagunçada mesmo e sai com a foto na mão.
-Alo? – lutei pra minha voz sair normal.
-Achou as anotações?
-Aham.
-Então desce que já to virando a rua.
Desci de pijama mesmo – uma camisa extremamente grande e um short de algodão. Eu estava meio confusa e cheguei na portaria totalmente no automático.
Ele parou o carro e estendeu o braço para pegar.
-Obrigado e... – me analisou dos pés à cabeça – Belo pijama.
Nem me incomodei, eu realmente estava desorientada.
-Valeu – mexi no cabelo tentando disfarçar – Agora vai embora que eu quero dormir...
Ele sorriu e saiu com pressa.
Voltei para o meu quarto e analisei a foto de novo. E de novo. E de novo.
Os dois estavam em uma espécie de parque. A foto era de corpo todo, mas não estava distante. Ela envolvia os braços no pescoço dele, com o corpo de lado e uma perna erguida, pronta para a foto. O cabelo caía sobre os ombros em um corte reto, mais definido do que o meu, a boca com um batom rosa que eu nunca usaria. O vestido amarelo marcava a cintura, ficando solto a partir do quadril. A sapatilha branquinha fechava a imagem da garotinha de ouro.
Ele estava muito sorridente. Envolvia os braços na cintura dela e inclinava a cabeça em sua direção. Eu até conseguia imaginar a cena, ouvir suas risadas, ver eles andando juntos...
Continuei olhando a foto com a cabeça a mil até que nem percebi quando cai no sono.
Eduardo
Deu tudo certo na apresentação.
Cheguei em casa era hora do almoço mais ou menos. Ela ainda estava dormindo. Ia tentar fazer alguma coisa para o almoço e para o cheiro não entrar no quarto, fui fechar a porta. Ela estava encolhida no canto da cama, e tinha alguma coisa no chão. Não precisei me aproximar muito para reconhecer a letra.
Rachel!
Peguei a foto no chão e reconheci. Tínhamos tirado dias antes do acidente, em um passeio que fizemos. Ela tinha revelado a foto e me dado no nosso último aniversário de namoro. Uma semana depois ela sofreu o acidente. Tinha tanto tempo que não via essa foto que nem lembrava mais que ela estava naquela gaveta.
Recebi a notícia pouco tempo depois que soube que a Suzy tinha se inscrito num programa em outro país. E aí fiquei perdido. Sem minha irmã e sem minha namorada, que eram as únicas pessoas realmente presentes que eu tinha. Não vou mentir, eu fiquei muito mal. Ela era bem conhecida por ser filha de pessoas influentes na cidade, então a história se espalhou bem rápido e todos me olhavam tipo "ele que é o namorado de luto?". Eu odiava isso. Ainda odeio.
Mesmo depois de três anos. Não lidei da melhor forma e a fama que me deram não ajudava.
-Não te vi chegando – a voz dela estava fraquinha por causa do sono. Mexeu no cabelo, afastando os fios do rosto. Coçou um dos olhos tentando acordar, e então viu a foto na minha mão. Sua boca se abriu, mas não emitiu nenhum som. Ela veio engatinhando até mim – Me desculpa, eu...
-Não – tive que interromper. Eu que tinha esquecido onde a foto estava, e no lugar dela, teria feito o mesmo – Tudo bem. Você não tem culpa. E eu sei que você é curiosa, então não esperava outra ação.
-Eu ia falar com você – ela se apressou em se explicar – só que... Pera, você disse que tá tudo bem?
Eu só confirmei com a cabeça.
-Desculpa, mas já que sabe que eu sou curiosa, eu tenho que perguntar... Rachel não é? Sua ex... Ela... Comigo... Sabe...Você...
-Quer saber se seja lá o que temos, eu só tô no meio por que você parece com ela?
-Exatamente. Isso ta me torturando desde que achei a foto. Desculpa duvidar do que sente, mas é impossível não pensar isso.
Ai Manu...
-Não, não tô nisso com você por causa dela. Tô aqui por sua causa. Por mais impossível que pareça, você consegue ser uma gracinha com esse jeito de moleque. É até bom que saiba agora porque era o motivo de não ter gostado de você quando chegou. Era como morar com um fantasma. Mas as semelhanças de vocês foram ficando mais distantes conforme eu te conhecia mais. Agora você é só você. Não precisa se preocupar com isso.
O rosto dela até se acalmou e eu pude sentir o alívio.
Manuela
Ele sabia exatamente como me deixar boba. E eu odiava isso.
Eu ainda tinha mil perguntas rodando pela cabeça, mas ao mesmo tempo, não queria realmente saber as respostas. E acho que nem me importava em saber, pelo menos não agora. A dúvida maior já tinha sido esclarecida. Não parecia nervoso ou com raiva por eu ter pego a foto. Na verdade, parecia um pouco... Abalado?
-Então, mesmo eu sendo desse meu jeito... Você tá por mim e não por essa garota completamente perfeita na foto?
-Não confia mesmo em mim?
Eu confiava! Mas... Eu sou meio insegura com esse tipo de coisa.
Como superar um relacionamento perfeito com a menina perfeita?
-Manu, tô aqui por você... E mesmo se quisesse, não dava pra estar com você pela Rachel, ela era uma dama.
-E eu não sou? – claro que isso foi sarcástico – Pra sua informação, eu sei ser uma perfeita dama quando é preciso... E posso te provar isso se for viajar comigo no fim do ano...
Ele me olhou surpreso. O rosto já não mostrava a mesma expressão abalada de minutos antes. Estava curioso e tinha uma pontinha de felicidade.
-Como é que é?
Sentia minhas bochechas esquentando aos poucos. Mas que merda! Mas agora não dá pra voltar atrás.
-É que... – desviei os olhos pra tentar terminar a frase, mas parecia que minha garganta tampava todas as palavras – Minha prima vai casar e... Ela disse que se eu quisesse, podia levar a Suzy comigo...
Ele riu. Uma risada diferente. Ou não. Talvez eu só estivesse extremamente envergonhada para achar alguma coisa normal.
-Só temos dois problemas: eu sou um homem, então é meio difícil eu me passar pela minha irmã. E se quiser levar a Suzy de verdade, vai ter que falar com ela.
-Não, é que... Eu pensei que se aparecesse com você por lá, o John...
-Não ia te encher o saco... Hum, gostei dessa ideia agora. Entendo que vai me usar mas não sou totalmente contra isso. E quando chegasse lá e vissem que sou um homem você ia...
-Ia te apresentar como meu amigo, dando a desculpa de que a Suzy não pode ir. Sei que ninguém vai acreditar, mas é melhor do que falar que nem conheço a Suzy.
-Por que não leva a Laura? Explica tudo pra ela e ela pode se passar por Suzy.
-Não quer ir? — o medo da rejeição já abraçou forte o meu peito.
-Não é isso, é que... Não quero te complicar, entende?
-A Laura é muito porra louca pra minha família – soltei um sorrisinho sem graça.
Na real eu nem tinha cogitado essa possibilidade. A Laura amaria minha família, mas eu queria ele lá.
-Entendi... Quer mesmo que eu vá?
SIIIIIIIIM! Uma mini Manu que eu tentava silenciar pulava animada dentro de mim pensando na possibilidade. Mas não disse nada.
Em todas as festas eu ficava com o Sam, até ele cansar e ir procurar alguma menina por aí. Nas festas de família, ficava com ele, mas agora ele tava namorando então acho que teria mais o que fazer. E tinha minha irmã. Sempre me dei bem com ela, mas ela era meu inverso, e se entrosava com toda a família. Acabava que eu sempre ficava de lado, só vendo ela conversar e sorrir acenando a cabeça.
-Olha que quem cala consente...
-Não seja tão convencido! – pausa dramática – Então é um sim?
-Talvez...
Ele voltou os olhos para a foto.
-Você tá bem?
-Uhum, é só que... – ele deu um meio sorriso, mas sem realmente achar graça – Eu adorava esse vestido dela.
Senti um aperto no peito. Não era ciúme.
Me sentia mal pela tal Rachel, mas poxa, até morta essa menina vinha perturbar! Já tinha apanhado por causa dela e até alguns minutos atrás nem sabia quem era a bendita.
Depois me senti mal por ter pensado isso.
-Vocês ficaram quanto tempo juntos?
-Depende... Conheci ela em uma padaria que tinha aqui perto, devia ter uns catorze anos. Começamos a conversar e mais ou menos com quinze eu pedi ela em namoro. Ela ficou super feliz, aceitou na hora. Com dezessete ela ficou com outro cara...
-Pera – tive que interromper – Ela te traiu?
-Depende do ponto de vista.
-Existe ponto de vista para traição?
-Ela tava comigo, e conheceu um cara. Começou a conversar com ele, saíram algumas vezes, ela jurava de pé junto que nunca beijava ele ou algo do tipo, e eu acreditava por simplesmente saber como ela odiava traição. O pai traiu a mãe e foi embora então a fidelidade era a coisa mais preciosa para ela. De toda forma, isso não vem ao caso! Ele largou a namorada dele e pediu ela em namoro. Ela não aceitou até terminar comigo. Passaram mais ou menos um mês e terminaram, e cada um voltou pro ex.
-Então traiu ou não?
-Depende se você acreditava nela ou não.
-E no final foram quantos anos?
-Sem contar com esse mês separados, três anos.
-Uau – eu não me imaginava tanto tempo com alguém sem enjoar da pessoa.
-Não se imagina assim?
-Nunca! Mas... Eu pensei que você era tipo cafajeste, sabe? Tô surpresa que ficou todo esse tempo com ela e o mistério de ter traído ou não envolva ela e não você.
-Eu era... Quer dizer. Depende de novo do ponto de vista. Ela me deu essa foto no nosso último aniversário. A Suzy tinha acabado de ganhar a bolsa do intercâmbio, e eu fiquei sabendo que ficaria sozinho aqui. Eu em meus plenos dezoito anos, sem supervisão... Pensa em quanta besteira eu não ia fazer? Então alguns dias depois eu recebi a notícia do acidente da Rach – o jeito que ele sempre se referia a ela me revirava o estômago num misto de ciúme e culpa por ter ciúme de uma pessoa morta – e só depois daí, depois de meses de luto, eu virei um cafajeste. Dezoito anos na cara, um carro e uma casa só pra mim. Claro que nunca fui santo, mas nunca desrespeitei ela. E digamos que tudo que eu não fiz nesses três anos com ela, fiz nos outros um ano e meio que passaram. Eu não pensava muito sobre as coisas porque do jeito que ela morreu jovem, sendo certinha e do nada, eu só pensava que podia rolar comigo então pra que me privar dos prazeres da vida? Quase perdi o primeiro ano da faculdade. Acordava sem saber como tinha parado naquele lugar. Nem dá pra contar quanto dinheiro gastei com celular novo. Chegou no ponto que eu comprava o mais simples da loja, só pra manter contato com a Suzy. Um dia encontrei um dos aparelhos tocando dentro do freezer e por incrível que pareça, ele ainda funcionou muito bem.
Ele sorriu, e dessa vez achava graça
-Eu tentei compensar os anos com ela... Tentei esquecer o que sentia. Por isso te odiei logo de cara! Eu tinha passado um ano e meio só de farra, e outros seis meses tentando voltar pros meus eixos, e aí você chega me lembrando tudo que eu não tinha mais. Todo o esforço que eu tinha feito nos últimos meses desabaram. Você ERA a Rachel. A versão dela viva e dentro do meu apartamento, prontinha para me assombrar.
-Era?
-Era! Não te vejo mais como ela. Você agora é você, Manu. Só você. Só tem uma coisa em comum. Ela me mantinha na linha, e você meio que faz isso também.
Ótimo, ia começar a comparar eu e a falecida.
-Só que você não faz esforço nenhum pra isso. É algo natural de você, então não sinto que estou sendo um fardo. Porque esse cuidado você tem com todos ao redor. Diferente da Rachel, você não escolheu ser assim. Você me faz querer ser melhor.
-Ela parecia ser...
-Perfeita? Sim, ela era. E isso às vezes me dava nos nervos, sabia? A gente não brigava, tipo, eu e você. Era a nora sonhada por toda mãe. Sempre impecável. E quer saber? Isso era chato! Era a namorada perfeita, e isso me obrigava a ser o namorado perfeito. Mas eu não era... Só fingia ser. Sendo sincero, nem sei como eu vivi esses anos com ela porque não era eu mesmo. Eu a amava, claro. Quando a gente ficava sozinho, podíamos ser apenas dois adolescentes bobos apaixonados. Mas no resto do tempo, era um belo teatro. Hoje olho pra você, e já não consigo mais imaginar ela.
-Mas fisicamente...
-Sim, fisicamente vocês tem muito em comum. Mas só.
Ele falou como se não se importasse. E eu entendia isso, só não conseguia acreditar.
-Isso não te incomoda?
-Se você se parecer com minha ex morta me incomoda? Não mais, como disse, você deixou de ser ela pra mim faz tempo. Entende o que eu to falando?
-Acho que sim...
-Tem muito achismo ai pro meu gosto. Eu só não quero que volte a pensar que to com você por causa dela, ok? Você é você e eu enfim sinto que sou eu mesmo. Cheio de erros e vacilos, mas eu.
Só confirmei com a cabeça.
-Ótimo, agora me ajuda a fazer o almoço.
Ele levantou dando um tapa na minha perna.
-Vou trocar de roupa e vou.
-Não, tô adorando você nesse blusão.
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