Agora Ou Nunca

8 Almoçando com o inimigo - Parte 2


Notas iniciais
Como prometido, a segunda parte da história.
Boa Leitura!

O restaurante que ele a levou era tão perto que dava para ir a pé. Sakura agradeceu à Deus por isso. O pensamento de se ver presa dentro de um táxi ao lado dele era insuportável, quase sufocante. Embora caminhar também não fosse muito agradável.

Ela sentiu-se estranha ao lado dele e não conseguia olhá-lo. A muito tempo não se sentia assim. Ficar nervosa na presença de um homem a ponto de não olhá-lo na cara. Pela primeira vez Sasuke estava mexendo com sua cabeça.

Para piorar a situação dos dois, eles caminhavam em ritmos diferentes, tentando adivinhar a velocidade natural um do outro.

Sasuke é alto, então Sakura decidiu que ele, provavelmente, andava muito depressa. Não queria ficar atrás, então começou a andar com muita rapidez, para acompanhá-lo. De repente, sentiu que provavelmente estava andando rápido demais, e então diminuiu a marcha de forma exagerada. Ao mesmo tempo, ele reparou que ela diminuíra a velocidade dos seus passos e, chateado consigo mesmo, pois deduziu que devia estar forçando-a a acompanhar seus passos longos, então começou a caminhar a passos lerdos, no estilo devagar-quase-parando. Mas Sakura reparou no quanto ele estava caminhando em ritmo deliberadamente lento, aquilo parecia pouco natural e então resolveu acelerar novamente. Ele fez o mesmo, pensando que ficara lento demais para ela. E assim, nesse ridículo passo corre-pára, meio desencontrado, chegaram ao Pimenta Malagueta.

Restaurante caro e barulhento, o Pimenta Malagueta estava no auge da moda. Com sua fachada em linhas curvas, feita de tijolos de vidro, e um exagero no uso de madeira clara por dentro, não era muito diferente do lugar onde comemoraram o aniversário de Ino.

Sasuke tivera o cuidado de reservar uma mesa no canto. Depois de se instalarem, o barulho pareceu diminuir e Sakura começou a relaxar. A ponto de pedir um cálice de vinho.

— Não fique me olhando desse jeito. – disse ela. – Eu posso ser muito "Caxias" no trabalho, mas ainda sou humana.

— Não estou olhando para você "desse jeito" – reagiu ele, lançando um de seus sorrisos largos. – Se você quer um cálice de vinho, terá o seu cálice de vinho. Tome quantos quiser...

Olhava para ela com tanta satisfação e estima que ela ficou um pouco incomodada e disse, para fugir do embaraço, de forma objetiva:

— Vamos aos negócios. Na conta da cerveja Smith, as principais áreas em que o orçamento estourou foram...

— Sakura... – interrompeu ele de forma gentil, e o jeito com que pronunciou o nome dela, quase com tristeza, a fez ficar com vontade de se levantar e ir embora. – Podemos fazer o pedido antes? E, subitamente, ela decidiu baixar a guarda e dar a si mesma um tempo, só por uma hora. Já estava rechaçando-o há tanto tempo, e reparou que nunca ninguém tinha insistido tanto por uma chance com ela que de repente viu-se subitamente sem munição. “Por que não deixar alguém ser simpático comigo?” Foi seu pensamento.

Então o sorriso que lançou para Sasuke foi, pela primeira vez, despido de sarcasmo ou desdém. O que acabou inflando o peito do moreno.

— O que vamos pedir de entrada? – ele perguntou, apontando com a cabeça para o cardápio dela, ainda fechado.

— Provavelmente o risoto de funghi. – ela disse com brilho no olhar. E você?

— Eu quero a sopa de coentro com ervas finas. Ei! – exclamou ele, examinando o cardápio. – Aqui não tem risoto de funghi.

— Ah, tem que ter! – sorriu. – Olhe só para este lugar! – e esticou a mão exibindo as paredes texturizadas em tom verde-limão, os pequenos jardins orientais, as minúsculas luminárias metálicas embutidas no teto.

Ao notar que Sasuke estava rindo muito, sentiu-se desabrochar diante de seus olhos. Ao abrir seu cardápio, Sakura exclamou: — Aqui não tem sopa de coentro com ervas finas também!

— Ora, mas tem que ter! – ecoou Sasuke. – Isto é, olhe só para este lugar!

Então, para o desconforto de Sakura, foi a vez de Sasuke se abrir diante dela.

A garçonete logo chegou:

— Gostaria de informar a vocês a respeito dos pratos especiais de hoje. Como entrada, temos o risoto de funghi...

Sakura nem ouviu o resto. Lançou um sorriso imenso para Sasuke que, pego de surpresa pela calorosa demonstração, devolveu-lhe com satisfação uma fileira de dentes brancos. Então ela lembrou como aquele tipo de coisa podia ser divertido. Ao observar com atenção os longos e delicados dedos dele, que brincavam com a haste do cálice de vinho, girando-a devagar, sentiu a mesma sensação de manhã quando ele estava em frente à sua mesa. Sentiu ainda o coração aquecer ao mesmo tempo que um frio na espinha percorria. Oh, não!

Pediu tagliatelle. Não desistiria. Recusava-se a pedir algum tipo de refeição segura, daquelas que não oferecem riscos de acidentes à mesa e sempre devem ser consumidas em um primeiro encontro. E daí se o tagliatelle ficava na ponta do garfo, em pontas desencontradas, no caminho do prato à boca? E daí que um pouco da comida ficava grudado no queixo, cobrindo-o de molho? Isso mostrava que ela não estava nem aí para isso... Não é mesmo?

À medida que comiam o primeiro prato, a conversa migrou naturalmente para o assunto que eles tinham em comum: trabalho. Sasuke falava de forma descontraído a respeito de si próprio, e isso fez Sakura suspeitar que ele desejasse que ela fizesse o mesmo. Mencionou alguma coisa a respeito de ter "ido em casa" há poucas semanas. Então, disse:

— Fiz 33 anos em julho, e minha mãe decidiu que, já que eu não me casei até agora, devo ser gay.

— Onde sua família mora? – perguntou ela. “Por que perguntou estúpida?!”

— Derbyshire. No fundo, sou um menino do interior. Sasuke não tirava o sorriso largo do rosto.

Os pratos principais chegaram. O de Sasuke era uma surpreendente e elaborada construção vertical.

— Como será eles montam isso? – perguntou admirado, tentando identificar os diversos componentes com os olhos. – Já sei! Uma camada de bruschetta, uma camada de frango, uma camada de manjericão, uma de tomates secos e por cima uma cobertura de mussarela. Repitam tudo nessa ordem, se necessário.

— Você sabe cozinhar? – Sakura nem sabia por que perguntara aquilo. O que lhe interessava, afinal?

— Sei sim! – garantiu ele, piscando o olho. – Preparo um ensopado com curry verde que é comida tailandesa da melhor qualidade. Quer saber como eu faço?

Ela fez que sim com a cabeça, enquanto enrolava o tagliatelle no garfo, sentindo a empolgação diminuir. Agora ele ia tentar impressioná-la com sua habilidade para cozinhar, típico do “Homem Moderno”. Um tédio só!

— Bem, primeiro você tem que comprar os ingredientes. Qualquer supermercado serve. Ao entrar, vá ao balcão dos refrigerados. Ao chegar em casa, retire o papelão que fica em volta, com todo o cuidado, e fure a cobertura de plástico com o garfo. Tem que furar quatro vezes. Então, e esse é o meu grande segredo, você não deve seguir as instruções. Embora na caixa diga que o prato deve ir ao microondas por quatro minutos, programe apenas três minutos e meio. Nesse momento, retire a cobertura plástica e torne a colocar no forno por mais 30 segundos. Isso dá um resultado fantástico, que nós, especialistas, gostamos de chamar de efeito caramelizado.

Terminou o relato com um sorriso ao ver que ela riu de verdade, aliviada, achando a história realmente divertida.

— Bem... Na verdade fica um pouco duro, às vezes. – admitiu ele. – Agora é a sua vez de me ensinar uma de suas receitas.

— Certo. – concordou ela. – Deixe-me pensar um pouco. Ah, já sei! Lembrei de uma receita boa. Você vai precisar de um catálogo telefônico, embora esses folhetos que vêm junto com a correspondência ou até mesmo aqueles que colocam por baixo da sua porta possam quebrar o galho. Pegue o telefone com cuidado, digite o número especificado, peça uma pizza gigante de atum com borda crocante e porção extra de molho de tomate e, em seguida diga em voz alta o seu endereço. Pronto! Uma refeição deliciosa pronta em menos de meia hora, dependendo do motoboy.

— É bom saber disso. Talvez eu experimente essa receita uma noite dessas, quando o chefe do meu marido vier jantar conosco.

— Você alguma vez na vida já cozinhou? – ela estava se sentindo à vontade com ele.

— Não, nunca e você?

— Você odeia gente que se gaba de saber cozinhar?

— Não os odeio, exatamente. Simplesmente não os compreendo.

— Sei o que quer dizer.

— Se Deus queria que todos nós soubéssemos preparar bolos, por que inventou as confeitarias?

— Exato.

Sakura tinha de admitir que Sasuke era legal. Ou, pelo menos, que parecia legal. Então repararam que começou a chover.

— Chuva. – suspirou Sakura.

— Eu gosto de chuva.

— Pelo jeito, você gosta de tudo.

— Acaba de me ocorrer que a maioria das coisas pode ser boa para nós. A chuva, por exemplo. Imagine só... Chove sem parar do lado de fora, e os pingos estão batucando nas vidraças, mas você está dentro de casa, com a lareira acesa, deitada no sofá, debaixo das cobertas, acompanhada por uma garrafa de vinho tinto...

— ... Usando meias grossas de lã e calças de moletom — interrompeu Sakura, surpresa por ter entrado no clima tão depressa.

— E a comida chinesa que você encomendou já está a caminho — concordou Sasuke com seu sorriso ao perceber que Sakura começara a se empolgar assim como ele.

— Um filme antigo rolando na tevê...

— Um filme clássico, pode ser aqueles preto e branco, para te relaxar ainda mais. — os olhos de Sasuke estavam acesos de tanto entusiasmo.

Ambos se olharam fixamente. Um relâmpago pareceu conectar os dois em um momento tão íntimo que Sakura sentiu como se ele tivesse revistado a sua alma de cima a baixo, apalpando-a com força.

Foi quando a garçonete escolheu este exato momento para colocar a cara entre os dois e perguntar se já haviam terminado. Sakura quase a beijou, agradecida, enquanto Sasuke sentiu vontade de rachar-lhe a cabeça com um porrete.

Em um esforço para adiar o momento em que teriam de voltar para o trabalho, Sasuke sugeriu a Sakura, que ela pedisse uma sobremesa.

— Que tal uma torta com triplo recheio de chocolate? – perguntou Sasuke.

Sakura olhou discretamente para o relógio e vira que já era tarde. Eles haviam estourado por completo a hora de almoço. Sasuke já tinha percebido as horas a muito tempo, mas tentava retardar o retorno deles à empresa.

— Você vai pedir alguma coisa? — perguntou a ele. Sua máscara estava de volta.

— Não, mas...

— Então, é isso aí... — replicou ela, com frieza. Ele ficou se perguntando o que acontecera de errado. Estava tudo correndo tão bem...

Sakura pediu um café expresso duplo e começou a declamar fatos a respeito dos custos fixos e variáveis da conta da Smith. E para mostrar a ele que a hora do recreio terminara, pegou uma planilha na bolsa.

— Que tal um licor? — sugeriu Sasuke, quando ela acabou de fazer as contas. — Só um e podemos ir embora.

— Ela balançou a cabeça, com a cara fechada. E se levantou.

Sasuke deu-se por vencido, por enquanto. Não entendeu a subida mudança de humor de Sakura, estava tudo indo tão bem... Mas não desistiria. Sakura era diferente que qualquer mulher que conheceu. Por isso sabia que valeria cada esforço só para ficar com ela.

Já eram quase quatro da tarde quando eles chegaram de volta na empresa. Era normal que as pessoas chegassem tarde do almoço, ou então nem chegarem. Por isso ninguém percebeu a hora quando eles pisaram na empresa.

Só uma pessoa percebeu: Karin. Na verdade viu os dois saindo juntos na hora do almoço. Pensou que fosse coincidência, afinal a Senhorita Gelo não almoçava com ninguém. mas agora os vendo chegando juntos e àquela hora, foi impossível não torcer a boca, em sinal de desagrado. Também fechou a mão, amassando o papel que segurava. Se continuasse assim ela não teria nenhuma chance com o moreno. Enquanto a rosada o dispensava, ela tinha esperanças, só depois de hoje, vendo-os juntos. Estava a ponto de desistir.

Para Sakura esse atraso não deveria ter acontecido. Bem, não tornaria a acontecer, e ela ia se assegurar disso.

A verdade é que Sakura tinha medo de se relacionar. Fechou o seu coração para não se magoar. Não confiava nos homens. Eram traiçoeiros. Por isso agia de forma fria e muitas vezes estúpida com eles.

Até agora conseguiu mantê-los longe, mas Sasuke era insistente. Nunca ninguém insistiu tanto assim, por tanto tempo. Se Sasuke era teimoso, ela também era. Iria empenhar-se ainda mais para mantê-lo longe de si. E iria conseguir. Não é mesmo?

Notas finais
Nota: Derbyshire existe mesmo. É um condado e faz divisa com a cidade de Manchester.
Críticas? Sugestões? Opiniões? Estou a disposição.