Agentes da CIC - INTERATIVA
7 Buracos na sociedade
Notas iniciais
— Que tipo de assunto, chefe? – perguntou Ethan, preocupado.
— Recebi recentemente uma informação da Corporação ORBIS.
— ORBIS, ORBIS... – começou Rachel – Ah! A Organização de Biologia e Segmentos: eram uma grande empresa há algum tempo, lá nos Estados Unidos.
— Exatamente, Rachel, inclusive vieram recentemente para o Brasil, há quatro anos. O governo aprovou sua entrada pelo grande avanço que teríamos na parte de pesquisa, com associação nas universidades e laboratórios do país.
— Mas então, o que aconteceu com ela pra que tenha sumido assim? – indagou Ricky.
— O FBI nos contatou e informou do passado da empresa: mesmo com todo o foco em ajudar a humanidade, eles eram responsáveis por fornecer armas biológicas e tecnológicas a terroristas, visando receber prisioneiros de áreas de conflito para avançar em suas pesquisas antiéticas.
— Que perigo... – comentou Helena – Confabular com terroristas não é saudável pra ninguém.
— Sem falar que assim tá financiando a violência e o medo na população – disse Jed.
— Descobrindo isso, o FBI abriu uma operação que revelou o que a empresa fazia, e assim a fechou, apagando todos os registros possíveis há dois anos.
“Porém, Keira Walker, a atual chefe do bureau, me chamou, avisando que teve movimento da Corporação aqui no Brasil. E é isso que eu quero que vocês investiguem... Pode não ser nada, mas considerando o histórico dela, não posso tomar riscos.”
— Onde ela tá? A Corporação... – disse Ethan, pensativo.
— No norte do país, perto da Zona Franca de Manaus.
— Puts! – exclamou Ricky, passando a mão nos cabelos – É longe pra caramba.
— Cuidarei pra que tudo esteja pronto até amanhã. Quero que estejam cientes que não será uma missão fácil: o Norte ainda tem pouca exploração, e a ORBIS está num local isolado próximo à junção do Rio Negro com Solimões. Vou também despachar um aviso para a CIC do Amazonas.
Ethan e Helena deram um largo sorriso agradecido perante a informação, mas o rapaz não deixou de visualizar tudo que poderia dar errado. E o que a Corporação ORBIS havia feito no Brasil, depois de dois anos no limbo? Havia ainda o problema que eles não sabiam qual o “movimento” que a chefe do bureau mencionou: poderia ser reativação de tecnologia de armas, experimentos biológicos, desenvolvimento de transportes camuflados, qualquer coisa. No fim, Ethan estava com um mal pressentimento, que foi percebido por Rachel.
—--
Foram até Darla no dia seguinte Ethan, Ricky, Helena e Rachel. A mulher estava numa das estantes, de pé numa escada, procurando alguns componentes para modificar as armas que tanto adorava. Escutou o farfalhar das roupas e pisadas das pessoas na bancada, descendo com um pulo e correndo até eles.
— E aí pesso-- Nossa, veio o país todinho, foi? – brincou Darla, mas ainda surpresa.
— Pois é – confirmou Ricky – Valentine deu o aviso pra tu, num foi?
— Deu, deu. Pera que vou catar ali.
Darla andou várias vezes de lá para cá, cada vez voltando com uma maleta de aspecto pesado e depositando pesadamente na frente deles. Quando deixou as cinco, começou a explicar.
— Pra Ricky, a sua preferência: armas automáticas – disse a mulher enquanto apresentava o equipamento, abrindo a maleta de uma forma dramática – uma submetralhadora de calibre .45, com coronha rebatível, pente de alta capacidade e uma mola de impacto, tudo para causar mais estrago. E para completar, um rifle de assalto de calibre 5,56, com apoio compensador de recuo e mira de ponto para mais precisão. Vem com uma pistola de choques pra acompanhar.
— Oh, papai: nem sabia que era meu aniversário – disse Ricky, sorrindo bastante e pegando a maleta.
— Ethan, você me deu trabalho, mas aqui tá um rifle de precisão de calibre .308, feito para estourar cabeças, com mira ótica de 20 vezes e um apoio para chão. Venho também com uma pistola de calibre .40, acoplada com silenciador, suporte para coronha externa e pente estendido. Lembra que ela também pode ser colocada no automático.
— Obrigado! – agradeceu Ethan, fechando a maleta e indo para o cubículo.
— Pra Helena fiz algumas coisas mais furtivas, mas ainda servindo pra qualquer combate: aqui tem uma submetralhadora de 9mm, com mira a laser, silenciador e visão noturna. Pra completar, uma pistola tática de 9mm com lanterna e pente estendido para os combates mais longos.
A mulher meneou a cabeça, admirando a qualidade das modificações das armas. Pareciam também novas, como se nunca tivessem saído da caixa. Pôs a mão na pistola, sentindo seu peso, e a arma pareceu se ajustar perfeitamente à sua pegada, sendo bem confortável e equilibrada.
— Conseguiu fazer isso tudo de ontem pra hoje? – exclamou Rachel, impressionada.
— Ah, minha filha, eu sou rápida que você nem sente.
Antes que Rachel pudesse falar, Ricky chamou todos para o local da equipe, onde iriam se juntar a Jed para planejar o curso de ação.
— Ué, Jed? – perguntou Rachel, vendo o homem de cabelos loiro-escuros se virar na mesa do computador, parecendo um chefão de máfia. Só faltava o gatinho para alisar – Não vai pra campo não?
— Ah, não, não. Eu não dou muito certo em operações de campo: meu trabalho sempre foi mais de escritório. Mas não se preocupem: vou dar suporte total a vocês via rádio, satélite e internet.
— Saquei, seu medroso – comentou Ricky, mas não parecia irritado – Bom, vamos ter que ter suporte lá. Manda uma mensagem pra lá avisando que a gente tá indo e que vai precisar de agentes de lá.
— Beleza, chefe!
Ao seguirem para a garagem, o homem comentou para os dois: “É tão legal ser chamado de chefe!”, o que rendeu um soco no ombro de Ethan e um tapa de Helena. Desceram a pequena ladeira para o subsolo, onde viram o acervo de veículos estacionados. Helena pegou um dos carros que ela mesma modificou e foram dirigindo até o aeroporto, onde lá iriam pegar um avião particular para então se dirigirem para o Norte.
O caminho foi tranquilo, só atrasado pelo trânsito de motos frenéticas, caminhões de carga e carros antigos pelo centro comercial de Santa Rita. Ao contrário de outras capitais, o aeroporto da cidade de João Pessoa fica em sua área metropolitana, afastada alguns quilômetros da área urbana, numa área isolada para permitir expansões. Apesar de pequeno, o aeroporto já é reconhecido por ser internacional, também recebendo voos de todos os estados. Em pouco menos de meia hora de trajeto Helena conseguiu estacionar no hangar de aeronaves. Desceram do carro, vendo o avião que iriam pegar: era pequeno, do tipo que ricaços teriam em seu quintal da mansão, de cor branca, asas um pouco longas e duas turbinas na traseira. A escada estava descida, com o piloto esperando. Entraram após mostrarem seus relógios e se acomodaram nas confortáveis poltronas. O copiloto veio falar com eles pouco antes de partirem, após obter o sinal verde para sair.
— Vai ser uma viagem de 7 horas. Caso queiram descansar, temos camas na parte de trás da aeronave – disse o homem com um sotaque do centro-oeste do país.
— Beleza, compadre, valeu – agradeceu Ricky e dispensou o homem. Este retornou para o cockpit e fechou a porta, voltando a visão para seu companheiros – Esperamos muita resistência por lá: acho que a ORBIS tá com alguma coisa carregada...
— Bem – disse Ethan, puxando a caixa de sua pistola .40— Só vamos saber quando chegar. Bem que estranhei a CIC ter armado a gente pra uma guerra.
— Nada de anormal aí, né? Acho que a gente devia mesmo andar armado até os dentes – comentou Helena, se espreguiçando na cadeira – Evita ser pego de surpresa.
— Mas a população ficaria com medo de nós.
— Melhor assim: fica mais fácil de trabalhar. Sem curiosos. E além do mais, meu caro Watson – respondeu a mulher, se aproximando bem rosto do rapaz – A CIC tá aqui pra acabar com o crime, não ficar amigo do povo.
Ethan não falou nada, só retribuiu firmemente o olhar de Helena. Sabia que o que ela falava fazia sentido, afinal eles haviam sido chamados para acabar com o crime organizado e ajudar a sociedade a viver sem medo nas ruas. Mas também partilhava do pensamento que se uma corporação tão poderosa como a deles fosse a lei, então eles teriam se tornado aquilo que queriam combater. Viver no lado certo não era nada fácil, e com esse problema só aumentava a responsabilidade que tinham sobre suas ações e sobre o povo.
— Por favor, não liguem pra mim, podem continuar – subitamente a voz de Ricky soou, repleta de malícia. Ethan olhou para o parceiro, que estava com aquele sorriso safado e depois voltou o olhar para Helena, que o encarava agora confusa. Foi aí que ela viu como estava debruçada sobre o rapaz, com os braços apoiados na poltrona, o tronco inclinado e bem próxima do rosto dele. Imediatamente, o rapaz arregalou os olhos e se afastou dela como se fosse um imã de polaridade igual, virando a face para os lados, levemente vermelha. Ethan se levantou e foi para o banheiro, com o coração acelerado.
Helena se sentou e olhou para Ricky com confusão e ligeira vergonha. Não havia pensado assim antes, mas começou a rir, imaginando o que teria se passado na cabeça do rapaz. Resolveu deixar pra lá: parecia que iria se divertir muito com ele ainda.
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