Aftermath
3 Uma canção venenosa
Notas iniciais
Eu acabava de acordar no colo da minha mãe, como acontecia todos os dias. Passávamos todo o tempo juntas, e não víamos mais ninguém; éramos as únicas na vida uma da outra.
Mamãe disse que tudo ia ficar bem, e logo sairíamos daquele quarto. Era estranho imaginar que existiam coisas fora daquela prisão, mas mamãe garantiu que eu ia ficar impressionada com as maravilhas do mundo lá fora. Ela me contou sobre aparelhos que transmitem voz de pessoas, mesmo elas estando longe uma da outra. Contou-me sobre bichos selvagens que não falam como nós, mas alguns nos ajudam a fazer tarefas. Disse que havia vários tipos diferentes de gente, e que cada uma falava em um idioma. E que um desses tipos de gente estava nos mantendo presas no quarto. E ali eu vivi por muito tempo: num quarto de pedra, um colchão e uma lâmpada amarela. Todo dia chegava comida pela fresta da porta de metal, pesada e barulhenta. Nesses momentos eu podia ver vultos dos homens maus, que nos mantinham presas. Eu ficava quieta pra eles não me pegarem. Mamãe contava riscos na parede para saber quantos dias se passaram. Ela chamava de “calendário”. Segundo ela, naquele momento, eu tinha nascido há dezesseis anos atrás.
Num dia, os homens abriram a porta pela primeira vez, e nos agarraram pelos braços. Eu gritei pela primeira vez na vida em total desespero, mas eles me ignoravam. Fomos carregadas até uma sala branca onde tinha uma cama. Eles espetaram minha mãe enquanto falavam palavras indecifráveis naquele idioma estranho. Minha mãe não reagia, mas eu gritava o mais alto que podia. Pedia pra que parassem, mas era respondida com um golpe no meu rosto. Mamãe estava triste e não tirava os olhos de mim. Ela dizia pra eu me acalmar, pois tudo acabaria logo. Em seguida me prenderam na cama onde minha mãe estava e pegaram uma agulha ainda maior. Minha mãe me disse pra eu não me preocupar, pois só seria uma dorzinha rápida, mas os eles a bateram no rosto também. Pelo jeito eles não gostavam de gente barulhenta. Resolvi ficar quieta e confiar na mamãe. Fechei os olhos e sonhei com o dia em que minha mãe me mostraria o mundo lá fora.
...
Mamãe disse que se passaram quatro anos desde que eles nos espetaram com aquelas agulhas. Ela não entendia por que eu estava tão saudável enquanto ela estava cada vez mais fraca e doente. Ela ficava se perguntando porque injetaram uma coisa diferente em mim, naquela agulha maior. Eu perguntava “mamãe, o que é injetar?”, e ela dizia “não se preocupe Eva, tudo vai ficar bem.” Sei que não conheço muitas coisas, mas eu percebia que ela só não queria que eu me preocupasse. Mas eu sabia, ela estava muito doente e logo ia morrer. Mas de algum jeito eu também sabia que eu podia curá-la, e dormia sonhando em abrir aquela porta e correr pra longe com ela.
Nesse dia os homens maus abriram a porta de novo, e nos levaram pra sala branca. Dessa vez não gritei, pra mostrar que aprendi a lição e não precisariam me bater. De nada adiantou, pois eles nos seguravam, um homem em cada braço, e depois de um barulho enorme ecoou na sala, saindo da arma de um homem de roupa bege. Minha mãe estava sangrando muito pela testa. Ela tinha caído no chão, e os homens de branco e azul a deitaram na cama, e começaram a cortar a barriga dela com um monte de facas. Meus olhos não piscavam e eu fiquei paralisada; apenas uma lágrima escorria por meu rosto, refletindo minha dor. Depois outra lágrima, e outra, e outra, e outra. Eu sonhei acordada por alguns minutos, enquanto eles fatiavam e retiravam pedaços de minha mãe. Acordei com os homens me levantando. Só pude ver a mão da minha mãe pra fora do cobertor manchado com seu sangue enquanto a levavam pra fora.
Depois o homem de bege apontou a arma pra mim, o que interrompeu meu estado de transe. Num reflexo, arranhei um dos homens que me seguravam, o que o fez me soltar. Toquei a arma, e de repente ela parecia podre enquanto se retorcia em ferrugem. O outro tentou me conter, mas ele logo saiu de perto gritando aterrorizado quando toquei seu braço. Foi quando eu percebi a marca da minha mão no braço dele. Comecei a encostar em todos na sala branca, e eles corriam e gritavam. Quando encostavam em mim, suas peles ressecavam e necrosavam. Eles fugiram da sala, mas deixaram a porta aberta na pressa. Saí por ela, e me encontrei no corredor por onde eles me carregaram. Andei um pouco até achar uma escada que subia até uma outra porta. Saí por ela também, e a luz do Sol me cegou por alguns segundos. Quando me dei conta, vários homens maus estavam correndo em minha direção. Eu olhava ao meu redor, e via o chão de terra, máquinas enormes com rodas, tendas e caixas de madeira.
Corri pra me esconder dos homens, e fui na direção das máquinas de rodas. Acho que mamãe disse que eram carros... Vi uma coisa voando por cima de mim, e caiu próximo a outro carro que estava ali perto. Quando atingiu o chão, ela explodiu em chamas em um segundo. A explosão me derrubou, mas eu levantei rápido e corri pra trás da máquina em chamas. Não me aproximei muito, pois estava muito quente. Tinha que revidar de algum jeito, então peguei uma pedra do chão e ao olhá-la reparei que dela estava saindo uma fumaça que não tinha antes quando estava no chão. Talvez fosse o mesmo efeito que meu toque causou nos homem maus da sala branca. Arremessei a pedra nos homens, e no instante que se chocou contra o chão tornou-se uma nuvem esverdeada em volta dos homens. Eles tossiam, alguns caíam, e outros começavam a atirar. Joguei pedras nos outros carros, e eles explodiram de maneira diferente: eles enferrujavam lentamente, e só depois explodiam, quando a nuvem tóxica chegava aos motores. A poeira começou a levantar tanto que mal era possível enxergar. Percebi que eu tinha a vantagem no combate, então saí de trás das chamas e comecei a jogar não pedras, mas somente uma bola de fumaça esverdeada, gritando furiosa “você matou ela!”, “ela era minha mamãe!”, “vocês vão todos morrer por isso!”.
O lugar estava quase irreconhecível. Era tanto fogo, fumaça e poeira junta que eu não via mais nenhum inimigo. Andei procurando os que restavam, até que encontrei mais dois, vestidos de forma diferente. Quando joguei a pedra, uma parede preta surgiu do nada e os dois correram. Enquanto isso, três chegavam me cercando, e um deles me derrubou. Lutei pra me soltar, mas logo que toquei seu rosto ele caiu gritando e morreu. Quando levantei, vi os dois primeiros me salvando dos outros dois homens maus que me cercavam. Um o queimou vivo, e o outro o perfurou com um espeto que saía do chão. Foi quando percebi que estavam me ajudando.
–Me ajudem, por favor! – gritei a eles.
Os dois correram em minha direção, e à medida que chegavam cada vez mais perto, diminuíam o passo. Fiquei atenta a qualquer surpresa. “O mundo pode ser perigoso às vezes”, mamãe me contou.
–Calma, estamos aqui pra ajudar. – disse um deles: era o mais alto e mais forte. Tinha olhos cheios de energia, barba pequena e cabelo arrepiado. Tinha uma camiseta branca com botões e jeans azul. – Eu sou Luke, e este é Isaac. – o outro, pouco mais baixo, era sério e tinha olhos opacos sem vida que combinavam com um discreto par de brincos pretos. De seu cabelo pendia uma franja para o lado, e era arrepiado apenas na parte de trás da cabeça. Uma cicatriz elevada chamava atenção em seu pescoço, parecia ter sido um ferimento bem grave. Estava de jeans azul-escuro e camiseta regata preta com uma estampa simples no meio, três grossos riscos trêmulos alinhados como se formassem a letra “m”.
–Qual o seu nome? – disse Isaac. Sua expressão séria me fez hesitar, e acabei não respondendo.
–Ela deve estar em choque, vamos levá-la. Jacob saberá o que fazer. – o outro disse.
Eles me escoltaram até um carro onde um homem tentava parar o sangramento no peito de outro. O banco do carro estava completamente vermelho.
–Ele nem parece o mesmo homem das fotos... – Isaac disse. – O cabelo penteado pra trás agora virou uma juba, e a barba cresceu a ponto de lhe esconder o rosto.
–Quando o conheci ele estava com essa mesma barba e cabelo. – respondeu o homem que segurava, de cabelos loiros e barba mal-feita. O sangue do homem inconsciente em seu colo havia pintado de vermelho sua roupa social. – Parecia ter fugido de algum lugar.
O ferimento do barbudo era horrível: um buraco enorme no peito que encharcava de sangue os panos usados no tratamento.
–O que vamos fazer agora Jacob? – Luke perguntou.
–O possível – respondeu – Vamos salvar Harry e ajudar essa moça que encontramos. Vou mandar alguns agentes recolherem o restante dos documentos que encontramos.
De repente, Harry começou a sussurrar:
–Isaac... É você filho?
–Pai – Isaac virou-se agitado – Sou eu. O que aconteceu com você?
–Eu pensei... – uma forte tossida o fez sangrar pela boca – pensei que Thanatos tinha te matado... Ele é cruel filho, fique longe dele... – outra tossida, desta vez mais forte ainda.
–Você conhece Thanatos? – Isaac disse – O deus da morte?
–Eu era uma ceifador antes de você, filho. Thanatos matou nossa família. A nossa e a de todos os outros ceifadores... – Harry deu uma última tossida, e desmaiou. Jacob foi checar seus sinais.
–Está morto – constatou – Sinto muito, Isaac.
...
Harry teve seu enterro no dia seguinte em que chegamos na cidade de Atlanta. Não houve tempo para o luto, Jacob assegurou-se de que a base da Ordem Negra fosse completamente saqueada para que seus documentos fossem traduzidos e seus segredos revelados. Enquanto isso, eu era o problema da vez. Estávamos num grande prédio onde parecia ser o lar daqueles homens. Haviam três grandes sofás, e eu estava no meio; Jacob sentava-se ao meu lado, e Luke e Isaac estavam em pé, próximos à televisão.
–Meu nome é Jacob. Qual o seu? – disse ele.
–... Eva... Evangeline... – respondi, hesitante por causa da total falta de prática em conversar com estranhos.
–Esses são Isaac e Luke. – apontou para os rapazes de pé. Me observavam com cautela. – Nós estamos aqui pra te ajudar. O que aqueles monstros fizeram com você foi horrível, mas você não vai mais passar por isso.
–... Eles pegaram minha mãe... – comecei a torcer o rosto em prantos – Eles a mataram na minha frente... Eles a mataram...
Os olhares de Isaac e Luke tornaram-se menos ameaçadores, e pareceram ter pena. Meu rosto escondia-se sob meus cabelos negros cacheados.
–Nós demos conta deles – Luke disse. – Não precisa ter medo. Somos seus amigos.
–Me conte de onde você veio antes de parar lá. – Jacob pediu, curvando-se e buscando contato visual.
–Antes? – disse, entre soluços – Não teve antes. Estive lá minha vida toda. Vivi com minha mãe por anos, até que eles me levaram pela primeira vez. Ela me ensinou tudo... A falar, a me comportar... Mas ela vivia apavorada...
–Pra onde eles te levaram? – Jacob perguntou.
–Pra sala branca... Aquela depois das escadas... Eles me prenderam e me espetaram... Doía tanto...
– Encontramos documentos falando de misturas de Anthrax. Sabe algo sobre isso?
–Acho que ouvi essa palavra antes... Eles colocaram isso dentro de mim, não foi? Com a agulha...
–O que é esse Anthrax? – Luke perguntou. Jacob respondeu:
–Os terroristas usam uma bactéria chamada Anthrax como arma biológica. Qualquer tipo de contato, principalmente a inalação do Anthrax é letal. O maior problema é que pra eles replicarem Anthrax, eles precisam de um hospedeiro. O Anthrax vai se desenvolver no organismo da cobaia, e quando o hospedeiro morre, eles tiram a bactéria que se multiplicou lá dentro. É uma verdadeira colheita macabra. Os documentos diziam sobre uma mistura do Anthrax com o sangue de Harry, que pelo que parece, injetaram em Evangeline. Foi por isso que sequestraram Harry, que agora descobrimos que é um...
–Ceifador – Isaac completou.
–É, Ceifador. – Jacob lançou um olhar desconfiado para ele. – Evangeline, pode nos dizer o nome de sua mãe?
–Elizabeth – consegui dizer de uma vez, antes de voltar a chorar. Foi quando Isaac veio até mim, pôs a mão em meu ombro e olhando no fundo dos meus olhos disse:
–Evangeline, me escute. Eu entendo sua dor. Fomos até lá pra procurar meu pai, que eu nunca conheci. Eu o encontrei, mas cometi um erro e o matei. Meu pai foi morto pelas minhas próprias mãos. Nunca vou poder consertar isso, mas não é motivo pra eu ficar de luto pra sempre. As pessoas superam traumas, e você vai aprender a conviver com isso. Eu vou te ajudar, e nós vamos superar esse dia trágico de nossas vidas juntos, tudo bem?
Durante o discurso, pude parar de chorar para prestar atenção nele. Eu podia sentir meus olhos cor de mel brilhando em lágrimas. Minha pele não perdia o tom pardo mesmo estando pálida de fome. Os trapos sujos que eu vestia foram trocados por roupas novas, limpas e confortáveis.
–Tá bem... – eu disse, dando os últimos soluços – Obrigado por me salvarem.
...
Passou-se uma noite e eu já estava melhor. Isaac e Luke me mostravam coisas que nunca tinha visto, já que crescera naquela masmorra. Fiquei impressionava vendo exatamente o que era uma televisão, um elevador, um fogão... E claro, o banheiro. Eles faziam piadas, mas quase sempre riam sozinhos, pois eu não entendia muitas delas. Era um mundo novo.
–Boa tarde, pessoal – Jacob disse ao entrar na sala – Perguntei pra um contato meu no exército sobre soldados desaparecidos. Acontece que a mãe de Evangeline, Elizabeth Taylor, era médica militar. Ela tava em missão no Iraque, mas a unidade dela perdeu o contato com a base e desapareceu vinte anos atrás.
–E ela era cobaia deles desde então?
–Não exatamente. Evangeline completa vinte anos em breve. E sua mãe obviamente não estava grávida quando foi pra missão.
–Então Elizabeth engravidou depois de ser capturada?
–Sim. Eles... Estupraram Elizabeth. Sinto muito Evangeline. Eles tinham um motivo.
–O que quer dizer?
–Os estagiários traduziram os documentos que pegamos na Síria. Os terroristas engravidavam as mulheres pra garantirem mais cobaias a longo prazo. Isso explica porque aplicaram o Anthrax em Evangeline também. Eles realmente estavam injetando uma mistura nova nela, a com o sangue de Harry, mas parece que o corpo dela reagiu de forma diferente, assimilando as propriedades da bactéria. Em outras palavras, ela produz Anthrax naturalmente e é imune a ele. Evangeline deve ter surtado quando mataram sua mãe para extrair o Anthrax e causou toda aquela confusão.
–Então o pai biológico dela era algum deles...
–Era o líder deles, Sayid. – ele disse, mostrando uma ficha com a foto de Sayid. Era um árabe de cavanhaque, olhar sério e cabelos longos ondulados. – Ele criou uma religião, um braço do islamismo. Os seguidores o viam como um profeta, e ele fazia questão de engravidar as prisioneiras de guerra para garantir cobaias. Ele não estava no acampamento, ainda está vivo por aí.
–Que cretino. Temos que caçá-lo.
–Não tão rápido. – Jacob interrompeu. – Acho que você me deve algumas respostas. Conte-me sobre esses Ceifadores.
–Bom, depois que eu nasci meu pai sumiu. Pelo que ele disse, ele virou um Ceifador. E ele não era o único, existem outros cinco, e todos vivem no Limbo. É lá onde as almas dos mortos vão. Os Ceifadores precisam levar as almas até a Caixa de Pandora. Thanatos, o deus da morte, dizia que lá elas teriam paz eterna, mas eu vi ele absorvendo a energia delas, tornando-o mais forte. Houve um dia em que Thanatos matou as famílias dos Ceifadores, e foi assim que eu morri quando tinha doze anos. Meu pai de alguma forma ressuscitou meu irmão e eu, mas Thanatos descobriu e fez de mim o novo Ceifador. Consegui fugir de lá dez anos depois, quando saí na Nova Zelândia e você me encontrou.
–Sinto muito pelo que ele fez com sua família. Escuta Isaac, você precisa me levar pra esse lugar. Eu preciso ver esse lugar, vai ser uma revolução pra ciência. Poderá se vingar de Thanatos.
–Thanatos é muito poderoso pra mim. Nem mesmo os outros ceifadores ousam se voltar contra ele. Além disso, não sei como voltar.
–O lugar onde você saiu, na Nova Zelândia. Nós vamos voltar pra tentar. Isso não está aberto para discussão.
–Pode ser perigoso. Você não sabe o que vai encontrar lá.
–Mas você sabe. E é por isso que vem com a gente.
–A gente? Quem mais está pensando em levar?
–Toda a “liga da justiça”. Você, Luke e Evangeline. Isaac, você não pode deixar Thanatos impune. Ele destruiu várias famílias e quer acabar com a humanidade. Só vocês podem fazer algo pra evitar. Talvez convençamos os ceifadores a se juntar a nós.
Isaac pareceu pensar por um tempo. Eu não compreendia o que estavam falando, mas estava claro que Thanatos era alguém que devia ser parado. O rapaz da cicatriz no pescoço confirmou com o plano dizendo:
–Você tem razão. Vou levá-los até lá.
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