Aftermath
23 Novo mundo
Notas iniciais
Aquele dia foi o que chegou mais perto de se parecer com um dia tranquilo pré-apocalíptico. Um grupo de amigos, uma tarde ensolarada e uma consulta no hospital, sem mencionar a bela loira a qual conversava comigo.
–Ele disse que não tenho nada além de uns arranhões – Alanna explicou, após sair da sala do doutor. – Não tem veneno, vírus nem nada em mim que ele consiga detectar.
–Que ótimo – eu disse. – Mas como vai seu psicológico? Entendo se ainda estiver com medo.
–Na verdade, estou apavorada... E se eles tiverem nos seguido até aqui? As pessoas dessa cidade estão em perigo, e nós ainda mais! Temos que fazer alguma coisa, Luke!
–Não se preocupe, Alanna – disse, apoiando a mão em seu ombro. – Eles vão pensar três vezes antes de botar o pé em Manneuver. Podemos defender a cidade, e te prometo que vou garantir que nada de mal te aconteça.
–Ah, obrigada... – os olhos dela estavam longe. Com a mão no rosto dela, guiei seu olhar de volta para os meus olhos e repeti.
–Ei, eu prometo. Nada de mal vai te acontecer.
Deve ter sido a primeira vez que ela me olhou nos olhos. Eram duas pérolas da cor do céu e do mar, ao mesmo tempo. Admirá-los era como mergulhar numa nuvem de poeira cósmica à deriva no universo. Agora que estava de banho tomado, seus cabelos estavam muito mais belos. Curtos, contornavam sua cabeça para a esquerda, deixando exposta a orelha direita. Era magrinha e com alguma dificuldade ultrapassava um metro e meio de altura.
Os lábios se abriram devagar, e antes que respondesse, o doutor surgiu me chamando.
–Luke, rápido! Chame uma enfermeira!
...
Eva estava na maca dentro da sala de operações, com o doutor, a enfermeira e Isaac. Alanna e eu só podíamos imaginar o que estava acontecendo, com algum medo. Não havia modo de ver o que se passava lá dentro, a menos quando a porta se abria brevemente pra dar passagem para a enfermeira que corria pra lá e pra cá.
Em um momento, fora Isaac quem saiu.
–Isaac, o que está acontecendo?
–O bebê já estava pronto pra nascer! O doutor disse pra induzirmos o parto!
–Mas já? Há quanto tempo ela estava grávida?
–Muito pouco, e é isso que preocupa.
–Evangeline está em trabalho de parto? – Alanna perguntou, desentendida. Certamente, a barriga de Eva não havia crescido o bastante para ser notada.
–É, é o meu filho!
Alguns minutos depois, fomos chamados à sala pela enfermeira. A sala era um tanto gelada, mas nada congelante. As paredes brancas estavam escuras, pois só duas lâmpadas estavam acesas para economizar energia.
–Ela... É linda! – disse Alanna.
Isaac virou-se com a garotinha no colo para nos mostrar. Tinha a pele branca, quase pálida, e nascera com alguns fios de cabelos loiros. Era minúscula, até mesmo pra um recém-nascido.
...
Horas depois, Isaac permanecia junto à Eva numa sala de recuperação. Alanna e eu esperávamos enquanto o doutor checava a saúde da filha de Isaac e Eva.
–É um milagre, não acha? – Alanna disse. – Uma criança nascer hoje em dia, no meio de tanta crueldade. É um alívio para a mente.
–Verdade. Mas tenho pena dessa garotinha, não posso nem imaginar a infância difícil que ela vai ter.
–Luke, Alanna, venham aqui um instante – chamou o doutor.
Entramos na sala de recuperação e nos juntamos a Isaac e Eva.
–Diga-me Eva – disse o médico. – Você passou por algum trauma ou sofreu depressão durante o início da gravidez?
–Acho que sim... Logo quando chegamos na cidade, quando Isaac... – ela não podia dizer que ele havia morrido. Seria difícil explicar. – Foi embora por um tempo.
–Bom, — continuou o doutor. – sua filha nasceu com uma condição bastante rara que acontece em casos onde a mãe sofre depressão profunda no período gestativo. Mas por sorte, posso dizer que isso só trará benefícios pra vida dela.
–E que condição é essa? – perguntou Isaac.
–Chama-se gênese de Alexandria. Pessoas assim possuem a pigmentação da pele um pouco diferente, deixando-as extremamente brancas, mas imunes aos raios solares. Os olhos geralmente são roxos e os cabelos brancos. O metabolismo delas também é bastante diferente do comum, e dificilmente têm sobrepeso. Existem rumores de que essas pessoas viveriam por cento e vinte anos, mas aí já posso garantir que é uma lenda.
Eva não pôde esconder sua preocupação e elevou as mãos ao rosto.
–Ah, meu deus...
–Não se preocupe, ela vai crescer saudável. Basta apenas que vocês cuidem bem dela. Agora, se me permitem perguntar, qual o nome escolhido?
–Conversamos sobre isso enquanto voltávamos pra cá – disse Isaac. – Achamos que haveria mais tempo pra decidir, mas acho que já tomamos uma decisão.
–Madison – Eva completou. – Ela vai se chamar Madison.
–E quanto ao sobrenome? – perguntou o doutor. Eles não haviam pensado a respeito.
–Vamos usar o seu, Eva – disse Isaac. – Não gosto muito do meu, “Evans”. Aliás, meu sobrenome traz azar, veja o que aconteceu com a minha família. Morte, é isso que os Evans atraem.
–Se é assim, não quero dar a ela o “Taylor” da minha família. Sou tão amaldiçoada pela morte quanto você.
–Então ela permanece sem sobrenome – eu disse. – Até que vocês mudem de ideia.
...
Na semana seguinte, já estávamos todos em casa. Madison era como um pequeno anjo, um bebê branquinho e de olhos roxos e que nunca chorava. Era calma como a noite.
Havia uma preocupação em manter Madison e Jack sob o mesmo teto, então Isaac levou o meio-psicopata para o vulcão Sarkany onde estava o portal para o Limbo. Lá eles buscariam a ajuda de Lucy para livrar Jack de sua maldição. Também a convidariam pra nos visitar, e especialmente pra me encontrar.
Alanna e eu já estávamos bastante próximos, e nesse período de tranquilidade comecei um relacionamento com ela. Me encantava a fragilidade e delicadeza daquela baixinha, e lembrar do dia em que a conheci só me faz querer protegê-la mais ainda. Ela me dava um propósito na vida.
Dias depois, numa tarde nublada, ouviu-se uma confusão nas ruas de Manneuver. As pessoas gritavam de medo e corriam para suas casas, enquanto fugiam de um som de metal batendo.
Ingvarr e eu saímos para ver do que se tratava aquela confusão, enquanto Eva e Alanna cuidavam de Madison escondidas em casa. Lá na rua, uma multidão de homens de armadura pesada cercaram nossa casa. Um deles, a cavalo, adiantou-se sob o som dos moradores em pânico.
–Eu procuro Isaac e Evangeline – disse ele, antes de retirar o elmo de prata. Seu rosto era duro e quadrado, com uma barba curta cobrindo-lhe o maxilar. O cabelo preto caía e voava ao vento.
–Não existe ninguém com esse nome aqui – respondi.
–Existe, sim. Este senhor nos disse – tirou da bolsa pendurada no cavalo a cabeça do Chanceler da cidade, pingando sangue em seu colo. – E costumo acreditar na palavra de um homem enquanto é torturado.
–E quem são vocês? Porque procuram essas pessoas?
–Levamos um tempo pra nos organizarmos e encontrarmos esse lugar. Afinal, quando todos que você conhece estão mortos, é difícil decidir um rumo pra tomar. Eu era o primeiro-comandante do oitavo batalhão dos Templários de Veneza. Estava voltando de uma missão de pacificação numa cidade próxima de Nápole, quando encontrei o Forte Golias habitado pelos cadáveres dos meus irmãos.
–Que cidade é essa? Existem mais pessoas lá?
–Não mais. Eles se recusaram a aceitar a palavra do nosso senhor, então como manda o velho testamento, nós queimamos os hereges. Que Deus tenha piedade da alma deles.
–Mas o que Isaac e Evangeline têm a ver com isso?
–Um pobre rapaz que sobreviveu ao massacre, um tal de Erick, nos disse quem eram os responsáveis. Ele também nos disse sobre os poderes profanos desses demônios, mas ele carregava segredos do senhor que nos ajudariam a derrotá-los.
–Sinto muito pelo que houve com seus amigos – disse Ingvarr. – Mas não conhecemos essas pessoas que procuram.
–Veremos. Vão! – ordenou aos seus homens. Eles caminharam em direção à casa.
–O que estão fazendo? – eu gritei. – Não podem entrar aí!
–Você se impõe à vontade de Deus? – desafiou o cavaleiro.
–Não é vontade de Deus! É loucura!
–Peguem-no – ordenou novamente. – E o outro também.
Quatro soldados nos seguraram, a mim e a Ingvarr, enquanto outros quatro entravam na casa. Mais tarde, saíram de lá com Eva e Alanna.
–Luke – Ingvarr sussurrou. – Agora?
–Ainda não – respondi. – Vamos esperar a situação piorar.
Nem Eva e nem Alanna estavam com Madison, e pela tranquilidade delas, a garotinha estava escondida em segurança. Os soldados que as trouxeram, ignorantes da identidade de Evangeline, apenas a escoltaram, sem sequer tocá-la.
–O que é isso? Quem são vocês? – Eva perguntou.
–Meu nome é Gareth – disse o cavaleiro. – Sou o comandante da tropa de Inquisidores, antes conhecidos como Templários.
–Viva o Leão de Israel! – gritou um dos inquisidores.
–Viva! – os outros entoaram.
–E quem é você? – continuou Gareth.
–Evangeline – infelizmente, ela não sabia que ele procurava por um nome. – E o que estão fazendo aqui?
–Procurando você, e um amigo seu, um demônio ceifador. Segurem a garota-veneno!
Os quatro que saíram da casa correram pra imobilizar Eva, mas os dois primeiros gritaram de dor quando um enxame de vespas adentrou suas armaduras. Os dois que vinham logo atrás olhavam perplexos enquanto os outros se debatiam no chão tentando tirar as cotas de malha que vestiam.
Eva cuspiu uma gosma esverdeada no bíceps de um dos que olhavam de pé. A gosma revelou-se ácida quando começou a corroer metal e carne, até o braço dele cair de seu corpo em uma poça vermelha e verde.
–Agora? – perguntou Ingvarr.
–Agora – concordei.
Imediatamente Ingvarr apontou o braço na direção de onde Eva estava, e o inquisidor sem braço se levantou e atacou o outro, com mordidas agressivas. Com os dois no chão, Alanna correu para dentro novamente.
–Matem todos – gritou Gareth.
Antes que eles seguissem a ordem e cercassem Eva, eu disparei uma cortina de fogo, separando eles de nós.
–Isso – ele disse. – Fiquem juntos! Facilita as coisas pra mim!
De cima do cavalo, ele conjurou algum tipo de magia que criou uma barreira azul brilhante e transparente, isolando todos nós enquanto eles destruíam a cidade.
–Desde quando os Templários sabem fazer isso? – Ingvarr perguntou.
–Eles não eram assim quando Isaac e eu os matamos. – disse Eva.
–Gareth disse que Erick o contou quem somos, e os deu algum tipo de poder enquanto eles achavam que era algo divino.
–Mas Erick está morto, isso é impossível.
–Ele pode ter feito isso antes de ter morrido.
–Não, ele não tinha motivos contra nós antes de morrer.
–Pode ter sido outra pessoa se passando por Erick?
Os inquisidores arrastaram Alanna para fora, puxando-a pelos cabelos. A ira despertada queimou em minhas veias, e num segundo saiu toda de uma vez quando fiz um tornado de fogo girar ao nosso redor, dentro da área em que estávamos presos.
Se fosse uma cúpula, já teríamos morrido com a falta do ar, consumido pelo fogo. Mas como era apenas uma parede, não houve problemas para destruir a barreira.
Livre novamente, queimei vivos um punhado de soldados que corriam na nossa direção e outros próximos à Alanna. Tomei-a em meus braços a fim de protegê-la.
De repente, o chão enegreceu, e os inquisidores começaram a cair mortos. O cavalo de Gareth relinchou, e ele caiu no chão.
–Argh, maldito! – ele disse desembainhando a espada. Estava prestes a atacar o pobre animal, quando Isaac surgiu do chão negro bloqueando o golpe com sua foice.
–Quem é você? – ele perguntou.
–Você é Isaac?
–Sou. Quem é você?
–O seu pior pesadelo! – Gareth esquivou de um golpe de Isaac que mirava sua barriga com a foice. Ele conjurou um círculo de magia no ar que logo se tornou uma ponta de lança que disparou contra Isaac, mas ele voltou a se misturar ao solo.
O ceifador voltou a surgir do chão coberto pela matéria negra, e atacou-lhe as costas na diagonal, mas a armadura o protegeu. Ele prendeu os pés de Isaac no chão com a magia azul num formato de corrente. Virou-se e preparou um poderoso e demorado ataque contra Isaac, mas ele se jogou pra trás, dobrando os joelhos e deitando no chão. O ataque de Gareth foi uma rajada de energia que acabou atingindo uma varanda, e esta colapsou.
Isaac levantou um pequeno pilar negro que acertou o rosto de Gareth. Em seguida levantou mais outros dois, combinando uma sequência de socos, e a continuou repetidamente até o inquisidor cair estonteado.
A corrente mágica que prendia os pés de Isaac sumira, e ele se misturou novamente ao chão. Surgiu debaixo de Gareth, e o golpeou com a foice tão ferozmente que o levantou no ar girando, e depois o arremessou por quase três metros, mas sua armadura não cedeu.
Eu continuava queimando os inimigos, porém só os que ameaçavam atacar a mim e a Alanna. Eva estava matando todos que estavam perto da casa, e evitando que entrassem, preocupada com Madison. Ingvarr havia tomado um machado de guerra de um deles, e estava lutando no meio deles.
Mais afastado estava Jack, assassinando os Templários como se fossem amadores na guerra. Os golpes dele partiam a armadura dos inquisidores, e ele quebrava seus ossos como se fossem galhos secos. Já havia pelo menos um quinto do exército caído.
Ingvarr reanimou os corpos que Jack deixara no chão, e todos partiram pra cima de Gareth. O cavalo já havia corrido para a floresta.
Gritos e choramingos foram ouvidos enquanto os mortos trucidavam o corpo do Leão de Israel, de forma que, quando saíram, restou apenas uma pilha indecifrável de carne e ossos. Os demais inquisidores, agora quase reduzidos à metade, fugiram da cidade.
Isaac se aproximou de nós sorrateiramente.
–Madison está bem?
–Está lá dentro, no quarto do Luke e da Alanna! Eles não entraram lá.
Eva, Isaac, Alanna e eu voltamos pra dentro de casa, enquanto Ingvarr e Jack terminavam de afugentar os inimigos. Eva destrancou a porta do quarto onde deixara sua filha, e quando abriu teve uma surpresa.
–Ela... Sumiu...
Mal se teve tempo de processar a informação, quando um trovão barulhento pareceu atingir a cidade. Voltamos pra fora de casa, com Isaac na frente, completamente revoltado.
Mais para o lado leste da cidade, um redemoinho se formara nas nuvens, e o vento era agitado exclusivamente naquela área.
–Será que é ela? – Alanna perguntou.
–Tem que ser – disse Isaac.
Corremos pra lá, e eis que num terreno baldio atrás de um beco estava lá a garota, nas mãos de um sujeito alto e barbudo. Ao lado dele, um rapaz menor e magrelo, e os dois na frente de uma espécie de portal de dois metros de altura.
–Andrew? – gritou Isaac, tentando vencer o som do portal.
–Irmão – o magrelo respondeu. Então, aquele era o irmão mais velho de Isaac. – que surpresa boa, mas numa hora ruim. Desculpe ter pego sua filha, mas Argos precisava de sangue de ceifador, e ao que parece sua filha o herdou.
–Cale a boca, seu idiota – disse Argos, o mais alto.
–Você não é um lobo? – perguntei a ele.
Ele me olhou, e se transformou lentamente. Os ossos estalavam, mudavam de lugar e cresciam junto com a musculatura e os pelos. Sim, era ele o lobo.
Andrew tomou o bebê de Argos e o entregou pra Eva.
–Mais uma vez – disse ele. – Me desculpe, irmãozinho. Mas era preciso, abrimos um portal para Valíseos! Por sorte, Argos já tinha boa parte dos itens que o feitiço pede, mas o mais difícil eu consegui, o sangue de ceifador.
Madison chorava como nunca antes. Notamos o sangue escorrendo nos braços de Eva, e foi aí que Isaac explodiu de raiva.
–Ela está sem um dedo? – perguntou.
–Apenas um dedo, cara – Andrew continuou, enquanto se afastava. Argos entrara pelo portal. – Devia ficar nervoso não por isso, mas por termos jogado os Inquisidores contra vocês. Foi a distração perfeita, até ensinamos ao líder deles um pouco de magia arcana de Valíseos.
–Seu monstro – gritou Eva.
–Não vai fazer muita diferença pra ela, mas sim pro mundo todo! Ou melhor, os dois mundos! Vejo vocês em Valíseos.
Isaac correu, e agarrou a camisa de Andrew quando ele já estava com metade do corpo pra dentro do portal. Puxou-o e o jogou no chão, e em seguida subiu em cima dele.
Isaac começou a socar o rapaz ininterruptamente, com os dentes rangidos e a fúria nos olhos. O sangue começou a se espalhar no chão, e os punhos de Isaac começaram a se ferirem com os golpes. O barulho dos golpes abafados podiam ser ouvidos mesmo com o choro de Madison e o portal em movimento giratório.
Algumas dezenas de socos depois, Isaac se levantou assustado, e Andrew dava seus últimos espasmos no chão. Já estava morto, e ainda se mexendo. Era uma visão extremamente desconfortável.
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