Aftermath
24 Estranhos numa terra estranha
Notas iniciais
O espaço torceu e se retorceu inúmeras vezes, enquanto a matéria se decompunha e se reconstruía. Incrivelmente, era um processo tranquilo para organismos vivos, o que fazia com que qualquer um pudesse viajar por portais como aquele.
Aquele era particularmente maior do que os portais que levavam à terra dos mortos, e dava acesso a um mundo completamente novo e sem vínculo algum com a Terra.
Valíseos era um planeta que ficou fora do alcance dos telescópios terráqueos, e tanto sua distância física quanto temporal são uma incógnita até mesmo para os deuses. Ou pelo menos era, até Thanatos tê-lo descoberto de alguma forma. Agora, ele podia viajar entre os mundos, assim como os humanos... E os monstros, como eu.
Mas nem sempre eu fui assim. Antes de ser Argos eu era Charles Dorn, um alemão vivendo em Nova Iorque. Tinha meu emprego em um escritório de advocacia, e assim ia sustentando meus hobbies.
Desde adolescente eu tive um enorme interesse em caça, despertado pela igreja em que eu frequentava na Alemanha. Não posso divulgar seu nome pois fiz um voto sagrado, mas posso dizer que era um culto satânico.
A caça praticada pelos meus irmãos ocorria ilegalmente em reservas ambientais ou até mesmo em fazendas. Quando fui para os Estados Unidos não consegui largar o hábito, e na falta de animais em NY passei a caçar pessoas.
Eu tinha uma metodologia muito boa, era bastante cuidadoso e sempre queimava as vítimas em um galpão de uma já falida fábrica de pneus, onde existia um sistema de dispersão de fumaça e mau-cheiro extremamente eficaz.
Mas claro, houve um dia em que eu me descuidei. Um pedestre me viu com a seringa no pescoço da vítima, e logo eu estava rodeado de viaturas. Não fazia ideia que o meu hobbie estava tão conhecido na cidade. As outras seis mortes que causei rapidamente foram associadas a mim.
Eles fariam perguntas. Eles investigariam. Eles descobririam de onde eu vim. Meus irmãos corriam o risco de serem expostos por minha culpa.
É claro que eu não ia deixar isso acontecer. Um satanista é fiel à sua devoção até o fim, e com isso em mente eu ataquei os policiais. Por legítima defesa, eles atiraram e eu, enfim, morri.
Um erro bobo, eu pensava. Que idiota que fui, devia ter prestado mais atenção. Queria eu ter mais uma chance de matar alguém do jeito certo, e honrar ao meu Lorde Satã.
E assim, minha vontade foi cumprida. Erick, o ceifador que me buscara, me ofereceu a tão desejada segunda chance. E mais, ele me deu forças pra matar qualquer um com extrema facilidade. Era a força da animalidade. Charles Dorn havia morrido e renascido como Argos, homenagem ao deus-lobo das lendas Valisianas que busca explicar a animalidade.
A partir daí, comecei a ser devoto aos únicos e verdadeiros deuses, os da morte. Erick, em especial, era meu anjo protetor. Quando soube de sua morte, precisei me controlar pra raciocinar direito. Queria vingança mais do que tudo, mas o destino me deu um presente inigualável: a oportunidade de ressuscitar o meu mestre.
Quando Erick me salvou da eternidade, ele me mostrou o mundo de Valíseos, e me mostrou uma bela joia púrpuro-negra chamada Estrela Negra. Ele pediu que caso algo ruim acontecesse a ele, que viesse em busca dessa pedra e a abrisse, como uma pequena caixa.
O presente que mencionei era ter capturado justamente o irmão do assassino de Erick, e disposto a me ajudar. Precisava de sangue de ceifador pra ir para Valíseos, e ele me trouxe.
E lá estava eu novamente. Valíseos tinha continentes extremamente grandes, que juntos eram maior parte que os oceanos. Tinha também duas luas, uma da noite e uma da manhã. Esta última deslizava no horizonte quando eu pisei no solo Valisiano.
A última peça do quebra-cabeça era encontrar um homem a quem Erick confiou a Estrela Negra. Ele era conhecido como Penumbra, após ter sido exilado de seu povo, os Greylocks.
Os Greylocks são uma das raças inteligentes de Valíseos, provavelmente a mais religiosa delas. Pouco sei sobre eles além do fato de que Erick usou magia deles para me ressuscitar e me dar a animalidade.
Penumbra recebeu esse nome de seu povo por seguir um caminho sombrio da sua religião, e desde então vive em uma pequena cabana na subida de uma grande montanha, longe e isolada de qualquer vestígio de civilização. A subida é árdua e cansativa, e cheguei lá no início da noite.
Era um momento especial do ano, onde as duas luas ficaram visíveis no céu durante a transição do dia para a noite. Meus pés doíam, mesmo com a resistência sobre-humana que eu tinha. No meio da subida, uma formação rochosa fazia um degrau gigante na montanha, e debaixo dele haviam algumas mesas com dezenas de frascos, potes e livros.
O lugar, porém, estava vazio. O vento assobiava pelas pedras enquanto eu observava a paisagem de onde eu vim. As duas luas pareciam conversar sobre as terras áridas daquele planeta.
Entre os vários itens e ingredientes que me cercavam estava um colchão fino, típico de Valíseos, onde eu me sentei. Decidira descansar um pouco antes de voltar a procurar o homem que guarda a Estrela Negra.
Depois de descansado, juntei minhas coisas e apoiei-me para subir, sem sucesso. Eu não podia me levantar, não importava o que eu fizesse.
Porcaria, eu pensei. O que estava acontecendo? Tentei imaginar de tudo, mas antes de algo vir à cabeça, um sujeito encapuzado, alto e esguio, surgiu de trás do degrau rochoso.
–Quem é você? – perguntou com uma voz rouca e ameaçadora. As orelhas pontiagudas, características dos Greylocks, saíam por aberturas costuradas nas laterais do capuz.
–Um amigo de Erick. E você?
Ele tirou o capuz, revelando seu rosto esquisito. A pele era cinza e os olhos vermelhos.
–Um amigo de Erick é amigo meu – ele respondeu. Estalou os dedos, e continuou – Pode se levantar agora.
–Seu idiota – eu disse, me levantando. – Não se lembra de mim? Erick disse que se eu viesse, seria importante!
–O terráqueo não sabe dos perigos que existem em Valíseos. Se soubesse o que eu sei, não confiaria na aparência.
–E você acreditou em mim simplesmente por ter falado de Erick? Podia ser uma armadilha, seu burro.
–Ninguém nesse mundo conhece Erick. Só eu.
–Que seja. Onde está a gema?
Penumbra tirou de um bolso a Estrela Negra. Durante a noite ela parecia opaca, mas à luz do sol era como ver o universo inteiro dentro de um espelho.
–O que fazemos agora? – perguntou o Greylock.
–Acho que é só abrir – tomei-a das mãos dele. Procurei a abertura na lateral da joia, e pressionei-a. Ela se dividiu em duas, num corte perfeitamente reto. Não havia um espaço oco lá dentro, mas ainda assim algo sólido saltou de seu interior e atingiu o chão.
Era luz, condensada e suprimida de tal forma que ardia os olhos. Ela se contorceu e foi crescendo, perdendo brilho e tomando forma humanoide. Segundos depois, Erick havia retornado à vida, deitado naquela montanha.
Ele se levantou, espreguiçou e por fim, nos observou.
–Ah... Argos e Penumbra... Muito bem, fizeram seu trabalho muito bem.
–Mestre – eu disse. – Que bom que voltou. Aquele ceifador está na Terra, numa cidade ao lado de um vulcão e...
–Eu sei, eu sei, Argos – ele me interrompeu. – Eu sei que o você quer, e nós vamos matá-los. Mas sozinhos não vamos conseguir, pretendo levar uma ajuda a mais.
–No que está pensando? – perguntou Penumbra.
–Vão até alguma cidade, não importa qual. Cada um deve trazer duas pessoas para mim. Vivas, devo acrescentar. Provavelmente, vai ser melhor que elas estejam inconscientes.
...
A cidade mais próxima era Noax, composta basicamente por uma fazenda de mesmo nome onde alguns Greylocks criavam e treinavam, especialmente, uma espécie estranha de animal, de aparência semelhante à dos nossos cavalos na Terra, mas com escamas e outras características de lagartos, de forma que pareçam dragões sem asas.
Todos os cinquenta e poucos habitantes eram trabalhadores da fazenda, e naquela noite eu procurei os mais solitários. Havia um que cuidava dos animais enquanto dormiam, como um cavalariço. Este foi o primeiro, derrubado com um simples golpe na cabeça enquanto ele levianamente cochilava em serviço.
Escondido no meio das criaturas, ele permaneceu desmaiado enquanto fui atrás de outro, que patrulhava o cercado da fazenda.
Penumbra não quis vir à Noax, já que sendo um exilado, ser visto seria ainda mais problemas. Ele retornou logo depois que eu havia chegado com dois rapazes Ghulls, uma outra raça de Valíseos que não passava da metade do número de Greylocks. Eles eram bastante jovens, de pele rosada assim como a dos humanos e olhos dourados. Os Ghulls possuíam algumas protuberâncias nas maçãs do rosto, de natureza diversificada: em uns eram pretos, em outros avermelhados, e assim vai. Neste caso, eram castanhos em ambos.
–Muito bem – disse Erick. – Vamos começar o ritual.
–Onde está o livro, Argos? – perguntou Penumbra.
–Livro? Aquele não-sei-o-quê de Runak? Sei lá, nunca estive com ele.
–E como Erick vai fazer um feitiço sem o livro de feitiços?
–Eu não preciso de livro – disse Erick, de costas. Estava posicionando os corpos dos dois Ghulls e dos dois Greylocks no chão. – Eu decorei tudo. O livro foi roubado de mim, mas teremos a chance de recuperá-lo.
Erick sentou no meio dos corpos, que estavam dispostos no chão formando um quadrado ao seu redor. Começou a dizer palavras estranhas que ofendiam os ouvidos, pareciam profanas demais até pra um satanista como eu já havia sido. E de fato era: os corpos levitaram até ficarem de pé, cercando Erick, enquanto se dobravam e quebravam os ossos.
Suas entranhas queimavam, esfumaçando para fora do corpo. Era um cheiro terrível de borracha queimada, que foi amenizando conforme eles iam pousando no chão.
Erick se levantou com ar de satisfação, enquanto a fumaça que havia saído, retornava e materializava-se numa armadura para as vítimas, agora com corpos e rostos totalmente diferentes.
–Estes – Erick anunciou. – São nossos novos amigos. O primeiro será Midas, com o toque de ouro. O segundo, Nero, manipulador das chamas do Tártaro. O terceiro, Vlad, o parasita. E quarto, Ammon, o ventríloquo. Chamemos eles de... Imortais!
–E o que vem agora? – Penumbra perguntou. – Só esses aí vão dar conta dos caras que te mataram?
–Ah, vocês vão ver. Vamos, temos terráqueos para matar.
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