Notas iniciais
Olá, meu nome é Igor, e sou o criador do Aftermath. Este é meu projeto que venho desenvolvendo há meses, e pretendo engrandecê-lo e um dia expandí-lo pra outras plataformas (jogos, livros, produções audiovisuais). Agradeço aos que leram, e caso se interessarem pela trama poderão acompanhar também pelo blog, cujo link estará nas notas finais. Obrigado a todos, e boa leitura =)

Existem dois fatos sobre a vida na Terra. Um, ela acaba assim como em qualquer lugar. Dois, ela não tem um sentido, como a maioria das pessoas costumam achar o contrário.

Em lugares como Valíseos, onde a diferença entre raças é tão grande que o preconceito é facilmente tolerável, a violência tem o seu espaço e nós aceitamos isso.

Na Terra, que é populada primordialmente por seres humanos, espera-se que eles vivam em paz pois não existem predadores para eles. Infelizmente, tornar-se a raça majoritária no planeta acabou lhes tirando o sentido de viver. Por esse e outros motivos, os seres humanos procuram motivos para brigar, e eles brigarão até não restar nenhum vivo.

Recentemente, uma ameaça externa surgiu, e os humanos foram pegos de surpresa. Thanatos facilmente acabou com noventa por cento da população de sete bilhões, provavelmente mais. Os que restaram agora têm um objetivo. Alguns simplesmente sobrevivem, outros ajudam quem precisa, e alguns pouquíssimos tentam mudar efetivamente o mundo.

Esses pouquíssimos aproveitavam agora seu período de descanso na cidade pós-apocalíptica de Manneuver.

Um casal com um bebê acomodava-se no quarto de uma velha casa. Madison, quase uma recém-nascida, já havia sofrido uma situação horrível que era terem lhe arrancado o dedo mindinho. Seus pais, Isaac e Evangeline, cuidaram bem de sua ferida e ela parou de sofrer. Mas eles ainda tinham medo, pois fora uma gravidez extremamente incomum. A criança, além de nascer prematuramente, era pálida como gelo e de olhos roxos, o que não é nada esperado pra um humano.

–Temos de estar preparados – disse Evangeline.

–Preparados para o quê, exatamente? – Isaac segurava Madison no colo, enquanto ela dormia profundamente.

–Ela pode não sobreviver por muito tempo. Me corrija se eu estiver errada, mas não é nada comum os bebês nascerem com síndrome de Alexandria, não é?

–Gênese – Isaac a corrigiu. – Não é síndrome. E você está certa, isso é muito raro. Eu mesmo nunca havia ouvido falar disso. Mas o doutor garantiu que ela só teria vantagens.

–Além disso, – Evangeline pareceu ignorar o que seu cônjuge havia dito. – o mundo acabou. É difícil encontrar um lugar pra morar, imagine como é ter uma vida decente. Pelo amor de deus, um dos nossos amigos é possuído por um assassino serial! Ou Lucy conseguiu o ajudar?

–Não, pelo menos por enquanto. Ela disse que precisa aprender melhor as magias daquele livro e talvez então possa tirar a alma psicopata dele. Além disso, ela não quis vir ver o irmão dela, pois estava ocupada ensinando os novos ceifadores a fazer seu trabalho.

–Como eu estava dizendo – Evangeline continuou. – Já percebeu que moramos do lado de um vulcão? Quão insano isso deve ser? Existem também os monstros. De repente, eles estão por toda parte! Colossos, lobisomens, homens com magia arcana... O que mais falta?

–Falta você parar de ser tão pessimista. Olhe, estamos aqui, e estamos vivos – ele entregou Madison para Evangeline, que gentilmente a segurou sentada na cama. – Olha pra sua filha. Pra nossa filha. Ela não é linda?

Evangeline afastou a manta que cobria a face de Madison. Observou as bochechas enormes comprimindo a pequena boca, e as sardas que cobriam o nariz e as maçãs eram envoltas de um corado vermelho de seu rosto meigo. Os primeiros fios de cabelos se mostravam de um louro platinado que prometia, no futuro, serem belos como os de uma princesa.

–Demais... – Evangeline respondeu, ao que Isaac ajoelhou-se na sua frente.

–Nós estamos aqui, Eva. Todos perderam alguma coisa, a maioria perdeu tudo. Mas nós estamos construindo algo aqui. Algo muito maior que nós, na verdade. Ao sermos uma família, estamos automaticamente contribuindo pra salvar a humanidade da extinção.

De fato, era verdade. A raça humana estava aos frangalhos, e se houvesse um segundo ataque com talvez metade do poder de destruição de Thanatos, eles seriam extintos. Engraçado dizer, mas agora a única coisa que poderia salvar o planeta era, literalmente, o amor.

Felizmente, eles não eram os únicos contribuindo para o sucesso dessa missão. No andar de baixo daquela mesma casa, um outro casal recém-formado aproveitava a tranquilidade do dia, com beijos e risadas no sofá da sala.

–Você é tão bonita – Luke dizia. – que eu quero ficar te olhando pra sempre.

–Obrigada – disse Alanna, acanhada. – Mas não fique me olhando assim, eu fico com vergonha!

–Não posso evitar, desculpe. Mas eu tenho direito de olhar para a minha namorada, não tenho? – Luke a abraçou.

–Somos namorados? – Alanna se afastou.

–Não somos?

–Você nunca me pediu em namoro.

Luke prontamente se levantou do sofá, e tomou a mão da bela loira de olhos azul-esverdeados enquanto se apoiava em um joelho.

–Por toda a minha vida, – ele disse, em seus olhos, que agora pareciam tão belos como o céu do Alasca, preenchido por uma aurora polar. – eu fiz coisas das quais boas pessoas não aprovariam. No fundo, eu só queria encontrar alguém que me fizesse querer ser bom, ao invés de ser ruim. Agora que te encontrei, sou mais feliz. Você desperta em mim o melhor que eu posso ser, e eu o serei pra sempre enquanto estiver ao seu lado. Alanna Flowers, você quer ser a minha namorada?

O que pareceu ser um brilho na aurora dos olhos de Alanna era na verdade uma lágrima.

–Eu quero – e assim o relacionamento foi oficializado.

Apesar de não tão eficiente, existe um outro tipo de amor, que não a paixão, que também pode ajudar a humanidade a se restituir. É o amor fraternal. A forte amizade entre as pessoas, de modo que sejam unidas e evitem a violência entre membros de uma mesma espécie.

Um exemplo disso acontecia nesse mesmo momento, em um bar abandonado há menos de uma semana. Jack e Ingvarr esvaziavam o estoque.

–... e aí eu disse “é bom que amem mesmo a terra de vocês, pois daqui não vai sair ninguém!” e dei uma cabeçada tão forte na cara do infeliz, que o nariz dele entrou pra dentro da cara – contava Jack, sobre seu apelido.

Ingvarr soltou uma gargalhada forte, e se recompôs com um gole de vinho.

–Essa é uma cena que eu pagaria pra ver – ele disse.

–E eu pagaria pra ver você bebendo de verdade. Como você se declara rei dos vikings se bebe esse suco de uva? – Jack virou o copo de whisky.

–É tradição do meu povo, seu porco imundo. Bebíamos vinho como se fosse água.

–Um sábio amigo meu disse uma vez que vinho era bebida de mulher – Jack procurou um copo maior. – Logo, concluímos que no seu povo só tinha mulheres.

–Tínhamos bastante mulheres, sim. Aposto que não venceria nenhuma guerreira viking num combate simples – Ingvarr estava coberto de razão. As mulheres vikings eram extremamente ferozes nas batalhas. Por natureza, elas já eram bem resistentes e aguentavam mais dor que qualquer homem poderia imaginar. Além disso, por serem menores, eram muito mais ágeis e quase se equiparavam em força bruta.

–Eram duronas assim?

–Você nem imagina. Tinha que ver minha esposa. Era tão boa na guerra quanto na cama.

–A minha garota também era casca grossa. Por mais estranho que pareça pra mim dizer essas palavras, eu sinto saudades dela.

–Um brinde às nossas mulheres – Ingvarr jogou fora o vinho, e encheu o copo com tequila.

Jack encheu um copo de vinho, e depois o derramou no chão assim como Ingvarr.

–Um copo de vinho para elas – disse, e em seguida encheu com whisky. – E um brinde.

Estes eram fatores essenciais no amor, seja ele fraterno ou romântico: as semelhanças e o compartilhamento de experiências. Apesar de forte, o amor por si só não é suficiente para salvar a raça humana. É preciso também de violência. O amor até constrói, mas é o ódio quem transforma.

Uma marcha dessincronizada trotava no chão das ruas da cidade, tão estranhamente como poderia ser. Quando Jack e Ingvarr finalmente saíram do bar, depararam-se com uma nova ameaça.

–Por favor, diga que são seus – disse Jack, olhando para o exército que se aproximava.

–Isso vai te fazer se sentir melhor? – Ingvarr observava que os cadáveres andantes eram cobertos por tiras de tecido velho amarelado.

–A única coisa capaz de me fazer algum bem está no copo que eu deixei na mesa do bar.

–Então é bom que tenha aproveitado, pois esses zumbis não foram feitos com o meu anel.

–Zumbis? Acho que são múmias.

–Que seja. Tem um isqueiro ou um fósforo?

–Não, porquê?

–Acho que eles vendiam no bar. Vem comigo, e atraia eles.

O exército de múmias chegava devagar, mas a intimidação que transmitiam fazia parecer que eram inconvenientemente velozes. Jack se aproximou o máximo que pode, mostrando-os o caminho. Em seguida, parou na frente do bar.

–Ingvarr!

–Entre – ele respondeu de lá de dentro.

Jack entrou, seguido por parte dos mortos. Os que não conseguiram passar desistiram e continuaram seu caminho cidade adentro. Ouvia-se lá fora sons de destruição das construções, assim como a vidraça que arrebentara ao lado de Ingvarr.

Um inimigo entrou desajeitado pela janela, e o viking esmagou-lhe a cabeça com um pisão. Jack observou os pedaços de miolo e osso voando até cair em uma panela de patê estragado.

–Por aqui! – Ingvarr o chamou.

–Vamos fugir? – Jack não gostou da ideia.

–Claro que não, seu idiota! Venha logo!

Jack o seguiu e pulou a janela. Do lado de fora, Ingvarr socava inutilmente uma múmia, enquanto outra chegava por trás. Vendo o perigo, Jack correu e saltou ao lado de Jack, apoiou o pé na parede do bar e caiu com um soco tão forte que seu braço atravessou a cabeça do defunto. Ingvarr finalmente quebrou o pescoço do inimigo que estava socando, torceu e arrancou sua cabeça.

Eles seguiram para a entrada do bar, onde podiam ver todos os mortos lá dentro, fora os outros que continuaram o caminho pela rua. Jack reparou no chão molhado quando Ingvarr tirou os fósforos do bolso.

Ele acendeu um, usou-o para botar fogo na caixinha e a jogou dentro do bar. Jack fechou a porta dupla, e os dois correram na direção oposta à que os mortos haviam ido.

...

De volta à velha casa, Isaac e Evangeline haviam se juntado a Luke e Alanna na sala de estar, enquanto espiavam pela janela o que acontecia.

Dezenas, ou talvez centenas de mortos cobertos por trapos andavam pelas ruas destruindo tudo que viam. Apesar de lerdos, eram bastante fortes e seus golpes massivos arrebentavam paredes com alguma facilidade.

–Quem são eles? – Alanna perguntou, assustada.

Pensaram primeiramente em Ingvarr e seu anel. Mas havia uma diferença significante entre aqueles cadáveres: os de Ingvarr eram pessoas reanimadas, então a menos que ele tenha ido buscar corpos no Egito, aqueles mortos representavam grande perigo.

–São... Múmias? – Isaac observou.

–Saudade de quando as coisas faziam sentido – disse Luke.

–Múmias são perigosas? – Evangeline perguntou. Ela ainda sofria com a desinformação, já que viveu em cativeiro até atingir a maioridade.

–Normalmente, não – Luke explicou. – Todas as que eu já ouvi falar estavam mortas. Já essas aí...

–Espera aí – Evangeline interrompeu. – Olha o Erick lá atrás!

O antigo ceifador do Lago da Vida estava sobrevoando a multidão, procurando por alguma coisa. E eles tinham uma boa ideia do que, ou melhor, quem poderia ser.

–Mas como ele... – Isaac não podia acreditar no que estava vendo. Ele mesmo havia o matado, e com uma arma sobrenatural. – Eva, leve Alanna e Madison pro Limbo! Eu e Luke vamos distraí-los. Alanna, quando estiver lá, procure Lucy e mande ela vir pra cá com a Lee.

Uma vez preparados para executar o plano, eles saíram sorrateiramente pela porta o máximo que puderam antes das múmias os avistarem. Duas dúzias ou mais vieram primeiro, cercando-os contra a parede de casa. Isaac protegeu seu grupo com um muro negro no formato de um meio-cilindro, deixando uma abertura horizontal como a de um bunker. Luke incinerou os inimigos, que queimavam rapidamente com os pedaços de pano agindo como condutores do fogo.

Eles continuaram avançando dentro do bunker, com Luke cuidando da retaguarda. Duzentos metros depois, alcançaram o lado norte da muralha da cidade, onde Evangeline abria um buraco no concreto com cupins enormes que saíram de seus dedos.

–Cara – disse Luke. – Sua mulher é nojenta.

–Cala a boca e continua queimando! – Evangeline respondeu.

A quantidade de múmias só crescia, e o fogo não os queimava rápido o suficiente. Foi nesse momento que Isaac fez estacas negras saírem do muro negro, empalando e empurrando os inimigos para trás. Isso os deu tempo o bastante para os cupins criarem um buraco grande o suficiente para elas passarem, e minutos depois estavam soterrados por cadáveres, que se amontoaram por cima do bunker.

–Onde estão Ingvarr e Jack? – perguntou Luke, quase gritando. Precisava competir com os sons medonhos das múmias, que eram tão desagradáveis quanto um feto demoníaco agonizando na pia de um hospital abandonado.

–Eles tinham ido no bar – Isaac respondeu, no mesmo tom de voz. – Esses monstros parecem até uma mistura daqueles dois!

O bunker estava completando fechado, e Isaac se esforçava para empurrá-los e ganhar espaço. Pouco antes de ter avançado um metro, notaram que o clima estava esquentando rapidamente.

–Esse calor – Isaac disse. – Será que são as múmias?

–Não deve ser isso. Deixa eu olhar lá fora um instante.

Isaac abriu um quadrado no muro, ao que Luke notou que os cadáveres estavam efetivamente mortos, mas com um fogo que ardia azul.

–Isaac... Tem algo ruim lá fora.

–Eu sei, as múmias. Tem muitas delas?

–Estão todas mortas, mas tem algo pior.

Ele era alto, branco como gesso e de olhos vazios. Os cabelos eram caracóis louros que arqueavam a face, que por sua vez era contornada por uma curta barba áspera. Suas mãos irradiavam o fogo azul, enquanto ele permanecia imóvel olhando fixo para uma direção qualquer. As roupas mais pareciam uma armadura feita de ossos escuros.

Isaac desfez o muro negro, e se viu em um mar de corpos fumegantes que os separava da figura esquisita. Nesse momento, sua cabeça virou de maneira dura, como um robô.

–Vocês dois – ele disse, inclinando a cabeça levemente para o lado. – Eu sei quem são.

Por um instante, os dois pensaram que por algum motivo todos os conheciam. Pensaram também em como isso era extremamente inconveniente.

–Eu sou Nero, manipulador das chamas do Tártaro – a forma com que se expressava era parecida com a de uma marionete. A emoção que transmitia nas palavras parecia superficial. – E em nome de Erick, matarei vocês dois.

–Você não com quem está mexendo, carinha – Luke sussurrou pra si mesmo. Isaac acabou o ouvindo, e deu um pequeno sorriso de canto, pois sabia que seu amigo estava terrivelmente certo.

Nero ergueu os braços de forma mecânica, e as chamas azuis correram ao redor da rua passando de múmia em múmia até fechar uma elipse, para então levantarem até dois metros de altura.

As chamas do Tártaro eram particularmente e impiedosamente quentes. Diziam as lendas que havia um rio no Tártaro onde os pecadores mortos sofriam proporcionalmente à sua índole de quando eram vivos. Apesar desse rio, o Flegetonte, ser por muitas vezes descrito como um rio de sangue fervente, agora ficava bem claro que era literalmente um rio de fogo azul.

Isaac foi o primeiro a atacar, com uma estaca crescente a partir do chão, coisa que ele já estava bem habituado a fazer. Para a sua surpresa, porém, a estaca negra nem sequer chegou a Nero, tendo sido consumida numa combustão espontânea em milésimos.

–Ele queimou sua matéria negra? – Luke estava realmente espantado. Havia visto aquele material suportar literalmente tudo a que foi submetido.

–Parece que sim. É melhor não chegarmos muito perto dele – Isaac havia corretamente observado que sua estaca queimou quando entrou num certo alcance do inimigo. Logo, concluiu que havia supostamente um campo ao redor de Nero onde as coisas automaticamente pegavam fogo pelo simples fato de estarem próximas dele.

–Nós somos Imortais – Nero anunciou. – Vocês são vermes.

As chamas do Tártaro arqueavam o céu como uma serpente em direção aos dois amigos. Como se já não bastasse a cor do fogo se misturar à do céu azul, o sol também ofuscava-os a visão.

Houve pânico quando eles não sabiam onde o ataque aconteceria. Diferentemente do fogo comum, aquele se dobrava no espaço como algo sólido, ou talvez líquido. Isaac pensou em proteger a si mesmo e a Luke com a matéria negra, mas isso já havia sido provado não ser efetivo contra aquele sujeito. Então ele viu Luke evaporando no ar, e aparecendo fora do alcance da serpente flamejante deixando pra trás um rastro de fumaça. Nesse momento, Isaac mesclou-se às sombras de sua foice, que percorreram o chão até sair ao lado de Luke.

Isaac surgiu das sombras, e parou ao lado de seu amigo. Enquanto isso, Nero deslizava pela enorme labareda que havia formado ali, sem sofrer uma queimação que fosse. Quando finalmente estava fora das chamas, virou o rosto para os dois.

–Esse cara não morre – disse Luke.

–Nós somos imortais – Nero repetiu. A cada minuto que passava ele se parecia mais com um robô.

–Já sabemos – Luke disse enquanto apanhava uma pedra no chão. Arremessou-a na direção de Nero, e a viu se esfarelar em partículas de fogo.

–Isso não funciona, cara – Isaac o fez notar. – Ele tem esse campo em volta dele que queima tudo que se aproxima.

–Eu sei disso. Só queria ver o limite desse campo.

Luke desapareceu no ar, enquanto Isaac podia vê-lo em sua forma gasosa. A fumaça partiu em direção a Nero rodopiando no ar, e quando chegou ao inimigo, não sofreu dano algum. Exceto, é claro, depois que Luke materializou-se novamente atrás de Nero, deixando seu braço de metal atravessado no peito dele.

Os átomos do metal pareceram pular como minicometas para toda parte. Em segundos, o braço de Luke havia se tornado pó, mas ele estava a uma distância segura. Sobrara apenas um pedaço do braço, até o cotovelo.

O conceito de tangibilidade nos diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Esta é a razão pela qual Nero acabou com um enorme buraco no lugar onde havia desintegrado o braço de Luke.

Apesar disso, ele não mostrou reação. Olhou o buraco, e se virou na direção de Luke.

–Nós somos imortais – ele disse.

Não só as três vezes que ele disse isso foram suficientes, mas agora o fato de que ele estava ali mortalmente ferido como se nada tivesse acontecido também provava que ele não estava falando por falar.

Nero deu um soco assustadoramente robótico em Luke, mas razoavelmente fraco. O grito de Luke, por sua vez, deu-se pela dolorosa queimadura no lado esquerdo inferior do rosto.

Com a única mão na face e deitado no chão, Luke se contorcia agonizante enquanto seu algoz, o segundo pelas suas contas, preparava o ataque final.

–Sai daí, Luke! – Isaac gritou. Vendo que seu amigo estava fora de si, ocupado demais tentando amenizar a queimadura sem sucesso, Isaac mergulhou nas sombras e saiu com velocidade suficiente para ser jogado no ar, direcionando um chute na costela de Nero.

Ele foi arremessado uns poucos metros para longe de Luke, mas houve tempo suficiente para que Isaac levasse seu amigo pra longe do perigo.

Quando se virou, Isaac viu Nero se levantando vagarosamente, e ao fundo algumas múmias desavisadas eram consumidas pelo fogo que os cercavam. Foi então que Isaac teve uma ideia.

Nunca havia tentado fazer isso antes, não com essa proporção. Ele decidiu expandir o máximo que pode sua matéria negra por toda a arena onde estava. Depois disso, fez as sombras cobrirem não só a superfície, mas toda a área sob ela. Pedras, terra e plantas, tudo num raio de trinta metro e numa profundidade de mais trinta, enegreceu-se como a noite. Com muito esforço, Isaac afastou o máximo que pode o solo em um determinado ponto, no qual Nero ainda tentava se equilibrar.

Tão lento quanto Nero, o solo ia se rearranjando até que um grande buraco havia se formado. Quando Isaac soltou, exausto, as toneladas de chão que estava empurrando, houve alguns pequenos deslizes de terra que caíram por cima de Nero, que por sua vez havia caído quando o chão cedeu sob seus pés.

Com o Imortal ironicamente enterrado em seu túmulo, as chamas morreram e Isaac levou Luke para longe dali.

Notas finais
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