Aftermath
15 Mortos e arrependidos
Notas iniciais
No fim, tudo era negro. Não podia me mover e nem falar, mas ainda lembrava de ter escutado os sons, e eles tocavam de novo e de novo, sem parar na minha mente. “Ladrão!”, eles gritavam, e desembainhavam suas adagas. Ouvia os passos na terra fofa se multiplicando a cada minuto e o barulho ficava cada vez mais incômodo. De um lado, Isaac, Eva e Ingvarr tentavam se proteger dos assassinos. Eles queriam me ajudar, mas estavam impotentes enquanto os vikings tinham suas gargantas dilaceradas. Do outro lado, mais próximo de mim, meu algoz se preparava para arruinar minha vida. Sayid, sim, ainda me lembro do nome dele. Lembro do seu rosto, sua voz... O maldito arrancou meu braço, também me lembro disso. Nunca senti tanta dor na vida... Toda a região do meu ombro direito em diante latejava e jorrava sangue naquela mesa de madeira. O machado pintado com meu sangue ainda estava fincado na mesa.
Mesmo desmaiado, eu sentia as coisas ao meu redor. Ou achava que sentia, pois tudo tinha uma sensação de que eram memórias de muito tempo atrás. Pareceu por um momento que eu tive náuseas, pois sentia meu corpo balançando, para cima e para baixo, como se estivesse em alto-mar. Devo estar no Aqueronte, pensei. O rio do infortúnio da mitologia grega, onde Caronte levava as almas de barco para que fossem lá deixados todos meus sonhos, desejos e deveres que não realizei.
Do outro lado do rio, o Cérbero me aguardava. O barco parou de balançar, e eu estava em terra firme novamente. O grande cão de três cabeças sorriu pra mim me dando as boas-vindas. Ele guardava um portão ainda maior, cuidando para que nenhuma alma saísse. Meu tamanho se comparava apenas com a menor das garras do monstro, era difícil enxergá-lo por completo. O Cérbero se afastou arrastando lentamente suas patas, e o portão se abriu.
Antes de entrar, uma das cabeça do cão me chamou.
–Luke...
Olhei para o monstro, e reparei que os rostos dos meus amigos sobrepunham os da fera. Isaac no centro, Eva à minha esquerda e Ingvarr à direita.
–Você vai ficar bem – eles disseram, em coro. – Nós vamos te salvar.
Agora é um pouco tarde pra me salvar, creio eu. Estou na porta do Tártaro, a um passo da paz eterna. Então, que seja.
Andei para frente em direção ao portão, mas não pareceu que me movi nem um centímetro. Dei mais alguns passos rápidos, mas o portão não estava mais próximo. Corri o mais rápido possível, e ainda não conseguia passar pela entrada do submundo. Não havia sequer saído do lugar.
Olhei para trás novamente, na direção do rio. O Cérbero estava menor, agora do meu tamanho e com os rostos monstruosos de novo. Ele se aproximou e soprou um hálito ardente no que restou do meu braço. Aquilo ardeu muito, eu tentei gritar e sair do lugar, mas não conseguia fazer nada além de ficar parado e olhar. A segunda cabeça mordeu a ponta do toco de braço, com dentes finos como agulhas. A terceira mordeu a própria língua, e lambeu meu braço esquerdo deixando um rastro de sangue nele.
Então, tudo começou a esfriar. Todo o ambiente escuro da morte ao meu redor, frio como o inverno, mas meu corpo continuava cada vez mais quente. Caí encolhido no chão, e tremia tanto de frio que mal conseguia controlar meus movimentos. As gotas de suor encharcavam meu corpo, até que avistei os portões abertos.
Me arrastei até eles, lutando contra o frio, e pude me levantar para caminhar os últimos passos em direção à eternidade. Agora, meus passos me levavam adiante, e finalmente atravessei a entrada, formada por uma névoa branca.
Do outro lado, era uma floresta. Algo familiar, mas não tenho certeza. Eu estava alto, muito longe do chão. Conseguia me movimentar livremente, voando por aí. Não havia um corpo, apenas minha consciência. Eu estava leve, e a brisa era agradável.
Voava por entre os galhos e as folhas, subia até depois das copas das árvores e voltava ao gramado, quando me vi de volta no acampamento da Ordem Negra. Não havia ninguém ali, mas ainda restava o sangue seco na mesa ao ar livre, pintando a fenda feita pelo machado de Sayid. Fora ali o lugar em que fui mutilado, mas meu braço tinha sido retirado dali.
Reparei no rastro de gotas de sangue que seguiam da mesa para fora do acampamento. Poucos metros depois, uma pilha de corpos carbonizados escondiam-se em um buraco fundo na terra. As vestes foram removidas de seus corpos e estavam de lado. Eram armaduras vikings. No topo dos cadáveres, estava meu braço enegrecido pelo fogo. Me aproximei e, ignorando o fato de eu não ter exatamente um corpo naquele momento, tentei tocá-lo.
Então comecei a me materializar de novo. A fumaça se concentrava e lentamente se tornava carne e osso. Senti meu peso como se estivesse três vezes maior, e sentia bastante frio por estar sem roupas.
Por mais que me esforçasse pra entender o que havia acontecido, minha cabeça girava e o corpo exigia mais atenção para que eu conseguisse ficar em pé. Sabia que eu precisava de ajuda, mas estava mais preocupado com meus amigos. Isaac, Eva e Ingvarr estavam por aí, tenho certeza disso. Eles nunca seriam derrotados por aqueles terroristas. Comecei a andar, sem saber pra onde, tentando encontrá-los. Por um momento, achei que estava andando desacordado, mas resisti o tempo que pude até o momento em que desmaiei novamente.
...
Pareceu ter se passado uma década, mas finalmente eu realmente havia acordado. Estava deitado numa cama, em um quarto com parede, mobília e luzes todas brancas. Esfreguei os olhos com as mãos, mas falhei no lado direito. O toco de braço estava completamente fechado com minha própria pele, e já não doía tanto como antes. Finalmente, fui agraciado por uma voz familiar.
–Luke! Você acordou, que ótima notícia! – era Eva, que estava sentada em uma poltrona do meu lado. Próximo a ela estava um balde de plástico.
–Oi, Eva – após tanto tempo, estranhei minha própria voz. – O que aconteceu depois que eu... Depois que eu desmaiei?
–Nós fugimos. Eu, você, Isaac e Ingvarr. O restante dos vikings não sobreviveu.
–E como viemos parar aqui? Que lugar é esse?
–É uma nova cidade em algum lugar da Hungria. Chamam de “Manneuver”. Ingvarr cuidou do seu braço enquanto eu e Isaac fomos atrás de quem fez isso com você... Mas quando voltamos, ele disse que você tinha desaparecido!
–E confiaram nele? Eu nunca acreditaria. Não naquele cara.
–Ele não é má pessoa. Está conosco agora, e queira você ou não, ele sacrificou o povo dele por você. E o que ele disse foi bem convincente...
–O que ele disse?
–Ele disse que você virou fumaça... Igual sua irmã quando morreu. Ah sim, isso me lembra. Voltamos ao Limbo alguns dias atrás, e Lucy está lá, viva! Pelo jeito, um ceifador só morre se for por uma arma sobrenatural, como a foice do Isaac.
–Jura? Isso é ótimo! Quando vamos voltar para lá?
–O quanto antes. Houveram alguns problemas com dois ceifadores. Um matou Mei, mas agora está morto também. O outro é Erick, aquele velho amigo da sua irmã. Ele roubou as almas pra si, e agora está muito forte.
–E eles estão todos no Limbo?
–Erick nos jogou de volta pra Terra e mudou as posições dos portais, e temos quase certeza que tem um no topo do vulcão próximo daqui. É bem provável que Erick esteja caçando Lucy e Azalee.
–Então chame o Isaac! Vamos logo pra lá!
–Não senhor. Você está totalmente fora de condições de lutar. Além disso, Ingvarr está voltando de uma viagem para ajudar.
–Viagem?
–Sim, ele foi procurar runas nórdicas nas ruínas vikings. Quando ele voltar, poderemos ter auxílio mágico.
–Entendo... E onde está Isaac?
–Bom... Salvamos uma garota ontem à noite de um assassino. Ele foi levá-la pra casa mas não voltou até agora... Estou um pouco preocupada...
–Não se preocupe. Odeio admitir, mas com a força daquele cara, ninguém pode com ele. Às vezes penso em qual de nós dois é o mais forte. Gostaria de lutar com ele um dia, mas sem um braço vai ser complicado.
Nesse momento, um sujeito estranho entrou no quarto. Era bastante parecido com Jacob, se não fosse pelo semblante no rosto.
–Bom dia, pessoal. Vejo que o peladão acordou, como se sente?
–Melhor... O que quer dizer com “peladão”?
–Te encontramos na floresta sem roupas. Não sabíamos se era uma boa ideia te manter aqui gastando recursos médicos sem nem te conhecer, mas o doutor me convenceu. Que bom que o fez, quem diria que vocês são amigos?
–Muito obrigada, Chanceler. Foi um alívio saber que ele estava vivo.
–Não foi nada. Mas e você, Eva? Melhorou?
–Acho que sim... Deve ter sido o jantar de ontem. Meu estômago havia se acostumado a comer pouco quando estávamos na estrada.
–O que aconteceu? – eu perguntei.
–Eva não estava muito bem ontem. Ela vomitou algumas vezes, então pedi pra trazerem um balde caso voltasse a passar mal.
–Teve alguma notícia de Isaac, Chanceler? – Eva perguntou.
–Eva, preciso dizer a verdade. Infelizmente, nossa cidade está sendo alvo de alguns assassinatos, e as vítimas que escaparam, incluindo a que salvaram ontem, dizem que foram os vampiros. Agora, quem são os vampiros? Não faço ideia, mas logo vou descobrir. Nossos batedores encontraram rastros de pano preto rasgado nas árvores da floresta do leste, e parece que encontraram algo.
–Então são mesmo vampiros? – Eva disse. – Meu deus, eles pegaram Isaac!
–Acalme-se, Eva. Já convidei as pessoas para virem conosco. Todo mundo está revoltado com esses assassinos, e com certeza vão haver muitos voluntários.
–Eu vou também – eu disse.
–De jeito nenhum – Eva me impediu. – Você fica e melhora. Não preciso de mais um pra me preocupar.
–Ela tem atitude – brincou o Chanceler.
...
O médico me deu alta naquela tarde, mas me proibiu de fazer esforço físico. Precisava comer pra recuperar as forças. Andei pela cidade procurando algum restaurante ou coisa do tipo. Estava quase deserta, pois vários moradores se juntaram à caça pelos vampiros, incluindo Eva e o Chanceler. Enfim, encontrei uma lanchonete e fui falar com a atendente, uma mulher já de idade com seus cabelos grisalhos, bastante magra e alta.
–Boa tarde, senhora – eu disse. – Sou novo na cidade, e preciso comer alguma coisa... Pode me dar algo em troca de alguma coisa que não seja dinheiro?
–Oh, não se preocupe, querido. Não usamos dinheiro aqui. Você pode pedir o que quiser sem pagar, mas só pode comer duas vezes por dia.
–E isso funciona? Não tem prejuízo?
–Temos que fazer funcionar. Eu só preparo as refeições, não sou dona do estabelecimento ou dos produtos. Aqui tudo é de todos, e até agora não houveram problemas.
–Bom... então me dê o prato mais calórico que você tiver, por favor.
A senhora trouxe um grande pedaço de bife, ainda sangrando de uma churrasqueira que tinha nos fundos. Era a melhor carne do mundo, depois de tanto tempo sem comer. Alguns minutos depois, entrou alguém na lanchonete.
–Olá, Luke – era Ingvarr. – Não acreditei quando os guardas lá na frente disseram que você estava vivo, mas pelo jeito é verdade.
–É, estou bem vivo. Vivo o bastante, eu diria. Sente-se, coma alguma coisa.
Ele se juntou a mim e pediu o mesmo prato que eu. Apesar de não gostar dele, senti que precisava dar uma chance. Afinal, ele pode ter salvo minha vida.
–Os guardas disseram que Isaac está sumido, é verdade?
–Sim, mas Eva e metade da cidade foram procurá-lo. Não se preocupe, logo todos estarão de volta. Eva disse que você cuidou de mim quando me cortaram o braço, é verdade?
–É, mas você pegou uma febre muito forte. Vi você virando fumaça na minha frente, Luke. O que aconteceu?
–Não faço ideia. Mas devo ter desvirado depois, em outro lugar. Tive um sonho quando desmaiei, eu estava voando pela floresta e passei inclusive pelo acampamento de Sayid. Aliás, o que aconteceu com a Ordem Negra?
–Isaac e Eva acabaram com eles e os Templários. Todos eles. Fizeram isso por você, na verdade. Foi pura vingança. Isaac estava assustador.
–Destrói exércitos inteiros só pra se vingar de quem mexeu com seu amigo. Isaac é um cara único mesmo. Enfim, por onde andou?
–Isaac pediu pra eu procurar runas pra podermos usar a Vervalser. Encontrei algumas, mas ainda preciso decifrá-las. A propósito, acho que posso te ajudar com o braço.
–O que quer dizer?
–A maioria das magias nórdicas consistem em dar vida a coisas inanimadas. A diferença está em como fazer isso. O Vidente, por exemplo, deve ter invocado um espírito antigo pra controlar Ymir, mas não se preocupou em saber se o espírito era bom ou mau. Ouvi falar de uns ancestrais vikings que faziam próteses de madeira completamente funcionais com as runas. Posso tentar descobrir como se faz isso.
–Seria ótimo ter meu braço de novo. Obrigado, Ingvarr.
Pelo jeito, seria fácil fazer amizade com ele. Não parecia mais a mesma pessoa de antes, que só se importava com seus preciosos vikings e abusava da boa vontade de pessoas como Isaac e Eva. Agora, ele é um de nós, assim como Eva disse.
Voltamos para a casa que o Chanceler cedeu para nós. Lá, Ingvarr começou a ler as estranhas tábuas de pedra, gravadas com símbolos ainda mais estranhos. No cair da noite, Eva retornou.
–Eva? Vocês o encontraram? – perguntei.
Ela parecia distante, e sequer percebeu que Ingvarr e eu estávamos ali.
–Eva! – me aproximei dela. Pelo rosto dela, algo ruim tinha acontecido.
Segurei-a nos ombros e ela finalmente olhou pra mim.
–O que aconteceu? – tornei a perguntar. Seus olhos e nariz estavam vermelhos e ainda escorria um resto de lagrima dos olhos.
–Luke... eu... – ela disse, antes de sair correndo para o banheiro. Pude ouvir ela vomitando de novo.
Não havia sinal de Isaac.
...
Já no dia seguinte, estávamos de volta ao hospital. Eva deitava-se na cama, ainda abalada pelo dia anterior. Não havia dito uma palavra, pois trancou-se no quarto depois de vomitar por quase duas horas.
–Vou fazer alguns exames, mas recomendo que fique aqui para qualquer emergência. – disse o doutor.
–Isso não é uma infecção estomacal, não é doutor?
–Com certeza não. Vou saber em breve, mas posso ver como ela está fora de si. Ela já sofreu de depressão?
–Não que eu saiba. Mas a tristeza dela não tem a ver com os vômitos, doutor. Ela veio a ficar triste assim depois de começar a vomitar.
–Estranho... Bom, farei os testes. Em um dia ou dois terei os resultados.
O médico saiu e me deixou com Eva e Ingvarr no quarto. Me virei para Eva para tentar descobrir o que houve.
–Eva, o que aconteceu ontem?
–Eu... – ela olhava fixa pra frente. – Eu o matei, Luke. Ele se juntou a eles... Ou não... Já não sei mais! Eu estava tão brava... Nunca me senti assim antes.
–Espera aí! Você matou Isaac?
–Foi uma confusão... Todos estavam tão revoltados com os vampiros... E Isaac estava lá, com eles... Agora acho que ele não estava lá por vontade própria...
–Você matou com a foice dele?
–O quê?
–A foice dele. Você disse que um ceifador só morre se for por uma arma sobrenatural.
–Não... Tem razão, Luke! Ele está no Limbo!
–Então vamos buscá-lo!
–Mas... Não sei se ele ainda vai continuar com a gente... Nem sei se ele foi levado pelos vampiros ou se ele se juntou a eles.
–Só temos um jeito de descobrir. O portal. Ele parece estar aberto até agora, veja – apontei para o vulcão pela janela. – O brilho vermelho ainda está lá.
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