Aftermath

16 Fogo e fumaça


Notas iniciais
Olá, meu nome é Igor, e sou o criador do Aftermath. Este é meu projeto que venho desenvolvendo há meses, e pretendo engrandecê-lo e um dia expandí-lo pra outras plataformas (jogos, livros, produções audiovisuais). Agradeço aos que leram, e caso se interessarem pela trama poderão acompanhar também pelo blog, cujo link estará nas notas finais. Obrigado a todos, e boa leitura =)

Minha cabeça girava enquanto o quarto branco do hospital de Manneuver aos poucos se formava ao meu redor. Pareceu que havia dormido por ainda mais tempo do que a primeira vez, quando me encontraram na floresta. Pelo menos desta vez eu não estava nu.

A cirurgia foi um sucesso, e agora havia uma prótese-base no meu braço, com soquetes para encaixar outras peças. Ingvarr providenciou tudo, e eu pedi ao doutor que a inserisse ao meu braço.

Ingvarr fez um braço de ferro soldando e cortando pedaços de armadura que haviam na cidade. Encaixou na peça que estava presa ao meu braço e a selou com travas de segurança. Era muito mais pesado do que eu imaginei, mas ele dizia que logo o peso diminuiria, quando eu passasse a controlá-lo.

Deitei na mesa do centro da sala de casa. Eva assistia nos fundos, curiosa. Ingvarr preparava o ritual com as runas à sua frente, e as velas iluminavam a sala com uma luz avermelhada, além dos incensos que soltavam suas fumaças perfumadas pela casa toda. O viking proferiu algumas palavras nórdicas enquanto segurava o braço de metal, e uma névoa preta começou a se formar em torno de suas mãos.

–Das cinzas da morte, um vivo se levanta... Uma vez completo, e agora de novo – ele disse, como uma profecia.

Filamentos brilhantes surgiram no metal, como veias pulsando fogo e sangue. Senti o ferro formigando como se fosse parte de mim, e o braço artificial começou a se contorcer com gestos involuntários, que foram cessando devagar. A névoa se dissipou, e as veias incandescentes sumiram, e agora eu podia controlar o braço de ferro normalmente.

–Está feito – Ingvarr disse. – Faça um teste.

Mexi o braço com uma facilidade incrível... O peso havia sumido, e havia precisão em cada minúsculo movimento dos dedos.

–Embora faça parte de você, o braço não é exatamente real, Luke – Ingvarr continuou. – Não vai sentir dor nele, e pode até trocar as peças se quiser. Mas recomendo bastante que evite eletricidade...

–Vou tentar – respondi. – Acho que não vou demorar a me acostumar a isso. Parece... ótimo!

De repente, o braço começou a emitir uma fumaça.

–Ingvarr, o que é isso?

–Não sei, mas não pode ser do braço. Não tem nada inflamável nele, seu corpo não pode estar queimando as peças!

–Então, de onde vem essa fumaça?

–De você, Luke! – Eva disse. – Só pode ser você! Isso explica você ter virado fumaça quando achamos que havia morrido!

–Deve ter algo a ver com o sangue de Isaac que está no seu corpo – Ingvarr explicou. – Precisamos de uma transfusão urgente, e ele disse que tinha “sangue tipo universal”. Talvez tenha lhe dado novos poderes.

Lembrei do sonho que eu tive. Tudo se encaixava! Eu não podia avançar pela porta do inferno porque estava em algum tipo de coma, e após eles cuidarem de mim, eu consegui. Eu devo ter interpretado como o Cérbero. A primeira cabeça cauterizou minha ferida, a segunda costurou e a terceira fez a transfusão! Então, Isaac além de me salvar havia me deixado mais forte. Um motivo a mais para eu buscar meu amigo no Limbo, e agradecer por tudo.

...

O braço mecânico se mostrou super útil, a começar pela facilidade que tive para escalar o Sarkany. Enquanto eu subia incansavelmente, Eva e Ingvarr lutavam pra tentar se manter próximos a mim. O vulcão era imenso, e quando chegamos no topo podíamos ver toda a cidade à sua base, separada pelas trincheiras. Por mais alto que estivéssemos, parecíamos ainda estar a anos-luz de distância das nuvens.

A cratera escura do vulcão era tampada por uma camada de rocha, que provavelmente fora lava em outros tempos, mas agora havia solidificado. No meio da plataforma encontrava-se uma fissura que brilhava o vermelho que podia-se ver a quilômetros dali.

–Acha que é seguro descer lá? – Eva perguntou.

–Temos que tentar – eu respondi com incerteza. – Aquele é o portal, não é?

–Não tenho certeza. Mas definitivamente é a luz que Isaac e eu vimos da estrada.

–Espero que vocês estejam certos – eu disse, e pulei para dentro da cratera.

A queda era de apenas dois metros e meio, e a camada de rocha se mostrou bastante estável.

–Podem vir – eu gritei de lá de baixo. – É bem firme.

Eva e Ingvarr desceram, e fizemos nosso caminho até a rachadura brilhante no chão. Me deitei ali do lado e espiei lá dentro. O brilho era ainda mais intenso, mas algo se movimentava.

–E então? – Ingvarr perguntou.

–Não tem cara de portal – eu disse. – Eu prefiro não arriscar.

–Esperem, ouviram isso? – Eva disse.

Fiquei em silêncio, tentando ouvir seja lá o que Eva escutou. E então eu percebi, um pequeno tremor que vinha de baixo. Olhei mais uma vez pela fissura, e algo se aproximava.

–Corram!

Cada um de nós correu pra um lado da arena de obsidiana, enquanto a fissura era rompida por uma fera gigante em chamas que emergia do fundo do vulcão.

–Um colosso! – Eva avisou.

O monstro era como um pássaro enorme, parecido com um avestruz com ossos expostos. Era parcialmente envolto em chamas, e a lava ainda escorria de suas entranhas. Tinha uma cauda com diversos chifres, e sua ponta se assemelhava a uma picareta. As patas tinha enormes unhas em forma de gancho, e seu bico torcia-se para trás da cabeça como um rinoceronte. Os ossos das asas eram pontudos como lanças, e haviam várias pontas.

A fera rugia um som horrível de uma ave em agonia. Por sorte, era tão pesada que não podia voar. Ela partiu pra cima de nós, arrastando-se pela rocha. Por instinto, disparei minhas chamas contra a fera, e percebi que somente meu braço “de carne” ainda tinha a habilidade. O de metal, apesar de esquentar, não fez nada. A fera ignorou minhas chamas, que nem deviam se comparar à lava que caia de seu corpo.

Isso atraiu a atenção dela pra mim, que parou na minha frente e girou, me atingindo com o rabo. Me defendi com o braço de metal, que se mostrou um ótimo escudo: o impacto me fez deslocar por uns metros pra trás, com os pés firmes arrastando no chão.

Ingvarr chegava ao lado do colosso com seu machado em punho, e acertou-lhe o tornozelo. A fera não demonstrou dor, e atacou Ingvarr com a asas de lanças, mas o viking desviou.

–Vocês dois, subam para a borda do vulcão! – Eva gritou.

Ingvarr foi o primeiro a correr, mas eu fui mais rápido para subir. Eva atraiu a atenção do colosso para si, a levando para longe de nós. Ela levantou os braços, formando uma cruz com o corpo, e liberou uma nuvem de anthrax dentro da cratera.

–Sufoque, monstro maldito! – ela gritou, e a névoa lá embaixo ficara tão espessa que ficava difícil de ver.

O colosso também não sofreu dano algum, pois já não possuía muita carne e provavelmente nenhum pulmão. Era só ossos. Abriu as asas avançando em Eva com o bico, a atingindo e derrubando no chão, próxima ao buraco que agora estava ainda maior e mais frágil.

–Ela caiu! – Ingvarr observou. – O que vamos fazer?

Eu precisava ajudá-la, mas ela estava cercada de anthrax com aquele monstro. Qualquer outro que entrasse ali seria corroído pela fumaça... Espere, é isso!

Me concentrei um pouco, tentando me lembrar de como me senti antes de acordar em Manneuver. Talvez se eu virasse fumaça novamente, poderia resistir ao gás tóxico. Aos poucos, meu peso foi diminuindo, até que comecei a flutuar. Eu consegui, dominei a forma de fumaça. Entrei na nuvem esverdeada sem problemas, e me aproximei de Eva, que estava desmaiada.

Agora, o que eu faço? Não posso interagir com Eva nesse estado, mas se eu voltar ao normal eu morro... Experimentei então atacar o colosso. Entrei em seus poros de onde havia um resto insignificante de carne, e de repente me vi dentro dele. Lá eu podia me movimentar livremente, e percebi que podia controlar o monstro se manipulasse o sistema nervoso dele.

O colosso caiu, levantou, e caiu de novo. Ele resistia, mas eu estava no comando. Cambaleando para os lados, o fiz tombar de volta para o buraco de onde ele saiu, e ele caiu ao lado do buraco, que também cedeu com o impacto. O colosso afundou na lava enquanto eu saía em forma de fumaça de volta para o lado de Ingvarr.

Alguns poucos minutos depois, o anthrax se dissipou e nós trouxemos Eva de volta pra casa.

...

Já estávamos em casa e a noite chegou sorrateira. Eva vomitou mais uma vez, e isso começava a me preocupar também. Não só isso, mas a nossa falha em entrar no portal. Sabia que se o monstro era do Limbo, então com certeza ali havia um portal. Pelo menos, matamos aquele colosso antes que causasse algum mal à Manneuver.

–Você foi muito bem, Luke – Ingvarr disse. – Achei que precisaria de treino pra dominar esse poder de fumaça, mas acho que me enganei.

–Não é muito difícil de fazer. Na verdade, é tão natural quanto respirar. Acho que é porque faz parte de mim agora. Fogo e fumaça.

–Isso é ótimo. Estive pensando... Vocês todos são tão poderosos que mal precisam da minha ajuda. Acho que chego a atrapalhar às vezes. Por isso, estou trabalhando em algo que me equipare a vocês. Vou ser tão poderoso quanto você, Luke.

–Essa eu quero ver. O que tem em mente?

–O mesmo que o Vidente fez com Ymir, só que sem a parte ruim.

–Como assim?

–Ymir tinha um espírito capaz de reanimar e controlar os mortos. O problema é que o espírito estava no controle do corpo de Ymir. Mas se eu encantar um objeto com esse espírito, ele não poderá causar nenhum mal pois é algo inanimado.

–Entendi. Então você seria como ela, mas ainda seria você.

–Exatamente. Eu poderia usar os poderes, que não vêm de mim, mas sim do objeto. Eu apenas canalizaria para algum alvo.

Naquele momento, bateram na porta. Eu a abri, e era o doutor.

–Boa noite, Luke. Por favor, posso falar com a Eva?

–Claro, só um momento – chamei Eva, e voltei para o sofá com Ingvarr.

Pude ouvir o que eles conversavam na porta.

–Eva, não entendo. Os exames dizem que você está absolutamente saudável. Testei todos os tipos de vírus e bactérias nas amostras que você me deu, mas seu sangue é imune a tudo. Nunca vi uma imunidade tão forte.

–O que eu faço então, doutor? Eu não paro de vomitar!

–Com certeza não é nenhuma infecção estomacal. Vou continuar pesquisando, mas até agora não há nada com o que se preocupar. Na verdade... Acho que tive uma ideia do que pode ser... Mas não, é impossível! Num mundo como esse... Espero que eu esteja errado. Devo voltar ao hospital, depois falo com você. – e o doutor saiu sem esperar pela resposta de Eva.

–O que houve, Eva? – Ingvarr perguntou.

–O doutor disse que eu não tenho nada. Estou perfeitamente saudável.

–Isso é ótimo! Então, Eva – eu disse. – O que vocês fizeram com minhas coisas quando eu virei fumaça?

–Bom... Não queríamos simplesmente deixar tudo pra trás, precisávamos de lembranças suas.

–Quer dizer que vocês trouxeram minhas coisas?

–Claro, estão ali no quarto.

Essa era uma boa notícia. Lembrei do motivo pelo qual perdi o braço, aquele maldito frasco de anthrax. Corri até o quarto e remexi nas gavetas do armário, até que o encontrei, sob várias camadas de tecido, em um bolso qualquer. Aquele susto não foi em vão.

–Eva, tenho uma coisa pra você – eu disse quando voltei à sala. – Veja, um frasco da tal bactéria que seu corpo assimilou. Uma versão aprimorada, na verdade.

–Onde arranjou isso, Luke?

–No acampamento. Por isso cortaram meu braço.

–Então você é mesmo um ladrão – ela disse, tomando o frasco da minha mão. – Da próxima vez, tente não ser pego. Ficamos arrasados com sua morte.

–Me desculpe, vou tomar mais cuidado. Enfim, você acha que pode assimilar este também? Pode ser que fique mais forte! De qualquer jeito, você tem imunidade a venenos, não tem?

–É, o doutor disse que fez vários testes e meu sistema imunológico é o mais forte que ele já viu.

–Então não temos nada a perder!

Eva tirou a rolha do frasco e o bebeu. Não sei se era a melhor maneira de mandá-lo pra dentro, mas não importava mais.

–E então? – Ingvarr perguntou. – Sente algo?

–Me sinto enjoada... Acho que vou vomitar... – dito isso, ela saiu correndo para o banheiro de novo.

–Isso não pode ser nada – Ingvarr disse. – Ela está com alguma doença.

–Será que é o próprio corpo dela? Talvez querendo expulsar o anthrax?

–Pode ser. Por Odin, tomara que ela fique bem.

De repente, Eva soltou um grito horrorizado do banheiro. Corremos até lá, e a vimos saindo pela porta.

–Ali! No chão! – ela apontou.

Ela apontava para um verme nojento, úmido e barulhento, que se rastejava no chão do banheiro. Era pouco maior que um polegar, tinha seis patas e corpo de larva.

–Eu vomitei esse bicho!

–Como o doutor não viu um bicho desse em você? – Ingvarr disse.

–Deixa que eu cuido dele – apontei o braço esquerdo para o verme, pronto pra incinerá-lo.

–Não – Eva me impediu. – Vamos levá-lo pro doutor. Quero saber que bicho é esse.

Notas finais
Facebook: https://www.facebook.com/pages/Aftermath/284852921720010 Blog: http://iggorpaulino.wordpress.com/ Novos capítulos deverão sair semanalmente, não percam o próximo =)