Aftermath
22 Mais um dia por aqui
Notas iniciais
Nos anos 60, uma empresa em ascensão no ramo de automóveis lançou o modelo Diplomata na Inglaterra, e seu baixo custo tornou o carro tão popular que em menos de um semestre se tornara o veículo mais vendido do país até então.
Conforme a tecnologia automotiva evoluía através dos anos, os executivos acreditavam que o mercado pedia por uma melhoria significativa no modelo, ao invés de relançá-lo com um design mais moderno como costumavam fazer. Nos anos 80, com a febre de um filme de ação que explodira nos cinemas, firmaram uma parceria com o estúdio responsável pelo filme para lançar o Diplomata Interceptor, cujo nome é uma homenagem ao carro usado pelo protagonista do filme. Além disso, transformaram o carro em um verdadeiro potente, ao invés de seguirem o estilo “carro popular” de antes. De fábrica, ele possuía um motor V8 que contava com um único defeito, na opinião dos consumidores: devido à falta de otimização dos potentes na época, ele consumia muito combustível. Rapidamente, as mecânicas de todo mundo passaram a oferecer o serviço de otimização demandado.
Foi um desses que eu havia encontrado na estrada naquele dia. E já o tratava como se fosse amigo de longa data. Bancos de couro, painel vintage, tudo preservado por pelo menos vinte anos desde sua fabricação.
Seria um pecado bater aquele monstro sobre rodas. Por isso, encostei na estrada e deixei que Isaac, Luke e as garotas seguissem viagem enquanto eu tinha uma “recaída” com a velha voz na minha cabeça.
–Está na minha vez, Jack – o psicopata dizia. – Deixe-me matar aqueles seus novos amigos, vamos...
Felizmente, eles estavam alguns metros na minha frente e não me viram parar. Já sem controle do meu corpo, eu saí do carro e olhei para os lados da estrada.
Para o leste, ficava Dashville. As árvores eram altas e o limite da estrada perdia-se na curvatura por trás da floresta. No oeste, aos poucos abria-se um campo com bem menos árvores, e a estrada descia uma colina para depois subir outra. Via-se no fundo um par de montanhas não muito grandes.
Sentia a raiva daquele maldito como se fosse a minha própria. Por vezes me peguei pensando se aquilo não era uma alucinação minha, que eu estaria tentando justificar uma necessidade de matar que tinha dentro de mim. Por isso, bebia pra tentar não pensar no assunto, e de alguma forma isso parecia enfraquecê-lo também.
O silêncio da estrada trouxe o vento consigo, balançando as folhas de forma serena, ou talvez amedrontadora. O bater do meu coração era ensurdecedor, e a respiração estava pesada.
–Grrr – eu bufava de ódio. – Quem está aí? Quem está com vontade de morrer hoje?
As moitas se mexeram ao som de pequenos galhos sendo partidos de um lado da floresta. De repente, todas de uma vez, cinco figuras pularam por cima do Diplomata e me cercaram ao lado da porta aberta.
–Onde eles foram? – disse o maior deles, com um corpo bizarro de lobisomem que já me era familiar. Pelagem preta-acinzentada, músculos à mostra nas partes interiores do braço e no peito, três longas caudas de lobo, pés e braços desproporcionalmente maiores e com garras enormes e uma postura corcunda, mas ainda bípede. Este, no entanto, escondia sua cara feia atrás de uma máscara de couro ensanguentado.
–Eu vou matar todos vocês! – eu disse.
Um dos lobos me segurou com apenas uma mão, ou pata, e me apertou contra o carro. Esses desgraçados têm uma super-força bastante inconveniente.
Os outros dois lobos eram idênticos ao que me segurava, com exceção de uma cicatriz ou outra. O quinto era não um monstro, mas um rapaz magrelo, claramente perturbado, que era arrastado por correntes presas a seus braços e pernas.
–Vou perguntar de novo – disse o de máscara de couro. – Pra onde eles foram?
–Se eu falar, vocês vão embora – eu respondi. – E eu ainda quero matar todos vocês!
–Quer que eu o mate, Argos? – disse o que estava me segurando.
–Ainda não – ele respondeu. – Vou fazê-lo falar.
Ele tirou a máscara, revelando um focinho tão feio quanto os outros. Enrijeceu a mão, fazendo com que as garras de quase dez centímetros ficassem expostas.
–Vá se ferrar – eu provoquei.
Argos perfurou minha barriga com todos as cinco garras da mão simultaneamente, e apertou. A dor foi enorme, mas eu resisti com apenas um resmungo.
–Quem são os seus amigos? – ele perguntou.
–Não importa, eu vou matar vocês! – o psicopata adorava provocar.
–Não vai – prosseguiu Argos, e aprofundou ainda mais os dedos na minha carne.
–Urghhh – resmunguei. – Se eu não matar, eles vão! Não são como os bêbados que vocês covardes adoram enfrentar! Isaac foi um verdadeiro ceifador, e Luke é um dragão que vai torrar sua carne como se fossem cachorrinhos indefesos!
O prisioneiro dos lobos ergueu a cabeça, como se tivesse despertado sua atenção.
–Não me faça rir – esnobou o lobo. – O que um ceifador está fazendo ao lado de um imbecil como você?
–Ah, não sei bem. Devo atrair essas bizarrices, foi o segundo que cruzou o meu caminho.
–E quem foi o primeiro?
–Um idiota chamado Erick – respondi. – Era pra eu tê-lo matado, mas Isaac já o matou.
–Hum – disse Argos. – Quer dizer que Erick morreu? Foi ele quem me deu esse presente. A animalidade, a fúria de uma fera que nem existe no nosso mundo. Devo minha vida a ele, pois é graças a Erick que estou vivo agora, mais forte e com meus próprios seguidores. Agora, parece que devo vingar o meu mestre.
–Vocês vão matar Isaac? – perguntou o rapaz acorrentado.
–Não – respondeu Argos. – Preciso dele pra uma coisa. Porque se interessa?
–Ele é meu irmão. Posso ajudar a capturá-lo se vocês deixarem eu me juntar a vocês.
Argos pensou um momento, e esboçou um pequeno sorriso.
–Certo – quebrou a corrente com apenas um puxão. – Mas você já deve saber o que acontece se não conseguir. Nós abriremos suas veias e beberemos seu sangue. Vocês três, matem esse bêbado e depois nos sigam. Temos que encontrar um ceifador.
Os três monstros se aproximavam, enquanto Argos e o rapaz iam embora mata adentro. Os pequenos buracos na minha barriga se fecharam sozinhos, e os lobos mostravam as presas babando como buldogues com um bafo quente e podre. O primeiro atacou pela direita, mirando uma mordida na minha cara. Ainda sob controle do psicopata, eu me afastei um pouco para o lado e movi a cabeça o lobo na direção do outro que me segurava. Os dois se chocaram desajeitados, e eu aproveitei pra me desvencilhar saltando por cima do meu carro.
O terceiro lobo estava alerta, e me seguiu assim que eu subi. Ele pulou me derrubando em cima do teto do carro, mas eu rolei e joguei-o para trás aproveitando seu embalo. Ele caiu batendo de cabeça pra baixo numa árvore.
Quando me levantei, os outros dois subiam me cercando. Pulei no meio deles e caí de volta no asfalto. Corri até uma outra árvore no outro lado da estrada e a escalei, enquanto os dois vinham atrás.
No meio das ramificações, eu chutava os lobos na cara, impedindo-os de subir também. O terceiro saía de trás do carro, enquanto eu arrancava um galho de onde estava. Assim que o terceiro se aproximou, eu pulei na direção dele e acertei sua cabeça com o galho, que era bastante pesado. A velocidade alcançada com a queda da árvore causou um impacto grande o suficiente pra atordoá-lo, então eu dei-lhe um chute com a sola do pé, que acertou seu peito e o fez cair.
Ainda procurando o chão desnorteado, eu enfiei o galho em sua garganta. Sangue negro escorria enquanto ele tentava, sem sucesso, gritar. Apenas alguns ganidos silenciosos acompanharam a imagem do monstro se debatendo no chão em desespero.
Os dois outros saltaram da árvore e vieram me cercar. O primeiro a atacar deu uma investida, mas eu deitei no chão e ele passou por cima. Corri na direção do outro, que instintivamente atacou com um cruzado de mão aberta, visando me acertar com as garras. Novamente eu desviei, ficando em frente às suas costas.
Saltei nele e lhe dei uma joelhada tão violenta que deu pra ouvir uma costela se quebrando. Depois, soquei sua lombar e chutei a perna, e enfim ele caiu de barriga. Segurei o braço dele e pisei na junta do cotovelo, e ele gritou no instante em que o estalo aconteceu.
O último de pé já estava na minha frente, atacando com os dois braços alternadamente. Ao invés de me afastar, me desloquei rápido na direção dele, dificultando seus longos braços de me acertar. Dei-lhe uma sequência de socos na barriga tão rápidos que ele teve de recuar uns passos.
O segundo lobo, caído e com o braço invertido, choramingava e xingava pateticamente. Chutei sua cara, fazendo-o cair de novo, e aí pisei no pescoço e torci. Outro estalo, mas agora não houve grito algum dele.
Já recuperado, o terceiro veio me acertar novamente. Dei um soco mirando seu braço que vinha na minha direção, e acertei seu pulso. A guarda ficou aberta, então eu segui o primeiro soco com um muito mais forte no queixo dele.
Ele caiu sentado, e eu o segurei pela boca, com meus dedos entre suas presas. Arrastei-o até o Diplomata, peguei a corrente no chão e a enrolei no seu pescoço, enquanto a outra ponta foi presa ao para-choque do carro.
Dei uns golpes na cara pra acalmá-lo, e quando ele pareceu bastante zonzo, entrei no carro e saí arrastando-o pela estrada. Um quilômetro e meio depois, ele havia morrido.
...
Quando o psicopata já havia cansado de brincar com os lobos, ele me devolveu o controle do meu corpo. Segui viagem com a roupa toda manchada de sangue preto, e um pequeno amasso no teto do Diplomata.
Meia hora depois, na estrada, encontrei com eles voltando pela estrada.
–Jack – Luke gritou de dentro do carro. – O que aconteceu? Você sumiu!
–Os lobos – respondi. – Não se preocupem, estão mortos. Com exceção do líder, e um outro que era prisioneiro deles. Disse que era irmão do Isaac.
Alguns segundos de silêncio seguiram enquanto eles falavam algo no carro que eu não consegui ouvir.
–Ele disse – interrompi o silêncio. – Que ajudaria o líder, Argos, a capturar Isaac. Eles precisam de você pra alguma coisa, cara.
–Vamos continuar a viagem – gritou Isaac. – Em Manneuver a gente vê o que faz.
...
Manneuver é uma bela cidade. Um paraíso, comparado ao fim de mundo que é Dashville. Tem muros vigiados o dia inteiro, comida de verdade, camas confortáveis e uma rua que não cheira a vômito.
–A casa está cheia – disse Eva, se referindo à casa na qual moravam, no lado nordeste da cidade. No andar térreo, ficavam a sala de estar e a cozinha. A sala de estar era bem grande, com um sofá de quatro lugares no meio de duas poltronas. Havia uma estante com uma televisão, que obviamente não ligava. Também havia uma larga mesa de centro, onde estava uma porção de velas apagadas e umas manchas que pareciam ser sangue seco. A cozinha era um pouco menor, e bastante comum. Possuía uma bancada no centro, e ao seu redor estavam o fogão, geladeira, micro-ondas e todos outros utensílios que normalmente existem nesse ambiente. Apesar disso, só o fogão era usado, e com a ajuda de fósforos.
No segundo andar ficavam os quartos e o banheiro. Eram quatro quartos, sendo que Luke ficava em um, Ingvarr em outro, e Isaac e Eva dividiam um terceiro, o único com cama de casal. Os demais tinham camas de solteiro.
–Certo, vamos organizar isso aqui – Eva continuou. – Isaac e eu ficamos com o quarto que já usávamos antes. É melhor Jack ter um só pra ele, só pra garantir que não... – ela tentou encontrar um termo adequado. – que não machuque ninguém caso tenha uma recaída.
–É justo pra mim – respondi.
–Ingvarr usa bastante o quarto pra estudar as runas dele, então é melhor ficarem longe de lá... Luke, você é o único que sobrou. Tudo bem dividir o quarto com a Alanna?
Alanna era a loira bonitinha que eles salvaram dos lobos. Estava traumatizada a ponto de ter ficado muda, mas agora já estava melhor, embora não tenha tido a chance de se apresentar direito.
–Sem problemas – Luke concordou. – Posso dormir no sofá se acharem melhor.
–Não precisa – Alanna disse, vergonhosa. A voz dela começou bem, mas depois morreu com a timidez.
–Tudo bem – Eva disse. – Podemos usar o colchão reserva que tem no quarto do Jack. Daí vocês podem revezar se quiserem, um dia um dorme na cama e no outro no chão.
–Olha só quem chegou – disse um homem que descia pelas escadas. Era um careca meio pálido, de olhos azuis e sotaque esquisito. – E trouxeram visita.
–Ingvarr – Luke disse espantado. – O que fez com seu cabelo?
–Cansei-me dele. Me atrapalhava um bocado nos rituais. Como está o braço?
–Muito bem, mas acho que vou precisar da sua ajuda. Acabei sendo mordido por um monstro.
–Que tipo de monstro?
–Tipo um lobisomem – Isaac respondeu. – Depois explicamos. Esta é Alanna, nós a resgatamos deles. E aquele é Jack, amigo de Luke.
–Bom conhecer vocês, pessoal. Mas tenho uma boa notícia também. Vejam o que eu criei com a Vervalser.
Ele tirou do bolso um pequeno anel de prata com uma pedra escura cravada no centro. Parecia só uma bijuteria barata.
–E isso é...? – Eva perguntou.
–O anel de Ymir – ele disse, entusiasmado. – O poder dela, agora nas mãos de quem usar esse anel!
–Mas é ela mesma? – perguntou Isaac. – Como você conseguiu se ela está enterrada em Bornholm, cercada por um exército de mortos?
–Bom, vocês devem lembrar que enterramos a cabeça dela – ele explicou. – O resto do corpo eu mandei jogarem no fundo do mar. Quando eu fui procurar as runas na Suécia, acabei passando lá perto e encontrei um saco com os dedos dela boiando perto da praia.
–Ah, Ingvarr – disse Isaac. – Eu te disse pra não ir pra lá. Você podia ter morrido, nem mesmo nós fomos capazes de derrotá-la.
–Eu sei, me desculpe. Mas então eu cremei os dedos, e coloquei as cinzas dentro desta pedrinha negra, uma obsidiana. É muito fácil de achar essa pedra aqui em Manneuver, por causa do vulcão. Com o ritual certo, consegui encantar o anel com as cinzas.
–E como você sabe que funciona? – perguntou Luke.
–Testei em animais mortos na floresta. Acabei descobrindo que eles só ficam vivos enquanto eu estiver os controlando. Talvez se matássemos Ymir, os mortos cairão sozinhos.
–Um dia nós voltaremos lá, todos juntos – disse Isaac. – Mas agora temos problemas mais urgentes.
–É mesmo – disse Eva. – Isaac disse que iria comigo ao médico, checar o bebê. Luke e Alanna também virão.
–Mas e o Jack? – Isaac perguntou.
–Que tem ele? – perguntou Ingvarr.
–Eu meio que viro um assassino serial de vez em quando – respondi. – Mas não é de propósito. É melhor me trancarem no quarto até vocês voltarem.
E assim foi feito. Isaac, Luke, Alanna e Eva foram ao hospital da cidade, checar a saúde do bebê dentro de Eva. Malucos, foram querer ter filhos logo nessa época? Alanna foi levada pra cuidar de suas feridas, causadas pelos lobos.
Eu sentei na cama do meu quarto, trancado e sozinho. Perfeito, todo mundo foi embora e só eu fiquei aqui. Espreguicei-me e deitei na cama, e pela primeira vez em anos eu tive um bom motivo pra sorrir.
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