Aftermath
29 Legionários
Notas iniciais
–Acorde. Acorde agora.
A voz etérea ressoava pela minha mente.
–Estou acordado, minha senhora.
–Levante-se de seu sono, guerreiro. É tempo de proteger sua terra.
A rocha quebrou-se ao meio e se desfez em várias pedras menores. Após muitos anos adormecido, finalmente podia sentir meus músculos abdominais se contraindo quando me sentei na câmara onde fui selado.
A luz do sol esquentou meus braços, os primeiros a se erguerem da minha cama de pedra. A casca de pedra que me cobria ia se despedaçando, revelando aos poucos o meu rosto para as árvores ao meu redor, ocultando boa parte do céu azul.
Conforme minhas pupilas se acostumaram com a luz, fui enxergando novamente aquele lugar em que eu havia feito um voto. Estruturas de pedra e gesso cobertas de musgo e grama, onde passava um pequeno rio artificial sem fluxo. O lugar, porém, não era maior que um salão. Frutas cresciam extremamente bonitas e saudáveis dos arbustos e das árvores, que eram finas e muito altas.
Alguns pássaros cantavam do alto de seus ninhos, me fazendo lembrar como era escutar novamente. Me levantei, e ouvi a voz novamente.
–Espero que tenha descansado bastante.
–E descansei. Mais do que eu teria gostado, na verdade. Gosto da ação.
–Que bom que pensa assim. Valíseos precisa do Tremor de novo.
–E ele está aqui – olhei de volta para a cama de pedra, enquanto os pedregulhos se remexiam. Quando inteira, a cama era na verdade uma enorme tábua na diagonal sobre algo parecido com um caixão.
Uma pequena pedra voou na minha direção como uma flecha e grudou no meu peito. As outras vieram em seguida, pequenas e grandes, todas quase simultaneamente, até que todo o meu corpo foi envolvido com elas.
–Nunca perguntei, mas... – disse a voz. – Essa armadura é confortável?
–É macia como seda – respondi. E de fato era, embora seu exterior fosse rocha pura. – O que aconteceu, minha senhora?
–Algo surgiu de repente em Valíseos. Algo que não deveria estar aqui. Alguém.
–Suponho que não saiba quem é.
–Foi pra isso que te chamei, Tremor. Quero que vá investigar.
–E eu irei, assim como a senhora desejar. Há mais alguma informação que eu deva saber antes de partir?
–É possível que ele não esteja sozinho. Recentemente um portal foi aberto em Noax, e creio que ele leve para um lugar chamado Terra.
–Gostei do nome. Mas como sabe disso?
–Conheço as divindades desse lugar. São vários deles, sempre disse que a Terra era pequena demais para tantos deuses.
–Eles têm tantos assim?
–Ah, se têm. Somos poucos os deuses de Valíseos se comparado aos terráqueos. Mas agora vá, antes que eles fujam. Quando tiver mais notícias, me avise.
...
Após descer os degraus da Trilha da Sorte, cheguei em uma das vilas Ghulls do deserto de Argo. Eram nove no total, e a em que eu havia chegado era a porta de entrada para o Jardim Secreto, onde eu adormeci.
Depois da vila, vinha o deserto. Apesar de existirem outras oito vilas, elas ficavam tão longe umas das outras que sequer havia sinal de vida entre elas. Mesmo assim, fui equipado de minha armadura de pedra e uma túnica alaranjada, para me camuflar na areia.
O deserto se transformava numa baía, e do outro lado ficavam as velhas ruínas de Noax. Lá havia uma grande cidade, cujo nome foi perdido há vários séculos quando a península que a sustentava cedeu ao mar. Hoje, apenas uma fazenda permanece lá, carregando o nome do reino perdido. Noax.
–Vejam, a Legião chegou para nos defender! – gritou uma criança Greylock quando me avistou. Logo em seguida, os outros trabalhadores correram para me ver e suplicar por ajuda.
–Eles levaram meus sobrinhos, senhor! Foram para o norte, eu vi as pegadas! – a moça era uma bela Greylock, bem-alimentada e arrumada. Julguei que deveria ser a esposa do fazendeiro.
Segui para o norte, subindo uma colina que ia ficando cada vez mais íngreme, até que encontrei vestígios recentes de um acampamento. Uma fraca fumaça terminava de se dissipar, à frente de um colchão velho e algumas mesas.
–Foi aí que ele apareceu – a voz etérea voltou a dizer. – O intruso e as outras aberrações.
–Aberrações?
–Ele fez um ritual proibido... Algo com magia nortenha...
–Nortenha? Está falando de Runak?
–Não, Runak viveu há muitos séculos atrás. Ele sequer viu a destruição de Noax. Quero dizer um aprendiz dele, alguém que esteja seguindo seus passos.
–Isso é ruim. A magia Greylock já é forte o bastante sem que a usem pra guerra.
–Descubra quem é o aprendiz, Tremor. Mate-o, e o leve para os Lagos Gêmeos, onde ele pertence.
–Como a senhora desejar.
Continuei para o norte nas planícies sem vida de Noax, até que encontrei algo diferente. O portal para a Terra, encostado à uma enorme rocha enegrecida. À frente dele, porém, havia um grupo de estranhos.
–Você não, Penumbra. Vou precisar que vá para aquele lugar o qual pedi mais cedo – dizia um deles.
–Em Mithren? – o outro respondeu. Apesar de estarem muito distantes para enxerga-los com clareza, aquele tinha as orelhas de Greylock visíveis no capuz. – Sabe que não posso ir para o norte.
–Faça como eu digo, feiticeiro. Esconda-se lá, e espere pela minha volta.
–E que tem de especial nesse lugar? – perguntou o terceiro. Haviam outros quatro parados como estátuas.
–As árvores têm ouvidos neste lado do mundo, senhor Argos – disse o Greylock.
–Que seja – voltou a dizer o primeiro. – Sei que não vai ser visto por nenhum dos que te exilaram, Penumbra. Você esperto demais pra isso. Agora vá, enquanto nós buscamos o verdadeiro mestre.
–O seu verdadeiro mestre – desafiou Penumbra, ao mesmo tempo que os outros entravam no portal. – Sou devoto apenas à deusa da luz.
–E ainda assim traiu seus dogmas – debochou Argos, por último. – Se eu fosse essa deusa da luz também te expulsaria de minhas terras.
E entraram no portal. O Greylock seguiu para nordeste, a caminho das terras do norte. Minutos depois, quando já havia desaparecido no horizonte, eu me aproximei e entrei no portal.
...
–E o resto, vocês já sabem: Erick, Argos e os “Imortais” chegaram destruindo tudo.
–Então você está a serviço de uma deusa de Valíseos pra proteger a Terra? – perguntou Ingvarr. A noite já havia caído, mas a cidade ainda estava clara como o dia devido ao lago de lava formado do lado de fora dos muros.
–Não – respondi. Estávamos à procura de sobreviventes, e até agora não parecia haver nenhum. – Estou aqui pra proteger Valíseos. Um dos aliados de Erick é um valisiano, e temo que depois da Terra, conspirem para atacar meu mundo.
–Isso é incrível – Eva disse. – Agora temos a ajuda de uma deusa de outro mundo!
–Ela se chama Jynx – expliquei. – Protetora do sul e das nove vilas do meu povo, os Ghulls.
–E você sozinho vai dar conta de todos eles? – perguntou Isaac.
–Claro que não. A verdadeira cavalaria está vindo.
–Verdadeira?
–Devo ter esquecido de explicar. Sou um Legionário, e logo o restante da Legião chegará para ajudar. Falei com Jynx antes de entrar no portal para cá.
–Isso parece bom demais pra ser verdade – disse Lee.
–Não importa o que parece – disse Jack. – Eu vi o que ele fez. Deu uma surra no Erick e o fez fugir.
–E ele voltará, com certeza – eu continuei. – Temos de nos preparar.
O sol pareceu chegar mais cedo do que de costume na manhã seguinte. Viramos a noite procurando nos escombros, mas não havia ninguém que tivesse sobrevivido. O Chanceler, o boticário, o médico, e até uma garota que Isaac disse ter salvo. Estavam todos soterrados, queimados ou mutilados. Uma cena horrível, mas comum aos meus olhos.
Lee foi enviada de volta para o Limbo para cuidar de Alanna e Madison. Deveria voltar na tarde seguinte. Ingvarr pediu para que não enterrássemos os cidadãos de Manneuver, e dar-lhes uma última chance de defender a sua cidade. Apesar de desaprovarem, concordaram com a decisão.
–Os vikings teriam orgulho de lutarem numa batalha mesmo depois de mortos – ele se vangloriava da bravura de seu povo.
–Eles não devem estar se orgulhando muito agora, sob o comando de Ymir – Jack disse. Embora fosse um comentário grosseiro, era verdade.
–Juro pelos deuses, vou matar Ymir e dar a paz aos vikings de Bornholm! – Ingvarr prometeu. Mas os deuses estão mortos, ele pensou.
Enquanto os outros remendavam como podiam as muralhas da cidade, com chapas de metal e de madeira encontradas nos destroços, eu e Lucy tivemos uma ideia interessante.
A terra é sempre terra. Não importa se é terráquea ou valisiana. Por causa desse pequeno fato, fui capaz de, em alguns segundos, cavar um leito de rio em volta de toda a cidade. O plano era desviar o lago de lava para enchê-lo com ela, mas já havia solidificado.
Não foi problema para a garota arqueira. Quando ela tocou na parte do solo que tirei do chão, ainda no ar, a rocha derreteu e preencheu toda o leito até quase transbordar.
O colosso continuava preso, e após passar duas horas gritando, resolvi pôr uma focinheira de pedra nele. No tempo que passou depois disso, chegamos a esquecer que ele estava ali.
Finalmente, depois de tudo pronto, meus amigos chegaram. Todos ficaram muito espantados com suas vestimentas, que eram reforçadas como armaduras. Assim, elas protegiam e eram confortáveis para longas caminhadas, comuns durante missões.
–Este é Força – apontei para o primeiro. Força era um homem que aparentava ser mais jovem do que realmente era. Tinha uma estatura média, um topete curto e olhos cor de laranja, que combinavam com as protuberâncias vermelhas do rosto. Era mais ou menos magro, embora tivesse braços desproporcionalmente maiores que o normal, que ficavam ainda maiores com as manoplas encantadas de Jynx.
–Oi – ele respondeu com um sorriso. Estava tão animado com o novo mundo quanto os terráqueos estavam conosco.
–Este é Perseverança – disse, e apontei para o segundo. Ele parecia ser ainda mais jovem que Força, mas ele realmente era o mais novo dos Legionários. Era alto e de pernas finas, e era meio desajeitado. O cabelo castanho pendia da cabeça, entre os olhos negros, e tinha as maçãs do rosto azuis. Carregava nas costas um cajado que ganhara de Jynx.
–Olá a todos – ele disse, fazendo uma pequena reverência. Prezava pela educação e gostava de ser cordial.
–Esta é Agilidade – a terceira era uma moça de curvas acentuadas pelas roupas justas. Tinha o longo cabelo vermelho-fogo raríssimo entre os Ghulls, com olhos e protuberâncias cor de esmeralda. Abaixo do joelho notava-se o grande par de botas que calçava, que fazia suas pernas parecerem cones.
Ela não disse nada, mas fez um breve aceno sorridente para eles.
–Onde estão os outros? – perguntei.
–Não virão – respondeu Perseverança, o garoto do cajado. – Estavam em missão.
Porcaria, pensei. Os mais fortes não vieram.
–Bom – disse para os terráqueos. – Existem outros dois Legionários que pelo jeito não virão nos ajudar. Se chamam Sabedoria e Resistência.
Sabedoria era um homem de 163 anos de idade, com um vasto conhecimento mágico. Era de longe o mais inteligente de nós, além de ser um exímio estrategista. Perseverança se espelhava nele.
Resistência era um veterano de guerra. Foi general do maior exército conquistador de Valíseos, mas após a queda de Noax, os Ghulls tiveram de se instalar no continente de Argo, no sul da província. Ainda carregava as dezenas de cicatrizes em seu corpo com orgulho. Além disso, forjou um enorme escudo a partir do aço das espadas dos companheiros mortos em batalha.
Expliquei mais tarde para eles como os Legionários abdicam de seus nomes ao se juntarem à Legião. É organizado um torneio de luta não-letal, chamado Jogos de Ferro, em cada uma nas nove vilas, e os vencedores são enviados para um local onde participarão da segunda etapa da competição. Eles se enfrentarão, e o campeão dos campeões ganha o direito de trilhar o Caminho da Honra, uma série de desafios mortais. Se o campeão superar os desafios, ele será bem-vindo para se juntar aos Legionários. Suas maiores virtudes passam então a serem seus nomes.
...
Quando Lee voltou, ao cair da noite, chegou com a notícia que todos temiam receber. Ela esteve de vigia no Sarkany após checar as garotas no Limbo, conforme Isaac pediu.
–Eles estão vindo – ela avisou.
–Todo mundo em seus lugares! – ordenou Isaac. Havia tomado o controle da situação, e se saiu bem instruindo os amigos a levantarem defesas na cidade.
O chão tremia a cada segundo que passava, com os passos pesados dos mortos. Enquanto eles vinham, nós esperávamos. Isaac estava na extremidade sul de Manneuver, numa torre de madeira improvisada. Luke estava nos portões destruídos da cidade. Evangeline esperava no telhado de uma casa na parte oeste da muralha frontal, a qual fora construída com destroços e entulho. Jack estava em algum lugar entre Isaac e Luke, e Ingvarr vinha do centro da cidade trazendo consigo os moradores de Manneuver reanimados pela magia de seu anel.
Eu estava do lado de fora, à beira do rio de lava, com Lucy e Azalee. Éramos os mais fortes do grupo, e deveríamos ficar na vanguarda.
–Vai ser fácil – Lee disse. – Olha pra eles.
Havia muito menos inimigos do que no dia anterior. Pelo que eu pude contar, não deviam ter mais de duzentas múmias, que não seriam problema. Em teoria, bastava que seja lá quem estivesse as controlando fosse derrotado. Isaac matou Nero, Jack matou Vlad e Eva matou Midas. Falta ainda Erick, Argos e o quarto Imortal, que deve ser o mestre das múmias. Sem mencionar o tal Penumbra.
–Não baixe a guarda, Lee – disse Lucy. – Apesar de burros e lerdos, eles têm socos bastante pesados. Viu o que eles fizeram à cidade.
–Não se preocupe, Lucy. Eles não são perigo pra gente.
Os três Legionários logo se juntaram a nós. Força bateu os punhos vestidos com a grande manopla, Perseverança apoiou o cajado no ombro e Agilidade alongou suas belas pernas.
Quando finalmente se aproximaram, começamos a ouvir os murmúrios dos mortos, implacáveis em sua marcha. Os primeiros não perceberam o rio de lava, e foram entrando como se fosse uma piscina infantil. As ataduras velhas queimaram rapidamente, incendiando seus corpos.
Foi grande a nossa surpresa quando eles emergiram do nosso lado, furiosos e flamejantes. O calor não os matou, e a lava só os danificou enquanto estavam submersos. A carne podre estava queimada, com ossos à mostra. Alguns eram só a caveira pendendo sobre o pescoço, e as pernas eram finas tíbias tremendo.
–Começou! – gritou Lee. Ela estava especialmente entusiasmada com a batalha. Correu na frente e acertou dois esqueletos numa sequência rápida de machado.
Logo atrás, vieram os Legionários. Agilidade mostrou sua velocidade incrível quando correu de forma que levantou poeira, e somando a velocidade da corrida à do seu chute, partiu no meio o primeiro inimigo que alcançou.
Lucy acertava suas flechas negras sempre na cabeça dos inimigos, sistematicamente. As flechas eram grandes o bastante para arrancar-lhes a cabeça com tal violência que, se houvesse outro atrás, seria pego também. E ela fez isso algumas vezes.
Sabedoria estava parado, mas alerta. Força correu saltitando para os inimigos, e começou com um gancho tão forte que desmanchou a múmia em um bolo de carne em decomposição. Os próximos não tiveram chance: cada murro que dava, Força desmembrava os inimigos, e quando acertava os que eram só esqueleto, eles se desmontavam feito uma pirâmide de cartas.
Lee fazia combinações de golpes belíssimas de se assistir. Enquanto decapitava um, materializava uma espada que cortava quem estivesse atrás, e logo emendava com um chute e depois com o machado de novo. Se estivesse em Valíseos, seria bastante popular.
O fogo das múmias se agitava quando o vento causado pela velocidade de Agilidade batia. No tempo que um deles levava para preparar o golpe, ela explodia sua cabeça com um soco rápido e a de outros seis inimigos ao seu redor. Desfilava entre eles como se estivesse parada no tempo.
Se olhasse para trás, veria o fogo de Luke terminando de incinerar as múmias que passavam por nós, e uma nuvem de larvas voadoras de Eva ajudando os mortos a serem decompostos. Mas nada era possível ver de Isaac: as sombras eram invisíveis na noite, e as múmias que iam para seu lado pareciam se destruírem sozinhas.
Eu esmurrava os mortos também, destruindo a pele restante que tinham com luvas de pedra. Quebrava-os com uma chave de braço simples, quando notei a ausência do verdadeiro inimigo.
–Onde está Erick? – gritei.
–O covarde deve estar voando pra um lugar seguro – Lee gritou de volta.
Ingvarr chegava com sua própria tropa de zumbis, não muitos mais numerosos do que as múmias. Num instante já não era mais possível permanecer ali sem desmaiar com o cheiro de putrefação.
Recuamos para dentro da cidade e atacamos de longe conforme podíamos. Eu com pilares de pedra que fazia crescer no chão, Lucy com o arco, Lee atirando lanças... Os Legionários voltaram em seguida, com Agilidade e Força gravemente feridos: a garota tinha um rasgo profundo na coxa, e o garoto havia levado um golpe suficiente para desmaia-lo, como se já não bastasse o cheiro que nos deixava zonzos.
Foi então que Perseverança entrou em cena. Aproximou o cajado de Agilidade, e sua ferida se fechou sem deixar cicatrizes. Ela se alongou novamente e voltou para a guerra. Depois tocou Força, e ele levantou sacudindo a cabeça. Em seguida, voltou para a guerra também.
Realmente, estava bastante fácil. Os piores inimigos morreram ontem, e seus corpos ainda estavam na cidade. Curiosamente, ainda não tinha visto Ingvarr com eles.
Algo brilhou no céu escuro, e por um instante pensei ser uma estrela. Com um olhar mais atento, notei que era uma silhueta familiar que se aproximava tranquilamente. Erick finalmente estava de volta.
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