Aftermath
30 Queda
A lua atingia seu ápice no céu escuro enquanto assistia à guerra no que costumava ser Manneuver. Uma figura passou na frente dela e seguiu para o solo leve como uma pena.
Ao pousar, Erick anunciou:
–Preparem-se para morrer, vermes insolentes – quando retirou o capuz velho, os cabelos esvoaçaram livres. – O ritual está quase completo!
Me lembro até hoje do dia em que tudo mudou pra mim. No dia de minha morte, caído na cozinha ao lado de minha mãe; meu irmão fora meu algoz, tomado pela vontade do deus da morte. Os Evans sumiram do mapa naquele dia.
Daí em diante tudo ficou de cabeça para baixo. Coisas inacreditáveis passaram a fazer parte da minha realidade, até que anos depois fui capaz de escapar de volta para a Terra. Por azar ou por sorte, acabei sendo encontrado pelas mesmas pessoas que encontraram meu pai na mesma situação que a minha, e eles me deram respostas. Fiz amigos tão estranhos quanto eu, lutei pra impedir o fim do mundo e falhei. Os poucos humanos restantes vivem com a consequência dessa falha, resistindo para não cair. A morte dos inocentes parece ser inevitável apesar de todos os esforços, e um a um eles estão sendo derrubados. Seremos um dia capazes de voltar a ser como éramos antes?
Quando Erick ergueu os braços, todos pararam para vê-lo. Pareceu querer erguer uma montanha com o esforço que fez, mas poucos segundos depois notamos no céu o colosso sendo trazido para a nossa direção.
Quando atingiu o chão, Erick destruiu a rocha que o prendia, voou até ficar cara-a-cara com ele, e disse alguma coisa.
Se afastou, e o monstro brilhou pelos orifícios da cabeça. Ele se sacudiu com o urro característico que fazia, mas desta vez estava ainda mais doloroso de se ouvir. Ele estava em agonia extrema, e seu corpo se dobrava e se retorcia quebrando e juntando ossos, carne rasgando e a forma mudando.
Quando terminou, estava irreconhecível. O que devia ter sido a perna e uma asa havia trocado de lugar, a cabeça caiu para as costas e a ponta da coluna vertebral saltou para cima, onde formou-se uma cabeça dentro de um exoesqueleto. Finalmente, o colosso ficou em silêncio.
O monstro ganiu com uma voz dupla diabólica, procurando saber onde estava. Estava visivelmente confuso, até seus três olhos encontrarem Erick.
–Er...ick? – lutou para falar.
–Isaac! – Luke me chamou, quando se aproximou. – O que acha que é aquilo?
–Na melhor das hipóteses, algo mais perigoso do que tudo que já vimos essa semana.
–Ah, isso não para de piorar.
–Não vamos conseguir, Luke. Temos que fugir. Seu braço está melhor?
–Sim, Ingvarr usou a magia das runas em tungstênio desta vez. Mas por quê?
–Não vamos ter chance. Vá para o Limbo e busque as garotas. Eu e os outros vamos distraí-los.
–Buscar pra trazê-las pra cá? Está maluco?
–Quando voltar, atravesse o portal pra Valíseos.
–Entendi. Vou já – Luke correu cidade adentro. Do outro lado da barreira frontal, ao olhar mais para frente, tive uma surpresa bastante desagradável: Nero, o piromante que eu havia enterrado, estava lutando contra a garota Legionária, a Agilidade. Não pode ser o mesmo cara. Eu o matei e o enterrei, não tem como ser ele.
Mas era. Nero tinha parte do corpo coberta pelas chamas azuis, as quais disparava contra Agilidade. Ela, por sua vez, desviava o fogo com um rápido movimento acrobático, apesar de o vento não ser suficiente para extingui-lo.
Ela correu em ziguezague e quando se aproximou, chutou seu rosto violentamente. Ele caiu na hora, assim como a bota dela, que não resistiu ao campo de calor que o cercava. Pude vê-la espantada por ter perdido seu artefato mágico de forma tão simples.
Isso não a desanimou: ela correu, com velocidade pouco menor, até uma das poucas múmias que não estavam totalmente em chamas, e arrancou-lhe os braços. Voltou para Nero quando ele já havia se levantado, desviou da nova língua de fogo azul que jogou e o acertou com os ossos de múmia de uma vez, no rosto. Nero cambaleou para trás.
Os braços viraram poeira na hora, e quase não causaram dano a ele. Nero permaneceu parado enquanto o fogo crescia e voava até se tornar um pequeno tornado em torno dele. Depois, um fio de fogo saltou para fora como uma erupção solar. O fio então se dividiu e tomou a forma de dois braços.
Agilidade correu entre eles, que tentavam tocá-la a qualquer custo. Girou e pulou, até sair do alcance deles, quase quinze metros depois.
Tremor enfrentava aquele que Jack disse ser Vlad, um magrelo bizarro com garras e uma espada acoplada no braço. Os golpes do Imortal não faziam nada contra a casca de pedra do campeão valisiano, ao passo que este o socava com fúria.
Vlad já tinha o rosto completamente deformado depois de levar uma sequência direta, mas ele ainda tentava exibir um sorriso doentio. Tentou mais um golpe com a espada, mas então Tremor agarrou sua lâmina e a partiu com um murro. Em seguida, enfiou o pedaço de metal que segurava na cabeça de Vlad.
Ele caiu como um saco de ossos, com sua pele totalmente coberta de sangue. Tremor virou-se para ir embora, mas Vlad o chamou. Quando olhou, Vlad retirou a lâmina da testa, deixando cair litros de sangue na cara como se tomasse um banho de cachoeira.
Se levantou desajeitado, estralando os ossos aparentes, e deixou cair a lâmina do braço e as garras. Revelou ter mãos comuns que se ergueram, e junto com elas o sangue do chão e do seu corpo veio também.
A quantidade de sangue que Tremor derramou de seu corpo foi grande o bastante para que ele solidificasse uma enorme montante, além de seis outras pequenas espadas comuns.
As seis pequenas fincaram-se no chão e a montante foi empunhada pelo Imortal. Arrastou-a na direção de Tremor e girou lenta e pesadamente, acertando o ombro de Tremor e destruindo a rocha que ali havia.
Tremor quase caiu, mas manteve o controle e saltou para trás, abismado. A lâmina de sangue era muito mais firme e afiada que a anterior. Quando ele pensou ter fugido para uma distância segura, uma das espadas menores atravessou o combate para atingi-lo no meio do peito, perfurando a armadura de pedra.
Tremor gritou de dor, embora não fui capaz de ouvi-lo àquela distância. A espada voou de volta para o lado de Vlad, e as outras cinco gêmeas juntaram-se à primeira. Pairaram ameaçadoras sobre o inimigo esguio, mas no momento em que dispararam, Tremor protegeu-se com um grande totem que fez surgir do chão.
O colosso continuava dobrando seu corpo buscando uma forma na qual ele pudesse caminhar. Até então, era um pedaço deformado de osso e pele. Força lutava com Argos, e Perseverança curava seus ferimentos. Força era um rapaz bastante ousado e não dava importância ao não-ser-golpeado, mas só ao golpear.
Ele usou o peso de sua manopla pra encaixar um soco aéreo no focinho de Argos, e acertou, mas tomou de volta um golpe cortante na barriga. Argos o segurou no ar, o arranhou e o jogou para trás.
Perseverança curou-o com o cajado, e ele voltou para a luta. Desta vez, o combo foi ligeiro, três na barriga do lobo, um gancho, um cruzado e um último na garganta. Argos tentou rugir, mas falhou.
O lobisomem pulou pra cima de Força, que encolheu-se para se defender. Surpreendeu-se ao não ser atacado: Argos pulou por cima dele, e esbofeteou Perseverança, que caiu na hora.
Força correu na direção deles, e socou Argos nas costas fazendo-o envergar-se para trás. Apesar da dor, ele reagiu rapidamente com uma cotovelada, e o nariz do Legionário sangrou.
Desnorteado, foi alvo fácil de dois ataques de Argos, que rasgaram sua pele dolorosamente, formando um “x” em seu peito. Rolou para trás, correu para Perseverança e o arrastou o quanto pode até ser Argos voltar a atacar.
Desta vez, o golpe apenas cortou o ar. Força deu um soco sem impulso na costela, tentando ganhar tempo para tirar o amigo dali.
Vi Eva se esquivando dos ataques de um homem estranhamente fora de forma. Era branco como a lua, e tão redondo quanto. Parecia-se com a descrição que dera sobres o Imortal que enfrentou no dia anterior, Midas. Desviava de cada ataque com facilidade, usando seus insetos para defender os golpes de transmutação.
Do meio do campo de batalha, Erick destacou-se no ar quando voou para longe do colosso. O monstro havia finalmente parado de mudar sua anatomia e levantou-se sobre as pernas tortas.
–Onde estão eles, Erick? – sua voz era macabra e estranhamente familiar. O som ressoou por toda a região profundamente.
Erick flutuou até perto de sua cabeça, quando vi que o colosso tinha tamanho para facilmente abocanhá-lo. O ex-ceifador disse alguma coisa e apontou.
–Eu devia ter matado-te quando ainda era garoto, Evans. O mesmo digo à encarregada das Colinas. São traidores desonrados, os dois – de repente, reconheci a voz. Erick de alguma forma foi capaz de usar o corpo do colosso como receptáculo para Thanatos. – Mas agora morrerão, ah se vão.
Depois que o eco da voz sumiu no horizonte, ele se espreguiçou e deu o primeiro passo. A terra deu uma leve tremida, fazendo algumas múmias caírem. Ele tinha um corpo completamente assimétrico e medonho, com pele, carne e osso misturados em posições aleatórias. Tinha duas pernas e quatro braços, todos tortos e deformados. A cabeça tinha o crânio exposto, e a carne por baixo. Parecia ter uma máscara de quartzo, mas era também parte do exoesqueleto.
Levantou devagar uma das pernas, e pisou no chão com tamanha força que abriu-se uma cratera, e o rio de lava saltou sobre si mesmo. Havia esmagado alguns cadáveres que lutavam ali, não se sabe ao certo de que lado estavam. Agora eram apenas uma pasta de carne moída.
Com um tapa, derrubou um grande pedaço da muralha de madeira que construímos na noite anterior, e virou-se para trás. Observou do alto os corpo que lutavam no chão, tão distantes...
Identificou os inimigos e voltou-se para eles. Sua trindade de olhos brilhou uma luz branca, e ele abriu a boca que tinha no estômago. Dela, disparou um raio de energia branco-azulado que atingiu uma área enorme no chão, incinerando todos que estavam lá.
Corri para procurar por alguém, qualquer pessoa que fosse. Fui encontrar Jack no lado de dentro da cidade.
–Jack, venha comigo! – eu disse a ele. – Vamos lá fora chamar os outros. Vamos para Valíseos.
–Certo. Eu chamo as garotas, e você os aliens.
–Leve-as direto para o portal, e nos encontraremos do outro lado.
Ele anuiu, e correu na frente para fora dos portões. Foi para um lado, e eu optei pelo oposto.
Passei na frente de Thanatos, ocupado destruindo cadáveres, e corri até encontrar Tremor se protegendo com um casulo de pedra, enquanto as espadas de sangue de Vlad atacavam ferozmente.
Vlad não me viu quando entrei nas sombras. Deslizei por entre os pedregulhos até ficar no chão sob os pés do Imortal, e então levantei-me de uma vez, empalando seu corpo magro com várias estacas negras, que o esticaram na diagonal e o prenderam.
Enquanto se debatia para fugir, fui até o casulo de pedra.
–Tremor! – disse. – Nos leve para Valíseos! Não temos chance aqui!
–Um guerreiro luta as suas batalhas – ele disse, levantando-se. – Mas só um líder sabe como escolhê-las.
–Onde estão os Legionários?
–Não os vi, mas não se preocupe com eles. Caso não os encontremos, eles sabem o caminho de casa.
Corremos o bastante para sairmos do alcance de Vlad, e só então soltei-o das estacas. Thanatos continuava entretido com os mortos de Ingvarr quando passamos por ele novamente.
Ele continuou com os raios até perceber que os cadáveres inimigos estavam sendo controlados por alguém. Olhou para dentro da cidade, e pareceu ter encontrado. Enfiou um dos braços na boca que tinha na barriga, e retirou um longo osso quebrado. Apontou para Manneuver, e disparou uma espada de luz que voou como um míssil cidade adentro.
Droga, pensei. Ele não pode tê-lo encontrado tão rápido.
–Lá está Agilidade – Tremor disse, apontando. – Vá na frente e veja se está tudo bem com seu amigo. Vou falar para ela buscar Força e Perseverança.
Entrei pelo buraco na muralha, e segui pelas vielas até passar do lado de onde caíra o projétil de Thanatos, pouco diferente daqueles que vi em seu castelo no Limbo.
Desviei do caminho do portal e fui até o local onde a espada de luz se chocou. Havia feito uma trilha de fogo de um metro de largura no chão e nas paredes por onde passou, e no fim desta trilha estava o viking.
Ele fora empalado na barriga, e encontrava-se preso à uma parede de pedra nua ainda com a espada de luz queimando-lhe os órgãos. Corri até ele, e notei que ainda estava vivo.
–Desculpe, Isaac – ele disse. Tossiu algumas gotas de sangue que evaporaram ao se aproximarem da espada. Ela tinha um brilho forte, como se olhasse para o sol.
–Acho que podemos te tirar daí, Ingvarr. Se Tremor usar as rochas pra tirar a espada...
–Não – ele interrompeu. – Eu aceitei minha morte há muito tempo atrás. Demorou, mas ela chegou.
–Do que está falando? Você não tem que morrer agora, é jovem!
–Um rei que abandona seu povo para virar comida dos mortos não merece ser tratado melhor do que lixo. Obrigado por tudo, Isaac, mas agora vou me encontrar com meus velhos amigos em Valhalla.
–Deixe-o ir, Isaac – Tremor disse, quando chegou. – Um homem de princípios deve fazer o que seu coração manda. Vamos para o portal.
–Ainda não – respondi. – Falta Luke. Não vamos sem ele.
Bem falado, avistei-o descendo o Sarkany com Alanna, que segurava Madison no colo.
–Podem ir – Ingvarr disse. – Sobrevivam por mim, todos vocês. Foi ótimo ter conhecido vocês. E diga para o Jack largar a bebida, senão ele vai precisar de um fígado novo. – ele riu, e então nos despedimos.
Tremor e eu fomos de encontro a Luke, que já havia entrado na cidade pela muralha noroeste. Estávamos prontos para irmos encontrar Jack, Lucy e Lee em Valíseos.
–E os seus amigos? – Luke perguntou a Tremor.
–Eles virão em breve, estão ganhando tempo para nós.
Desta forma, seguimos para o portal. Estava ainda do jeito que o encontramos da primeira vez, quando Andrew raptara minha recém-nascida. Coitada, tão nova e já passando por tamanho sofrimento. Ela dormia profundamente em meu colo, e a ferida de sua mão já havia fechado onde faltava-lhe o dedo mindinho.
–Quando passarmos, vou levá-los até a minha senhora – Tremor disse. – O caminho até Jynx é longo, mas não há alternativa melhor.
Um de cada vez, entramos no portal atrás de Tremor.
...
Era dia em Valíseos, mas a lua já estava alta no céu.
–Luke! – disse Lucy. Era a única do grupo sem um arranhão sequer.
–Oi, Lucy – ele respondeu. – Está tudo bem com você?
–Estou ótima. Não te vi na batalha, onde esteve?
–Ele veio nos buscar – Alanna disse, e agarrou o braço de Luke.
–Vocês estão...
–Sim – eles responderam em uníssono.
–Que fofo, uma pena que não pudemos conversar ainda com toda essa guerra.
–Vocês terá bastante tempo pra conhecer sua cunhada – Tremor explicou. – Agora, temos um continente pra atravessar.
–Esperem – eu disse. Parecia haver poucas de nós demais ali. – Onde está Eva?
–Eu não a vi em lugar algum, Isaac – Jack falou. – Achei que tivesse ido pessoalmente busca-la.
–Ela não estava na torre oeste? Eu a vi lutando lá com Midas.
–Não, eu procurei por lá.
Madison continuava dormindo no meu colo, ignorante do que se passava. Eu, por outro lado, estava apavorado. Não, por favor, não ela. Não a minha Evangeline. De todas as pessoas, ela era a única com quem eu realmente me importava.
–Temos que voltar – eu disse.
–Não podemos nos atrasar mais, Isaac – Tremor disse. Estava fazendo um ótimo papel de voz da consciência do grupo. – Já perdemos Ingvarr, não podemos arriscar mais vidas. A Terra depende de nós.
–Ingvarr o quê? – Jack foi pego de surpresa.
–Sinto muito, mas é verdade. Thanatos o acertou.
–Droga... Malditos sejam esses imbecis, todos eles! Thanatos, Erick, seja lá quem for. Nós vamos voltar e vamos matar cada um deles.
–Vamos sim, mas não hoje – Tremor insistia no seu plano. – Hoje vamos começar a andar.
Não podia mais ficar ali. O portal me chamava, Eva estava lá, e viva. Eu sei disso. Só precisa que eu a encontre...
–Isaac, não! – Tremor disse às minhas costas depois que eu deixei a bebê com Alanna novamente. Para seu infortúnio, eu voltei.
...
Sons de explosões surgiam em pontos diferentes da cidade. As defesas estavam confiadas aos três Legionários que ainda estavam em Manneuver. Segui as ruas da cidade fazendo contornos e caminhos alternativos, investigando cada escombro. Não havia sinal de Evangeline.
Thanatos, o gigante, destruíra todos os cadáveres de Ingvarr quando o matou. Eram meras marionetes de sua mente, mas as cordas haviam sido cortadas. Agora, dedicava seu tempo para destruir a cidade para garantir que nenhum de nós saísse vivo. Talvez não saiba do portal, pensei. E mesmo que soubesse, é grande demais para entrar nele.
Uma varanda quase caiu em mim, enquanto me esgueirava pela cidade. Fui ágil o bastante para saltar para o lado, e quando me levantei, vi o vulcão explodir, literalmente. A boca do Sarkany não aguentou a quantidade de lava, provavelmente trazida pelo poder do deus da morte, e rochas voaram sobre Manneuver como se fossem cometas.
A poeira levantou até quase não ser mais possível respirar. Botei a camisa na frente do rosto e continuei meu caminho, torcendo pra não ser esmagado. Pareceu ter se passado um século quando cheguei na muralha oeste.
Subi nela, e saltei para o lado de fora. Enxergava o vulcão no horizonte, e a lava escorrendo sobre as trincheiras preenchidas. O solo entre o Sarkany e Manneuver havia se tornado um carpete de obsidiana. Não havia ninguém ali, a não ser os sons.
Ah, os sons... Eram tristes, deprimentes. O som da derrota. Imaginei se pudesse ter evitado tudo isso se não tivesse fugido do Limbo. Concluí que não.
Um som, especificamente, chamou minha atenção. Um rugido doce, feminino. Era a voz de Eva, seguida de um barulho de peças de metal chocando-se umas às outras. Os insetos virando ouro, pensei.
Segui o som pelo norte, até que cheguei ao que antes era o portão noroeste da cidade. Olhei para a estrada lá dentro, e vi Luke correndo por ela.
–Isaac! Me espera! – ele gritou. Quando ele chegou, porém, eu já não estava prestando atenção nele.
Alguns metros adiante, estavam Eva e Midas. Ele estava um verdadeiro lixo, todo machucado e com feridas horríveis, com alguns ossos em exibição. Eva não parecia sequer estar cansada. O problema é que ele conseguiu tocá-la. O braço dela virou dourado num instante, assim como o dele. O ouro ganhou espaço enquanto subia o ombro, e depois o tronco, as pernas e a cabeça. No final, só restaram duas estátuas de ouro: a do gordo e a da mãe da minha filha.
E aí, eu morri de novo.
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