Aftermath

27 Fúria da natureza


Notas iniciais
Olá, meu nome é Igor, e sou o criador do Aftermath. Este é meu projeto que venho desenvolvendo há meses, e pretendo engrandecê-lo e um dia expandí-lo pra outras plataformas (jogos, livros, produções audiovisuais). Agradeço aos que leram, e caso se interessarem pela trama poderão acompanhar também pelo blog, cujo link estará nas notas finais. Obrigado a todos, e boa leitura =)

–Quem é você? – Evangeline gritou inocentemente.

Inocência não era uma das qualidades mais úteis nos dias atuais, principalmente quando se está no meio de uma guerra.

A figura não respondeu. Ao invés disso, caminhou na direção de Eva, passo após passo, até que percorreu toda a rua até ela.

Ele usava um turbante tão branco quanto sua pele, que por sua vez era macia e muito bem cuidada. O turbante cobria-lhe toda a parte de cima da cabeça, inclusive suas orelhas, e sua barba grisalha encaracolada cobria a parte de baixo. Ostentava um sorriso educado que não conseguia tirar do rosto, e que acentuava os pés de galinha que tinha nos cantos dos olhos.

As roupas que vestia eram bastante leves e soltas, presas por adornos robustos e bem detalhados, e suas luvas douradas e cheias de jóias chamavam a atenção. Era alto e gordo, com um certo jeito desajeitado.

–Pois pode me chamar de Midas, minha querida – ele disse.

–Esse lugar é perigoso, senhor Midas – Eva persistia no erro da inocência. – Vamos, vou te levar pra um lugar seguro.

–Não há necessidade – ele riu um riso sufocado e agudo. – Pois sou estrangeiro aqui.

Evangeline ainda não havia compreendido o que aquele senhor simpático queria dizer, mas começou a desconfiar quando ele tirou uma de suas luvas.

–Vou lhe mostrar – abaixou-se com dificuldade para apanhar uma pedra no chão, e quando voltou a se erguer, segurava uma pepita de ouro.

–Mas o que... Onde estava isso? – Eva perguntou, surpresa. Se surpreendeu mais ainda ao reparar que o polegar de Midas havia se transformado em ouro.

–É só uma pedra – ele disse, e em seguida o anel que estava naquela mesma mão brilhou, fazendo com que seu dedo voltasse ao normal. – Bom, agora é ouro.

–Incrível... Nunca vi nada parecido.

Midas largou a pepita no chão, deixando cair também sua luva. Estralou os dedos e sorriu para Eva.

–Diga-me, menina bonita... Onde estão seus amigos?

–Você está com esses monstros, não está? Erick te trouxe aqui.

–Adivinhou certo, garota... Os Imortais estão na cidade.

Repentinamente, Midas atacou-lhe com um soco cruzado. Eva, porém, se afastou na hora e evitou ser tocada.

Midas gritou e rolou na direção de Evangeline como uma grande bola de neve, apontando sua mão nua. Ela estava confusa, e queria entender o que o fazia transformar as coisas em ouro.

Eva certamente não conheceu sua lenda. Segundo a mitologia grega, o rei Midas era um rei que recebera esse dom de Dionísio, deus do vinho, após levar Sileno, pai de Dionísio, de volta para ele. No entanto, esse poder se mostrou uma maldição quando acabou por transformar acidentalmente até mesmo sua filha. Somente depois de muito sofrimento foi que descobriu que a água corrente destransformava o ouro.

Este, no entanto, não era o rei Midas. Era uma paródia dele, perversa e caótica, assim como os outros Imortais.

Eva levantou os braços, e por debaixo de suas unhas voou um enxame de abelhas pequenas, mas com os ferrões especialmente alongados e carregados de anthrax. Os insetos cercaram Midas na tentativa de atordoa-lo, enquanto ele balançava a mão para dissipar a nuvem de abelhas.

Uma a uma, as abelhas foram caindo no chão como pedras, ou melhor, como pequenas peças de ouro. A cada tapa que dava no ar, dezenas de abelhas eram arremessadas, duras, para longe, para caírem com o metal brilhando à meia-luz do fim da tarde.

–Chegue mais perto, garota – Midas ameaçava. – Veja, deixe-me fazer uma escultura de você!

–Sai pra lá, seu maluco – gases esmeralda eram ejetados pelos poros da pele de Evangeline, envolvendo o inimigo nele. Midas, porém, sequer reagiu, pois não precisava respirar tal como os outros Imortais.

–Você é chato – Eva disse. Midas pegou do chão um guarda-chuva quebrado, o transformando em ouro. Estranhamente, sua mão também se tornou dourada, mas voltou ao normal depois que aquele anel brilhou de novo. Bateu o guarda-chuva na mão como um jogador de baseball, ainda caminhando na direção de Eva, que após recuar alguns metros, se viu cercada por um muro de concreto.

Midas atacou com o guarda-chuva de ouro, mas acertou a parede. Uma pequena faísca pulou no rosto de Evangeline. Ela segurou o guarda-chuva para manter Midas próximo e em seguida abriu a boca o máximo que pode.

Até mesmo para Midas, um morto-vivo-imortal, aquela cena foi terrivelmente nojenta e bizarra. Algo parecido com uma libélula ou mariposa de um tamanho inaceitável rastejou pra fora da boca da garota, bateu as quatro asas e saltou no rosto de Midas.

Assim que pousou na cara dele, a mariposa rapidamente saltou para uma orelha, e depois a nuca, depois a cara de novo, e assim foi seguindo por lugares aleatórios para que não fosse pega pelo toque de ouro. Enquanto passeava pela cabeça de Midas, sua longa cauda arrastava um pequeno ferrão em sua pele, deixando cicatrizes enormes mas sem sangue.

Midas, por sua vez, se desesperava pra tirar dali aquele inseto. Ele gritava, dava tapas na cara com a mão onde vestia uma luva, enquanto a mão nua segurava o guarda-chuva.

Foi então que Eva puxou o guarda-chuva de ouro de sua mão, e ele, bastante ocupado, nem notou. Eva percebeu a oportunidade e cravou-o no peito de Midas.

Ele caiu de costas com um estrondo pesado como si próprio. A mariposa tentou voar para escapar de ser esmagada, mas ela também era pesada demais pra se aguentar no ar, dando tempo para que Midas a pegasse pouco antes de atingir o solo, e assim a mariposa se transformara em um troféu.

Ele se levantou, retirando calmamente o guarda-chuva do corpo. Bufou de raiva, e arremessou o guarda-chuva na direção de Eva. Felizmente, ela havia se adiantado quando fez crescer de novo as asas de inseto, e se deslocou no ar agilmente para o lado. O guarda-chuva penetrou no muro, que rachou com o impacto.

Ela voou para cima, longe do alcance de Midas.

–Volte, sua covarde! Você não pode lidar com o poderoso Midas! – foi tudo que ela pode ouvir do pobre e gordo homem lá em baixo, preso à gravidade.

De onde estava, podia ver as múmias, espalhadas em pouco mais de um quarto de Manneuver. Acima delas, Erick vigiava pacientemente de braços cruzados vestido com trapos velhos e surrados, algo parecia um poncho.

–...Todos os seus amigos vão morrer! – ela escutou quando sua atenção retornou para Midas. Pensou por um segundo, e concluiu que ele poderia estar certo. Sabia que haviam mais inimigos como aquele que enfrentava, e com o caos que se seguia, tudo podia acontecer. Preocupada, decidiu então acabar logo com aquilo para procurar seus amigos.

Eva desceu reta até Midas em alta velocidade, e deu um rasante que chegou a assustar seu inimigo. Pousou, e criou pequenos cupins que caíram no chão ao pularem de seus punhos. Havia milhares deles, que formavam um carpete vivo marrom à frente de Eva. Eles cercaram e depois subiram pelas pernas de Midas, até alcançarem o buraco em seu peito.

Ele tentou se livrar da praga, mas quando tapeou o corpo com a mão da luva, os cupins tomaram conta de seu braço também. Tapeou a mão da luva com a mão nua, e ambas viraram ouro. Confuso, ele fez o anel brilhar novamente, destransformando-se, mas os cupins já haviam começado a roer seu corpo, por dentro e por fora. Roeram os ombros, e em poucos segundos não havia mais pele. Os ossos se desgrudaram e ambos os braços caíram no chão. Atacaram-lhe as penas, e suas finas tíbias completamente expostas não suportaram o peso de sua barriga e quebraram.

Caído no chão sem braços e nem pernas, Midas xingou Eva de nomes que nem mesmo eu saberia explicar. Ela, porém, estava calma, ou até mesmo contente. Agachou-se ao lado dele, e pôs a mão em sua barriga, no meio dos cupins.

–Muito interessante... Gostaria tanto de te entender – disse. – Você não sente dor, né?

–Vá se ferrar, sua...

–Calado – ela o interrompeu quando os cupins roeram a garganta de Midas de dentro pra fora. A cabeça rolou no chão, e os cupins saíram por sua faringe.

...

Lá no céu, Erick estava tomado pelo mau-humor. Nenhum de seus subordinados havia cumprido sua missão, que era neutralizar as defesas da cidade, mais conhecidas como Isaac, Luke, Eva, Jack e Ingvarr.

–Danem-se todos vocês – ele disse para si mesmo.

É importante ressaltar a habilidade de Erick, garantida por sua kusarigama sobrenatural. Duas pequenas foices presas por uma corrente, todas de um tom negro fosco tão escuro como podia ser, davam a ele o dom da telecinese: ele basicamente podia controlar objetos com a mente, deslocando-os no ar como bem quisesse. Existia ainda um limite de peso ao qual estava preso, mas após vários anos de treinamento mental, isso já não era problema para ele.

Era assim também que ele podia voar: deslocava seu próprio corpo como se fosse um objeto. Já estava tão acostumado a voar assim que nem precisou de muito esforço para fazer subir a lava que adormecia no fundo do Sarkany.

A fumaça escura saiu primeiro, antes de a lava romper a camada de pedra que havia no vulcão. Antes mesmo de essa camada ser arremessada pelo céu, a lava a consumiu. A rocha derretida escorria devagar pelo vulcão, e Erick já comemorava a vitória quando finalmente viu as trincheiras escavadas na base do vulcão exatamente para uma situação como essa.

Isaac e Luke também viram a lava caindo.

–Ah, droga – disse Luke. – Agora já era.

–Ainda não, temos as trincheiras – lembrou Isaac, e olhou para seu rosto.

A face de Luke estava terrivelmente machucada do lado da boca. Era uma queimadura feia, que enegreceu a pele e deixou-a um pouco enrugada. No outro canto da boca, havia uma mancha de sangue seco apontando na direção do toco de braço com um suporte de metal.

Eles não encontraram o doutor em lugar algum, mas com certeza Ingvarr saberia consertar. Perceberam que era a ele a quem deveriam ter ido desde o início.

Ingvarr por sua vez, ia com Jack na direção de Erick, sem saber o que fariam quando chegassem. Quem sabe pudessem chamar sua atenção batendo palmas do chão?

–Ah, caramba – disse o viking. – Olha o vulcão!

Jack olhou, mas não disse nada. Voltou a olhar pra frente e seguir seu caminho, focado em sua vingança.

A lava descia imponente e constante como um exército do mal. Finalmente, depois de longuíssimos dez minutos, ela atingiu o gramado à beira da montanha. Folhas secas do outono queimavam ao toque quente da rocha derretida, e o mato ia sendo consumido até que acabou. Agora a lava corria na terra batida, e caiu numa enorme vala onde encontrou seu fundo.

Mais lava ia caindo por cima da que já estava lá em baixo, preenchendo todo o espaço que lá havia. Menos de dez minutos foram suficientes para que a primeira trincheira transbordasse.

A lava correu para o campo depois da montanha. Seguia para a segunda trincheira, que era ainda maior. Erick percebeu que o fluxo estava diminuindo desta vez, e dificilmente ela chegaria até Manneuver. Foi então que ele reuniu mais forças e imaginou um oceano de magma sob a crosta terrestre, para em seguida puxá-lo pelo vulcão. Foi um esforço grande demais até para ele, mas quando já não aguentava mais, o Sarkany repentinamente cuspiu no ar seu fogo líquido com uma pequena explosão, chovendo enormes gotas de lava no cume da montanha.

Não só mais lava fora jogada para fora do vulcão, como também uma figura de anatomia estranha.

–Ah, droga – disse Luke. – Agora já era mesmo.

–O que é aquilo? – Isaac perguntou.

–Um colosso que fugiu enquanto você estava no Limbo. Eu achei que tinha o matado quando o joguei no vulcão, mas ele está bem vivo.

E estava mesmo. O monstro era uma ave em chamas sem pele alguma, apenas ossos e músculo. Ele escorregou pela montanha se debatendo, lutando por equilíbrio.

Aquilo também havia sido uma surpresa para Erick. E uma das boas. Ora, isso facilita muito meus planos, ele pensou. Em seguida, desceu para o chão.

A lava carregou o colosso até bem próximo dos muros de Manneuver, quando ele se levantou, finalmente. Mesmo de pé, ele pareceu cambalear na direção da cidade, e chocou-se contra a frágil parede de concreto que protegia Manneuver, que cedeu sem resistência. A lava, no entanto, havia sido segurada pela segunda trincheira.

O monstro estava em fúria. Como um bebê que vê a luz ofuscar seus olhos pela primeira vez ao nascer, ele esperneava de forma absurdamente incomodante. Jogava seu corpo robusto contra as casas, derrubando-as parede por parede. Vez ou outra, um sobrevivente que se escondia era esmagado pelos destroços.

As construções eram derrubadas de um lado pelo colosso, e do outro pelas múmias. Até agora, Amon foi o único que não decepcionou, notou Erick. Mas logo percebeu que ele não havia entrado em combate direto com ninguém, pois apenas controlava as múmias de longe.

Mais uma vez, houve movimentação no topo do vulcão. Agora, porém, era a cavalaria: Lucy e Azalee, saindo do portal que havia lá no topo, caíram numa borda mais elevada na parte traseira do Sarkany, seguras de serem consumidas na lava.

Eva prontamente voou ao redor da cidade, longe dos olhos inimigos, e as encontrou enquanto desciam pelos pedregulhos.

–Rápido, venham comigo – ela gritou.

–O que aconteceu aqui? – Lee perguntou enquanto desciam a montanha.

–Longa história. Resumindo, Erick quer matar todos nós, e ele tem um exército de mortos e um colosso. Ah, e um vulcão ativo também.

–Aquela moça – Lucy disse. – que você trouxe para o Limbo, a Alanna, me contou sobre a bebê. É a sua filha de verdade?

–É sim, se chama Madison.

–Meus parabéns, pra você e pro Isaac.

–Obrigada – Eva agradeceu. – Mas temos que garantir que ela tenha um planeta pra morar no futuro. Vamos, mais rápido!

Evangeline as levou para onde estava o colosso. Lá embaixo, na cidade, pelo menos dois quarteirões haviam sido levados ao chão.

–Qual é a desse bicho? – Lucy perguntou.

–Só sei que é imune ao calor – Eva respondeu. – Eu preciso encontrar os outros para virem ajudar. Vocês conseguem manter ele ocupado?

Lee deu um passo para frente, saindo de onde estavam escondidas, atrás da esquina de um muro pequeno. Sacou de suas costas o enorme machado negro que havia ganhado de Thanatos, vários anos atrás.

–Já estava na hora de um pouco de ação.

Lucy sacou seu arco negro e se juntou a ela.

–Vá chamá-los, Eva. Nós cuidamos desse aqui.

Notas finais
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