Notas iniciais
Olá, meu nome é Igor, e sou o criador do Aftermath. Este é meu projeto que venho desenvolvendo há meses, e pretendo engrandecê-lo e um dia expandí-lo pra outras plataformas (jogos, livros, produções audiovisuais). Agradeço aos que leram, e caso se interessarem pela trama poderão acompanhar também pelo blog, cujo link estará nas notas finais. Obrigado a todos, e boa leitura =)

O laranja do céu predizia a chegada da noite que se aproximava. As nuvens brancas iam embora no horizonte, enquanto espalhavam sua palidez na imensidão solitária da atmosfera.

Debaixo desse céu, Isaac e Luke perambulavam pelas ruas de Manneuver.

–Eu estou bem, Isaac. Sério. Veja, posso até andar sozinho.

–Mas e o seu braço? – Isaac carregava o amigo com o braço restante sobre seus ombros, levando-o para onde achava que Ingvarr pudesse estar.

–Dane-se o braço, depois a gente vê isso – Luke se desvencilhou de Isaac e ficou firmemente apoiado em seus pés. Aparentemente, estava melhor do que achava. – Isso nem sequer dói, se quer saber.

–Você é quem sabe. Acha que pode dar conta de uma luta?

–Sabe que eu venço você tranquilamente só com um braço, né?

–Você morreria tentando.

Os dois sorriram e puseram-se em caminhando. Julgaram que o colosso era perigo maior que as múmias, e era até ele para onde iam.

Poucos quilômetros depois deles, a fera rugia desesperadamente enquanto se debatia entre as casas. Era pouco mais de três metros de altura sobre ossos e ligamentos com quase nenhum musculo.

–Que coisa horrível – Lee disse. Nunca na vida havia visto um colosso, ao menos não tão de perto.

–Nem me fale – Lucy já tinha experiência com outros colossos, e se lembrara daquele que enfrentou ao lado de Erick. – Vamos, antes que ele mate mais alguém.

O colosso balançou-se para trás, e depois para frente com velocidade. Acertou uma cabeçada em uma parede, destruindo toda a área ao redor de uma janela. A extensão de seu bico era como um chifre, que acabou prendendo-o na parede.

–É a nossa deixa – Lee adiantou-se, sacou o machado e ergueu um braço. Acima dela, surgiu um arsenal de lanças de diversos formatos diferentes, mas todas negras e azuis.

As lanças partiram como flechas de balistas na direção do monstro. Após um forte zunido agudo que cortou o ar, todas elas atingiram o colosso, mas foram rebatidas quando acertaram os ossos maciços.

Lee arrastava seu machado no chão, fazendo soar um barulho de metal. E de fato, era. As armas sobrenaturais eram, conforme Lucy havia descoberto recentemente, feitas de um metal encontrado no submundo da mitologia grega. Não se sabe ao certo sua localização exata, mas diz-se que o metal é feito das almas dos mortos que foram condenados ao Tártaro.

Enquanto ela se aproximava, outras armas surgiam no seu vácuo. Estas, mais adequadas para aquele inimigo, alguns martelos e maças. Mais uma vez, elas foram magicamente arremessadas contra o colosso, e novamente foram rebatidas pelo exoesqueleto. O dano, porém, foi muito maior.

O colosso gritou medonhamente, e fez um movimento exagerado para se desprender da casa. Quando conseguiu, toda sua estrutura foi ao chão, e ele se virou bem a tempo de ver Lee preparando seu ataque.

Nada ele pode fazer: ela acertou seu tronco, tirando uma grande lasca de osso de uma costela. Ele rugiu e tentou abocanhá-la, mas Lee aproveitou o próprio embalo para dar um segundo golpe, acertando agora seu maxilar e afastando a cabeça da fera.

Lucy emendou a sequência com uma flecha negra que quase acertou o olho do colosso, faltando menos de dois centímetros para tal. Ela rodopiou, e subiu sobre uma enorme estalagmite de lava que surgiu debaixo de si. Muito rapidamente, a lava solidificou-se e Lucy foi arremessada no ar, lugar de onde disparou mais quatro flechas quase de uma vez só. Elas todas acertaram o monstro, e apesar de terem caído como a primeira, haviam deixado cinco pequenos buracos no crânio dele.

Lee cortou horizontalmente o ar com seu machado de guerra, acertando a perna do colosso. Ele deu um salto, girou e a chutou para longe. Lee acabou parando em um poste de madeira, mais ou menos dez metros depois da casa recém-destruída pelo monstro.

Ele correu na direção de Lucy, que ainda se levantava após a queda. Completamente desgovernado e destruindo lixeiras e um carro que estavam à sua frente, ele cabeceou Lucy com tal força que, após arremessar a arqueira a uma distância ainda maior que a anterior, caiu sobre o próprio peso.

Rapidamente ele se levantou e rugiu. Os sons que os colossos faziam, quaisquer que fossem, eram agonizantes e macabros. Era o tipo de som que levava as pessoas a optarem pela eutanásia de seus animais.

...

Um zunido vibrava pelo ar logo acima da área já varrida pelas múmias de Amon. Era Evangeline, que sobrevoava a cidade com suas asas metamórficas à procura de seus amigos. Finalmente, ela havia encontrado.

–Ingvarr, espera! – o viking e seu novo amigo Jack corriam na direção de Erick, que estava próximo ao vulcão.

–Eva, onde estão os outros?

–Alanna e Madison estão escondidas. Ainda estou procurando Isaac e Luke, mas vocês precisam ajudar a matar aquele colosso! Tem duas ceifadoras o enfrentando, mas não sei se serão suficientes.

–Mas e elas? – Ingvarr apontou para o caminho para onde ia. As múmias tinham deixado o lugar completamente devastado.

–Mais importante que as múmias, e o Erick? – Jack estava já sem paciência. Estava certo por achar que era ele o real perigo, mas na verdade só queria ter sua vingança.

Você não quer vingança, Jack, falou uma voz em sua cabeça. Você só quer matar. A voz estava certa.

–O colosso é bem mais perigoso. Está descontrolado!

–O exército mais a frente também – disse Ingvarr. – Eva, eu vou ser mais útil aqui contra os mortos. Sabe que não tenho a menor chance num combate direto com esses monstros.

–Tudo bem... – Eva disse. – Você tem razão. Acabe com eles, você e o... Jack?

Jack já estava longe quando eles perceberam. Ele não parou para esperar e continuou seu caminho até Erick, enquanto Ingvarr decidiu enfrentar sozinho as múmias de Amon.

Eva voltou a sobrevoar a cidade, quando encontrou Isaac e Luke vindo no sentido contrário ao que ela ia. Isaac não acreditou quando a viu descendo do céu, com dois pares de asas transparentes.

–Desde quando você faz isso? – ele perguntou.

–Não muito tempo, é o anthrax evoluindo. Vamos, preciso de vocês lutando... Caramba Luke, o que houve com o seu braço?

–Virou pó, ou algo assim. Mas não se preocupe, não vai me atrapalhar em nada.

–Você dizia – Isaac retomou o assunto. – Que tínhamos que lutar...

–Com o colosso – Eva continuou. – Lucy e Lee estão lá tentando mata-lo.

–Minha irmã veio pra cidade? – Luke pareceu contente, mesmo estando terrivelmente ferido.

–Nós já estávamos indo pra lá – Isaac respondeu.

–Então chega de perder tempo, vamos logo! – Eva fechou as asas, e continuou o caminho a pé, ao lado de seus amigos.

...

A lava ainda borbulhava quando Jack saiu dos limites da cidade. O campo entre Manneuver e o Sarkany estava mergulhado no rio vermelho, e pouco acima do rio estava Erick.

–Erick! – gritou Jack. – Desça aqui seu verme!

Ele estava longe demais pra ser ouvido. Olhou ao seu redor, procurando algo que pudesse chamar a atenção do inimigo, mas só via a lava à sua frente, ilhando árvores em chamas. Por instante, imaginou que conseguiria caminhar pela lava rasa e seu corpo se regeneraria. Afinal, sou imortal, ele pensou. Mas logo concluiu que seria arriscado, e não pagaria pra ver.

Mais uma vez ele gritou, e agora pareceu que seus pulmões iam explodir. Gritou tão alto quanto jamais imaginou que podia, mais do que sua voz rouca permitia.

E aí ele se virou. Erick viu Jack e logo o reconheceu. Jack teria visto o sorriso no rosto de Erick se ele estivesse mais perto.

Ele se aproximou, levitando, enquanto Jack se afastava para atraí-lo para longe da lava. Queria lutar, e queria dar uma surra nele antes de finalmente mata-lo.

Erick pousou suavemente no chão, vestido com um sobretudo surrado, por debaixo de um poncho feito do mesmo trapo velho. Os cabelos enrolados balançavam pesadamente, acompanhando o sorriso cordial e extremamente irritante.

–Olha só quem chegou na cidade... – ele disse, afastando o poncho para o lado, para em seguida apoiar as mãos na cintura. – Sr. Jack, em pessoa. Como vai o outro Jack?

Outro Jack? Do que diabos ele tá falando?

–Quero dizer, a alma que coloquei em você – Erick continuou. – Vocês tem muito em comum, admita, Jack bom.

–O psicopata que você colocou em mim – disse Jack. – Se chamava Jack também?

–Sim, o Jack mau também tem o seu nome. Ou, pelo menos, foi assim que ficou conhecido. Ninguém jamais descobriu quem ele era.

–Você quer dizer que...

–Sim?

–A alma que pôs em mim...

–Diga...

–É a de Jack, o Estripador?

–Isso! Me admira que não tenha percebido. Foi bastante difícil conseguir essa alma, já que estava selada no baú. A Caixa de Pandora, quero dizer. Imagino que conheça.

–Eu vou te matar, ceifador. E vou te matar muito.

–Ah, não faça drama. Jack bom, Jack mau, ambos são assassinos. Você não é melhor pessoa que o Estripador, e sabe disso.

Ele tem razão, disse a voz. Eu me lembro agora de tudo que fiz. Londres tremeu de medo com o meu trabalho. Aquelas garotas não tiveram a menor chance, coitadas. Mas eu nunca quis aquilo, era só um médico estudando no Reino Unido. Infelizmente, a vontade de matar foi mais forte. Vamos Jack, eu sei que desta vez você quer. Pare de resistir e me deixe matar esse ceifador, vamos!

–Não – Jack disse para o Estripador. Erick acabou ouvindo. – Desta vez, eu é que vou matar. Não preciso da sua ajuda, assassino.

Em total controle de seu corpo, Jack partiu pra cima do ceifador, que não se mexeu. Jack deu-lhe um soco na cara com vontade, ou assim pretendia fazer antes de seu punho cerrado parar no meio do caminho.

Jack viu seu braço envolto por uma aura branca, e não importava quanta força fazia, seu braço só tremia sem sair do lugar. Erick fitava seus olhos fixamente com um sorriso simétrico. Ele tentou dar outro soco, na costela, mas este teve o mesmo resultado que o primeiro.

–Eu sei como te matar, Jack – Erick disse. – Acha que eu ia te dar a imortalidade se não tivesse como vencê-la?

–Vá se ferrar.

–Diga-me, Jack, você ainda quer morrer como da primeira vez que nos vimos?

–Vá se ferrar! – Jack já não era mais o mesmo desde aquele dia. É verdade que ele não se importava mais se vivia ou não na época em que matou a própria mulher, mas ele havia superado. Tinha um objetivo desta vez, ainda que este fosse matar Erick.

–Como você é chato – Erick disse. Em seguida, levitou Jack e o arremessou com brutalidade na direção do vulcão. Num segundo, ele ficou minúsculo no horizonte.

Jack não teve tempo de pensar. Chocou-se contra a montanha e afundou nela, estilhaçando sua coluna espinhal.

Apesar disso, ele se levantou. A espinha se regenerou, e resistindo à dor que já lhe era habitual, escalou para fora do buraco que tinha feito. Erick vinha chegando.

–Você é só um verme, Jack. Mesmo imortal, não chega aos pés de um ser como eu. Sou um ceifador, o maior deles. Eu sou terror. Eu sou morte!

–Você brinca demais na luta – Jack deixou-se falar. – É tão arrogante pra achar que é bom assim como diz?

–A arrogância é um sinal de inteligência, ouvi dizer. E é nisso em que me baseio, Jack. Aprendi tudo que tinha pra aprender sobre o mundo sobrenatural, e olhe para mim agora!

–Tem razão. Antes era só imbecil, mas agora é um imbecil voador.

–E você é um verme! – com os braços erguidos à altura do ombro, Erick levitou Jack mais uma vez. Esticou seu braços e pernas, o deixando crucificado no ar, e sacou a kusarigama.

–Sabe, meus poderes ficaram tão fortes que já nem uso mais isso – Erick rodopiou a corrente com a foice, agarrando-a no ar com a outra mão. – Acho que vou voltar a praticar.

Num giro rápido, a pequena foice rasgou a barriga de Jack, que já estava de peito nu. Ele gritou e xingou, mas desafiou o ceifador a continuar. Na segunda vez, a foice travou em seu peito, e Jack viu estrelas. Sentiu o pulmão sendo perfurado e o ar abandonando o corpo, até que Erick puxou a arma de uma vez e a ferida se fechou. O sangue escorria até suas calças, e a tortura continuou por vários minutos.

Em alguns momentos, Erick chacoalhou o coração e o cérebro de Jack, fazendo-o desmaiar e acordar inúmeras vezes. Outra vez, moveu os músculos contra si mesmos, causando cãibras terríveis. Mas o pior foi quando puxou os olhos de Jack até quase saltarem para fora da cabeça.

Finalmente, quando Erick se cansou, decidiu que estava na hora de voltar para a guerra.

–Últimas palavras, Jack bom? – Erick usava seu poder para controlar os órgãos de sua vítima. Planejava arrancá-los do corpo de uma vez, explodindo Jack.

–Vá se...

Foi então que decidi que estava na minha hora. Aquele monstro já havia causado mal o bastante até mesmo para o meu gosto.

Antes que Jack completasse sua última frase, saí alguns metros acima de onde estavam, do vulcão. Pedregulhos voaram comigo, e conforme caí em Erick, seguimos diretamente para o chão, onde rolamos montanha abaixo até cair na lava. Erick conseguiu voar antes de cair, já eu fiquei completamente submerso onde estava a primeira trincheira.

Voltei a subir e saí da lava. Minha armadura especial me protegeu sem maiores problemas que o calor que senti. Vi o inimigo lá em cima, voando, e Jack havia sido largado na costa da montanha.

Com um movimento de braços, fiz uma rocha se desgrudar da montanha e acertar Erick em cheio, que caiu desnorteado. Mais uma vez, ele recuperou equilíbrio no ar.

Passei a arremessar diversas rochas nele, e ele tentava as controlar. Algumas escaparam dos olhos dele, inevitavelmente, e o atingiram. Num certo momento, ele voou de volta para a cidade, fugindo covardemente.

...

Levei Jack para Manneuver novamente. Os outros lutavam bravamente contra o colosso, mas por mais ferida que estivesse, a fera não morria.

–Jack! – Luke gritou quando nos viu chegar. – Quem é...

–Olá, Luke – eu disse. – Olá Isaac, Evangeline, Lucy, Azalee. Meu nome é Tremor, e vim ajuda-los.

–O que é você? E porque quer nos ajudar? – Isaac disse. De longe, era o mais desconfiado de todos.

–Podemos deixar isso pra depois? Tem um colosso destruindo a cidade.

–Como podemos confiar em você? – Azalee disse. Era outra como Isaac.

–Vocês não podem matar um colosso aqui. Se o fizerem, ele volta. Precisam leva-lo ao Limbo, e lá ele morrerá.

–Isso não faz sentido nenhum – Isaac disse.

–Faz, sim. Um colosso é um troca-peles. Um troca-peles é uma alma. Já viram uma alma no plano terreno? Não. Como esperam que um colosso volte a ser uma alma inofensiva se ela não está num ambiente que a suporte?

Visivelmente aquela explicação não havia feito sentido pra eles.

–Ah, deixa comigo.

Ergui torres de pedra do chão, tão mais altas que o colosso, e prendi-o entre elas. Criei também uma estrutura que prendeu suas asas e cabeça, tão pesada que derrubou-o no chão. Esmagado e imobilizado, o colosso já não representava ameaça.

–O que aconteceu? – Ingvarr disse. Acabava de chegar sabe-se lá de onde.

–Ingvarr, o que houve com as múmias? – Eva perguntou.

–Sumiram – ele respondeu. – Todas elas. Entraram nas paredes e no chão como sombras.

Notas finais
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