Aftermath
17 Caótico
Notas iniciais
Pobre Andrew, o que houve com você? Eu costumava te admirar e ser igual a você, mas agora só sinto pena e repulsa. Deve ter algum jeito de trazê-lo de volta, e eu vou descobrir. Mas por agora, preciso ter cuidado com esses assassinos...
No hall da base construída na caverna, todos os Filhos Esquecidos comiam carne de lobo, trazida pelos caçadores do grupo naquela tarde. Os saqueadores chegaram no cair da noite, com utensílios de cozinha e algumas armas, roubadas de alguma vila, provavelmente Manneuver. Os planejadores nunca desciam de seu palco, uma área um pouco mais elevada dentro do hall, onde os líderes sentavam à uma mesa cheia de mapas onde decidiam suas táticas de ataque. Eram cinco líderes: Lucius, um homem alto, de óculos, cabelos até a cintura e barba curta cobrindo o rosto; Daryl, mais jovem, tinha o cabelo arrepiado, alargadores pretos nas orelhas e uma fina barba que contornava o maxilar; Ben, era pálido e de rosto liso, tinha apenas um cabelo penteado para o lado; Trevor possuía mechas de cabelo caindo no rosto e uma barba espessa e mal-cuidada; e Lucrezia, uma loira com olhos sinistros.
Andrew me levou até o palco para apresentá-los a mim.
–Boa noite, queridíssimos irmãos. Venho apresentar a vocês meu irmão Isaac.
–De novo com recrutas, Andrew? – disse Lucrezia. – Não se lembra do que houve com os outros que você trouxe?
–Eles não tiveram culpa, minha senhora. Eles não entendiam a nossa causa, e você fez muito bem em matá-los quando se recusaram a vestir o preto.
–Que bom que sabe disso. Não podemos deixar que ninguém além dos Filhos Esquecidos saia por aí sabendo nossa localização.
Ótimo. Agora vou ter que me passar de assassino para continuar vivo. Duvido que Andrew vai me apoiar se eu disser o contrário.
–Este é diferente, senhora. Ele é meu irmão de sangue, fomos separados a anos atrás. Ele mesmo disse que vai nos ajudar.
Eu disse que ia te ajudar, seu idiota. Não ajudar você a matar.
–Pois bem, pequeno recruta – ela disse olhando para mim. – Você se unirá aos Filhos Esquecidos?
Agora eu já não tinha escolha. O que será que aconteceria se eu recusasse e usasse meus poderes para matá-los? Não seria muito difícil. Mas Andrew não entenderia... Eu preciso de tempo pra convencê-lo a abandoná-los.
–Se isso significa ficar com meu irmão, sim. – respondi.
–Ficará com todos seus irmãos. A partir de agora, assim como nós, você é um Filho Esquecido pelo mundo, da mesma forma que você o esquecerá e viverá pela nossa causa. Será um mártir da humanidade, e fará aquilo que ordenarmos.
Trevor levantou-se.
–Poderá vestir o preto dos vampiros assim que passar pelo ritual de iniciação, que será ainda esta tarde.
...
Estávamos sentados em uma das mesas geladas de pedra no hall, Andrew e eu, ainda pensando em um jeito de fazê-lo abandonar aquela irmandade.
–Estou muito feliz que você esteja comigo, irmãozinho. Logo, estaremos juntos matando inocentes por aí – disse Andrew, antes de soltar uma risada frenética.
–Eu não vou me juntar aos Filhos Esquecidos, Andrew.
–Claro que vai, Isaac. Você disse mais cedo. Não tem mais volta. Ou você quer morrer? – aquilo pareceu uma ameaça.
–Eu vou me juntar, mas ao mesmo tempo não vou. – quando eu disse isso, Andrew caiu na gargalhada. Eu faria o possível pra evitar matá-los, pois isso significaria matar Andrew também.
–Ah, irmãozinho... Está falando tanta besteira, tanta coisa sem sentido, que parece até eu!
–Você é quem vai se juntar a mim, Andrew. Vou te levar pra fora dessa loucura.
–Não há lugar melhor para ir, irmãozinho. Aqui somos importantes. Somos o que as pessoas precisam pra ficarem em paz. Com os Filhos atacando as pessoas, elas não terão tempo pra brigarem entre si. Você verá no ataque que faremos amanhã.
–Ataque amanhã? Onde?
–Ah, numa outra cidadezinha das redondezas – ótimo, não será em Manneuver. – Não me lembro do nome, mas é cheia de bebuns acabados dormindo nas calçadas. É tanto bêbado que é comum vê-los falando de lobisomens na lua cheia.
–Se são só bêbados, qual a importância de sacrificá-los? Vocês vão acabar matando todos os sobreviventes.
–Não se preocupe. Haverá uma ascensão da sociedade após a queda de alguns – ele disse, como se estivesse citando alguém. – Nós não temos vergonha, não há ninguém para culpar.
–Como não? Não vê que são vocês que estão causando mais problemas para as pessoas do que elas mesmas?
–Essa é a intenção. Somos a praga que nós mesmos desprezamos, irmãozinho. E ficaremos felizes quando perdermos tudo, pois será aí que a humanidade vencerá.
–Quando perderem, a humanidade não terá vencido nada. Ao contrário, perderá sobreviventes. Vocês fazem parte da humanidade, então estão se contradizendo quando afirmam que estão evitando que a humanidade entre em guerra consigo mesma.
–É por isso que somos mártires, Isaac. Vocês... quero dizer, eles são o centro de nossas vidas. Nós não ousaremos deixá-los cair, e se acontecer, nós choraremos. De verdade. Nós choraremos quando os honestos morrerem.
–Isso é o que os outros te dizem, mas são só mentiras, Andrew! Venha comigo, podemos viver em paz e entre verdadeiros amigos! Pare de inventar desculpas e renegar quem você é! Pare de tentar me fazer acreditar em todo esse monte de nada!
–Renegar quem eu sou? Eu sou o que eu sou! Mesmo que quem eu seja não seja quem você queira ver! Eu sou o espelho! Sou a imagem dos teus pensamentos! Eu sempre fui assim e você nunca reclamou, você só não se importou como eu me importei com a humanidade!
–Você mata inocentes, Andrew. Como pode dizer que se importa com as pessoas mais do que eu?
–Você tenta me esconder... Trazer esse “Andrew” que você acha que existe... Mas você não pode nem esconder a si mesmo! Quer encontrar esse “Andrew” dentro de mim? Então saia desse seu mundo onde tudo é perfeito, irmãozinho! Saia, e veja quem eu sou de verdade. Eu sou o caos moldando você!
–Você tem razão. Eu não estava vendo, mas agora eu lembro de você. Você renasceu da dor, meu irmão. Thanatos causou danos irreparáveis à sua alma quando te possuiu. E descobri quem eu sou também. Eu sou o retrato de quem você quer ser, alguém que realmente ajuda a humanidade. Tudo que você quer é me ver cair.
–Porque acha isso? Eu sou mais forte que você! Você só está reclamando do seu ponto de vista. Mas eu sou o fogo interior que te deixa vivo quando o mundo está frio!
–Não, Andrew. Você é só um coitado. Uma marionete daqueles que realmente são o câncer da sociedade. Toda sua vida não é nada além de uma jornada em vão.
–Então você acha que eu sou maluco? Insano, talvez? Acha que sou eu quem deve ser culpado? Deixe eu te dizer uma coisa. A vida vem e vai, preto vira cinza e nada resta. Famílias são perdidas mil vezes e ninguém resta pra ouvir nosso choro! O tempo simplesmente passa, como nuvens no céu... Enquanto o sofrimento continua...
–Foi uma fatalidade, Andrew. E Thanatos é o culpado.
...
No início daquela tarde, fui chamado ao centro do hall, onde faria a iniciação. Rezava pra que não fosse nada como beber sangue de carneiro, ou coisa assim.
–Hoje, um novo irmão se junta a nós – disse Ben. Os outros vampiros entoaram um coro, gritando “Irmão! Irmão! Irmão!”.
Lucius trouxe uma jarra de sangue, e a pôs numa mesa.
–E agora, começamos o ritual – continuou Ben. Mergulhou os dedos no sangue e pincelou minha bochecha, formando duas linhas de sangue na vertical abaixo do meu olho. – Carregue a marca dos Filhos Esquecidos e faça sua primeira vítima. Trevor irá te acompanhar pra garantir que não fuja. – Trevor, o de barba grossa, adiantou-se.
Ele me pegou pelo ombro e foi me levando pelo hall em direção à entrada da caverna, e os irmãos de sangue gritavam “Sangue! Sangue! Sangue!”.
É agora, preciso fazer algo ou vou ter que matar um inocente. Talvez quando sairmos da caverna eu o mate... Mas o que direi quando voltar? Não, não é um bom plano.
Felizmente, não foi preciso pensar muito mais: o Chanceler apareceu de repente, com mais uma pequena tropa de cidadãos armados com facas de cozinha e outros utensílios domésticos. Com ele, também vinha Eva.
–Morte aos vampiros! – gritavam os cidadãos. Até aí, todos os assassinos já estavam de pé, indo em direção à eles.
–Esperem! – eu gritei. Surpreendentemente, eles pararam.
–O que foi, recruta? – Trevor perguntou.
–Recruta? – Eva disse. O medo estava estampado no rosto. – Isaac, você se juntou a eles?
–Não!
–Sim, ele se juntou – Andrew apareceu. – Estava prestes a passar pela iniciação, mas vocês apareceram. Não importa, ele passará pelo ritual aqui mesmo, já que estão com tanta pressa de morrer!
–Isaac... Por quê? – Eva estava começando a chorar, e eu imaginei o que poderia dizer pra convencê-la de que eu não estava com os vampiros.
–Este é meu irmão, Andrew – eu disse, mas logo me arrependi de ter dito.
–E por isso você vai virar um assassino? – ela respondeu, ignorando o fato de ele ser da minha família.
–Não vou, Eva! Deixe-me explicar!
–Sim, ele vai! – Andrew gritou, se atirando na frente. Já não sabia se aquele idiota merecia ser salvo. – Venham, ponham suas mãos em mim! Comecem o massacre, porque nós não deixaríamos? Vamos, irmãos de preto. Vamos pintá-los de vermelho!
Andrew partiu pra cima deles, e a guerra começou. Os dois lados gritavam seus gritos de guerra, e as paredes da caverna ecoavam estonteando minha cabeça. A cada segundo que passava alguém esbarrava em mim, e eu não fazia nada. Não sabia o que fazer. Só pensava que devia sair dali com meu irmão, ou com Eva.
Um cidadão de Manneuver, o qual eu tinha certeza que havia visto na cidade, me deu uma investida com a tampa de uma lata de lixo, a qual usava de escudo. Caí aos pés de um dos vampiros. “Saia da frente, traidor!”, ele disse. Traidor de quem? Dos meus amigos na cidade aos pés do vulcão ou dos assassinos?
Olhando para os lados pude ver os líderes atrás dos vampiros, orquestrando a defesa. Mesmo sorrateiros, os Filhos Esquecidos tinham apenas facas e pequenas adagas, e não tinham chance contra o armamento do povo de Manneuver.
Comecei a empurrar as pessoas, abrindo caminho para a entrada da caverna. Com muitas ombradas e cotoveladas recebidas, saí da caverna, e o barulho infernal que batia nas paredes ficou distante. Porém, a paz foi momentânea.
–Não consigo acreditar – ouvi Eva dizendo logo atrás de mim.
–Eva – eu disse, me virando. Ela empunhava uma fina lança improvisada, feita de uma faca amarrada na ponta de um cabo de vassoura. – Não é o que parece!
–Cala a boca, seu monstro! – ela gritou, chorando. Meu coração parou, congelado por um mar de agua fria.
–Eu não...
–Como pode trocar seus verdadeiros amigos, que dariam a vida por você, por causa de um irmão que até ontem era seu inimigo?!
–Não, Eva... – ela não parava de falar. Estava muito nervosa, e chorava sem parar. Queria acalmá-la, mas não sabia o que fazer.
–Luke acordou, sabia? E ele queria te ver, assim como Ingvarr, que chegou da viagem que você o mandou! Eu fiquei tão preocupada que tivesse acontecido alguma coisa... Que eles tivessem o matado... Quando na verdade você virou amiguinho deles!
–Pare, Eva, não é isso! – comecei a caminhar lentamente em direção a ela. – Eu queria salvar meu irmão! Queria tirá-lo daqueles assassinos!
–Mentira! – ela apontou a lança pra mim. – Não chegue perto de mim, seu monstro!
–Eva, por favor... – continuei caminhando.
Ela estava furiosa como eu nunca imaginei que alguém poderia ficar. Até demais para a situação, mesmo que a situação fosse extrema como fosse. Ela gritou de raiva, e me atacou. Não acreditei, mas aconteceu. Ela perfurou meu peito, e arrancou a lança.
O ar começou a sumir de mim, e o maior dos esforços que eu fazia ao tentar respirar pela boca era em vão. Minha roupa ficou pesada com a quantidade de sangue que escorria de meu pulmão, até que caí de joelhos. Meus olhos falhavam, mas pude ver Eva largando a lança no chão, chorando, e fugindo. Tudo ficou preto, então eu caí.
...
Parecia um déjà vu. Uma pessoa querida me matava e eu acordava no Limbo. Mas agora era um pouco diferente, eu estava nas Colinas do Vento. É o que acontece com um ceifador quando morre... Ele volta para o Limbo. As montanhas estavam infestadas de troca-peles, e felizmente não havia colosso à vista. Eu me levantei, e notei que estava sem roupas, mas ainda estava com minha foice sobrenatural. Moldei-a no formato de uma armadura ao redor do meu corpo. Não era nada confortável, mas era a única opção.
Os troca-peles fugiam de mim, como se soubessem quem sou. São criaturas covardes, mas ainda assim ousadas. Eu estava no meio de uma ladeira, e resolvi subir a colina. Lá em cima, avistei uma figura ao longe e segui em sua direção. Estava na base de outra colina.
Me aproximei devagar, até que a pessoa pareceu ter me visto, e disparou uma flecha. Lucy. Levantei os braços, me rendendo, e segui até ela.
–Sou eu, Lucy. Isaac.
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