Afterlife
42 A Última Espada
Colégio Católico Padre Andersen, Outono
Abril de 2011
O rapaz entrou no Prédio Administrativo do colégio, a nostalgia daquele lugar bateu em seu coração. Estudara ali muitos anos de sua vida — desde o terceiro ano do ensino fundamental. E, mesmo seu último ter sido o ano anterior, ele sentia uma saudade absurda daquele lugar.
– Oi. Bom dia. — Disse à secretária. — Eu vim buscar meu histórico, por favor.
– Sim. Claro. Você também é da turma do ano passado, certo? — Ela respondeu. — Qual é o seu nome?
– Alan Rockbell.
– Certo. Eu preciso procurar nos arquivos.
– Tudo bem. — A secretária levantou e ia saindo, quando o rapaz acrescentou: — Posso dar uma volta pela escola?
– Pode sim, só não se perca.
– Não vou. É mais fácil você se perder nesta floresta do que eu. — Retrucou.
A mulher sorriu, e saiu pela porta de fundo. Alan saiu pela lateral, que dava para a floresta. Caminhou por um tempo pela estrada, enquanto lembrava-se das centenas de vezes que passara por ali; fosse com ou sem autorização dos professores. Incontáveis vezes ele correu por ali brincando de esconde-esconde com os amiguinhos ou mais tarde, no ensino médio, quando levava garotas a fim de ter mais privacidade. Sorriu às memórias felizes.
Finalmente avistou o Castelo. Era assim que chamavam a construção que era o Prédio das Salas. Imagine um castelo de verdade, aqueles feitos de pedra e imensos na Europa que nós sempre queremos visitar. O Colégio era um daqueles, porém maior e com inúmeras salas, passagens e corredores. Nem mesmo Alan conhecia todos os lugares.
A fumaça saindo pela porta da frente e dezenas de crianças e adolescentes olhando com caras tristes, confusas e assustadas para o prédio chamou-lhe a atenção. Correu até lá e perguntou o que acontecia; ninguém soube responder.
Alan entrou e procurou a origem da fumaça; havia uma sala onde dezenas de cadeiras e mesas estavam empilhadas e em chamas. Olhou em volta e viu que não havia ninguém próximo. Ele mordeu o dedo, a fim de cortá-lo para que sangrasse. Usando o sangue desenhou a palavra “cessar” em náuatle, a língua falada pelos antigos astecas, na palma de sua mão esquerda. Andou devagar em direção às chamas, que diminuíram aos poucos até não mais existirem. Ofegante, ele saiu da sala.
– Você é realmente difícil de encontrar, hein!? — Um homem disse; ele estava do outro lado do corredor e usava uma máscara que parecia ser feita de metal; ela era perfeitamente lisa e tinha alguns desenhos aleatórios nela; de seu rosto via-se apenas o olho esquerdo de íris negra.
– Quem é você? — Alan perguntou.
– Eu sou um amigo. E tenho um convite para lhe fazer.
– Não estou interessado.
– Você nem ouviu minha proposta.
– Você quer minha ajuda devido às raras habilidades que possuo com a magia asteca e ser um dos últimos a dominá-la com perfeição.
– É, você tem uma ideia...
– Perdi as contas de quantos já me ofereceram para entrar em organizações secretas ou grupinhos. Não tenho interesse.
– Então você não me deixa outra escolha. Devo levá-lo a força.
– Não pense que será fácil. — Alan disse pegando um canivete do bolso.
– Sei que a magia asteca é poderosa, mas possui uma fraqueza a altura. — O mascarado explicou. — Para fazer qualquer feitiço é necessário um sacrifício de sangue e ao mesmo tempo não é necessário energia para executá-lo; a própria sangria é o custo do feitiço.
– Conhece sobre minha mágica.
– Claro que sim. Eu mesmo sou um praticante da magia asteca.
Alan ficou surpreso. Além dele e de seu pai, não conhecia ninguém mais que fizesse a magia.
– Então, por que precisa de mim?
– Por que essa não é a única magia que pratico. Venha comigo e conheça os Espadas, nossos objetivos e depois decida.
– Não sou estúpido de ir direto ao covil inimigo de livre e espontânea vontade.
– Eu disse que sou amigo.
– Prove. Mostre-me seu rosto e quem você é.
– No tempo correto. Porém agora deve confiar apenas em minhas palavras. — Enquanto o desconhecido falava, Alan cortara a palma de sua mão esquerda e com seu sangue desenhara o símbolo asteca para “invocar”; ele não precisou usar sua mão direita.
– Não posso acreditar em mentiras. — Retrucou.
Alan juntou as palmas da mão, objetivando que o desenho passasse também para a outra mão. O estranho, vendo aquele movimento, invocou sua Arma — todos os Artistas, aqueles que praticam a magia demoníaca, depois de adquirirem certa experiência de batalha, são capazes de invocar uma Arma característica ao seu estilo de combate. A do desconhecido era uma espada grande o bastante para se usar com duas mãos, porém leve o suficiente para combater com apenas uma. O punho da espada era meio curvilíneo, para melhor encaixar na mão do usuário e a proteção era em forma de crânio e ossos.
Os símbolos na mão de Alan invocaram duas lâminas de uns dez centímetros presas por uma corda de aço grossa, porém facilmente maleável. O rapaz gostava daquela técnica, lembrava o personagem Scorpion do Mortal Kombat, um dos seus jogos favoritos. Segurou-as com as mãos, preparando o ataque.
– Você sabe que esta é uma luta desnecessária, não é? — O mascarado disse.
– Eu disse que não irei com você.
– Você não tem escolha.
– Então sim, essa luta é necessária. — E lançou a primeira lâmina.
O desconhecido imediatamente levou sua espada ao ataque para pará-lo.
Contudo, antes que as armas se atingissem, duas mãos vestindo manoplas de titânio, o que as deixava tão grandes quanto às mãos de um gigante, seguraram ambas as armas. A mulher que acabara de interferir disse algo que Alan não entendeu, mas pelo fato de sua corrente e a espada do inimigo terem virado pó de ferro, soube que fora um feitiço de qualquer tipo.
– Nada de lutas com magia na minha escola. — A intrusa falou, num piscar de olhos estava próximo ao mascarado, colocou uma mão, agora sem a manopla, no peito dele disse outras palavras que Alan não entendeu; o estranho foi sugado por um vórtex que surgiu sobre a mão dela, mas não antes de dizer:
– Ainda não terminei com você, Alan Rockbell; você será minha última Espada.
Alan suspirou aliviado. Sabia que aquele homem era mais poderoso do que ele. Com certeza ele perderia aquele combate. Felizmente aquela mulher estava ali para socorrê-lo. Alan lembrava-se do dia que a conheceu anos atrás quando o antigo diretor apresentou-a a turma como nova diretora. Estava diferente naquela época, usava apenas roupas sociais pretas e o cabelo estava sempre preso, agora, porém, ela usava calças jeans desbotadas e uma camiseta cor-de-rosa; se você não prestasse atenção, poderia confundi-la com uma estudante.
– Achei que era impossível fazer magia aqui na escola. — Alan disse.
– E era. Porém desde que Andersen desapareceu, os feitiços que impediam as magias estão fracos e eu não consegui restaurá-los por completo. — Ela respondeu. — Preciso que você venha comigo.
– Para onde?
– Você precisa conhecer a história, se quer fazer parte dela.
– Eu não quero fazer parte de nada. — Retrucou. — Eu nem ao menos gosto de magia.
– Então, por que pratica?
– Meu pai me ensinou, a uso apenas para ajudar as pessoas quando posso.
– E justamente para proteger as pessoas é que eu preciso de você. Siga-me se realmente o que diz é verdade.
Ela deu as costas para ele e seguiu pelo corredor que agora estava cheio de alunos. A consciência de Alan pesou. Se realmente ele queria ajudar as pessoas, e era necessário que ele fosse parte disso... Como ele poderia hesitar? Não teve outra escolha, seguiu Verônica Zambrano pelo corredor.
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