Afterlife
43 Os Nove Ryaks
Os Filhos do Abismo sob o comando da alma-uma-vez-chamada-Caleb, o Kyaryak Vizard, contavam as almas capturadas na Batalha de Roma, da qual saíram vitoriosos no dia anterior. Não havia necessidade de numerar seus subordinados, pois pela memória coletiva dava para saber que havia trinta e seis mil setecentos e vinte e dois Filhos sob seu comando. Dentre eles havia cento e nove Ryaks, que são Filhos com habilidades especiais.
Eram esses cento o nove que Vizard tentava reunir, ele teve uma ideia que poderia facilitar suas estratégias de guerra. Os cento e dez, contando com ele, estavam reunidos de frente ao Palácio da Justiça em Roma. Demorou quase uma hora para juntá-los todos ali. Depois, Vizard separou-os em grupos de acordo com a habilidade.
Havia doze Kyaryaks, aqueles que manipulam a terra, sem contar com Vizard.
Havia sete Louryaks, aqueles que manipulam a água.
Havia quatorze Manáryaks, aqueles que leem mentes fora da memória coletiva.
Havia dezessete Heyroryaks, aqueles que invocam e manipulam o fogo.
Havia apenas três Thunroryaks, aqueles que invocam e manipulam o trovão – dos Ryaks, esse era o tipo mais raro; Vizard dera sorte de haver três deles em seus liderados.
Havia vinte e dois Sunsáryaks, aqueles que manipulam o ar.
Havia dezoito Pnamryaks, aqueles podiam ir de um lugar ao outro em segundos – pelas memórias de Caleb, Vizard classificou esse poder como “teletransporte”.
Havia dez Ganaruryaks, aqueles que davam forma as sombras – estes poderiam ser chamados de “os Ryaks mais poderosos”.
Havia seis Hasashuryaks, literalmente seu nome significa “aqueles que manipulam mil lâminas”. Ninguém sabia exatamente como suas habilidades funcionavam, contudo, elas foram muito úteis na Primeira Guerra Celestial.
Por que nos juntou aqui?, um dos Louryaks perguntou.
Estou aqui para ensiná-los a libertar suas antigas formas sem perderem o poder que as almas nos concedem, Vizard respondeu.
Como?
Eu não sei explicar com palavras, então vou pedir para que os Manáryaks monitorem minha mente e ao mesmo tempo passem a informação aos nossos irmãos.
Entendemos, os Manáryaks responderam em uníssono.
Vizard fechou os olhos e se concentrou nas memórias de Caleb. Algumas eram boas, outras ruins. Lembrou-se então dos sentimentos quando o Heartless, Aws, prendeu os quatro Kyaryaks naquela jaula. Sentir-se preso... Era um sentimento que compartilhava com Caleb. De alguma forma, Caleb sabia o que era sentir-se preso – nunca tinha saído do Paraíso; nem mesmo sabia como era o Éden. Quando reabriu os olhos, os outros estavam mais baixos que ele. Vizard estava novamente na sua forma original.
Ele libertou mais memórias da alma do que qualquer um de nós, um Manáryak explicou, libertou memórias e sentimentos profundos da alma. Os dois, Vizard e Caleb, possuíam memórias e sentimentos parecidos. Isso libertou sua verdadeira forma e ao mesmo tempo manteve a alma dentro de si.
Uma medida extremamente arriscada. Libertar tal quantidade de memórias poderá dar o controle de volta ao possuído, outro falou.
Não obrigarei nenhum de vocês a tentar, Vizard adiantou-se, não temos necessidade. Estamos com vantagem na guerra. Quem não estiver disposto a arriscar, pode se retirar sem remorso algum.
Dos cento e nove, apenas trinta e dois ficaram. Os três Thunroryaks permaneceram. Todos sentaram no chão de pernas cruzadas e se concentraram. Apenas cinco Manáryaks ficaram, e estes monitoravam os outros, assim se eles perdessem o controle, poderiam intervir em favor de seus irmãos.
Estou ficando mais forte, Vizard agora na forma humana ouviu a voz de Caleb, você pode sentir. Em breve vou recuperar meu corpo.
Vizard decidiu ignorar as ameaças da alma. Sabia que o que ele dizia era verdade, todavia não havia nada que o Filho pudesse fazer contra. Um dia, sem dúvida, ele com certeza teria que lutar contra Caleb pelo controle do poder que, para torná-lo mais forte, teve de compartilhar.
Um dos Thunroryaks levantou. Ele tinha os braços cumpridos e finos, quase tocando o chão; ele também não tinha face, apenas um olho no lugar onde deveria ser o nariz; tinha os cabelos muito cumpridos; não só chegavam ao chão, como se estendiam pelo menos um metro. Aquela era a forma original dele.
Parabéns, Blanier, Vizard disse, você é o primeiro...
O Ryak calou-se quando viu o olho dele, não estava negro e laranja como o dos outros; ele estava branco de íris azul. Era o olho da alma que ele possuíra. Contudo, seu olho não estava com raiva, estava em dor. Como se a alma estivesse sofrendo dentro dele. Ele gritou, mesmo não tendo uma boca; um grito de dor e tristeza, algo que Vizard nunca ouvira antes; pôde até mesmo sentir aquela dor. Blanier soltou pequenas faíscas elétricas em todas as direções.
Ele vai entrar em curto, Caleb falou; logo em seguida mostrou uma de suas memórias para o Filho – que no momento não se dera conta, mas foi a primeira vez que a alma liberara algo por conta própria.
A imagem que Caleb lhe mostrara não o agradou nem um pouco. Era a imagem de um prédio que literalmente explodira em milhares e milhares de descargas elétricas. Um fruto da imaginação de Caleb.
Se fosse realmente o que estava acontecendo ao Thunroryak, todos aqueles Filhos ali... Era difícil dizer; aquilo era algo totalmente novo para os Filhos do Abismo. O que será que aconteceria com eles se aquele raro Filho explodisse?
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