Afterlife
16 Michael – Ardente
Já era noite quando decidi ir ao banheiro do quarto tomar banho. Passamos o dia jogando alguns jogos, principalmente com cartas de baralho, enquanto Leon continuava incessantemente sua busca por qualquer resquício de informação. Isso me ajudou um pouco a não focar naquele corrosivo sentimento de tristeza.
Claire já havia ido se banhar há certo tempo, porém não mais aparecera. Pensei que pudesse já ter terminado e que estaria dormindo. Contudo, ao abrir a porta do quarto e dar alguns passos para dentro, deparei-me com uma Claire sensual, apenas de roupa íntima, preta e de renda, encarando o espelho à sua frente.
Surpreso, e desconcertado por ela ter me visto pelo reflexo, virei para o outro lado, com a imagem de seu corpo esbelto fixada em minha mente.
— Desculpe — pedi.
— Está tudo bem — ela disse — Na verdade, eu queria você aqui.
Após alguns segundos, voltei a olhá-la. Claire ainda encarava o espelho, ora fitando seu próprio corpo, ora me fitando. Seu rosto estava maquiado: bochechas levemente avermelhadas, cílios um pouco mais evidentes, olhos delineados de um preto não muito forte, e pálpebras ligeiramente acinzentadas. Era uma maquiagem leve, como sempre usou — às vezes até mesmo nem usava. Sua beleza era realçada, embora eu não achasse aquilo preciso, pois para mim ela era perfeita de qualquer jeito.
Ela pegou um vestido que estava em cima da cama, próxima ao espelho, e começou a vestir.
— Você poderia subir o zíper? — ela perguntou, e, com sua mão, puxou seu cabelo para um só lado, deixado parte de sua nuca e suas costas mais visíveis.
Fui em sua direção, parando bem perto dela. Peguei o zíper e comecei a levantá-lo lentamente, enquanto apreciava a visão. Eu estava bem próximo dela, que provavelmente podia sentir minha respiração em sua pele, e eu podia sentir que começava a me excitar. Um rápido pensamento de que ela poderia estar me provocando passou por minha cabeça, mas eu não consegui me ater a ele.
Finalmente terminei de subir o zíper, e a ouvi me agradecer. Além disso, Claire perguntou com a voz serena:
— O que acha?
— Deslumbrante — respondi. — Como sempre.
Ela sorriu levemente, desviando o olhar para baixo. Ergueu sua cabeça alguns segundo depois, voltando a me olhar fixamente pelo reflexo.
— Você comprou? — perguntei.
— Sim — ela respondeu, demonstrando um sorriso que, junto ao seu semblante, expressava certo desconcerto — Foi estúpido — ela disse em seguida, virando para mim.
— Não... Você precisava de uma mudança.
— Sim — concordou. — Mas acho que isso foi um pouco demais — Ela ainda tinha a mesma expressão em seu rosto — Eu estava meio fora de mim. Sei que queria mudar, e, para falar a verdade, pude me sentir melhor, mas esse vestido... Não era necessário — Ela riu graciosamente, fazendo-me dar uma leve gargalhada também.
Nós estávamos bem próximos, e aquilo para mim era prazeroso. Observava cada traço de seu rosto impecável. Seus lindos lábios faziam-me querer simplesmente beijá-los naquele mesmo instante. Meu coração já estava acelerado havia um tempo. Claire, então, virou para o espelho mais uma vez.
— Poderia me ajudar a tirá-lo? — ela perguntou.
Sem dizer nada, peguei no zíper e fui descendo-o enquanto mais uma vez contemplava a vista. Eu não sabia se aquilo era errado, mas era deleitoso. Além disso, não podia deixar de pensar no quão estranho tudo aquilo estava sendo. Não pude deixar de pensar se, de fato, Claire não estaria se sensualizando para mim. Se, talvez, ela finalmente sentia algo por mim.
— Obrigada — ela disse, voltando a mim, que entreguei a peça de roupa em suas mãos.
Ainda extremamente próximos, olhávamos um para o outro. Claire, com o vestido em suas mãos, continuava apenas de roupa íntima, mas parecia não ligar. Sua atenção estava muito mais voltada em mim, em meu rosto, assim como a minha estava no seu. Seus olhos castanhos mergulhavam no verde dos meus, assim como os meus nos dela. Aquele momento se passou muitas vezes em minha cabeça, embora nunca tivesse ocorrido. Pelo menos até aquele momento, pois, em pouco tempo, seus lábios tocaram os meus, sendo absolutamente correspondidos, formando o beijo mais delicioso e ardente que eu já dera em minha vida. Uma sensação estranha passou por mim, como se algo estivesse errado naquilo, algo peculiar, mas não me liguei a ela. Meu coração fora do ritmo parecia que iria rasgar meu peito, e todo o meu corpo começou a ficar quente.
Claire levou uma de suas mãos ao meu braço, alisando-o, enquanto a outra estava em minhas costas. Ainda nos agarrando e nos beijando, dávamos passos em direção à cama, onde logo sentei e tirei minha camisa enquanto Claire me ajudava. Em seguida, ela caiu sobre mim, que logo me deitei, podendo-nos beijar novamente. Ela esfregava suas mãos em meu peitoral, e eu já direcionava as minhas para soltar seu sutiã, ao passo que sentia meu pênis ficar ereto.
— Gente, nós precisamos conver...
Karen disse ao entrar no quarto de uma vez, porém por ter se sentindo totalmente constrangida — deduzi pela obviedade da situação —, logo após ter se sobressaltado, saiu e encostou a porta, soltando vários “meu deus” em pouquíssimos segundos.
Com aquilo, Claire saiu de cima de mim. Mas não parecia muito desconcertada, apenas um pouco chateada. Olhou para o lado contrário ao meu e depois voltou a mim. Fez como quem fosse falar algo, mas continuou calada. Devo ter demonstrado um semblante de decepção pelo momento que muito desejei e que finalmente parecia se tornar realidade ter sido arruinado, e depois chamei por Karen, dizendo que estava tudo bem e que podia entrar.
“O que tudo isso significa?”, perguntava a mim mesmo repetidamente nas míseras frações de minuto que Karen levou para voltar ao quarto. A verdade é que não sabia o porquê de Claire ter feito aquilo, e inúmeras dúvidas se formavam em minha mente.
— Estou muito constrangida — a loira disse, sem haver necessidade, pois era óbvio.
— O que era? — Claire perguntou.
— Leon conseguiu algo. Vocês deviam vir.
Troquei olhares com Claire. Estávamos ambos claramente instigados. Esperei que ela vestisse algo para que pudéssemos ir até a cozinha.
— O que foi? — perguntei para o rapaz de frente a seu notebook.
Leon se virou para nós, que basicamente o rodeávamos, e disse:
— Eu consegui algumas informações sobre duas pessoas que eu via na prisão e que ainda estão vivos. Bom, seus nomes são Alan e Mirian — Ele clicou no teclado e uma foto deles apareceu. — A partir do que consegui... Ambos trabalham há um tempo no banco Credit Trust, aqui mesmo, porém só tem ido bastante para lá nesses últimos três dias, depois de aquele lugar ter sido destruído.
— O que isso significa? — Garry perguntou.
— Significa que esse banco é provavelmente só uma fachada. Significa que provavelmente as verdadeiras operações acontecem em algum lugar por lá, que suponho ser subterrâneo também.
Karen se mostrava um pouco aterrorizada. Claire ficou em estado de choque. Garry soltou um “merda” enquanto ria. O homem que não falava continuou na mesma.
Eu fiquei pasmo. Aquilo era loucura. Um lugar enorme como aquele devia esconder uma base de operações grande e com várias pessoas. Mas o que eles queriam com a gente? Por que não nos deixavam em paz?!
— Será que seria bom se a gente fosse ao público? — Leon perguntou.
— Não — respondi subitamente.
— Eu acho que muitos fãs de quadrinhos adorariam! — Leon disse.
— Verdade! — Garry se entusiasmou.
— Mas o mundo não é composto só por eles — Karen retrucou — A verdade é que não temos como saber como o resto do mundo receberia essa notícia — Deu de ombros.
— Sim — Claire concordou — Eu definitivamente acho que não seria uma boa ideia.
— Claro... — Garry falou de forma irônica.
Claire o olhou, com a boca entreaberta e franzindo a testa, demonstrando o óbvio desentendimento em relação à estupidez daquele panaca. Mais uma vez eu queria esmurrá-lo.
— O que há de errado com você? — perguntei, claramente irritado.
— Nada! — ele disse, dando de ombros.
— Gente! — Karen chamou nossa atenção elevando sua voz — O que vamos fazer com essa informação?
Ficamos parados, sem saber o que dizer. Aquele era um questionamento mais do que válido, contudo o mais importante faltava: a resposta. O que de fato iríamos fazer? Nós possuíamos superpoderes, mas não seria o bastante para derrotá-los. Além disso, éramos apenas seis, sendo um de nós alguém que não interagia de forma alguma, outro um completo panaca... E havia Claire, quem eu simplesmente não queria ver face ao perigo. Estávamos ferrados.
— Que tal sequestrarmos um desses aí e torturarmos ele até que nos conte tudo? — Garry sugeriu.
Embora eu não gostasse nenhum pouco dele, não disse nada. Não concordava com aquela ideia ao ponto de dizer que era boa, mas também não sabia se podíamos fazer alguma outra coisa naquele momento. Até mesmo sequestrando um deles enquanto estivesse sozinho já poderia ser perigoso demais...
— Eu acho que devíamos dormir pensando nisso — Claire disse — Amanhã a gente pode decidir o que fazer com a cabeça mais fria, já tendo refletido direito sobre o assunto.
— Ela está certa — Karen disse, dando um sorriso desajeitado para a outra, provavelmente tentando concertar o que acontecera minutos antes.
Eu não sabia se tínhamos tempo a perder. Mas talvez fosse a melhor saída.
— Já está tarde — comecei a falar — E você provavelmente está bem cansado, Leon. Acho que devemos pensar sobre isso amanhã mesmo.
Garry riu, e logo saiu da cozinha. Senti meu corpo começar a esquentar por dentro. Fiquei furioso, mas não fiz nada. Continuei me mostrando calmo.
— Ok — Leon se levantou, desligando o notebook. — Eu realmente preciso dormir. Urgentemente — disse pausada e enfaticamente — Até amanhã!
— Até.
Enquanto assistia à Karen e Leon se distanciarem, comecei a me sentir estranho. Eu não fazia ideia do que significava aquilo que acontecera entre Claire e eu, o que ela sentia por mim de verdade, o que fora aquele sentimento peculiar que senti enquanto a beijava, e não sabia como seria aquela noite. Iríamos apenas dormir um do lado do outro na cama? Recebi a resposta em seguida:
— Estou me sentindo cansada — ela disse — Vou dormir.
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