Afterlife

17 Traição


A mulher de longos e lindos cabelos escuros saía de um dos cômodos com o celular em sua mão. Sobressaltou-se ao se deparar com Garry bem a sua frente.

— Te peguei! — ele disse, completamente animado.

— Do que está falando? — ela perguntou, demonstrando um enorme desentendimento em sua face mesclado ao espanto daquela situação.

— Você estava conversando no celular com outra voz. Você não é quem diz ser.

Garry acusava aquela à sua frente de algo absurdo com um sorriso em seu rosto.

— Você é louco! — ela disse, mostrando-se assustada com ele.

A mulher desviou do outro e seguiu seu caminho à cozinha com passos apressados. Garry a seguia, bombardeando-a de maneira exaltada com frases como “você não vai se safar”.

— Pare! — ela gritou.

Chegando à cozinha, parou perto do balcão. Garry foi para sua frente. Karen e Leon ficaram pasmos ao chegar lá, e Michael apareceu segundos depois por causa daquele grande alvoroço. O homem que nada falava, também.

— O que diabos está acontecendo?! — Michael indagou.

— Ela não é quem diz que é!

Michael ficou furioso. Já estava cheio das idiotices de Garry, e caminhava até ele para socá-lo.

— Ela estava usando outra voz no celular! — Garry falou vários tons mais alto, enquanto mantinha seu braço erguido em direção a Michael, querendo que ele não se aproximasse.

— Você é louco! — a mulher sendo acusada disse bem alto, observando que Michael, o qual mantinha sua expressão de confusão e raiva, havia parado de andar.

— Não! Ele que me avisou — Garry apontou para o homem do qual ninguém sabia o nome — Não foi?!

A confirmação que ele buscava não foi obtida. O homem que não falava apenas balançou a cabeça negativamente. Garry ficou perplexo. Ele não esperava por aquilo. Todos o olhavam com desgosto e decepção.

— Não minta! — ele gritou.

Não demorou muito e Michael voltou a dar seus passos para golpear Garry.

— Eu posso provar! — o rapaz falou bem alto em desespero.

O homem furioso cessou seus passos mais uma vez, e pôde observar a mulher que amava olhá-lo com surpresa e completo descontentamento.

Garry, em seguida, pegou a faca que estava em cima do balcão, bem ali perto dele e da mulher que confrontava, e desferiu-a contra ela, que levantou seu braço para se defender, levando um corte nele e gemendo em seguida.

Michael correu até aquele rapaz que parecia um total insano e o empurrou contra a parede, novamente pronto para descarregar sua raiva, que dessa vez já estava no limite. Até que Garry disse em voz alta:

— Ela não vai se curar!

O homem que o pressionava na parede o olhou com seriedade. Ouviu novamente a mesma frase e, então, ainda prendendo o outro, voltou seu olhar para a mulher machucada, a qual se demonstrava estarrecida com tudo aquilo.

A mulher, que tentava sanar a dor pressionando sua mão sobre a ferida, olhava para Michael como se esperasse que ele fizesse algo. Depois, tornou seu olhar para o braço, retirando sua mão sobre o corte. Sem muitas delongas, o braço logo começou a se regenerar.

Michael ficou claramente desgostoso por ter sequer pensado na possibilidade de aquilo que Garry falava ser verdade. O rapaz louco, que demonstrava um semblante estupefato em sua face, apenas murmurou um “não pode ser”, e em seguida levou um soco em seu rosto tão forte que caiu no chão completamente desnorteado.

O homem que o esmurrara ainda não estava satisfeito, e queria continuar, porém fora parado por Karen, que o pedia para se acalmar. Leon apenas assistia tudo aquilo abismado.

— Ela está enganando vocês — Garry disse ao conseguir se levantar — Isso é a minha especialidade! Ela...

— Cala a boca! — Karen gritou, olhando-o de forma odiosa — Vá embora.

— O... O quê?

— Vá embora! — ela ordenou.

— Você não manda em mim — Garry começava a ficar enraivado.

— Você tem que ir — Leon disse extremamente decepcionado com aquele que fora sua companhia na prisão — Você tem que ir, Garry.

— Leon...

— Vai! — Karen voltou a gritar — Se você não for embora... Juro por deus que irei te matar — Sua voz saíra tão firme que até ela se assustou um pouco.

A delicada loira já não parecia mais tão delicada. A aversão em seu olhar perfurava o rapaz.

Garry olhou para todos. Deu uma leve gargalhada recheada de ódio e disse:

— Eu espero que vocês todos morram.

Em poucos segundos ele foi embora, sobrando apenas um Leon e uma Karen perplexos, um Michael desgostoso e uma Claire decepcionada.

— Você está bem? — Michael perguntou para a mulher.

— Você não acreditou em mim — ela disse, franzindo a testa, entristecida.

— Claire... — ele levou sua mão ao braço dela.

— Não! — ela disse uns tons mais alto e desviou da mão do outro — Eu quero ficar sozinha. Por favor... Me deixe sozinha — Seus olhos começavam a lacrimejar.

Michael, que se culpava mentalmente, permaneceu inerte ali, respeitando a vontade da mulher a qual decepcionara.

A mulher de cabelos escuros se olhava no espelho, enxugando seu rosto e seus olhos. Ao ver o reflexo daquele que nada falava, ergueu sua cabeça, respirou fundo e se virou. Eles se olharam fixamente, até que ela finalmente disse, com seus gestos faciais mais intensos e sensuais:

— Obrigada.

— Não lembrava que você era capaz de agradecimentos — O homem falou, de forma sarcástica, pela primeira vez. Sua voz era bem grossa e profunda.

Ela sorriu forçadamente e depois voltou a ficar séria.

— Ele ficou na dúvida — O homem se referia a Michael — Ele quase descobriu.

— Mas não descobriu, porque eu sou realmente ótima nisso. E isso é o que importa — Ela sorria de forma atrevida — E porque eu sou ótima nisso, tenho que passar um tempo sozinha, fingindo estar triste e chorar que nem aquela garota estúpida faria numa situação como essa.

A mulher girou em seus calcanhares, voltando a se deparar com sua própria imagem no espelho. Colocou a mão na cintura, ergueu a cabeça de uma maneira superior e, ainda sorrindo, disse:

— Eu sou uma Claire muito melhor do que ela jamais foi.