Afterlife

21 Claire – Suscetível


Eu estava deitada em minha cama, com o notebook bem à minha frente. Digitava em meu blog sobre como fora meu dia. Aquilo me fazia sentir melhor em relação a todas as loucuras e situações desconcertantes e vergonhosas que aconteciam no colégio. Mas também não era só sobre o que acontecia comigo. Também escrevia outras coisas: às vezes dava minha opinião sobre assuntos diversos ou até mesmo postava as poesias que escrevia.

Meu blog não era muito visitado. Não me importava muito com isso, apenas queria um lugar onde pudesse colocar o que quisesse para fora. Mas também não me importaria se muitas pessoas lessem, até porque não coloquei nada que pudesse me identificar. Pelo menos eu tinha quase certeza disso, porém se descobrissem também não iria me importar muito... Mentira, eu iria me importar bastante. Ao pensar nisso, arregalei os olhos e fui checar rapidamente minhas configurações para ter certeza que não havia algum e-mail ou algo do tipo que pudesse me identificar.

A porta do meu quarto se abriu de uma vez, e eu me assustei um pouco. Era minha irmã que entrava com algumas sacolas de roupas nas mãos. Fiquei com a boca entreaberta e a testa franzida.

Lisa foi até minha cama e colocou as sacolas em cima. Em seguida tirou uma blusa.

— O que acha? — ela perguntou.

— Bem bonita. Você comprou?

— Sim. Essa é sua — ela disse, repousando-a próxima a mim, sem sorrir nem expressar nada demais.

Franzi a testa novamente.

— Como assim?

— Ouvi que você tem uma festa pra ir hoje.

— Sim... Mas por que comprou roupa para mim?

— Eu fui comprar umas pra mim e achei que fosse gostar dessa.

Minha irmã, que era mais velha que eu, trabalhava além de estudar, e, como nós ainda morávamos com nossos pais, ela gastava seu dinheiro com o que quisesse. Esporadicamente ela comprava algo para mim, como dessa vez. E foi por isso que fiquei surpresa.

— Obrigada — Sorri.

— Veste — ela pediu.

Embora eu estivesse com preguiça de me levantar dali, fiz o que ela pediu. Lisa sorriu e disse:

— Ficou linda!

Sorri de volta.

— Agora olha essas outras — ela disse, começando a tirar as peças restantes das sacolas.

Fiquei surpresa com quase todas as peças, que eram realmente bem bonitas. Ficamos ali conversando sobre aquelas roupas novas, enquanto Lisa as provava. Falamos de outros assuntos também. Rimos bastante. Aqueles momentos não aconteciam sempre. Assim como as vezes em que Lisa comprava algo para mim, dividir momentos verdadeiramente alegres com ela eram esporádicos.

***

Meus olhos se abriram devagar. Com a visão ainda turva, começava a me lembrar de onde estava, sentindo-me cada vez mais esgotada. Era como se estivesse em um loop infinito e infernal.

Minha visão começava a melhorar, o que eu simplesmente preferia que não acontecesse, já que novamente observaria cada detalhe daquele galpão horrendo. Eu não fazia ideia de quanto tempo havia se passado. O que restava era me afogar em minhas próprias lágrimas, nas memórias onde nada daquilo existia, e na esperança de que um dia eu finalmente fosse me livrar de tudo aquilo. Ergui-me e me encostei à viga onde tinha minhas mãos presas. Olhei para frente, avistando-o vir em minha direção com uma bolsa de sangue vazia.

— Você já não pegou o suficiente? — eu perguntei lentamente, com minha voz rouca e com minha expressão abatida. Devia ter olheiras terríveis.

Ele se abaixou e disse:

— Você sabe que não — ele disse, olhando em meus olhos e sorrindo de lado. — Seja boazinha, ok?

Em seguida, desprendeu meus braços da parte de baixo da viga e os prendeu num local mais elevado. Após isso começou a coletar meu sangue. E eu não fiz nada. Não tentei reagir, o que, embora estivesse fraca, era uma possibilidade. Ele sempre dizia essa frase, com a mesma entonação, com a mesma expressão, com o mesmo charme. E eu só conseguia achar tudo aquilo estranho quando ele saía. Enquanto ele estava ali, e quando ele falava qualquer coisa, eu me sentia calma e inteiramente suscetível.

Aquele homem, que se chamava Aaron, é bem alto, magro — porém com seu porte físico bastante trabalhado — é moreno e tinha cabelo preto e um pouco longo, repartido de lado, próximo ao meio. Seus olhos são azuis bem claros, e ele usa uma barba tradicional e bem desenhada, com não muito pelo, em seu rosto quadrado.

— Faz apenas quatro dias! Você não está desfrutando da minha companhia? — ele tornou a falar, de maneira sarcástica — De qualquer jeito, quanto mais desse seu sangue, mais dinheiro eu vou conseguir. Você é especial — Sorriu maliciosamente.

Suspirei angustiada. Eu era especial... Que especial era esse que só me colocava em situações de constante sofrimento? Eu podia me curar, de fato. Mas isso não era especial para mim. Desde o dia em que descobri esse superpoder, não havia nada de bom que eu pudesse lembrar que viera dele. Apenas desgraça. Entretanto, naquele momento, as palavras delem faziam-me realmente sentir especial.

Olhei para ele, expressando certa serenidade em meu olhar.

— Por que está fazendo isso...?

— Você já sabe. Preciso de dinheiro, e essa é uma ótima forma de conseguir. Você não tem ideia do quanto pagam por isso aqui — Mexeu na bolsa que já começava a se encher com meu sangue. — Mas não se preocupe — ele disse — Assim que acabar, colocarei outra bala em sua cabeça e não terá que passar por mais nada, assim como aquele tal de Ryan fez. E tudo ficará bem — Ele passou as mãos em meus cabelos.

“E tudo ficará bem”. Eu me sentia aliviada.