Afterlife

22 Ryan – Confronto


Havia várias pessoas naquele lugar. Uns carismáticos, outros apáticos, poucos antipáticos. Mas todos companheiros. A comoção gerada com nossa chegada e todas as apresentações que se seguiram fizeram-me sentir enojado. Mas talvez esse asco escondesse algo? Aquilo não importava. Dentro de pouco tempo, distanciei-me e saí do local. Michael não percebera, provavelmente pelo alvoroço, mas eu não tive problema com aquilo. Precisava ficar só um pouco.

*

— O que está fazendo aí em cima?

Uma voz sedutora ressoou. Revirei os olhos e olhei para baixo, com um ar de meiga.

— Desculpe, eu apenas me senti um pouco estranha lá dentro... Precisava de um ar.

— Ainda não explica o porquê de estar aí em cima — Eu estava sentada em um tronco de uma das árvores.

Aquele homem era muito bonito e gostoso. Forte, magro, alto, pele bronzeada, olhos azuis, cabelo liso e um pouco longo, com uma barba perfeita e um sorriso extremamente sensual, como ele por completo.

Dei de ombros, sem querer respondê-lo. Em seguida, desci vagarosamente.

— Eu sou Claire — eu disse, estendendo minha mão.

Ele sorriu mais uma vez, porém com uma pontada de malícia. Já sabia que iria prestar mais atenção a ele.

— Aaron — ele me cumprimentou de volta — Mas você já sabia disso.

“O quê?!”. Eu não fazia ideia do que ele estava falando, mas não expressei nada. Continuei com a mesma face de quando estava sorrindo ao cumprimentá-lo.

— Nós namoramos... — ele disse, e começava a se mostrar desapontado.

Eu não sabia o que fazer. Não era idiota, mas também não sabia muito sobre a vida de Claire. Senti-me perdido naquele momento.

— Me desculpe — pedi — Nós fomos capturados e levados à uma prisão onde foram feitos vários experimentos... Tanta coisa aconteceu, e, para ser sincera, eu não estou muito bem. Alguns pedaços de minhas memórias estão faltando... — Mostrava-me tristonha e constrangida. Fora a única forma que imaginei de sair daquilo.

— Oh, eu sinto muito! — Eu não sabia se ele estava sendo sincero ou irônico.

— Obrigada — Sorri delicadamente — Eu deveria voltar para dentro... — Apontei para a entrada, e logo comecei a andar.

— Você é uma ótima mentirosa — ele disse, com um tom de confronto.

Eu, que já estava de costas a ele, virei de uma vez com um semblante surpreso, demonstrando sentir agredida.

— Do que está falando? — indaguei.

— Eu estou com a verdadeira Claire.

Eu não teria acreditado se ele não tivesse erguido seu celular com uma foto da garota acorrentada. “Filho da puta”, pensei. Fiquei perplexo. Não sabia como agir, o que falar, o que fazer. Talvez, se fosse rápido o suficiente, poderia matá-lo sem ninguém ver. Mas eu não conhecia as pessoas dali. Não podia confiar nessa de que ninguém presenciaria a cena.

— Onde? — perguntei, inexpressiva.

— Boa tentativa — Ele sorriu, e guardou o aparelho.

Engoli em seco, revirei os olhos, e perguntei finalmente:

— O que você quer? — Coloquei a mão na cintura, ficando em uma pose firme e sensual.

Ele franziu a testa.

— Por que acha que eu quero alguma coisa?

Arqueei minha sobrancelha. Estava me sentindo estúpido, e eu odiava me sentir assim.

— Não me faça perder tempo — eu disse, com o pavio curto. — Por que você a está mantendo capturada?

— Porque ela é especial — ele respondeu, ainda sorrindo. Eu queria quebrar todos aqueles dentes perfeitinhos dele.

Respirei fundo.

— Oh, claro — comecei a sorrir sarcasticamente — Está óbvio agora.

— O quê?

— Você é uma daquelas pessoas patéticas que buscam qualquer coisa para fazer sua vida ter algum sentido, quando, na verdade, nunca encontrará porque você é apenas uma pessoa sem importância alguma — eu disse rispidamente, mantendo uma expressão audaciosa.

Embora Aaron tivesse se sentido pelo menos levemente atingido, logo tornara a falar:

— Há... Você é engraçada.

— Então... Você não quer ninguém sabendo sobre isso, certo? — perguntei, demonstrando animosidade.

— Acertou em cheio! — ele disse em um tom entusiasmado — Porém... — voltou a falar após alguns segundos — Eu ainda os direi tudo se não fizer o que eu quero.

Sorri sarcasticamente mais uma vez. Era óbvio que ele queria algo. E, para ser sincero, eu faria qualquer coisa para que Michael não descobrisse o que eu fizera com Claire, ou que durante todo aquele tempo era eu e não ela. Eu não queria que aquilo acabasse, não quando estava tão próximo dele... Eu faria qualquer coisa. Até achar o momento ideal para me livrar daquele desgraçado.

— Diga o que quer, e talvez eu o faça.

— Eu quero um beijo.

“Só pode estar de brincadeira comigo”, pensei, enquanto quebrava seu pescoço mentalmente.

— Vamos parar com as bobagens? — eu disse, claramente irritado.

— Não é bobagem. É o que eu quero — ele falou com a voz firme.

— Claro... — comecei a falar petulantemente — Deixe-me ver... Ela provavelmente te rejeitou por ser nojento e você se sentiu muito patético para tentar forçar alguém amarrado a beijá-lo, então decidiu fazer isso comigo — Eu sorria e mantinha minha pose enquanto falava — Mas me pergunto o porquê disso... Oh! — Demonstrei ironicamente um semblante de súbita surpresa — É essa sua única maneira de pegar garotas? — indaguei cruelmente com uma expressão de nojo.

— Uau... Mas que vadia você é — ele disse, admirado com minha rispidez — Mas tudo bem, se não quiser me beijar eu posso ir ali contar pra todo mundo...

— Tá bom! — aceitei, completamente pressionado e irritado.

Aaron se aproximou, e eu pude sentir como se houvesse uma repentina influência sobre mim, puxando-me para ele. Senti-me excitado, e meu coração começou a acelerar. Em pouco tempo estávamos nos beijando. Quente. Molhado. Delicioso. Eu não queria parar. Até que ele puxou meus cabelos com força, afastando meu rosto do dele, e disse:

— Também vou querer seu sangue.

Enfurecido, eu o empurrei imediatamente. Ele estava conseguindo mexer com meus nervos de uma maneira descomunal.

— Desgraçado — eu disse, não muito alto, porém carregado de raiva.

— O que foi? Não gostou do beijo? — ele perguntou ironicamente.

— Por que precisa do meu sangue? — indaguei, ignorando-o.

— Talvez precise de um dedo seu também.

Eu ri sarcasticamente.

— Isso é uma piada?

— Claro que não! Olhe... Claire pode se curar, e algo me diz que você também.

Rangi os dentes. Eu só conseguia imaginar o quanto queria matá-lo.

— Meu sangue não serve para curar os outros, se isso é o que está pensando — eu disse.

— Não me importo. Eu quero mesmo assim.

Esperei alguns segundos e decidi falar:

— Ok. Mas com uma condição — Ele ficou atento — Você me dará Claire quando tiver acabado com ela.

— Por que você a quer?

Soltei uma risada nasal.

— Por que eu quero me livrar dela. Dessa vez sem que ninguém possa encontrá-la — Demonstrava um semblante de aversão a ele.

Aaron olhava para os lados, mostrando-se reflexivo. Depois, disse:

— Ok. Ela será toda sua.

Pude me sentir mais aliviado, embora ainda planejasse a morte daquele homem à minha frente.