After the pain
18 Segredos negros do passado
Notas iniciais
Eu não queria assistir aquilo. A minha melhor amiga, a única que eu alguma vez tive, a ser espancada mesmo à minha frente. Eu não conseguia ver. Levanto-me e empurro-o com toda a força que consegui juntar para longe dela. Ela cai no chão quase desmaiada a deitar sangue pelos lábios e tinha algumas feridas na cara. Pelo menos tinha conseguido que ele se afastasse dela antes que algo pior pudesse acontecer. Por momentos o Valentine esqueceu-se dela e deixou-a mas virou-se contra mim. Agarrou-me pelos cabelos e tirou qualquer coisa do seu bolso. Quando vi que era uma faca fiquei realmente assustada. Passou-me várias imagens na cabeça principalmente daquela vez com o meu pai. A situação era idêntica só que o agressor era diferente.
– Vamos lá ver se não deixo uma cicatriz muito profunda nessa carinha laroca.- eu queria fugir mas tinha alguém a segurar-me os braços.
– Palhaço, se tu lhe tocas com alguma parte do teu corpo imunda, eu desfaço-te! — diz Andrew. A sua voz era fraca e estava cansado.
– Só tens que dizer que aceitas e eu deixo-a ir.
– Ok, OK eu faço. — diz Andrew levantando as mãos em sinal de rendição.
– Vês!? Quando queres tens juízo, mas para tu perceberes isso eu tenho que tomar medidas drásticas! Tu sabes que a violência excessiva não é a minha praia — diz Valentine sorrindo. Largou-me e atirou-me para junto de Andrew. A Lyla continuava no chão, gatinhei até ela e puxei-a para mim acolhendo-a nos meus braços. Eram uns braços fracos mas neste momento era melhor que nada. Comecei a chorar ao vê-la naquele estado e passando a minha mão livre pela sua cara tendo o cuidado de não lhe tocar nas feridas e tentei limpar-lhe algum do sangue que saía. Valentine disse alguma coisa a Andrew e depois fugiu com os seus fiéis súbditos deixando-nos aos quatro naquele misero estado sem ajuda.
– Temos de os levar ao hospital — disse eu encarando Andrew com um olhar preocupado — e urgentemente!
– Eu sei. Ajuda-me a levar o Josh.
Pegamos em Josh e arrastamos-lo pela rua até chegarmos ao carro dele e pusemo-lo no banco de trás deitado. Voltamos atrás e fomos buscar Lyla que Andrew carregou até ao carro. Andrew estava todo magoado, não sei como e que ele conseguia conduzir naquele estado.
Ganhei coragem.
– Sabes que eu não sei o que raio se passou aqui.
– Sim eu sei.
– Não era essa a resposta que eu queria. É óbvio que tu e o Valentine tem algo que escondem. Ele sabe a tua vida toda e a Lyla... eu sei que também aconteceu algo entre eles.
– Por favor Riley! Não quero arrastar-te para isto.
– Acho que já fui arrastada — disse eu olhando-o. O olhar dele desceu para as minhas mãos e ele arregalou os olhos.
– Estas bem!? — disse ele preocupado- tens sangue nas mãos!
– Foi só um corte que fiz na cabeça! Isto não é nada.
– Vou ligar ao meu irmão.
– E o que lhe vais dizer? Que fomos atacados por um lunático que quase nos matou a todos!?
– Não sei mas tenho que pensar em algo.
Andrew então telefona a Logan que acreditou na mentira de que nos tinham assaltado. Eu queria muito saber o que raio e que Andrew tinha aceitado fazer para aquele cretino.
Estava preocupada e não era só com ele e Lyla? Mas que raio tinha mais perguntas do que respostas.
Aqueles últimos tempos tinham sido estranhos e complicados.
E tudo se complicou quando eu e a Lyla discutimos a nossa primeira discussão. Fiquei infeliz, foi uma discussão feia entre mim a Lyla o Josh e o Andrew. Bem parecia uma discussão entre duplas eu e Josh contra a Lyla e Andrew. Josh e eu partilhávamos a mesma magoa por os nossos melhores amigos não nos contarem a Porra que estava a acontecer.
– Quando é que estás a pensar contar-me o que aconteceu?
– Não sei... — Lyla baixou a cabeça.
– FOGO LYLA! EU QUERO AJUDAR-TE PORRA!!! — Eu não queria mas o meu tom soou elevado. Ela olhou para mim com um olhar triste. — Eu só quero a minha amiga de volta — desta vez tentei parecer calma.
– Eu sei.
– Pára de dizer isso e conta-me, por favor. Pedis-te tempo e eu dei-to. Mas eu estou farta de te ver assim.
– Riley , Lyla está tudo bem? — Andrew e Josh perguntaram aproximando se de nós.
– Não, a minha melhor amiga não confia em mim! — digo eu emborrada e cruzando os braços. Lyla olhou para mim como que a suplicar.
– Junta-te ao clube. — comenta Josh. Andrew olhou para Josh com um olhar triste também.
– Eu disse que um dia te contava. — defende-se Andrew.
Não podia evitar o clima estava tenso. Nisto dou de costas e saio.
Cheguei a casa e só me apetecia tomar um banho por tempo indeterminado. A minha mãe apercebeu que se passava alguma coisa mas eu não quis preocupa-la e ela também não fez perguntas.
Dia seguinte:
Tudo estava minimamente normal. Eu e Lyla estávamos um pouco melhor. Mas quando finalmente o sol começa a brilhar aparece uma grande nuvem cinzenta e tapa-o.
Aquelas bruxas estragam sempre tudo. Lyla estava a ajudar Josh com os trabalhos de inglês quando aparece a Tracy. Claro fez um ataque de ciúmes chamou a Lyla de todos os nomes possíveis e imagináveis. Eu explodi, simplesmente não consegui conter-me. Meti-me a frente dela e ripostei.
– Ah, não! É que nem penses! Eu não vou ouvir-te a insulares a minha amiga, ainda por cima vindos de alguém como tu que se atira a qualquer coisa que anda. Por isso pensa duas vezes antes de dizer o que quer seja dela! — finalmente eu tive coragem e enfrentei-as, e devo dizer que soube bem. Lyla saiu e eu fui encontra-la na casa de banho a chorar. Ela pediu para ir buscar a mochila que deixou no jardim. Fui busca-la conforme ela pediu e quando passei no corredor ouvi uma conversa. Não prestei muita atenção até que ouvi a voz do Andrew e do Valentine. Encostei-me a parede. Outra vez isto estava a torna-se um hábito que o meu lado moral reprovava, mas era por uma boa causa.
– Logo vais entregar uma coisa a um armazém na margem sul. — ouço Valentine dizer. Já tinha a voz dele gravada na minha cabeça que já a conseguia distinguir em qualquer sítio.
– O que te faz pensar que eu irei!?
– Então Andrew, já pensas-te em dizer ao teu irmão para não trabalhar tanto. Ele sai sempre tarde do turno da noite. Uma da manhã é uma hora muito perigosa para andar sozinho à noite, ainda por cima com essa gente violenta que anda por aí! Nem quero imaginar o que podem fazer ao teu pobre irmão... só de pensar tenho arrepios.
Ele estava outra vez a ameaçar a família do Andrew.
– Tudo bem! A que horas?
– Às 21h. No armazém perto do cais.
Eu não sei porque mas a minha cabeça pensou num plano para o seguir. 0 quê?? Eu enlouqueci. Eu não podia segui–lo! Era perigoso. Mas também era perigoso para o Andrew.
Fui para casa e disse a minha mãe que ia ao cinema com uns amigos. Ela acreditou chamei um táxi e pedi para me deixar ao pé do cinema e como o cais era perto fui a pé. Não queria arriscar que o taxista comentasse algo a respeito de onde me tinha deixado visto que ele e a minha mãe eram amigos.
Fui devagar e cautelosa não fosse o diabo tece-las e acontecesse como da outra vez.
Escutei vozes e escondi-me num beco por trás do armazém por trás de um caixote do lixo. Ouvi um carro a chegar, era um Mercedes azul escuro desportivo.
Passado algum tempo estacionou um BMW preto ao lado dele. Andrew! Ele trazia um saco preto na mão e caminhava apreensivo e juro que via medo na sua cara. Vestia umas calcas de ganga cinzentas escuras, uma t-shirt preta e uma casaca de cabedal igualmente preta. Eles entraram para dentro do armazém. Eu já não os conseguia ouvir nem ver por isso decidi aproximar-me. Como deixaram a porta entreaberta conseguiu entrar sem fazer barulho. A fábrica estava cheia de ferro. Uma fábrica de ferro perto de um cais? Estranho, pensei eu.
Andrew deu um passo em frente e atirou o saco para os pés dos três homens que pareciam tirados daqueles filmes da máfia italiana e do tráfico. Será que era isso que eles eram? Um arrepio percorreu a minha espinha e debati-me com essa ideia.
Vestiam todos roupas escuras e usavam óculos de sol. Óculos de sol à noite!? Não podia ser mais estranho. Estava a pensar no quanto aquela cena era bizarra.Quando um deles, o mais magro e mais baixo apesar de baixo não ter nada visto que o homem devia ter para aí um metro e noventa mas era o mais baixo dos três. Pegou no saco e abriu-o. E tirou de lá um pacote.
Um choque invadiu-me a mente. Não! Aquilo não podia ser o que eu estava a pensar! DROGA!!!!
O que Andrew fazia ali a transportar um saco cheio de droga? Então uma lâmpada se acendeu na minha mente. Aquelas conversas com o Valentine, as ameaças a família do Andrew, a emboscada no beco. Era tudo para que ele entregasse droga.
Os três homens passaram um saco a Andrew e este virou costas e saiu. Durante aquele tempo não tinham dirigido palavras nenhumas. Os negócio de droga era bem animados. Também que é que eu esperava!? Que se cumprimentassem todos com dois beijos e perguntassem como estava a família? Pelo amor de Deus Riley! Mete algum juízo na cabeça!
Os homens ficaram ainda lá dentro a conversar e aproveitei para sair atrás de Andrew. Enquanto ele abria o carro eu chamei por ele baixo para os outros não me ouvirem.
– PST! PST! — Andrew virou-se para trás e congelou assim que me viu.
– Riley!? Que estas aqui a fazer?
– Eu... — agora quem congelou fui eu.
– Entra no carro — disse direto e sem deixar espaço para discussões. Eu entrei e baixei-me no assento assim que vi os três homens a sair do armazém. Andrew deu a volta e pisou fundo no acelerador. Assim que que ficamos longe da vista deles puxei-me para cima e Andrew olhou-me.
– Tu enlouqueces-te ou então tens tendências suicidas! Sabes que o que fizes-te foi totalmente perigoso e irresponsável!
– Eu sei. — digo eu baixando a cabeça.
– Como é que descobris-te? — pergunta ele com uma mão no volante e os olhos fixos na estrada iluminada pelos faróis do carro e um candeeiro de rua.
– Ouvi uma conversa.
– Riley não te metas nisto por favor.
– Eu só quero saber o porquê de ele vos estar a chatear?- Andrew olhou-me rapidamente e voltou a olhar para a estrada.
– No ano passado ele começou a pedir-me para que eu o ajudasse nos seus esquemas. Ao início recusei mas depois ele começou a ameaçar a minha família. Eu fiquei de pé atrás e não lhe obedeci. E ele forjou um assalto à ourivesaria da minha mãe. Ao início pensei que foi mesmo um assalto mas depois descobri que não. Então eu percebi que ele ia cumprir as ameaças se eu não lhe obedecesse então..... Comecei a entregar droga e receber o dinheiro. Nunca iriam desconfiar de mim. Um dia apareceu a polícia lá na escola e descobriu algumas drogas das mais leves nas coisas dele. Era uma quantidade pequena para ser ser preso então ele foi suspenso durante duas semanas. Ele pensou que tinha sido eu a denuncia-lo e voltou a atacar mas desta vez foi o meu irmão. Depois do trabalho deram-lhe uma coça das valentes e eu percebi que ela era realmente era perigoso. Depois ele não voltou a pedir-me mais nada e eu pensei que tinha acabado até a pouco tempo. — eu encarava-o sem saber o que dizer para não falar que estava de boca aberta perante aquela revelação. — Diz alguma coisa Riley. Estás a assustar-me. — desta vez ele tira os olhos da estrada e passa a olhar diretamente para mim.
– Eu... — não fazia a mínima ideia do que haveria de dizer.
– Tens noção do perigo em que te estas a meter? Tu não podes contar nada a ninguém, nem mesmo à Lyla. Não sei o que se passou entre ela e o Valentine mas desconfio que também não foi coisa boa. E se ela souber, conhecendo-a como tu a conheces, sabes muito bem que ela não vai deixar esta passar.
– Eu sei... mas tu tens de te livrar disso ou quem se vai dar mal és tu.
– Eu sei. Tenho que pensar numa maneira de me livrar do Valentine, mas por agora vou deixar-te em casa para descansares. Deixa-os comigo e preocupa-te com a tua vida. Não te quero envolvida nisto porque podes sair magoada e isso é das últimas coisas que quero que aconteçam. — Eu estava totalmente sem saber o que dizer. Estava demasiado cansada e o meu cérebro já nem conseguia pensar numa resposta. Ainda faltava um pouco para chegar a minha casa por isso, como de costume, encostei-me para trás no banco do passageiro e deixei-me ser embalada pela música da rádio e de vez em quando olhava para Andrew. Ele estava concentrado na estrada e apesar da escuridão os seus olhos verdes reluziam na noite.
Quando chegamos Andrew desejou-me uma boa noite com um sorriso triste e eu não sei porquê mas retribui-lho. Ele pareceu surpreendido. E eu também estava. Repreendi-me mentalmente.
Riley Maria, ele continua a ser convencido e um idiota. Mas depois do que eu sabia eu não consegui deixar de lhe sorrir.
Entrei em casa e subi para o meu quarto mas não consegui adormecer.
Os pensamentos maus atacavam a minha mente como as aves de rapina atacam quando vêm um cadáver à espera de ser comido.
Fale com o autor