After The End
3 Capítulo 3
Notas iniciais
– Lucy! – É o grito esganiçado que sai de minha garganta.
O cadáver avança sobre ela jogando suas mãos para agarrá-la, ela anda para trás tentando se proteger com os braços e cai. Tudo em mim é instinto. Minhas mãos puxando o machado, minhas pernas correndo em sua direção e minha mente processando as informações de forma automática. Um, dois, três, quatro errantes olhando apenas para Lucy, sentindo seu cheiro, querendo seu sangue. Acerte as cabeças para matá-los.
Com um golpe decepo o pescoço do errante mais próximo, que vagamente percebo ter sido uma mulher. Outro nota minha presença e parte em minha direção antes mesmo que eu possa levantar novamente o machado. Dou um chute em seu peito e ele se desequilibra o suficiente para que eu possa acertar sua cabeça tão forte que a lâmina do machado fica presa ao chão no meio de sangue e entranhas. Puxo pelo cabo mas não consigo retirá-lo, então pego uma das facas em minha calça e corro para o segundo cadáver que se debruça sobre o corpo de Lucy, cravo-a em seu cérebro e retiro rapidamente.
Tudo em mim teme a possibilidade de eu não ter conseguido manter minha promessa e que o corpo da minha irmã já esteja sem vida. Mas o errante caído sobre ela não se move mais e percebo uma faca cravada em seu olho direito. Puxo-o para libertar Lucy e ela se senta sobre o chão tremendo e olhando em todas as direções a procura de outra ameaça a própria vida. Meu corpo relaxa quando libero todo o ar que estava segurando devido a ansiedade. Quero abraçá-la e dizer que está tudo bem, mas preciso checar se esses eram os únicos monstros por aqui. Pego a arma presa em minha calça atrás do meu quadril, acaricio seus cabelos rapidamente e me dirijo à sala escura.
A carga de adrenalina diminui aos poucos e sinto minha respiração ofegante, as batidas aceleradas de meu coração soando em meus ouvidos. Com um pé empurro a porta da sala e depois de alguns segundos sem ouvir um único som caminho para dentro. Seguro o revolver com as duas mãos como meu pai me ensinou. “Mantenha as pernas separadas e as duas mãos firmes para absorver melhor o impacto dos tiros” posso ouvi-lo dizer em minha mente, a voz orgulhosa de um comum cidadão de Michigan cheio de conhecimento sobre armas. A sala está completamente escura, tremo com a lembrança de um pesadelo que vem à tona.
A única luz provém de um basculante com vidro empoeirado na parede oposta e um cheiro de putrefação infesta todo o cômodo. Avanço cautelosamente até que um dos meus pés esbarra em algo que presumo ser um corpo. Imediatamente aponto a arma em sua direção apesar de não enxergar um palmo à frente. Chuto onde meu pé esbarrou à pouco esperando algum tipo de reação mas nada acontece. Acredito não haver nenhuma ameaça por aqui mas preciso de luz para me certificar, então lentamente me dirijo até o basculante e quebro o vidro com uma cotovelada certeira. A luz invade a sala pelo pequeno espaço. Vejo estantes vazias e caídas uma sobre a outra, a sala não passa de um espaço minúsculo e o corpo em que esbarrei não é nada mais que um par de pernas e um amontoado de tripas em estado de decomposição. Tento não imaginar que os errantes poderiam ter sido uma família que devorou um ente querido sem forças ou coragem suficiente para matá-los mas o pensamento já está vivo em minha mente.
Saio da sala e encontro Lucy em pé com sua faca recém-recuperada. Sinto que se demonstrar qualquer sinal de afeto agora vou quebrar. Meus olhos ardem mas não me permito mostrar sinal de fraqueza. Vou atrás do meu machado e, com mais jeito do que força, retiro-o do assoalho, coloco-o no espaço do cinto e digo:
– Venha, vamos sair daqui.
Fale com o autor