After The End
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Exaustão. Essa é a palavra para o que sinto no momento. Meus braços doem devido à força que coloquei nos golpes com o machado, minhas costas protestam contra o peso da mochila e o peso da possibilidade de ter perdido Lucy hoje esmaga meu peito. Andamos em silêncio por todo o caminho e agora estamos a poucos metros de distância da casa que tomamos por nossa. Um alívio percorre meu corpo, ansiando por um momento no qual eu possa parar um pouco. Mas esse alívio vai embora tão rapidamente quanto chegou. Tem alguma coisa errada. Seguro o braço de Lucy fazendo-a parar.
– O que foi? – pergunta ela.
– Tem algo errado.
Antes de sairmos bloqueamos a porta e agora ela está entreaberta. Puxo a arma e avanço lentamente com Lucy em meu encalço. Ao chegar aos degraus da varanda coloco o indicador a frente dos lábios para dizer que devemos fazer silêncio. Piso com cuidado num degrau, depois em outro e ela faz o mesmo. Paro perto da porta e tento ouvir qualquer coisa. Por um momento tudo parece silencioso até que escuto passos. São lentos, pesados, mas incertos e duvido haver mais de um par. Como um cadáver conseguiu entrar aqui? Levanto a arma e passo pela porta pronta para atirar, mas algo me impede de apertar o gatilho imediatamente.
O que vejo do outro lado da sala não é um errante, mas sim um garoto. No momento em que entrei ele levantou o próprio revólver e o apontou em minha direção. Ficamos nos encarando por segundos de pura tensão. Ele parece ter minha idade e está num estado deplorável. As roupas esfarrapadas, o corpo castigado pela pouca alimentação, provavelmente correu por dias sem achar abrigo. O que devo esperar de alguém que não aparenta ter nada além da própria sobrevivência? Suas mãos fraquejam e caem, por um momento penso que ele está se rendendo, mas vejo seu corpo cair em seguida.
Tem um garoto desmaiado no nosso abrigo.
Tomada pela surpresa, continuo com meus braços rígidos apontando a arma para frente, mesmo que nada mais se encontre naquela direção.
– Que diabos acabou de acontecer? – pergunta Lucy. Sua voz me tira do transe e abaixo o revólver.
– Acho que nem eu sei. Feche a porta.
Aproximo-me lentamente dele ainda com a arma em punho. Nesse estado sua aparência é muito menos ameaçadora. Os cabelos não cortados há muito tempo caem sobre seus olhos e a pele clara das feições se mostra esticada pela desnutrição, no entanto, não conseguem disfarçar a beleza do seu rosto retangular.
– Ele está mesmo desmaiado? – Ouço minha irmã questionar após empurrar um sofá contra a porta. Movo meu pé até sua mão e piso num dos dedos procurando algum resquício da dor em seu rosto. Nada.
– Com certeza está desmaiado. – Relaxo meus braços soltando o ar. – Meu Deus, o que vamos fazer?
– Ele precisa de ajuda.
Olho com incredulidade para Lucy.
– Você não pode estar falando sério. Ele nos recebeu apontando um revólver em nossa direção.
– Você também apontou a arma para ele!
– Mas ele sabia que tinha alguém ocupando a casa e mesmo assim entrou!
– Talvez ele não tivesse escolha! – rebate Lucy. — Ele é só um garoto da sua idade Jenna, coisas ruins aconteceram com todo mundo, não podemos deixar que isso nos impeça de o ajudarmos.
Procuro em minha mente por algum outro argumento mas não consigo, fui sobrepujada por uma garota de 12 anos. Reviro meus olhos e digo:
– Tá bom. Não vamos matá-lo nem nada, mas você vai fazer o que eu mandar.
– Tudo bem, tudo bem – diz ela sorrindo.
– Pegue o revólver dele. Você lembra quando te ensinei a manejar uma arma, certo?
– Sim. – responde ela ao se dirigir à arma caída ao lado do garoto.
– Nós vamos ter que amarrá-lo.
Lembro-me das minhas aulas de primeiros socorros onde aprendi que o desmaio é causado pela falta de oxigenação no cérebro. Então pegamos alguns fios dos eletrodomésticos, amarramos suas mãos em torno de uma coluna da sala e deslizamos uma caixa de som para baixo de suas pernas para que elas fiquem elevadas, também enrolamos um colchonete e o posicionamos sob suas costas para que a cabeça se incline. Parece uma posição extremamente desconfortável, mas vai ajudá-lo a retomar os sentidos.
Tudo o que podemos fazer agora é esperar. Deixo Lucy escolher o que vamos comer hoje, mas com a condição de que o fique vigiando. Enquanto isso, vasculho a casa a fim de checar se todas as saídas estão seguras.
Desde que concordei com Lucy as poucas palavras que proferi foram ordens, ainda sinto meu corpo rígido diante da tensão. Será que tomei a decisão certa? E se isso por em risco nossas vidas? Estou cansada dessas perguntas, mas não consigo me livrar delas de forma alguma. Forço minhas mãos contra a janela do quarto para conferir se ela está segura quando ouço Lucy chamar meu nome. Meu corpo estremece por um momento e em seguida desço rapidamente as escadas para ver o garoto desmaiado retomando os sentidos.
Lucy encara-o de uma distância considerável com uma inquietação nos olhos sem saber o que fazer. Levanto meu revólver e aceno com a cabeça, ela entende o sinal e empunha sua arma também se aproximando com certa insegurança. O garoto abre os olhos e os pisca repetidamente, noto um ligeiro tom de azul neles, mas não me permito concentrar nisso por muito tempo. Ao perceber onde se encontra vejo seu rosto tomar uma expressão de medo. Suas mãos fortemente atadas pelos fios lutam na tentativa de se livrar, me obrigando a pressionar o cano da arma em sua testa e destravá-la, pronta para atirar. Ele fica imóvel e me encara com a respiração acelerada.
– Quem é você? – pergunto em tom alto, mas rapidamente me silencio com o lembrete de que o som pode atrair monstros até nós.
– Jenna! – exclama Lucy em tom de desaprovação. – Você disse que não ia matá-lo!
– Que droga Lucy, cale a boca. – Ótimo, agora ele sabe nossos nomes, que não queremos matá-lo e não sabemos absolutamente nada sobre ele. Sinto-me fraca e estúpida, mas firmo a arma contra a sua testa e esboço o meu olhar mais intimidador. – Eu não vou perguntar de novo!
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