After The End

2 Capítulo 2


Obstruímos as entradas da casa ontem, quando chegamos, então apenas pegamos nossas armas, protegemos a porta o suficiente para impedir a entrada de errantes e partimos. A casa se encontra num dos limites de uma cidade pequena, não muito longe nem perto de tudo. Com uma mini-horta abandonada que pode ser facilmente recuperada, poço e cerca. Acredito que as pessoas que viviam aqui eram consideradas “caipiras” por outros habitantes da cidade, isoladas das tecnologias que dominavam o mundo, e hoje nada disso importa pra ninguém. Realmente demos sorte de encontrar um lugar como esse, só podemos pedir para que ninguém mais tenha essa mesma sorte.

Sei onde fica o mercado mais próximo e o caminho não é muito longo, mas não é isso o que me preocupa. O mercado pode muito bem estar cheio de “presenças indesejadas” ou já ter sido saqueado. Torço para que nenhuma das hipóteses esteja certa. Preocupar-me, no entanto, não vai mudar nada. Então tento me concentrar em outras coisas como o peso do machado na minha mão direita, o ritmo sincronizado de nossos passos, o som de nossos pés contra a estrada de terra, o olhar furtivo de Lucy tentando captar tudo a nossa volta e aos poucos relaxo.

– Eu gosto desse lugar – diz Lucy.

– Eu também. Acho que aqui sempre foi silencioso, então não tem muita diferença do que era antes de tudo.

– É. Uma vez, meus pais me levaram para passar as férias na casa da minha avó e lá era bem parecido com isso aqui.

Nunca sei o que dizer quando ela fala sobre a própria família, sempre temendo fazer com que ela sofra mais. Então apenas expiro em consentimento e estendo minha mão livre para segurar a sua.

Lucy e eu não somos irmãs de sangue, ela era filha do meu professor de literatura na faculdade e às vezes eu a encontrava nos corredores da universidade fazendo o dever de casa ou procurando diversão naquele lugar monótono. Nunca fui muito atraída pelas pessoas que estudavam comigo, então aos poucos fui conquistando sua confiança e depois de um tempo ela se tornou uma das minhas maiores companhias. Quem agradecia era o pai de Lucy, por dividir comigo a responsabilidade de cuidar dela, o que para mim não era trabalho algum.

Encontramos o mercado e minha mão se aperta contra o machado. Lucy tira sua faca de um dos bolsos da calça, mas me mantenho a sua frente a fim de impedir que ela corra algum risco. A rua aparenta estar deserta, então bato na porta para chamar a atenção de qualquer coisa que possa se encontrar lá dentro e levanto o machado como costumava fazer com o taco de baseball. Não ouço nenhum som como resposta então empurro a porta e entro com Lucy atrás de mim. Demos sorte, as prateleiras aparentam ter sido saqueadas mas ainda resta muita coisa. A poeira se aloja nas latas e pacotes jogados, o que indica que há muito tempo ninguém vem aqui. Abro minha mochila e Lucy faz o mesmo, então começamos a colocar os suprimentos dentro delas atentando rapidamente para a data de validade de cada um. Depois de pegarmos tudo o que precisamos começamos a vasculhar as mercadorias menos vitais e os pertences dos antigos donos.

– Jenna, achei uma coisa pra você! – Diz Lucy segurando no alto um cinto preto e longo demais para minha cintura.

– Você sabe que isso não cabe em mim, não é?

– E é por isso que vai dar certo. – Ela vem em minha direção. – Me deixe tentar colocar em você.

Antes que eu possa pensar em impedir ela já está colocando o cinto na extremidade da minha calça e quando ele sobra de um lado ela o enrola novamente deixando um espaço no meu lado direito e por fim o prende.

– Faltou você apertar desse lado – digo.

– Não faltou não, veja. – Ela pega o machado da minha mão e põe o cabo no espaço que deixou do cinto.

– Agora não precisa mais ficar segurando esse machado pesado na sua mão o tempo todo. – Ouço o orgulho em sua voz.

– Você é um gênio Lucy!

– Eu sei! – Começamos a rir.

– Agora você só precisa encontrar o resto do look gótico que acabou de me arranjar.

– Você prefere munhequeiras ou piercings?

– Humm, escolha difícil, mas prefiro munhequeiras.

Ela se dirige a porta atrás do caixa que provavelmente leva a uma sala de estoque e a abre. É quando vejo mãos cadavéricas irem à sua direção.