Eu, eu, eu

Eu nunca tive a intenção de te magoar

É só algo que eu faço

Acho que essa não é uma boa desculpa

E ela vai me odiar pra sempre

Não importa o que eu diga

E não há dúvidas

O amor acabou

(Always Hate Me — James Blunt)

***

Munique, Alemanha

Andando de um lado para o outro do meu escritório na Care, eu mais pareço uma fera enjaulada à espera do retorno da ligação de Lewis.

Há pouco mais de meia hora, soube de uma tentativa de atentado em uma estação de ônibus no centro de Nova York. Meu coração entrou em desespero quando li a notícia em um portal de jornal on-line. Havia sido em uma estação a qual eu sei que é a mesma que Sara desce todo dia.

No mesmo instante peguei o celular e comecei a ligar desesperadamente para o número dela. Foda-se que ela "pediu" para eu não entrar mais em contato com ela. Meu desespero era maior do que a minha vontade de cumprir a porra da promessa que lhe fiz. Não ficaria sossegado enquanto não ouvisse sua voz, ainda que fosse para me xingar ou mandar à merda por estar lhe incomodando outra vez. Mas eu precisava ter a certeza de que ela estava bem para acalmar as batidas do meu coração aflito.

O problema foi que ela não estava atendendo. A verdade é que o celular sequer chamava. Com isso meu desespero só triplicou. Porém a vaga ideia de que talvez Sara tenha me bloqueado, me deu uma luz de esperança de que, nada de ruim tenha lhe acontecido.

Até pensei em ligar direto para o trabalho dela e falar com sua assistente um tanto quanto espalhafatosa, mas aí daria muito na cara e eu não queria que Sara soubesse que sei de seu novo emprego, quanto mais que tenho o telefone de lá. Então meu único recurso foi ligar para Lewis e pedir para ele entrar em contato com a Sara. E nisso, já tinha mais de dez minutos que estava em uma espera agoniante.

— Porra, Lewis! Liga! — soco a mesa em agonia.

O telefone de mesa toca e minha raiva cresce com a nova perturbação da secretária.

— O que foi agora, Elfriede? — pergunto em alemão.

— Desculpe, senhor. Mas a diretoria quer saber se ainda vai demorar para se juntar a eles e iniciarem a reunião.

— Sim. Que eles esperem, não vão morrer por isso! Estou resolvendo uma situação. E, não me perturbe uma terceira vez. Sabe muito bem que detesto isso.

Desligo sem esperar resposta da secretária. Porra! Nem parece que Elfriede trabalha há anos comigo. Sabe que quando dou uma ordem é aquilo e ponto. Disse que não queria ser perturbado e ela me vem descumprir por duas vezes a ordem?! Que inferno!

— Lewis Grissom se você não entrar em contato comigo em cinco minutos, eu te ligo. — digo apontado para o celular sobre a pilha de relatórios.

Nem precisei esperar mais que dois segundos para ouvir o celular tocar. Mais que depressa o pego e vejo que se trata da própria Sara me ligando. No mesmo instante atendo.

— Sara!

— Com quê direito você invade a minha privacidade ao ponto de colocar alguém para me espionar?

Puta merda, Lewis! Você não sabe fazer as coisas direito?!

— Você está bem? — ignoro o que Sara disse em tom raivoso para vê se consigo fugir dessa conversa. Sei que não vou, mas não custa nada tentar.

— Estou puta com você. Muito mais que antes. Você é um ser doente. Precisa se tratar. Uma pessoa normal não faz o que você fez, seu cretino.

Ela esbraveja e eu esboço um pequeno sorriso pelo "cretino". Fazia tempo que não a escutava que confesso, sentia saudades de ouvir esse "apelido" saindo de sua boca. Obviamente, não neste tom de raiva, mas me contento assim mesmo.

— Responde! — ouço Sara cobrar.

— Sara... — começo em tom cauteloso.

Sei que o que fiz foi muito errado. Lewis mesmo me jogou isso bem na cara no dia que soube por um mero descuido meu. Mas foda-se! Eu pus mesmo um cara para ficar de olho em cada passo da Sara.

Foi assim que soube com surpresa que ela trocou de emprego e de endereço. Descobri sua rotina toda. O trajeto de casa para o trabalho. O horário do ônibus e a estação em que ela descia, bem como as pessoas com as quais ela se relaciona na firma.

Chame de psicopatia, loucura, intromissão, o que for, mas está feito e não tem como desfazer. Só queria me certificar de que ela não correria perigo e nem que estaria com aquele filho da puta com quem eu a vi trocar salivas na boate, que por sinal foi ser o mesmo que Joshua me apresentou no dia do casamento para que eu firmasse sociedade.

Inclusive até descobri o endereço do sujeito e pensei em ir até ele, mas desisti ao julgar que, Sara não aprovaria nada isso. Sem contar que poderia ser mais um ponto negativo para ela querer distância de mim. E também, eu já tinha dado o recado ao sujeito no dia do casamento.

— Eu fiquei preocupado com sua segurança e...

Sua risada que posso apostar todas as minhas fichas que foi de puro deboche, ecoou do outro lado da linha, interrompendo minha fala e me deixando mudo.

— Segurança??... Você é muito ridículo!... Qual é a sua? Não fez sua escolha?... Não foi a Maryane a sua preterida?... Então me deixa em paz, porra!

A vontade que deu foi de gritar a plenos pulmões que a escolha foi para proteger a ela e sua família, mas enquanto eu não souber quem de fato é esse ou essa filha da puta a quem Joseph deixou incumbido(a) de arruinar a vida de Sara e seus familiares, eu não direi nada. Não quero arriscar que façam nada de ruim a Sar ou seus familiares. Portanto, terei que engolir calado suas acusações.

— Desculpas é tudo o que posso pedir a você pela invasão a sua pri...

— Vá você e a sua desculpa de merda para o raio que os parta, Gilbert Grissom.

— Você me odeia, não é?

A pergunta é retórica e a resposta um tanto quanto óbvia a julgar por tudo que já aconteceu e a raiva aparente dela por mim, mas eu precisava ouvir a verdade. Talvez ter a certeza de que caguei com tudo.

— Sim! Com toda as minhas forças.

Não vou negar que doeu essa confirmação e o complemento dela tanto quanto. Acredito que esse lance do detetive foi a última pá de areia que liquidou com alguma possibilidade de Sara me perdoar no futuro. Algo me diz que o que quer que eu faça ou diga, ela parece que vai me odiar.

— E quer saber mais?... Maldita noite em que te conheci. Se eu pudesse te apagar ou te retirar por completo da minha vida, eu faria isso sem hesitar, porque.... você foi um erro, o pior que já cometi, Gilbert!

Depois de tal discurso de ódio cuspido por ela, o que veio em seguida foi o ruído sonoro da ligação encerrada. Ela sequer me deu direito a réplica, porque simplesmente desligou na minha cara e como estou bloqueado não teria como ligar e tentar me fazer ser ouvido. Mas quer saber? Acho que não vale a pena. Ela me odeia! E com razão! Dei munição de sobra para isto.

— E você foi o meu acerto, o melhor que já cometi. — digo em um sussurro enquanto escuto repetidamente do outro lado da linha o ruído da ligação finalizada. — Pena que tive que sacrificar o que tínhamos pelo seu bem, meine leibe. Agora, você me odeia!

Certamente, Joseph deve estar feliz por ter arruinado minha felicidade deste jeito. Sara não quer me ver nem pintado de ouro e cravejado de brilhante. Enquanto isso, Maryane tem feito da minha vida um verdadeiro inferno.

— Obrigado, papai querido! — digo em tom raivo e jogando o celular sobre a pilha de papéis.

O aparelho volta a tocar e eu bufo só de ver que é Lewis.

Ótimo! Agora você me paga!

— Obrigado por dar com a língua nos dentes para a Sara, viu irmãozinho?! — solto espumando de raiva.

— Me desculpe, acabei metendo os pés pelas mãos e...

— Ela me odeia mais ainda por conta do detetive. Obrigado por isso!

— Sério que vai botar a culpa em mim? Não fui eu quem colocou o detetive.

— Mas foi você quem contou a ela. Pedi apenas que ligasse para saber se ela estava bem e você vai e me abre essa boca enorme. — esbravejo com ele.

Foda-se que esteja descontando a minha raiva nele. Só preciso botar para fora a minha ira e, infelizmente, Lewis será meu bode expiatório no momento.

— Escuta aqui... Eu fiz o favor de ligar por você. Da próxima vez se vire. E quer saber mais? Ótimo que ela tenha te descascado por essa merda de detetive, você merece. O que fez foi uma babaquice sem tamanho. Passar bem, idiota!

Outra pessoa que desliga na minha cara sem me dar oportunidade de réplica.

— Legal! Mais um que me odeia. — digo em tom irônico. — Vou para a minha reunião que é o melhor que faço. — sigo rumo a porta, empunhando a pasta com alguns balancetes.

Me concentrar na bendita da reunião foi humanamente difícil. A cada instante as palavras de Sara vinham açoitar minha mente e meu coração, não me deixando racionar ou focar no que era dito durante o Board Meeting de final de ano, que por sinal era de suma importância para o fechamento anual da empresa.

"Ela me odeia!", "O amor acabou!", eram frases que também martelavam em minha mente e me machucavam o coração. Minha esperança ainda que remota é que o tempo seja meu aliado amenizando a raiva de Sara por mim e não um inimigo feroz e cruel, que a afastará mais ainda de mim.

— Senhor Grissom??

— Sim! — olho imediatamente para Henrich Zimmermann, o Controller, profissional responsável por coletar, analisar e apresentar os dados financeiros, contábeis e orçamentários da empresa aos diretores e stakeholders*, facilitando assim nossas tomadas de decisões e o sucesso dos negócios; e a julgar por sua cara e a mão em meu ombro, ele certamente já devia ter me chamado mais de uma vez ali.

— Está tudo bem? Porque me parece bem disperso na reunião.

Percebo que assim como Zimmermann, os diretores ali presentes me encaram com certo ar de preocupação. Certamente estejam estranhando meu desfoque na reunião, já que sempre sou o mais participativo e incisivo em meus questionamentos, algo que não estava acontecendo.

— Me desculpe, eu estava pensando em outras coisas aqui e me desliguei. — invento. — Mas o que você dizia mesmo, Zimmermann? — encaro o sujeito que franze o cenho.

O alemão que me conhece o bastante para saber que não estou legal e que cair fora o quanto antes dali da reunião é o que mais desejo no momento, retruca que irá resumir para mim.

Sabia decisão sua!

E assim a reunião é retomada e fazendo um puta de um esforço, foco minha atenção nas análises e dados mostrados por Zimmermann no retroprojetor.

Os números de vendas, o tráfego de marketing e a participação de mercado mostraram através dos relatórios de Zimmermann que o desempenho da empresa foi muito bom. Porém houveram algumas áreas onde a empresa ficou abaixo do esperado, portanto devemos procurar oportunidades de melhorar e cresce nelas. Contudo, entretanto, ao menos nossas metas foram batidas em quase 90%, o que era bom, mas poderia ser melhor. Buscaremos ano que vem o 100% de sucesso nos negócios.

Depois de discutirmos sobre o que funcionou e o que não funcionou ao longo deste ano, debatemos a respeito de estratégias futuras implementadas e como serão executadas para promover ainda mais o crescimento da empresa no ano que vem.

Algumas ideias para novas estratégias foram apresentadas. Em seguida discutimos essas ideias, sua viabilidade e quaisquer mudanças que façam. O objetivo é sempre promover o crescimento, seja em vendas, acréscimos de portfólio de produtos ou expansão para novos mercados. E, por isso alinhamos as estratégias e garantimos que todos estejam na mesma página com os mesmos objetivos em mente e implementamos planos de ação sobre como atingir esses objetivos no prazo determinado.

Houveram algumas divergências, mas no final das contas conseguimos entrar em consenso e a reunião terminou com um saldo positivo. Agora só nos veremos ano que vem para a primeira reunião de diretoria.

— Não pense que não percebi que não estava bem. — atrás de mim ouço Zimmermann resmungar em seu alemão ao sairmos da sala de reunião. Apesar de saber falar a minha língua, o bastardo prefere falar na dele. — O que tem hein? Problemas já no casamento?

Viro o rosto para encara-lo e encontro aquele alemão de uma figa com um sorrisinho cretino e debochado.

— Não é da sua conta!

Retruco rude enquanto entramos só os dois no elevador.

— É sério o problema! — ele decreta com uma certeza de quem me conhece desde sempre.

Quando finalizei meu doutorado em Gestão Empresarial, Joseph me deixou enfim tomar posse da filial daqui da Alemanha, que por sinal era até então a única minha de direito, já que meu pai deixou para mim de herança. Para Lewis nosso pai deixou algumas ações da empresa da família que ele possuía da matriz. Ações estas que mais tarde Lewis me vendeu a metade, porque da empresa ele nunca fez questão de se meter. Seu lance sempre foram as jóias.

E quando assumi de vez o controle da Care da Alemanha, Zimmermann já estava trabalhando nela. Ele era meio que o homem de confiança de Joseph, o que de início me deixou reticente em tê-lo por perto, por achar que o sujeito fosse pagar de fofoqueiro para meu pai, passando para Joseph minhas decisões e tudo o que eu fazia na empresa. Mas não foi o caso. E com o tempo, Zimmermann acabou passando a ser o meu braço direito e amigo.

— Me deixa, Henrich! — digo antes de sair do elevador.

Passo feito um raio pela recepção onde minha secretária fica. Noto de canto de olho que Zimmermann segue em meu encalço. Mereço!

— Por que você está no modo reativo escala 10/10?

— Fahr zur Hölle, verdammt!— digo em bom alemão ao sujeito antes de abrir a porta da sala.

Ouço sua risada sem vergonha.

— Me mandar ir para o inferno e de bônus ainda me chamar de "maldito", não vai resolver seus problemas, sabe disso, né Gil?

— Você é um alemão muito do chato! — o encaro após largar sobre a mesa a pasta com a ata da reunião.

— Sou seu amigo e quero saber o que passa com você. Não é do seu habitual estar alheio em uma reunião, Gil. Nem mesmo quando chegava de ressaca após nossas noitadas naqueles bares proibidos... — ele usa as mãos para a palavra bares, para não dizer prostíbulos com todas as letras. -... você não ficava fora de órbita. Muito pelo contrário, mesmo de ressaca estava lá focado na reunião. Qual é o problema?

Suspiro, mas sou incapaz de abrir o jogo com ele. Acho que me falta vontade de tocar nisso mesmo.

— Não me leve a mal, Zimmermann, só que não quero conversar não. Agradeço sua preocupação, mas vai ficar tudo bem. — abrando o tom de voz e tento tranquiliza-lo.

— Aonde vai? — ele questiona ao me ver apanhar a mala, juntamente com meu blazer.

— Embora. Estou com uma enxaqueca do cão e sem condições de continuar o trabalho hoje. Pode segurar as pontas para mim? Amanhã, certamente estarei muito melhor para trabalhar.

— Como quiser! Qualquer coisa te ligo?

— Não! Estarei off.

— E como entrarei em contato caso surja um imprevisto? Sua casa em Berlim fica longe demais daqui de Munique para ir lá. E até hoje não entendo o porquê raios foi optar morar em Berlim se é aqui que está o escritório da Care e se ainda mantém a casa daqui.

Por um lado foi uma péssima escolha a minha de não querer morar com Maryane na minha casa aqui de Munique, e sim, comprar outra em Berlim. Péssima porque como bem disse Henrich meus negócios ficam aqui e não na capital da Alemanha. Sem contar ainda, que tem a fábrica em Frankfurt, a qual fica apenas algumas horinhas de trem de Munique.

Mas por outro lado é ótimo morar em Berlim, porque quando quero fugir um pouco da perturbação que é a convivência com a minha esposa já tenho onde me refugiar, posto que Maryane nem imagina que ainda possuo está casa em Munique. Para ela disse que me desfiz da casa vendendo-a para comprar o imóvel novo de Berlim. Ela parece ter comprado a minha mentira e espero que siga assim.

— Estarei na casa daqui de Munique. — informo. Ele é a única pessoa que sabe que ainda mantenho o imóvel. — Mas não quero que me importune sob hipótese alguma, Zimmermann. Nem se o presidente quiser fazer negócios conosco.

— Não quer mesmo me contar o que está havendo?

— Não. — digo me dirigindo até a porta, mas ao segurar a maçaneta, me lembro de dar um aviso importante ao alemão postado próximo a minha mesa feito uma estátua de Michelangelo. — Para qualquer pessoa que ligar atrás de mim, diga que fui viajar a negócios para... — penso um pouco em algum destino e um vem a mente. — Moscou e só volto amanhã.

— Por que Moscou?

— Porque eu quero horas!

— Está bem! Não precisa ficar nervoso.

Revirou os olhos diante seu comentário.

— E... Quando digo qualquer pessoa estou incluindo também a minha esposa, entendeu?

— Hum... Como quiser. Agora tenho quase certeza que o problema é no casamento.

Ele abre um sorriso sem mostrar os dentes e eu lhe mostro o dedo do meio, fazendo o alemão cair na risada.

— Até, Grissom! — sou capaz de ouvi-lo dizer enquanto já estou fora da sala.

Ao me aproximar da mesa de Elfriede, dou a ela o mesmo aviso que dei para Henrich. E sem fazer qualquer contestação como é de seu hábito discreto, ela assente em resposta.

— Passarei então a vistoria da fábrica de Frankfurt que seria hoje, para amanhã à tarde, pode ser, senhor? — ela indaga depois que lhe dou o aviso.

— Pode, sim. E também qualquer compromisso que tenha pela manhã, passe todos para tarde.

— Como quiser, senhor.

— E avise ao Luke, para estar com o carro na frente do prédio que estou descendo. Até amanhã. — digo colocando os óculos escuros e saindo sem esperar pela resposta da secretária.

Dentro do elevador penso em como ocupar a cabeça para não pensar em Sara e suas duras palavras. Preciso me distrair com algo bom o suficiente que não me deixe lembrar dela. Talvez malhar seja ótimo, mas não posso fazer isso o dia todo. Tenho que achar algo a mais. Então me lembro de uma pessoa que pode ajudar nisso.

— Droga! Como era o nome mesmo! — resmungo, tentando me recordar do nome um tanto quanto peculiar da loira enquanto saco o celular do bolso.

O pior que seu nome é tão estranho que eu não faço ideia de qual seja. Mas mesmo assim vou rolando os nomes de contato na agenda do celular até aparecer um que seja estranho o suficiente e desconhecido dali, que me fará sacar na hora que é o dela.

Passo por algumas letras e alguns nomes exóticos, porém todos conhecidos meus, até que então chego em um que me remete a lembrança daquela noite em Berlim.

"Meu nome Hajna significa 'Alvorada' em húngaro. [...]O poeta húngaro Mihály Vörösmarty usa em seu poema épico 'Zalán Futása' (1825)."

Hajna!! É ela!

Sem demora aperto o botão de chamar enquanto saio do elevador. Dá um toque... Dois... Três... No quinto e último sua voz sedutora ecoa um tanto quanto abafada pela música alta do lugar.

— Alô! Quem é?

Franzo a testa estranhando o fato de ela não saber, já que lembro vagamente de tê-la visto salvar meu contato em seu celular de segunda mão, já que ela não é dada a luxos supérfluos, posto que a maior parte do dinheiro que ganha, envia para a mãe e a filha de oito anos que vivem em Budapeste.

— Hajna é Grissom.

— Ah, desculpe, 'olhos azuis'.

Sorrio de leve pelo apelido que ela me pôs por conta da cor dos meus olhos.

— É que atendi sem ver quem era. Como vai?

— Não muito bem. Está disponível? — indago já entrando no carro após Luke abrir a porta para mim.

— Hum... Agora estou. Por que?

Antes de respondê-la, me dirijo a Luke assim que ele entra e se coloca atrás do voltante, perguntando onde deve me levar.

— Para a minha casa daqui. — ele assente me encarando pelo espelho retrovisor e então dá a partida no carro. — Preciso me distrair e você foi a única pessoa que me veio a mente. — digo agora para Hajna.

Sua risada ecoa do outro lado da linha. Sei que estou me arriscando. Se Maryane souber daquilo é meu fim, mas foda-se. Preciso me distrair com Hajna ou vou pirar só lembrando da mais recente e dolorosa conversa com Sara.

— Pelo visto fiz meu serviço extra bem feito, porque você está ligando por bis, né?

— Não se ache tanto. Ou então ligo para outra. Minha lista é vasta. — retruco azedo.

— Se acalme. Eu imagino mesmo que sua lista seja vasta. E pode vir, estarei te esperando.

— Não posso. Preciso que venha até mim.

— Atendimento à domicílio não fazemos. Ordens da casa. Pensei que soubesse, já que é cliente antigo.

Bufo em raiva. Tinha esquecido disso. Sacha não deixa as meninas atenderam fora do prostíbulo por questão de segurança delas. Lá dentro do lugar com os seguranças, ele tem como protege-las de clientes inconvenientes ou violentos, fora da casa não há como. Por isso, ele não as libera para atender a domicílio.

— Deixa eu falar com o Sacha.

Em alguns instantes estou na linha com o "patrão" de Hajna e para mim, Sacha abre uma exceção e libera o atendimento por eu ser um velho conhecido e melhor cliente da casa.

Aviso que pagarei o quanto for por hoje e amanhã, já que Hajna viria de Berlim para Munique então não daria tempo de ela voltar hoje mesmo. Leva algumas horas de lá para cá. Sacha concorda numa boa.

— Vou enviar o dinheiro da passagem do trem para a conta do Sacha e ele vai te dar. Venha o mais rápido que puder. Quando estiver próxima me ligue e o motorista vai a estação te pegar para não demorar pegando táxi. — explico a ela que se mostra empolgada pela vinda.

— Está desesperado por um programa hein?

— Adeus! — desligo sem fazer questão de responder seu questionamento. Não era bem o programa, mas também a companhia. Aquela prostituta infeliz, de um modo estranho, me fez bem. Talvez o fato de ela ter escutado as minhas lamúrias com uma paciência de Jó após, eu tê-la comido, tenha grande parcela no fato de querer um "bis" com ela.

— Luke...

— Sim, senhor!

— Preciso que vá apanhar uma pessoa na estação de trem. Ainda não sei com exatidão o horário que ela chegará, mas assim que ela estiver perto te aviso. Provavelmente deva ser por volta das nove.

— Ok!

— E nem preciso pedir para ter discrição, né?

— Jamais, senhor.

Assinto e seguimos até minha casa. No caminho faço a transferência bancária para Sacha pelo dinheiro do trem que ele dará a Hajna. O dinheiro dela dou a própria em mãos. Feito isso, mando uma mensagem para Maryane contando da minha falsa viagem para Moscou.

"Estou indo agora para Moscou a trabalho. Volto só amanhã. Até."

Rapidamente coloco o celular no modo avião para ela não me perturbar, mais tarde o ligo de novo, já que Hajna irá me ligar.

***

Já era por volta das nove e meia, eu estava no maior tédio e em meu terceiro copo de uísque quando a porta se abre e vejo Luke entrar, logo atrás dele aparece uma Hajna trajando roupas "normais", o clássico visual composto de calça jeans de lavagem clara, uma jaqueta também jeans por cima de uma blusa branca — decerto seja até regata com as costas estilo nadador -, All Star preto e uma pequena mochila pendura em um dos ombros. Os cabelos estão presos e o rosto limpo, sem qualquer resquício de maquiagem.

Em nada, ela lembra agora a mulher despudorada que usa no prostíbulo um uniforme rosa que mal cobre sua bunda e o rosto carregado de maquiagem. Ela mais parece a visão de uma universitária que acaba de chegar de uma noite de aula.

— Olá! — ela acena com a mão direta para mim.

Apenas lanço um olhar a Luke que entende que é para se retirar. Só após sua saída da casa que me dirijo a visitante.

— Oi! Viagem cansativa?

— Até que não. Dormi a maior parte dela. — sorri deixando a ponta da língua entre os dentes.

— É bom que está descansada. — comento ao pegar o copo sobre a mesinha de centro. — Aposto que deve estar com fome.

— Bastante, mas antes preciso de um banho, urgente. — faz uma careta.

Lhe indico onde fica o banheiro social e ela vai direto para lá. Enquanto isso vou aquecer a comida que pedi mais cedo e ajeitar a mesa para Hajna jantar.

"Não bastasse cometer esse erro uma vez, você não satisfeito ainda pretende cometer pela segunda vez?!", minha mente me alerta, mas não estou muito aí para o que ela diz. Foda-se julgamentos e pudores! Só quero esquecer por um instante os problemas e o amargor da vida, ainda que isto signifique transar outra vez com a prostituta loira que se encontra no banheiro da minha casa.

Notas finais
**Stakeholders são todas as pessoas, empresas ou instituições que têm algum tipo de interesse na gestão e nos resultados de um projeto ou organização, influenciando ou sendo influenciadas – direta ou indiretamente – por ela.