After Separation - Livro 2
27 Capítulo XXV
Notas iniciais
Ah, Dezembro!
Entramos na segunda semana deste mês onde o inverno chega em Nova York. E, segundo as previsões meteorológicas do telejornal de ontem a noite, as temperaturas média irão variar de 0° a 7°C. Portanto, casacos, botas, luvas e outros acessórios mais são recomendados nessa época para se proteger do clima frio e também, manter-se aquecido.
E Dezembro também é o mês do Natal, uma época em que a cidade fica mais iluminada (se é que isso é possível), com as luzes e as cores das festas natalinas e a preparação para o ano novo.
O espírito Natalino na cidade é uma experiência única. As lojas tocam jingles de natal, as fachadas de casas e prédios ficam iluminadas e enfeitadas, e vários eventos especiais acontecem na cidade também conhecida como Big Apple.
A minha expectativa para a data festiva, que acontecerá daqui há um par de dias, é a melhor possível. Primeiro, porque será o primeiro natal na minha casa nova e segundo, porque ontem meus pais confirmaram que virão passar a data comigo. Já o ano novo irão para Alemanha a pedido de Maryane passar com ela e Grissom. Segundo mamãe, papai não curtiu nada a ideia de "passar a virada de ano olhando para a cara de Gil", mas aceitou ir pela minha prima que insistiu muito para que eles passassem a data festiva com ela, já que o natal ficarão comigo. É muito ser invejosa mesmo!
Imagino o clima "super amistoso" que não estará lá na casa do casalzinho com meu pai detestando estar na presença de Grissom. Pobre dos meus pais tendo que aturar esse casal mala sem alça. Sorte a minha que estou a milhas e milhas de ambos.
O ruído sonoro do celular sobre a mesinha de cabeceira, me tira do pensamento acerca daqueles dois que se merecem, enquanto termino de me arrumar para ir trabalhar.
"Nunca mais bebo! Estou a pura resseca, nessa segunda-feira! Sorte a sua que não pode beber!"
Sorrio ao ouvir o áudio de Dayse. Ontem saímos ela, eu e John. Ele estava na cidade outra vez e fez um novo convite para sairmos.
Como estava em dívida com ele, já que o convite anterior não deu certo de aceitar, então desta vez eu fui e carreguei Dayse comigo a pedido de John. Saímos para jantar e depois acabamos terminando a noite em uma boate. Estando grávida fiquei só no suco, já os dois caíram no álcool, mesmo eu os alertando que amanhã (no caso hoje, segunda-feira), seria dia de trabalho.
"Já ouvi essa história tantas vezes, que já deixei de levá-la a sério faz tempo. E que bom que não posso beber mesmo, senão estaria que nem você ou pior.", mando em resposta e largo o celular na mesinha.
Volto para frente do espelho para terminar de me maquiar.
"E o lance do investidor que você me falou quando nos conhecemos, rolou?"
Indago John enquanto jantamos no restaurante chique que ele escolheu.
"Ah, nem me lembre desse homem!", ele faz uma careta enquanto limpa o canto da boca com o guardanapo.
"Pelo jeito não rolou!", Dayse comenta já rindo.
"Não mesmo, Dayse. O cara é um louco. O meu amigo me apresentou a ele e simplesmente, o sujeito surtou. Me xingou e disse umas coisas nada a ver."
"Eita, que maluco!", comento antes de levar um pouco de risoto à boca.
"Totalmente. Ele já estava bêbado. Fez um papelão que só vocês vendo. E, ainda por cima, era o noivo."
"Que horror! Bem deve ser daquele tipo de pessoa que não sabe beber."
"Certamente!"
"E como se chama esse maluco que não sabe beber?", Dayse indaga curiosa como sempre.
"Gilberto Grissom!"
Suspiro ao lembrar desse diálogo de ontem. O mundo só pode ser um ovo! Porque justamente um cara que eu fico, vai fazer negócios com o Grissom.
"É, insolente, aceita que tudo acaba te levando no fim das contas a este sujeito."
"Vá para o diabo que te carregue. De manhã cedo já vem me encher?!"
John ainda disse que Grissom lhe falou assim: "Você não vai ficar com ela! Nem você, nem ninguém.". o pobre nos relatou que não fazia ideia de quem Grissom se referia. Coitado nem sonha que provavelmente é de mim, porque Dayse e eu chegamos a conclusão quando fui deixá-la em casa, que Grissom só podia estar se referindo à mim, porque certamente, aquele cretino deve ter me visto com John na boate aquela noite de sexta-feira.
"O que será que ele estava fazendo na boate?"
"Não sei e nem quero saber!"
"Credo!", Dayse me olha apertando os lábios querendo rir e eu tiro os olhos da rua para lhe lançar um rápido olhar sério. "Mas quer saber? Eu acho muito bom que ele tenha te visto aos beijos com o John. Assim, ele viu que você não tava sofrendo e que sua fila andou."
E pelo visto a fila dele também andou e se recuperou rapidinho do nosso término, para estar curtindo uma balada.
"O que aquele lá acha ou deixa de achar, me é indiferente, Dayse!", retruco azeda antes de pegar a radial.
"Sei. Repete umas cem vezes no mínimo, para vê se me convence, ou melhor, SE convence, amiga."
Tiro uma mão do volante para lhe mostrar o dedo do médio e Dayse ri.
— Com tantas boates, Grissom, vai justamente na que eu estou?... É brincadeira, viu?! — resmungo para o meu reflexo no espelho após finalizar a maquiagem. — Nada mal! — digo ao analisar meu rosto. Pelo menos consegui camuflar as marcas de olheiras por ter ido dormir tarde.
Guardo de qualquer jeito as maquiagens dentro da nécessaire, e a jogo dentro do guarda-roupa. Apanho o celular e checo as horas.
— Puta merda! Não vai dar pra ir de ônibus. — resmungo ao ver o horário já avançado. Terei que ir de carro de aplicativo para não chegar tão atrasada. É o jeito!
"Quem manda curtir noitada em pleno domingo?! O certo era fazer isso no sábado."
"Não sou obrigada a ouvir sermão seu, não! Sai fora! Eu hein?!"
Sigo para fora do quarto e envio uma resposta a Dayse que havia mandando uma mensagem. Já na sala apanho o casaco, o cachecol e a bolsa dos ganchos fixos na hall de entrada. Enquanto coloco o casaco vejo o aplicativo encontrar um motorista, que por sorte está há dois minutos dali de casa.
Não chegarei tão, tão atrasada assim!
Me agasalho e saio de casa quando falta um minuto para o motorista encostar. Imediatamente sou "brindada" com uma leve rajada de vento frio. E pensar que a tendência é a temperatura só cair e ficar mais frio o clima com o decorrer dos dias.
Tranco a porta e quando estou descendo os últimos lances de escada de entrada, o carro encosta.
— Bom dia! — cumprimento o motorista ao entrar no veículo.
— Bom dia! Editora Bag of Book? — ele me indaga, querendo confirmar o destino lido na tela do celular, preso a um suporte no para-brisa do carro.
— Exato! — confirmo me ajeitando no banco e colocando o cinto de segurança.
— Se importa se eu for com o rádio ligado nas notícias? — ele me lança um olhar pelo espelho retrovisor enquanto já seguimos caminho.
— Não, imagina! — respondo, ajeitando melhor o cachecol em torno do pescoço.
— Ainda não se sabe ao certo quantas pessoas ficaram feridas. Mas um suspeito foi preso no local pelas forças de segurança. Ele tinha feridas e queimaduras na área do abdômen, onde carregava a bomba.
— Bomba?? — repito espantada. — Do que estão falando aí no rádio? — assustada indago de imediato o motorista ao escutar aquelas informações.
— Uma explosão ocorrida há pouco no terminal de ônibus localizado entre a Rua 42 e a Oitava Avenida.
— Meu Deus!
Levo as mãos à boca, pois se trata, justamente do terminal onde desço. É o maior dos Estados Unidos, inclusive. Conecta a estação do terminal de ônibus e as linhas que descem pela Oitava Avenida, com a estação de metrô da Times Square, ou seja, fica bem no coração de Manhattan.
— Estão suspeitando se tratar de uma tentativa de novo ataque terrorista.
Quando o motorista acaba de falar isso, o locutor na rádio dá a informação de que o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, acaba de confirmar que o ataque na estação foi mesmo uma tentativa de mais um ataque terrorista e que deixou três feridos, que eram pessoas que estavam perto da explosão. "Graças a Deus o sujeito não alcançou seu objetivo de ferir um número maior de pessoas, e as forças de segurança responderam a tempo de evitar grandes estragos", disse o prefeito em seu pronunciamento lido pelo locutor da rádio.
— Ainda segundo informações preliminares do chefe de segurança, o suspeito foi identificado como Akayed Ullah, de 27 anos, nascido em Bangladesh. Os investigadores tentam buscar agora dados sobre o indivíduo no Brooklyn onde supostamente morava, ao mesmo tempo em que estudam a composição da bomba, que foi descrita como "caseira". As autoridades ainda não sabem se o lugar da explosão foi o escolhido pelo suspeito para cometer o ataque ou se a bomba caseira foi ativada sem querer.*
— Quando será que esses caras vão nos deixar em paz? — o motorista diz, trocando de estação, o que agradeço mentalmente. — Ainda está recente o último ataque com mortes ocorrido no bairro de Tribeca.
Assinto com tristeza ao lembrar desse atentado do último mês onde oito pessoas morreram depois de serem atingidas por um veículo que invadiu a ciclovia próxima ao marco zero da cidade.**
— Infelizmente é como disse o governador, Andrew Cuomo: "Isto é Nova York, e somos alvo de muita gente, sabemos disso."
— Verdade, moça. — o motorista balança a cabeça em concordância comigo.
A bem da verdade é que a cidade de Nova York é alvo terrorista desde o primeiro ataque ao World Trade Center, em 1993. A grande metrópole dos Estados Unidos está em alerta permanente desde 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas foram alvo de ataques.
Nós como moradores vivemos amedrontados apesar das autoridades assegurar que os terroristas não vão "minar" nossas vidas. A verdade é que a cada novo ataque ficamos mais alertas, vigilantes e reféns do medo.
E por conta do atentado o centro estava um verdadeiro caos, me fazendo chegar bem mais atrasada, já que o motorista teve que pegar outras rotas alternativas.
O clima na editora quando pus os pés no prédio estava tenso por conta do atentado, como não podia deixar de ser. Enquanto aguardava o elevador só se ouvia bochicho e conversas sobre o ocorrido. A tensão de dias trás pelo atentado do último dia 31 parecia de volta.
— Oi!
Me viro e encontro Doug postado ao meu lado. Pelo visto não sou a única atrasada.
— Olá!... Atrasado também.
— O centro está uma confusão louca. Esses atentados nos perseguem.
Apenas assinto para ele enquanto entramos no elevador que acaba de abrir suas portas para nós.
— Mas e aí? Como você está passando, sabe... — ele faz um gesto discreto para a minha barriga, porque não estamos sozinhos no elevador. Confesso que achei fofo e delicado o fato de ele manter a discrição.
Logo logo terei que abrir o jogo, porque a barriga vai começar a ficar mais aparente e aí não terá escapatória.
— Estamos bem. — cochicho para ele.
Vejo Doug assentir com um sorriso de canto de boca muito bonitinho.
— Ah! Antes que eu me esqueça. — ele fala já abrindo o zíper da bolsa de couro estilo carteiro que carrega em um ombro só. — Pra você.
Doug me estende uma caixa vermelha que reconheço como de bombom de uma marca suíça conhecida.
— Pra mim? — subo meus olhos da caixa de bombom para encarar com surpresa Doug.
— Sim. — ele então se aproxima mais de mim e em um tom baixo, cochicha. — Sábado soube que estava com desejo de chocolate. Então comprei essa caixa pra você. Sei que chegou tarde, mas é que eu estava atolado de serviço, aí não deu para comprar no mesmo dia e te entregar.
Mais surpresa eu fico com o gesto dele. Que fofo o seu cuidado! Mas como ele ficou sabendo disso?
— Obrigada! — agradeço pegando a caixa de sua mão. — Mas como você soube? — cochicho de volta.
— Escutei sem querer a Morg ao telefone no corredor fazendo o pedido para o namorado dela em seu nome. — conta Doug todo sem jeito.
Pior que Memo não conseguiu trazer a caixa de bombom, estava atarefado demais no serviço e tive que me contentar com uma barrinha de chocolate que Morgan conseguiu sabe lá Deus onde para eu não passar vontade.
— Obrigada de novo.
O elevador chega no andar do Doug.
— De nada. E qualquer coisa pode me pedir que terei o maior prazer de fazer por você, Sara. — ele pisca um olho já do lado de fora do elevador e acena para mim antes das portas se fecharem por completo.
Sorrio feito uma boba olhando para a caixa de bombom em minhas mãos e ainda sem acreditar direito no que houve. Quanta gentileza e atenção da parte dele.
***
— Que caixa de bombom é essa? — Morgan me interpela toda trabalhada em um tom de voz malicioso e já vindo em meu encalço.
— Doug me deu quando estávamos no elevador.
— Huuummmm... — ouço minha assistente cantarolar. — O editor gostoso é?
Viro para Morgan um segundo antes de abrir a porta da minha sala.
— É, foi o editor, Morg. — me volto para a porta e entro na sala. — Agora se ele é gostoso aí já é sua opinião.
— Ah, vai dizer que não acha o Doug uma gostosura, chefinha?
Penduro a bolsa no cabideiro após largar a caixa de bombom sobre a mesa ao mesmo tempo que respondo a pergunta de Morgan:
— Ele é um homem bonito e tal. Muito gentil, atencioso, delicado e só.
Esses últimos fatos para mim já o tornam uma pessoa mais bonita aos meus olhos. Beleza externa pode ser atraente, chamar a atenção, mas o interior da pessoa é que me ganha. São os pequenos gesto que acabam chamando mais a minha atenção.
— E só nada. É gostoso também, pode confirmar.
— Morgan... — olho séria para ela. -... Me erra! — retruco já me acomodando na cadeira e vendo minha assistente cair na risada. — Memo sabe que você acha isso do editor de artes? — lanço um olhar desconfiado para Morgan, que na mesma hora para de rir. — Foi o que achei! — digo com um sorriso de triunfo, porque certa vez minha assistente me confidenciou que seu namorado é ciumento.
— Nossa! Sabe nem brincar, mulher!
— O que temos pra hoje? — questiono, ignorando o comentário de Morgan, porque se der corda minha assistente vai longe no papo. Vendo que adotei uma postura já mais profissional, Morgan faz o mesmo.
— Bom... Teria logo mais a reunião de editores com o chefe máster, mas a secretária dele ligou no ramal, avisando que foi repassada para amanhã a reunião por conta do atentado.
— Alguém daqui ficou ferido nisso? — me preocupo.
— Não! Graças a Deus! — Morgan faz sinal da cruz se benzendo. — É que o Chefe máster e alguns outros editores ficaram presos lá para o centro devido o atentado e pelo visto não chegarão tão cedo. As vias foram fechadas.
— Ah, sim.
— E segundo li na internet ainda pouco, a previsão para que o serviço de metrô e ônibus só voltem ao normal daqui a duas horas.
— Ainda bem que consegui passar antes de serem bloqueadas todas.
— Que bom! Mas chefinha essa estação onde ocorreu o atentado não é a mesma que você desce?
— Sim. Por sorte acordei atrasada e não deu pra pegar o ônibus se não eu poderia estar lá na hora do atentado.
— Ave Maria, mulher! — Morgan dá duas batidinhas na minha mesa. — Foi Deus que te fez acordar atrasada e te livrou de passar por isso.
— Não dúvido. Mas voltando ao que tenho que fazer hoje. Fora essa reunião, o que tenho mais?
Morgan mexe rápido em um tablet em sua mão e logo já está falando novamente.
— Você ficou de se reunir com o pessoal da diagramação para definir as coisas sobre o livro da Otessa. Mas isso só depois do almoço.
— Ótimo! Avisou a ela? Otessa quer estar presente na reunião.
— Sim, chefinha. Ela confirmou que estará presente.
Apenas assinto antes de abrir a caixa de bombom e pescar um doce de lá.
— Trouxe também novos manuscritos para você. Estão aí sobre sua mesa.
Meneio com a cabeça em resposta.
— Hum... Que delícia. — comento após uma mordida. — Pega um, Morgan. — estendo a caixa de bombons para ela.
— Ai, achei que não ia me oferecer. E vou pegar dois tá? — ela diz já pegando dois bombons enquanto assinto. — Fiquei de olho neles assim que vi a caixa na sua mão, confesso.
— Credo!
— Memo me deu uma dessas no nosso primeiro mês de aniversário e depois disso me presenteia sempre com eles. Tanto que esses bombons se tornaram os meus preferidos. — confidencia minha assistente.
Foi engraçado ver Morg degustar o bombom. As caras e bocas que ela fez e os suspiros misturados com gemidos de satisfação que deixava escapar pelo doce, foram engraçados. A verdade é que minha assistente é uma diversão pura. Morgan torna o meu dia mais leve e alegre, mesmo que às vezes seja uma peste que aperreia o meu juízo.
— Ai, como adoro esses bombons.
— Leva mais dois e bora agir e trabalhar, mulher.
Dito isso, ela não pensa duas vezes em pegar mais dois bombons e sair da minha sala toda saltitante com seus bombons, me fazendo balançar a cabeça e rir de seu jeito.
Tão logo estou sozinha ouço o celular tocar dentro da bolsa. Sem muita pressa puxo a bolsa do cabideiro próximo e de dentro dela pego o celular. Na tela o nome de Lewis pisca, deixando bem claro quem está ligando.
Suspiro e fico na dúvida se devo ou não atender. Já faz tempo que não nos falamos. Desde a ligação dele no dia seguinte ao meu término com Grissom, o qual não atendi e sequer me dei o trabalho de retornar, Lewis não voltou a insistir. E eu tampouco fiz qualquer menção de entrar em contato com ele, apesar de ter muito apreço pelo irmão do Sr. Cretino.
Para mim é mais sadio me manter à margem de todos que tem contato direito com aquele cretino. Mas como bem disse Dayse certa vez, Lewis não tem nada a ver com o que houve, portanto não pode ser penalizado pelas ações cretinas do irmão mais velho.
— Oi, Lewis! — digo ao atender a chamada já no último toque.
— Sara! Graças a Deus você atendeu.
Franzo a testa com seu explícito tom dúbio de desespero com alívio ao ouvir minha voz.
— Aconteceu alguma coisa?
— Tá tudo bem com você, não é?
— Sim. Por que não estaria? — estranho.
Lewis não responde, ficando um silêncio do outro lado da linha.
— Lewis?? Está aí ainda? — indago após uns cinco segundos já de silêncio da parte dele.
— Estou sim!
— Então?
Ele deixa escapar um pigarro e logo em seguida um suspiro típico de quem quer contar algo, mas está na dúvida se deve ou não, sabe?
— É que acabei de ver sobre o atentado aí para as bandas do seu trabalho na BoB. Foi na estação onde você desce e...
— Espera aí, Lewis. — o interrompi na hora. — Como você sabe que essa estação é a que eu desço e que trabalho na BoB?
— Merda!
Ele xinga baixo, mas não o suficiente que não seja inaudível para mim.
Pelo que eu me lembre não contei a ele sobre ter mudado de trabalho. Até porque não nos falamos há tempos. As únicas pessoas que sabem disso, não contariam a ele também. Então como Lewis sabe disso e, principalmente, sobre ser a estação que desço?
— Lewis dá pra responder?! — já impaciente, cobro, porque ele fica novamente em silêncio depois do xingamento que deixa escapar.
— É que... Eu...
Ele fica em um gaguejo onde nada que saí em seguida de sua boca tem o menor sentido ou conexão. Só que a minha ficha logo caí e eu desconfio do motivo pelo qual ele deva saber dessas informações todas.
— Foi o Grissom né? — sou direta e reta.
— Ele vai me matar por isso.
— Não se preocupe que antes eu o mato. — digo em tom ríspido. — Como ele sabe? A verdade, Lewis. — cobro.
Ele suspira antes de enfim me revelar que Grissom tinha posto um cara para ficar de olho em mim dois dias depois que me viu em uma boate com um homem. O sujeito ficou no meu encalço por semanas. Mas aí, Lewis ao descobrir dessa história semanas atrás, mandou seu irmão dá um basta nisso, porque é muito errado e uma invasão a minha privacidade.
— Eu sinto muito, Sara, de verdade. Sei que não há justificativa alguma para essa merda que o Gil fez. Eu mesmo ainda estou puto com ele.
— Seu irmão é um psicopata. Ele precisa se tratar.
— Disse o mesmo a ele se isso te serve de consolo. Ele não agiu como uma pessoa normal.
— Normal é tudo o que ele não é. — digo ao deslizar uma das mãos sobre a testa. De repente uma preocupação me assola. — Além do meu novo emprego e meu novo endereço, o que mais ele sabe?
Meu medo é que ele saiba da gravidez, mas desconfio que não, porque senão Grissom já teria brotado aqui há tempos. Só que não custa nada ter certeza dessa informação.
— Apenas isso mesmo.
Respiro mais aliviada com isso. Menos mal que ele ainda não saiba do bebê, porque agora se depender de mim, ele não saberá tão cedo assim. Esse louco!
— Ele ficou uma pilha de nervos quando soube do atentado e como você não o atendia...
— Não atendi, porque simplesmente bloqueei o número dele. — digo interrompendo Lewis. — Não quero contato com o seu irmão.
— Te entendo perfeitamente, Sara. E quer saber? Não tiro sua razão. Gil fez a escolha dele.
— Pois é.
Alguém ao fundo chama por Lewis e ele diz para esperarem só um minuto.
— Sara preciso desligar, mas que bom que está tudo bem com você. Fico aliviado por isso. Gosto muito de você e não quero que nada de ruim te aconteça.
— Obrigada, Lewis. Também gosto muito de você.
— Então de vez em quando podia me ligar, né? Ou a gente podia marcar qualquer dia para se ver. Sei que você e meu irmão terminaram, mas não é por isso que também deva cortar relações comigo. E pode ficar tranquila que não darei informações suas ao Gil. Ele não merece.
— Tá bom. A gente marca qualquer dia sim.
Nos despedimos e a chamada é finalizada no instante seguinte.
Jogo o celular sobre a pilha de papel. Estou passada e revoltada com a falta de noção e qualquer respeito que aquele cretino tem. Esse homem só pode ter um parafuso a menos, porque uma pessoa normal não faz o que ele fez. Mas também, eu nem deveria ficar tão surpresa e chocada com tal atitude de Grissom, sendo que lá atrás ele mandou rastrear o meu celular para encontrar a boate em que eu estava, ou seja, histórico de psicopata ele já tem.
— Quer saber? Você vai ouvir e é agora, cretino! — pego o celular de volta e com raiva disco o número que eu prometi a mim mesma não mais ligar.
Um toque foi o suficiente para chamar e logo eu ouvir reverberar a voz de Grissom do outro lado da linha:
— Sara??
— Com quê direito você invade a minha privacidade ao ponto de colocar alguém para me espionar?
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