— Sara está tudo bem com você mesmo?

Assinto de leve, tentando a todo custo disfarçar o meu desconforto com o perfume forte de Doug, mas pelo visto estou falhando miseravelmente, porque é a terceira vez que ele me pergunta isso em um curto espaço de tempo.

— Eu acho que não está falando a verdade. Você está pálida. O que tem?

O meu estômago está embrulhado já com aquele cheiro. Meus Deus acho que ele tomou banho com aquela fragrância de forte cheiro.

— Seu perfume!

É tudo que consigo dizer antes de me virar para à direita, me curvar para à lixeira ao meu lado e vomitar as rosquinhas que tinha comido minutos atrás com tanto gosto.

Ouço Doug chamar meu nome com espanto e em segundos já estar ao meu lado com aquele cheiro horroroso que me dá mais ânsia.

— Saí de perto de mim! — consigo vociferar em meio aos espasmos.

De canto de olho observo o coitado se afastar depressa e assustado.

A sessão de vômito cessa segundos depois e ao voltar a me sentar de modo correto na cadeira, noto Doug me encarar de modo assustado e curioso ao mesmo.

— Desculpa! — peço sem jeito por ter vomitado na sua frente. Ninguém merece ser espectador de um show de horror desses.

Ele apenas assente, erguendo as mãos em rendição sem proferir palavra alguma.

— Seu perfume está muito forte e me deu ânsia. — explico após uns segundos da gente calados um olhando para a cara do outro.

— Ah!... Me desculpa. — ele pede todo sem jeito antes de puxar a camisa um pouco para cheira-la. — É, acho que dei uma exagerada legal.

— Pois é.

— Você quer que eu traga uma água?

— Não! Eu vou pedir aqui para a Morgan. — respondo já discando o ramal da minha assistente, que no segundo toque já me atende. — Morg, me traga um copo de água, por favor. — peço e ouço sua resposta positiva. — Obrigada. — finalizo a chamada.

— Se você quiser, eu posso voltar em outro momento para a gente terminar.

— Você não se incomodaria?

Realmente não tem como eu continuar essa reunião com Doug exalando tal perfume, que inclusive já tomou conta da minha sala e vem me incomodando bastante.

— De modo algum.

— Obrigada, Doug, pela compreensão.

— Imagina.

Morgan entra na sala naquele instante e parecendo perceber o clima desconfortável no ambiente, indaga enquanto vem em minha direção com o copo de água que lhe pedi:

— Aconteceu alguma coisa por aqui? — ela lança um olhar de mim para Doug.

— Sua chefe passou mal com o meu perfume e acabou vomitando.

— Ih, normal! É coisa de grávida, Doug. Elas enjoam com perfumes e tal.

Olho imediatamente para Morgan que parece nem ter notado a informação que deixa escapar.

— Aqui sua água, chefinha.

Ela me estende o copo todo inocente.

— Você está grávida?

Morgan e eu olhamos para Doug e só então minha assistente se dá conta de que deu com a língua nos dentes.

— Foi mal! — sussurra a loirinha sem jeito e me encarando de relance.

— Sim, Doug. — respondo ao editor de artes e ignoro o pedido de Morgan. Até pensei em negar a princípio, mas para quê? Se depois a informação seria desmentida de novo quando minha barriga começasse a crescer.

— Nossa que legal! Parabéns!

Doug diz com um sorriso estranhamente animado, tão animado como se ele fosse o próprio pai da criança que acaba de receber a notícia de sua vinda.

— Obrigada! — agradeço sem jeito pela sua clara animação diante da revelação. — Mas Doug, por favor, gostaria que mantivesse isso em segredo por enquanto. Não quero o pessoal aqui sabendo. Cheguei ainda tem pouco tempo na firma e...

— Não, tudo bem! — ele diz de modo apressado e me interrompendo. — Pode deixar que não digo nada.

— Ok!

— Bom, deixa eu ir. Não quero mais te incomodar com o meu perfume. Vou lembrar de não passar mais tanto. Com licença.

Ele saí da sala rapidamente, mas nem me dou ao trabalho de me preocupar com aquilo, porque tenho algo mais importante com que me preocupar como, por exemplo, a linguaruda da minha assistente à quem lanço um olhar sério após a saída de Doug de minha sala.

— Ai!... Desculpa, chefinha. — seu sorriso forçado mostra que ela sabe que pisou na bola feio.

— Você não tinha que ter contado.

— Saiu sem querer, eu juro.

Pior que eu sei disso. Ela falou com tanta naturalidade e espontaneidade que nem se tocou a princípio. Porém, ainda assim, não tinha esse direito de contar.

— Tá, Morg. Já foi mesmo. — resolvo não entrar em conflito até porque não ia adiantar em nada. Ela já tinha aberto a boca mesmo. — Pode ir. E obrigada pela água. — peço, massageando as têmporas com ambas as mãos.

Ela assente e questiona se quer que eu leve a lixeira para ser limpa.

— Não. Eu mesma cuido disso. — digo sem lhe dirigir o olhar.

— Ok!

O fim de semana passa e nos dias seguintes que fui trabalhar, notei Morgan amuada. De certo pelo fato de ter contado sobre a gravidez, que por sinal não ouvi qualquer comentário pela BoB, sinal de que Doug está cumprindo o meu pedido.

Morgan sabe que errou feio e eu, na real, fiquei bem chateada com ela apesar de ter decidido não entrar em conflito. Tanto que pouco nos falamos por esses dias, somente o necessário e o estritamente profissional. Mas quando foi na quarta resolvi dar um basta nesse clima chato entre nós, até porque nossa convivência é diária e ficar nesse climão pode até afetar nossa parceria de trabalho.

— Aqui suas passagens. O vôo de ida está marcado para às cinco da tarde de hoje. E a volta para domingo, no mesmo horário. — Sexta-feira e sábado não haveria expediente na BoB, portanto poderia passar o fim de semana na casa dos meus pais, o que me faria até bem. — Consegui com um amigo do Memo, porque já estava tudo esgotado.

— Ai, obrigada, Morgan. — empolgada pego de sua mão as passagens que ela me estende.

Que sorte, ela ter conseguido senão, não teria como ir. Fui deixar para ver esse lance de passagens ontem que quase ia dançando bonito.

— Bom vou voltar para a minha mesa.

— Espera! — peço antes de ela se virar rumo a porta. — Senta aí um instante pra gente conversar um negócio, por favor.

Ela se acomoda toda desconfiada na cadeira à frente da minha mesa.

— Quero que saiba que não precisa ficar assim amuada pelos cantos pelo que ocorreu dias atrás. Confesso, que fiquei bem chateada com você e isso transpareceu em nosso relacionamento esses dias. Mas quero pôr um fim nesse mal estar. Sei que não fez por mal e te peço desculpas por, de certo modo, ter contribuído para todo esse climão entre a gente.

— Imagina, chefinha. Quem tem que pedir desculpas sou eu e infinitas vezes por ser uma linguaruda.

— Não, não. Já passou. Vamos virar essa página. Gosto de você e não quero que as coisas mudem pelo que houve. Eu já desculpei você, de verdade.

Ela assente e posso ver seus olhos já marejados. Me aproveito disso para fazer um comentário afim de quebrar de vez o gelo entre nós.

— Ai, Morg, eu que sou a grávida com os hormônios aflorados e você que está pra chorar, homem?

— Ai, chefe! Que culpa eu tenho se sou uma manteiga derretida?! — ela diz, enxugando o canto dos olhos e logo em seguida caímos na risada juntas. Tudo voltou as boas entre nós! Assim é melhor!

***

Assim que desembarco em Santa Mônica para lá das dez da noite, avisto meu pai já me aguardando para me buscar. Aceno para ele e vou ao seu encontro.

— Filha que saudade! — ele me abraça apertado e eu retribuo da mesma forma. Já tinha algumas semanas desde a última vez que nos vimos. E, confesso, também já morria de saudades dele e da mãe, ou melhor, de todos de lá da casa.

— Também, pai!

Trocamos mais algumas palavras e depois seguimos para o estacionamento. Durante o trajeto para casa, ele me conta que mamãe viria junto, mas quando já estavam saindo foi chamada às pressas para cobrir o plantão de um colega no hospital. Vida de médica, fazer o quê?!

— E Sean?

— Chega amanhã cedinho de Minnesota.

— Deixa eu adivinhar?... Outro evento de Monster Jam?

— Sim. — confirma papai com um sorriso. — Ah! E disse que tem novidades.

— O que será?

— Não faço ideia, querida. Segundo o "sexto sentido" da sua mãe é alguma namorada que ele arrumou.

— Esse sexto sentido dela nunca falha.

Seguimos o caminho até em casa confabulando sobre qual seria a novidade de Sean, caso o "sexto sentido" de mamãe falhasse dessa vez.

Como já era onze e pouquinho quando chegamos e eu estava super cansada do vôo, subi para o meu quarto após me despedir do meu pai.

Tomei um banho nada demorado e ao deitar a cabeça no travesseiro, adormeci em segundos. Tive uma madrugada agitada com um carrossel maluco de sonhos. Primeiro sonhei com um bebê lindo de bochechas rosadas e rechonchudas, envolto em uma manta branca. Porém não dava para distinguir exatamente o seu sexo, só que era a coisa mais linda e eu não conseguia tirar os olhos dele em meu colo. Depois um sonho com Grissom em que estávamos tendo uma discussão horrorosa com acusações de ambas as partes, muito choro e palavras pesadas. E em seguida um outro em que nós parecíamos genuinamente felizes, sorridentes no que parecia ser um piquenique em pleno Central Park.

— Eu e aquele cretino felizes só em sonho mesmo! — digo após acordar no meio de tal sonho.

***

No dia seguinte lá estava eu pensativa no banho por conta dos sonhos, principalmente o último. Pareceu algo tão real, que não vou negar, ao despertar e constatar que foi apenas um sonho, a frustração bateu forte, assim como a raiva. Talvez se a escolha dele tivesse sido outra aquele sonho tivesse a possibilidades de um dia acontecer, mas diante do que ocorreu, acho improvável de isso ser real. Grissom e eu felizes não parece ter sido feito para ser real, pelo menos nessa vida, não.

À mesa com meus pais e Sean que chegou bem cedinho, quase junto com mamãe, eu ouço a conversa deles, mas sem me focar necessariamente no tema. Mas dá para perceber que em certo momento do café Sean conta sua novidade. E o "sexto sentido" de mamãe não estava errado, meu irmão revela que está namorando e, que inclusive, trará a moça para à ceia de Ação de Graças hoje, caso meus pais deixem. Obviamente, eles deixam, pois querem conhecer o ser de luz que caiu na lábia do meu irmão. Diante de tal comentário de mamãe foi impossível papai conter a gargalhada à mesa e eu apenas deixei que um discreto sorriso escapasse. Até a Li que estava ao meu lado, recolhendo a jarra vazia de suco, não se aguenta e cai na risada antes de retornar para à cozinha. Sean mesmo se rendeu aos risos também, porém antes até tentou mostrar certa indignação, só que falhou miseravelmente.

— Está tudo bem, filha? Você está tão calada.

Eu pouco tinha dito algo à mesa. Os sonhos que tive me deixaram um tanto quanto pensativa e analítica com o significado deles. Seriam, talvez, algum prenúncio do futuro? Provavelmente só o tempo dirá!

— Nada de mais, papai.

— Tem certeza, querida? — mamãe me olha de modo inquisidor demais como se estivesse fazendo um raio-x em mim com seus olhos de médica.

— Você é sempre tão tagarela a mesa, Sara, que tá estranho esse seu silêncio. — é a vez de Sean se pronunciar.

— Tenho uma novidade para vocês também.

Me esquivo do comentário de meu irmão, fazendo o anúncio da minha novidade para me aproveitar também do ainda clima alegre motivado pela fala brincalhona de mamãe com Sean. Não faço a menor ideia de como será a reação deles diante do que será dito, mas torço para no fim tudo ser o "menos pior" possível.

— Nossa! Essa é a manhã das novidades. Qual a sua, maninha?

Encaro cada um dos presentes e dou aquela respirada fundo antes de despejar:

— Estou grávida do Grissom!

Um silêncio sepulcral toma conta do ambiente após meu anúncio e isso só me deixa mais nervosa, angustiada e prevendo que dali virá uma reação negativa.

— Digam alguma coisa, pelo amor de Deus! — sai como uma súplica chorosa depois do que julgo ter se passado um par de segundos.

O primeiro a expressar uma reação a novidade é meu irmão que vibra de alegria ao encher a boca para dizer com um orgulho enorme que será titio. Sean logo sai de sua cadeira e vem me abraçar todo empolgado.

— Parabéns, maninha. — ele cochicha em meu ouvido.

— Obrigada, mamão. — respondo com a voz embargada.

Depois dele, minha mãe é a segunda a esboçar reação, segurando meu rosto com ambas as mãos, ela me dá os parabéns com os olhos cheios d'água pelo neto(a) que ganhará. E por último é a vez de meu pai que ainda meio desnorteado me parabeniza e diz que apesar de o bebê ter o pai que tem, ele está imensamente feliz por ser avô.

— Vocês não estão com raiva de mim ou decepcionados por essa gravidez?

— Claro que não, querida. A vinda de uma criança é uma benção.

A fala de mamãe me faz cair aos prantos, porque diante da reação inicial deles, eu imaginei que coisas boas não viriam daquilo.

— Eu achei que não seriam receptivos assim; que iam detestar a vinda desse bebê por ele ser filho do Grissom. — digo em meio ao choro enquanto estou abraçada a mamãe.

— Jamais, filha. — ouço papai dizer, afagando meus cabelos.

— Filha, como seu pai bem disse há pouco, independente do pai ser quem é, esse bebê é nosso neto, seu filho também e vamos amá-lo tanto quanto amamos você. Ou melhor, já amamos tanto quanto amamos você, querida.

O medo da rejeição de segundos atrás se dissipa junto com as lágrimas que escorrem por meu rosto diante das palavras de mamãe.

— Vamos estragar essa criança, maninha. Eu mais que os nossos pais.

— Nada disso, Sean. O papel de estragar é dos avós.

Consigo sorrir em meio às lágrimas por esse comentário de mamãe.

— Vocês são incríveis. — digo ao me afastar um pouco de mamãe e desfazer momentaneamente nosso abraço.

— E você é nossa filha amada, não esqueça disso. — mamãe diz enquanto enxuga minhas lágrimas com os dedos polegares.

— Ainda que eu lá atrás tenha com minha atitude horrível demonstrado o contrário. — pai diz se agachando ao meu lado. — Sua mãe tem razão. Você é nossa filha amada e estaremos aqui com você! Não viraremos às costas para você e nem para o nosso neto.

— Obrigada, papai! — jogo meus braços em torno de seu peço, abraçando-o por alguns segundos e logo após desfazer o contato com ele, faço um pedido a eles: — Não quero que comentem sobre esse bebê com Maryanne, por favor. Ela não deve saber que estou grávida por enquanto.

Eles balançam a cabeça em afirmativa.

— E quanto ao Grissom, quando pretende contar? — meu irmão é quem indaga.

— Não sei.

— Aquele degenerado não merece saber.

— Carl o quê é isso? — mamãe questiona em tom espantado pelo modo ríspido e claramente raivoso com o qual papai se pronuncia.

— Laura aquele degenerado brincou com nossa filha e os sentimentos dela, portanto não merece saber desse bebê. Até porque para todos, Maryanne já está lhe dando um filho.

— Independente do que ele fez com a Sara e de Maryanne estar grávida, é direito do Grissom saber desta criança também.

— Direito? Essa é boa! — papai se levanta com raiva. — Ele apronta com nossas duas filhas. Assume um filho que não é dele por sabe-se lá o motivo que até hoje nem ele e nem Maryanne nos disseram e você acha mesmo que ele tem ainda qualquer direito no que diz respeito a vida da Sara?

— Não é sobre a vida da nossa filha é sobre a vida do nosso neto que está vindo e também é filho do Grosso..

— Infelizmente é dele também! Mas não merece ser pai dele.

Calada, eu só revezo o meu olhar entre os meus pais.

— Não se trata de merecimento ou não, Carl, até porque já aconteceu, a Sara está grávida do Grissom e ele tem que saber, ponto.

— Acho melhor nos metermos ou as coisas entre esses dois vai acabar em briga séria. — Sean cochicha para mim.

— Gente, calma! — peço. No entanto, meus pais nem sequer dão atenção ao meu pedido e seguem no "embate".

— Ela está grávida, ok. Mas aquele sujeito não merece saber que é pai do nosso neto, ponto.

— Ok! Você acha que ele não merece saber, não é?

— Não mesmo! — papai diz, postado atrás da cadeira onde anteriormente estava acomodado, desfrutando de seu café.

— Então o que você acha disso aqui, Carl?... Se nossa filha grávida fosse eu e o Grissom que aprontou o que aprontou fosse você; e eu descobrisse que estou grávida de um filho seu e não te contasse sobre isso, como você ficaria quando futuramente descobrisse?

— Eu nunca faria com você o que aquele degenerado fez com nossa filha. Não me coloque no mesmo lugar daquele infeliz. Eu não sou que nem ele; uma pessoa que sai por aí usando as outras e brincando com os sentimentos delas.

Dito isso, papai sai da cozinha apressado, espumando de raiva e ignorando por completo os chamados de mamãe.

— Nossa o que houve? — Li indaga de volta da cozinha. — Que bicho mordeu o seu Carl?

— Um chamado Laura, mas também conhecida como minha mãe. — Sean diz risonho, causando risos em mim e mamãe.

— O que a senhora fez?

— Joguei a verdade na cara dele e não gostou como sempre. — responde mamãe e logo em seguida emenda: — Li, me dê os parabéns porque serei vovó pela segunda vez. A Sara está grávida.

— Ah, meu Deus! — exclama Li levando as duas mãos ao rosto. Visivelmente emocionada, ela parabeniza mamãe e depois já com as lágrimas rolando solta, faz o mesmo comigo. — Posso me considerar um pouquinho vó também desse bebê, já que tenho você como uma filha pra mim. E estou tão feliz, minha querida.

— Com certeza, você pode se considerar assim. — digo emocionada enquanto estou abraçada a Li.

— E o pai do bebê? — Li questiona após desfazermos nosso abraço.

— É o Grissom!

Um pequeno silêncio se faz como da primeira vez que revelei da gravidez ali, mas logo é quebrado por mamãe anunciando que subiria para dormir um pouco, porque teve uma madrugada pesada no hospital. Porém antes de ir, ela se vira para mim e agarrando as minhas coisas mãos, diz:

— Querida, sei que a decisão de contar ou não ao Grissom é sua, mas pense com bastante cautela e responsabilidade no que fará. — mamãe tem um tom calmo e sereno. — Sabemos aqui que ele errou com você, mas não use o fato de priva-lo do bebê como forma de punição. Se não quiser contar, que seja algo momentâneo, não definitivo ou tampouco, punitivo, porque você gostando ou não é direito dele saber. — ela finaliza e me dá um beijo na testa, saindo logo em seguida dali e me deixando na companhia de Sean e Li.

— A mãe pra variar tem razão. — meu irmão comenta após saída de nossa mãe. — Mas sabe, Sar, o que decidir eu te apoio. Siga seu coração, maninha. — ele pisca um olho para mim e segue o mesmo rumo de saída de mamãe.

— Pelo visto o pessoal não está te ajudando muito na decisão né?

— Pois é. Como viu, mamãe é do time do "conta". — faço com as mãos o símbolo da hashtag. — Papai do "não conta". E Sean, podemos dizer que é encima do muro. — sorrio de modo forçado. — E você qual é o seu time, Li?

— Faço parte do... Seu time, querida. Qual é o seu, Sar? O que você acha, ou melhor, o que você quer fazer com relação a isso, querida?... É você quem decide, não é o seu pai, sua mãe, eu ou o imparcial do Sean.. É só você!

Respiro fundo antes de dar uma resposta.

— Eu não quero contar... Não ainda. — admito após uns segundos.

— Então não conte, querida. Seu irmão disse algo bem sábio: siga seu coração! E se aí dentro... — aponta com o dedo indicador na direção do lado esquerdo do meu peito. — Diz para você não contar... Ainda. Então não conte, mas saiba arcar com as consequências da sua escolha mais lá na frente.

Lembro imediatamente do sonho em que Grissom e eu estávamos discutindo, seria por este motivo?

— Se conto, a consequência é ter que lidar com Grissom por perto, querendo fazer parte da gestação desse bebê.

— O que é natural, não acha?

— Sim, mas eu não o quero por perto. — friso bem o "não". — E não contar para ele significa lidar com a consequência de ter a sua raiva futuramente por tê-lo privado de fazer parte da gravidez.

— E com qual das duas consequências você está mais apta a lidar?

— No momento? — Li assente. — Acho que... Com a segunda!

— Então não há o que discutir mais, querida. — Li diz com um piscar de olho e saindo da sala.

***

Naquela quinta-feira não houve muito espaço para debater direito sobre a gravidez por conta de toda a preparação para a ceia de mais tarde. Mamãe quando acordou depois da hora do almoço, foi se juntar a Li na cozinha para ajudar no jantar que seria servido. Enquanto eu fiquei encarregada de escolher as louças e arrumar a mesa e decorar a sala para a noite, já que mamãe e papai tinham convidado alguns poucos amigos para virem cear com a família.

Abuso na decoração da mesa e da sala com flores e plantas, já que o Dia de Ação de Graças é uma celebração que cai no outono. A paleta de cores que escolho é de tons bem discretos e nada de sofisticação, já que a simplicidade é valorizada nessa época. Por isso opto por tecidos, arranjos de mesa mais singelos e detalhes delicados.

Enquanto banco a decoradora com o auxílio de uma das meninas da casa, noto que o clima entre meus pais não parece muito amistoso, já que estão claramente um de bico para o lado do outro. Isso me deixa mal, porque aquele atrito entre os dois está relacionado a mim. Então a noite antes de subir para me arrumar, chamo os dois para uma conversa no escritório e peço que parem com aquela bobeira, porque não era a minha intenção ser motivo de briga entre eles.

— Você não está sendo, filha, mas sim as nossas opiniões divergentes. — justifica papai.

— Que seja! Mas parem com isso, por favor. — peço. — A Ação de Graças é logo mais e sério que ficarão nesse clima?... Não vim para trazer discórdia. Será que podem ficar de boa?

— Ok, querida. Nos desculpe.

— Vão ficar de boa?

— Por mim já estamos. — papai diz erguendo as mãos em rendição.

Olho para mamãe e papai me imita.

— Por mim também.

— Ótimo! Então quero ver um abraço e um beijo. — digo.

— Meu Deus! Parece que estou me ouvindo quando falava com você, Maryanne e Sean. — mamãe comenta com um sorriso compartilhado por mim e papai.

Os dois fazem o que peço e tudo fica bem ou pelo menos parece.

***

Diante da janela da sala, impecavelmente vestida em um longo perolado enquanto empunho uma taça de suco de uva, porque mamãe me proibiu de tomar algo alcoólico por conta da gravidez, eu observo a noite bonita que faz lá fora.

Os convidados já haviam chego todos e estão por ali pelo cômodo batendo papo uns com os outros e com meus pais. Eu já havia trocado uma meia dúzia de palavra com todos. Alguns eu conhecia desde criança, outros fui apresentada por meus pais que não se cabiam de felicidade sempre que me apresentavam e mencionavam que eu estava grávida do neto deles. Dois avós babões e olha que essa criança ainda nem nasceu, imagina quando estiver aqui.

— Admirando a noite?

— Sim. — respondo me virando para Rachel, a namorada do meu irmão. Uma linda fisioterapeuta morena, de estatura baixa e que Sean conheceu em uma cobertura de Monster Jam, já que Rachel é irmã de um dos pilotos. — Está uma noite linda lá fora.

O céu estrelado, uma linda lua cheia e um clima ameno faz da noite perfeita.

— Verdade! — ela concorda após lançar um olhar pela janela.

— Sean te deu uns segundos de respiro, foi? — brinco com ela, já que desde que chegaram, meu irmão não desgrudou da namorada a quem ele fez questão de ir buscar na casa dela.

— Pois é. Só enquanto ele foi atender ao telefonema do chefe dele, estou livre. — Rachel responde aos risos entrando na brincadeira .

— Ah, sim. Depois ele volta e gruda em você de novo.

— Não duvido, mas quer saber? Eu adoro esse grude. — confessa em tom baixo e com um sorriso genuíno. — Seu irmão é um doce de pessoa.

— Ele é mesmo! E você o deixa feliz. Dá pra ver nos olhos dele.

Meu irmão quando apresentou a namorada a nós, se mostrou genuinamente feliz. Seus olhos chegavam a brilhar e notei que a todo instante em que olhava para Rachel o brilho estava ali. Talvez, por ser início de namoro onde tudo é flores e corações. Mas torço para as coisas entre aqueles dois dêem certo, porque dá para vê que há sentimentos verdadeiros de ambas as partes.

— Que bom. Ele também me deixa feliz como há tempos não me sentia.

Engatamos em um papo animado onde ela me revela que foi por um mero acaso que conheceu meu irmão, porque não costuma frequentar eventos do Monster Jam, só foi aquele por insistência do irmão e acabou esbarrando com Sean e se encantando pelo reporte piadista.

Aos poucos enquanto ela ia conversando comigo fui sacando o porquê de meu irmão estar amarrado em Rachel. Ela é uma mulher encantadora e de um senso de humor cativante, tão piadista quanto Sean e ligada em esportes na mesma proporção que meu irmão. Até porque como fisioterapeuta esportista, ela está direto no meio esportivo, mais exatamente ao basquete, trabalhando diretamente com grandes atletas da NBA.

— Imagina, eu esse toco de gente no meio daqueles gigantes?! Me sinto a própria anã. — comenta aos risos a fisioterapeuta.

Mamãe naquele instante chama atenção de todos para a hora da ceia. Nos dirigimos para a sala de estar. O momento de dar graças antes da ceia chega. Meus pais fazem as honras e são os primeiros a dizer seus discursos, agradecendo as suas bênçãos, que incluem estar vivos e com saúde; terem a família que têm; e pelos dois netos que estão a caminho.

Depois é a vez de meu irmão e a minha, porém não sou quase nada longa quanto os demais em meus agradecimentos. Deixarei para ser mais longa quando estivesse a sós com meus pais, pois à eles tinha que fazer um agradecimento especial e não ali publicamente. Não que eles não merecessem, eles merecem. Mas não vou expor a minha vida ali na frente dos presentes.

Alguns convidados também contam suas bençãos e agradecem por elas, como manda a tradição. Logo em seguida o jantar é servido e são só elogios quanto a comida e a decoração da mesa.

Já é tarde quando o último convidado vai embora e só resta na sala papai, mamãe e eu, já que Sean foi levar Rachel em casa e por lá mesmo dormiria. E, me aproveitando ali daquele momento sozinha com meus pais, eu os agradeço pelo amor incondicional e pelo suporte inabalável que estão me dando desde o episódio do término com Grissom até agora com a descoberta dessa gravidez; por serem os pais maravilhosos que são; e por não largarem a minha mão ou a do meu irmão. Sean e eu somos afortunados por ter dona Laura e seu Carl como nossos pais.

— Ô, minha querida, nós é que somos gratos por termos você em nossas vidas! Uma filha tão especial quanto o neto que está carregando aqui. — mamãe diz alisando a minha barriga ainda reta.

Notas finais
Xero e até o próximo capítulo.