After Separation - Livro 2
22 Capítulo XX
Notas iniciais
Já são meados de Novembro e a minha rotina de trabalho só se intensificou muito mais ao longo das semanas que foram se passando, tudo devido a iminência do lançamento do livro que estava em início de processo de criação quando cheguei a BoB.
Meu primeiro projeto como editora será lançado no próximo sábado e eu estou uma pilha de nervos. Tudo bem, que eu não comecei com este projeto, mas sou eu quem deu sequência e o finalizará.
Tenho dado o meu máximo para sair tudo certo. E com a proximidade cada vez mais maior do lançamento e o trabalho sendo mais puxado, eu nem tenho dormido direito e mal consigo fazer uma refeição descente, já que volta e meia um enjôo bate; e sem contar que ando cansada além do normal. Acredito que tudo isso seja por conta da correira louca do meu trabalho. Quando tudo isso passar creio que as coisas voltem ao normal. Por enquanto tenho que lidar com esses percalços.
— Trouxe um lanchinho, chefinha.
Ergo a cabeça para encontrar minha assistente entrando na sala equilibrando em uma mão a bandeja que parece conter um copo de suco que suponho ser laranja e um sanduíche natural. Enquanto sua outra mão fecha a porta atrás de si.
— Morgan não precisa.
Ultimamente, ela tem se portado como uma fiscal da minha alimentação. Sempre trazendo algo para eu comer sem eu pedir. Só que, geralmente, eu mal como o que ela traz. E quando como logo em seguida começo a sentir o estômago embrulhar.
— Claro que precisa. Você tem que se alimentar, mulher. Aposto que não saiu pra almoçar de novo, não é?
Neguei com a cabeça e estampando um sorriso culpado.
— Misericórdia, mulher. Qualquer hora você cai dura no chão. É isso que quer?
Ela me lança um olhar recriminador enquanto vem em minha direção.
— Não, mas... Tem coisas ainda pra resolver.
— Deixa isso só um instante e cuida de comer. Vamos... Vamos!
Morg deposita a bandeja sobre a pilha de papéis que eu lia.
Olho para ela de cara feia. Minha assistente sabe que os papéis que estou lendo são importantes e devem ser entregues hoje.
— Não me olhe assim. Cara feia pra mim é fome. Então coma, porque a comida está aí na sua frente.
Suspiro e desvio o olhar nada satisfeita de Morgan para encarar aquela bandeja e sinto o estômago embrulhar em segundos com o cheiro do sanduíche.
— Não dá. — digo levando a mão à boca. — Tira essa bandeja da minha frente. Está me dando ânsia. Tira... Tira... Morg.
— Ave Maria! — ela pega depressa a bandeja e sai de perto de mim.
— Preciso de água.
— Espera aí que já trago.
Ela sai quase às carreiras da sala.
Sinto aquela ânsia incomoda e respiro fundo de modo lento para vê se passa. Não quero vomitar. Até porque não tenho nem o que vomitar. Sai de casa sem tomar café, porque a remota hipótese do cheiro da bebida já me deixou incomodada. Tomei um mate gelado, mas à força do que propriamente por vontade.
— Aqui, chefinha. Bem geladinha.
Apanho o copo de vidro com água e gelo que Morgan me estende. Tomo o líquido em pequenos goles até a última gota.
— Obrigada. — agradeço já estendendo a minha assistente o copo com ainda algumas pedras de gelo.
— Chefinha... Não querendo me meter na sua vida... — ela começa de modo pausado e a encaro com uma das sobrancelhas erguidas.
— Mas já se metendo. — completo apoiando um cotovelo a mesa e deixando um lado do rosto repousar sobre uma das mãos.
— Não seria legal procurar um médico pra saber por que anda passando mal assim de uns dias pra cá?
— Morgan isso é estresse. Nervoso, sei lá. Eu não ando me alimentando direito por conta do corre com esse lançamento. Meu primeiro lançamento aqui na editora, diga-se de passagem.
— Hum...
Ela resmunga e fica me encarando de um jeito como se quisesse dizer algo mais.
— Fala, Morg.
— Falar o quê?
— Sei que quer me dizer mais alguma coisa.
— Ai, credo! Já me conhece assim é? Sou tão fácil de decifrar, chefinha? — ela faz toda uma cena com direito a mão sobre o coração e uma fingida cara de choro.
— Morgan, eu estou sem tempo. Se tem mais alguma coisa fale ou me deixe continuar meu serviço.
— Tá. Eu falo!... — ela faz uma pausa e só após se acomodar sentada a ponta da minha mesa e perto de mim, que prossegue. — Acho que tudo isso não é causado por estresse.
— Ah, não?! Então é pelo o quê? — a encaro me recostando a minha cadeira giratória.
— Sei que não tem ninguém... Mas esses seus mal estares são bem parecidos com quem está grávida. — meu corpo gela diante de sua fala. — Enjoos, cansaço e você tem ido muito ao banheiro que tenho reparado.
É verdade. De uns tempos para cá estou indo direto no banheiro fazer xixi.
— Não há a possibilidade de ter um bebezinho aí dentro da sua barriga, não chefinha? Porque com a minha prima foi quase...
— Ficou louca! — a interrompo na hora. — Cla-claro que não! — digo às pressas e assustada com tal hipótese. — E chega de importunar meu juízo. Vai pra sua mesa e me deixa cuidar dos meus papéis
— Ai, chefinha. Desculpa! Não queria aborrecer você.
— Mas você conseguiu. Agora sai, Morgan.
Ela se levanta da mesa toda amuada e pedindo desculpas mais uma vez, se dirige a porta e sai, me deixando sozinha na sala com aquela horrorosa hipótese rondando a cabeça.
Meu Deus não pode ser isso!
— E não! — digo tentando convencer a mim mesma.
***
Sentada diante da TV, com um pote de sorvete (que estou conseguindo — milagrosamente — comer sem enjoar), enquanto assisto um Dorama que adoro, fico me remoendo outra vez com o que Morg disse. Fiquei nessa tortura a tarde toda de trabalho e até agora isso me perturba.
No fim do turno tratei de pedir desculpas a minha assistente pelo modo grosseiro que me portei com ela quando levantou tal hipótese (que acredito piamente que não seja certa). Morgan, bom coração como é, me desculpou. E me alertou a procurar um médico para averiguar o que se trata esses mal estares, já que lhe garanti que não se trata de gravidez (mesmo não tendo certeza disso, mas quero acreditar que não seja isso. NÃO PODE SER ISSO. NÃO É ISSO!). Ela disse que talvez seja alguma intoxicação alimentar, portanto devo averiguar. Agradeci sua preocupação e prometi que ia seguir seu conselho. E, assim, ficamos resolvidos e bem.
— Graças a Deus! — exclamo ao escutar o celular tocar sobre a mesinha de centro. Em um pulo apanho o aparelho e atendo a chamada. — Até que enfim, Dayse.
Eu tinha ligado para ela assim que cheguei em casa. Precisava conversar e partilhar aquela ridícula hipótese que minha assistente levantou. Só que na hora, Dayse estava ocupada e não me atendeu, mas mandou uma rápida mensagem de texto, dizendo: Ainda estou com a bruxa da minha chefe. Hora extra.
Acabei mandando para ela que me ligasse assim que chegasse em casa, porque era urgente.
— Tá, quem morreu, Sidle?!
De modo nervoso e embolado contei que nem uma matraca sem fazer pausas e vírgulas sobre a hipótese levantada pela minha assistente, já emendando sobre o meu pânico com aquilo e tudo mais que aquela situação me implicaria.
— SARA, PÁRA!
Dayse praticamente berra do outro lado da linha.
Porra, quase ela estoura meus tímpanos.
— Assim fico surda sabia?
— E eu fico maluca com essa sua tagarelice sem freio.
— Eu tô nervosa, amiga.
— Deu pra perceber. Vamos por partes, certo?
— Certo!
— Pelo que entendi, sua assistente levantou a hipótese de que você pode estar grávida, certo?
— Certo!
— Por que ela levantou isso?
Suspiro.
— É que ando enjoando algumas vezes.
— Só por isso?
— Eu ando sentindo um cansaço excessivo. Mas é porque ando trabalhando muito. — justifico.
— Sei.
— E tenho ido com mais frequência ao banheiro para fazer xixi. Só que é porque tô bebendo muito líquido, já que comer não tem sido lá tão agradável. — outra vez justifico.
— Anda tendo oscilações de apetite?
— Sim! — confirmo.
Uma hora não sinto vontade de comer e enjôo só de pensar em comer. Em outras, como agora, por exemplo, eu sinto um apetite e, ainda por cima, por besteira.
— Ok, Sidle. Aí, eu te faço a pergunta que pode levar a hipótese dela a ter seu fundo de verdade.
— Qual?
— A sua menstruação já veio?
Eu fico muda, tentando lembrar a resposta e nada.
— Sara?
— Eu-eu... não lembro se já veio. — retruco. — Mas provavelmente sim.
As últimas semanas da minha vida foram corridas. Foi mudança de emprego, de casa, novo cargo com mais ocupações e muito mais trabalho. Descanso foi tudo que não tive nessas semanas que passaram. Tanto que reter informações básicas não tem sido muito fácil.
— Provavelmente, não é certeza. Então... — ouço Dayse iniciar, mas a interrompi na hora.
— Pára! Isso não quer dizer nada. Ela atrasa. Da outra vez foi a mesma coisa.
— Se você diz!... mas se não for que nem da outra vez... se você agora estiver grávida... dele? O que vai fazer?
Engulo em seco, porque não sei o que dizer, qual resposta dar.
— Prefiro pensar que não seja esse o motivo de tudo isso. É estresse. Nervoso pelo meu primeiro evento como editora que está aí na porta já.
— Hum...
— Na próxima semana quando tudo isso passar e a minha rotina se normalizar, irei a um médico como Morgan aconselhou.
— Bom, amiga. Se você quer ver assim, então... assim seja. Mas faz mesmo o que a sua assistente te aconselhou. Depois que esse lançamento passar, procura um médico.
— Ok!
***
Para esquecer toda aquela história de gravidez, eu resolvi me focar muito mais ainda no meu trabalho nos poucos dias que já restavam antes do meu primeiro lançamento como editora e não mais como uma assistente.
Em cada detalhe eu me propus a estar presente desde o processo de revisão, à diagramação, escolha da arte da capa, tipo de papel para a impressão e, principalmente no marketing de divulgação. Tudo tinha um dedinho meu. O projeto pode ter sido escolhido e iniciado pelo Fox, mas a Sidle aqui deixou sua marca também.
E o grande dia enfim chegou. O espaço escolhido para tal evento foi a grande livraria da editora. Quisemos aproveitar as pessoas que estão de passagem no local para, quem sabe comprar o livro em lançamento. Isso pode acontecer? Pode, mas é exceção da exceção; na prática, os presentes no lançamento e participantes dele são em geral os amigos e familiares do autor, mas como este é famoso no meio há algumas pessoas conhecidas. O que me deixa mais nervosa no evento.
Brooke sempre me dizia: "Sara, o lançamento de um livro não deixa de ser uma celebração. O autor está apresentado ao seu público mais próximo sua nova criação. Deve ser um momento de alegria, pois nesse momento ele estará apresentando uma parte do seu legado." E é o que Morgan e eu tentamos fazer: uma celebração à altura do nosso autor.
— E aí, chefinha, nervosa? — Morg se posta ao meu lado muito bem arrumada em um conjunto social rosa (sua cor preferida, segundo ela me confidenciou em uma das muitas conversas aleatórias que tínhamos em minha sala durante reuniões).
— E como! Tudo certo com o buffet?
Esse tipo de evento não precisa, necessariamente, ter um custo alto, afinal, as pessoas não costumam ficar por muito tempo, em média ficam entre 40 e 50 minutos. Porém, nosso autor é um célebre no meio, então as coisas acabaram tendo um custo a mais. Um menu mais requintado com comes e bebes de primeira, para suprir os cem convidados e garçons para servir tais pessoas.
— Sim!
— Nosso patrocinador já chegou?
É o ideal, tanto para publicação como para o evento. Uma pessoa física ou jurídica que patrocina um evento cultural é sempre bem vista pelo público, é um negócio onde todos ganham. É importante que o autor também valorize o patrocinador, afinal, não é todo dia que conseguimos alguém para patrocinar nossos sonhos.
— O todo poderoso da editora ainda não chegou, até porque está cedo. Falta meia hora para o evento começar.
— Ok!... — suspiro. — E a imprensa? Ligou para eles confirmando a presença de cada um? — me lembro.
— Sim. Inclusive... Alguns já chegaram.
— Ótimo!
O evento de lançamento de um livro tem uma finalidade: vender o livro em questão. Por isso, fiz contato com toda a imprensa do meio literário, tanto mídia digital quanto impressa, que conheço dos tempos de assistente do Brooke e os convidei para o evento. Porque quanto maior a veiculação da notícia do lançamento, maior a chance do evento dar certo e, com isso, vender mais livros.
— Vai dar tudo certo, chefinha. — Morgan segura a minha mão e dá um leve aperto como um reforço à suas palavras.
— Vai sim. — assinto.
— E, a propósito, está linda. — ela me lança um olhar de cima abaixo. Estou usando um vestido midi preto e por cima da peça, um blazer bege. Nos pés um scarpin preto. Os cabelos soltos e ondulados nas pontas. E a maquiagem resolvi deixar os olhos mais marcados e usar só um batom nudes nos lábios.
— Obrigada. Você está também.
Morgan agradece com um sorriso enorme.
O lançamento do livro dei tudo certo como bem disse Morga.
O evento foi um sucesso. Nosso autor saiu satisfeito e tivemos uma venda ótima na primeira tiragem só naquela noite.
No dia seguinte a repercussão nas mídias sociais e jornais foi positiva. Só falavam do sucesso do grande lançamento da BoB na noite anterior.
Na segunda-feira quando cheguei para trabalhar recebi os parabéns do Owen e vários outros colegas. Minha assistente era só alegria. Parecia até um cordeiro saltitante me mostrando o print de cada nota que viu no domingo na internet sobre a noite do lançamento. E, quase me mata do coração com seu surto ao mostrar a nossa foto com o autor estampando um grande site.
— Ai, Jesus! Estamos famosas, chefinha.
— Não exagera, Morgan. Foi só um foto.
— Ai, deixa eu me iludir por uns segundos que seja, mulher.
Rio dela acomodada na cadeira à frente de minha mesa quando ouço o celular apitar sobre a mesa. Apanho e vejo a notificação de uma mensagem de Bolton.
"Parabéns, gostosona por sábado. Por aqui na NP o povo só fala de você. Que esse seja o primeiro de muitos bons voos na sua carreira. Só não vai ficar metida e esquecer dos amigos, hein?... Beijos"
Abro um sorriso. E digito uma resposta para ele.
"Obrigada. Espero que estejam falando bem. E até parece que vou esquecer de vocês, seus malucos adoráveis. Precisamos marcar um happy hour qualquer noite dessas."
Só de ontem para hoje já tinha recebido várias mensagens dos meus antigos companheiros de trabalhos, inclusive de Brooke, me parabenizando pelo meu primeiro evento.
"Vou cobrar isso, Sidle! E pode deixar que a primeira rodada de vodka é por minha conta.", ele manda e sorrio.
— O papo tá bom aí, né?
Ergo a cabeça do celular para encontrar Morgan me encarando com uma das sobrancelhas erguidas e um sorrisinho bem insinuante no canto dos lábios.
— É um amigo. Antigo companheiro de trabalho que está me parabenizando por sábado.
— Amigo? Sei.
— Amigo sim, Morgan Broddy.
— Ai, cruzes. Só a minha mãe me chama assim quando quer me dar uns puxões de orelha.
Não aguentamos sua fala e caímos na risada juntas.
— Agora mudando de assunto, chefinha linda... O lançamento já passou, foi um sucesso... agora que tal você fazer aquilo que te aconselhei?
— Pra quê? Eu tô bem. Não senti mais nada.
Mentira. Eu senti, mas ela não precisa saber. Tenho medo de ir ao médico e acabar descobrindo algo que não quero.
— Por favor, chefinha. Você disse que ia.
Suspiro. Eu sei que não ouvirei isso só dela. Dayse, certamente irá me cobrar o mesmo. E ambas não me deixarão em paz enquanto não for ao médico.
— Tá. Eu vou ao médico. Depois ligo para uma clínica e marco uma consulta para semana que vem.
— Não. Deixa que eu mesmo faço isso. E nada de semana que vem. Essa semana mesmo.
— Eu faço.
— Não me custará nada fazer. Você pode acabar esquecendo.
— Eu não vou.
— Vou logo lá vê isso.
— Morg... Morg... MORGAN!
E ela se foi da minha sala, ignorando por completo meus chamados.
Três dias depois, lá estou em uma clínica. Já fazia um tempinho que eu tinha me consultado com uma boa médica. Ela requisitou um exame de sangue feito há mais de uma hora e agora estou aqui no seu aguardo.
Eu realmente estou com medo, mais que isso. Estou APAVORADA! É aquela porta se abrir para eu ter uma negativa que irá tirar uma tonelada dos meus ombros, ou pior ainda, me deparar com a confirmação daquilo que vinha tirando o meu sono desde o momento em que cogitei aquela possibilidade mencionada por meu assistente.
Vamos lá, Sara! O que tiver que ser... Será!
Encaro o relógio na parede da sala e quanto mais eu vejo o ponteiro avançar nos segundos e minutos, mais aquela espera pela confirmação ou negação daquele fato me agonia.
Coragem! Você é uma mulher ou uma ratazana?!
Naquele momento eu estou mais para uma ratazana bem medrosa, diga-se de passagem.
Tudo o que eu não preciso agora é que minhas suspeitas se confirmem. Mas caso isso venha a se concretizar, a minha vida com certeza irá virar de ponta à cabeça.
A porta então se abre e imediatamente, eu encaro cheia de expectativas a mulher negra que adentra à sala. Ela traz nas mãos o papel onde está escrito se realmente o destino me pregou aquela peça sacana.
— E então? — tomo coragem e me arrisco em perguntar. Por dentro eu oro como louca para não ter a confirmação.
— Meus parabéns, você está grávida, Sara! — a boa doutora noticia com um sorriso.
Tal notícia cai sobre mim como uma bomba atômica.
Eu?
Grávida!
Essa gravidez é impossível! Eu me recuso a aceitar e acreditar naquilo.
— Não pode ser verdade isso! — verbalizo mais para mim mesma, do que propriamente para a profissional acomodada do outro lado da mesa.
— Bom... O exame que fez, diz exatamente o contrário.
Meu olhar se foca no semblante um tanto afetuoso e sereno da boa médica, que me sorri com certa amabilidade.
— Não!... — insisto na negação. — A senhora tem certeza disso?... Não existe a chance de ter dado um resultado errado ou a senhora ter interpretado de forma equivocada esse exame? — indago com um desespero gritante se apossando do meu ser.
Eu. Não. Posso. Estar. Grávida.
A médica diante de mim não parece se abalar com a minha escancarada desconfiança em seus conhecimentos clínicos, e continua sorrindo para mim com a mesma amabilidade que me parece genuinamente sincera e nada debochada.
— Não para ambas as hipóteses, Sara! — ela responde com uma calma que me deixa mais em desespero por dentro. — O exame Beta HCG que você fez é certeiro. Ele mede a quantidade desse hormônio no corpo. E no seu o resultado deu positivo.
Meu Deus! Isso só pode ser um pesadelo!
— Impossível! — digo, balançando a cabeça de modo negativo. — Eu não posso estar grávida! — rebato antes de cobrir os olhos com ambas as mãos enquanto sinto em minha garganta um nó se formar. Estou a ponto de chorar de desespero com aquela "sentença" mascarada de boa notícia, que deixaria qualquer mulher radiante de felicidade, mas não à mim.
Ouço o suspiro da médica e na sequência veio o seu questionamento calmo do porquê eu achar impossível estar grávida.
— Eu tomo anticonce... — me interrompo de modo abrupto ao me dar conta que faz um tempo razoável desde a última vez que lembro ter tomado o contraceptivo.
— Pelo visto, você esqueceu de tomar a pílula algum dia e manteve relação sexual sem uso de preservativo. — sentencia a doutora de modo calmo diante do meu silêncio que já se faz presente há alguns segundos.
Retirando as mãos do rosto, eu a encontro me observando com as mãos cruzadas sob o queixo fino, e um semblante sem qualquer vestígio de censura ou algo parecido a isto.
— Na verdade foram muitos dias que não tomei. — balbucio sem ainda crer que cometi essa burrada.
Também foram tantas coisas que aconteceram de dois meses ou três para cá, em sequência que tomar anticoncepcional seria a última coisa que eu lembraria. Talvez eu tenha parado antes mesmo de termos ido falar com meus pais. E depois disso também não lembro de ter tomado mais.
Burra!
Como eu fui esquecer de tomar?
E, agora o resultado disso está na minha barriga, crescendo e em alguns meses estará aqui berrando e me deixando noites em claro.
— Quantos meses? — é tudo que consigo perguntar.
— Cinco semanas. Que dá um pouco mais de um mês.
Faço as contas mentalmente e a última vez com Grissom faz esse tempo. Aquele cretino não só me deu um pé na bunda naquela sexta-feira negra como me deixou de "brinde" uma sementinha sua crescendo em meu ventre.
— Maldito! — exclamo socando o braço acolchoado da cadeira do consultório.
— Oi? — a doutora me olha assustada.
— Desculpa. Eu... — esfrego as duas mãos no rosto. — Não foi para a senhora isso. — resmungo.
— Pelo que vejo não se trata de uma gravidez planejada, certo?
— Certo! — respondo, retirando as mãos do rosto e encarando a médica que tem um semblante agora preocupado ou talvez entristecido.
— Me desculpe a intromissão, mas eu já vi muitas reações dessas como a sua e quase sempre precede a decisão de... você sabe.
Ela faz um gesto com as mãos que não compreendo.
— Não sei do que está falando.
— Abortar! — ela diz direta.
Arregalo os olhos diante daquilo.
— Não. Não... isso jamais. — digo rapidamente.
Por mais que não tenha sido uma gravidez planejada; que eu tenha sido burra o suficiente para não me prevenir; e que o pai desse serzinho seja um cretino de marca maior. Tirar o bebê não é algo que eu faria. Jamais!
Depois da minha resposta vi o semblante da doutora suavizar e o restante da consulta, ela me aconselhou sobre pré-natal e até me indicou uma ginecologista/obstetra amiga sua, que segundo ela é muito boa.
Saio da clínica com a cabeça a mil ainda com aquela "novidade".
Eu serei mãe. Mãe de um filho ou filha daquele cretino do Gilbert.
E não sei se quero contar isso para ele. Talvez, ele não mereça saber, já que fez a sua escolha que não foi eu.
E, outra, se eu contar... já posso ver Maryane dizendo que fiz de propósito para acabar com o casamento deles. Sendo que estou pouco me fodendo para o casamento dela com aquele cretino.
Meu Deus o que faço?
Escuto uma buzina e ao abrir os olhos dou de cara com Owen.
— Tá perdida, Sara?
— Não!
Mas bem que gostaria de estar.
— Estou indo almoçar. Quer me acompanhar? Ou você já almoçou?
— Não!
— "Não" para me acompanhar no almoço? Ou "não" para ainda não almoçou?
— "Não" para ainda não almocei. E "sim" para aceito te acompanhar no almoço, apesar de que eu não estou com fome.
Ele assente já saindo do carro. Todo educado abre a porta do carona para mim. E depois seguimos para um restaurante que não faço ideia.
— Não que seja da minha conta, mas o que fazia em frente aquela clínica?
Ele aproveita o semáforo vermelho e se vira para me fazer a pergunta.
— Fui fazer um exame.
— Céus! Você está doente? Porque não me falou nada. Eu...
— Ei, ei, ei... — o interrompi. — Eu não estou doente coisa alguma.
— Então?
Escutamos uma buzina e então percebemos que o semáforo já está verde para os carros.
— Acho melhor você seguir antes que o carro de trás passe por cima. — brinco.
Owen acelera e por meio minuto o carro fic
a em silêncio até meu chefe se pronunciar de novo.
— Você não irá responder o que perguntei?
— Já respondi. Não estou doente.
— Então o que você tem?
Suspiro enquanto apoio a cabeça ao vidro da janela do carro. Eu queria contar isso primeiro a Dayse, mas sei que agora ela está super ocupada e só poderá falar comigo a noite. E, eu estou necessitada de desabafar com alguém. Então que seja com Owen.
— Eu estou grávida, Owen!
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