After Separation - Livro 2
65 Capítulo LXIII
Grissom...
Doug?
O nome era um tiro frio e certeiro em meu peito, totalmente fora do roteiro de encontro que eu havia imaginado. Por um instante surreal, eu congelei, incapaz de processar a cena: Doug surgiu no arco da porta, logo atrás de Sara, sem camisa, exalando aquela pretensão de "dono da casa", como se vivesse ali há anos. Seu sorriso era de superioridade imediata, uma afronta.
O buquê de rosas vermelhas, que minutos atrás parecia um estandarte de vitória, agora pesava em meus braços como uma pedra de concreto. Meu olhar fixo nos olhos de Sara com uma intensidade desesperada por reciprocidade, desviou-se para encarar o sujeito que me fitava com uma seriedade calculada para causar medo.
— Grissom... Hoje não é dia de você visitar o Benny — Sara se pronunciou, a voz baixa, carregada de um desconforto visível. Estaria envergonhada? Não sabia se era de mim ou da situação constrangedora que seu "namoradinho" semi-nu havia criado.
— Eu sei. Vim para te ver, mas... Acho que interrompi alguma coisa.
— Sim, interrompeu — Aquele "projeto de homem plastificado" (todo músculo e pouca substância), tomou a dianteira na resposta, avançando um passo. O cinismo em seu tom era palpável. — É muita cara de pau sua trazer flores para a minha namorada.
O possessivo "minha" soou tão diminuto e territorial que até Sara lançou um olhar que eu julguei ser de repreensão. Mas era tarde demais. A raiva gelada que havia se formado em meu peito solidificou-se em pura determinação. Minha história e a de Sara tinham raízes profundas demais para serem ameaçadas por um galho recém-cortado.
Eu o encarei de cima a baixo, permitindo que o desprezo transparecesse. A coragem reunida para quebrar a resistência de Sara se redirecionou, afiada como uma lâmina.
— Escuta aqui... Sujeito. A Sara, antes de ser a sua namorada — algo que, se depender de mim, não vai durar muito mais tempo —, É a mãe do meu filho, alguém com quem eu tenho uma história que você nunca, jamais, terá. Portanto, se recolha à sua insignificância e fique calado, que é um bem que faz a mim e, principalmente, a você.
Sara me encarou, chocada com a ferocidade das palavras. Doug, o imbecil, piscou, momentaneamente desarmado. Era o momento de ir embora, mas não antes de cravar a marca final.
Me virei, o buquê ainda em mãos, e o atirei com força sobre a mesinha mais próxima, o papel amassando com um ruído seco e estridente. Sara pareceu querer dizer algo, mas eu a cortei com um olhar frio que prometia um acerto de contas doloroso e em particular.
— Nos falamos depois, Sara. Quando a "visita" for embora e você se lembrar de quem realmente importa aqui.
E então, sem esperar pela recuperação da compostura daquele idiota ou por uma resposta de Sara, eu me retirei. Não corri, mas caminhei com a dignidade ferida de quem sabe que perdeu a batalha momentânea, mas que a guerra ainda estava de pé. Deixei para trás o buquê e a promessa de que aquilo não ficaria assim.
Desci os dois lances de escada com os joelhos tremendo de raiva e o maxilar travado, sentindo o ardor da humilhação se espalhar por meu rosto. A dignidade de que me vangloriei segundos antes evaporou com cada degrau.
Eu usei o Benny. A autocrítica foi imediata e brutal. Usei nosso filho, a coisa mais preciosa que temos, como escudo e arma contra aquele... Sujeito. A raiva de Doug era justificada? Não, ele era um babaca possessivo, mas a minha manobra foi baixa. E o pior: não atingiu ele. Atingiu Sara. O olhar de choque dela valeu mais do que mil gritos.
Luke abriu a porta do carro, e me joguei no banco do carona, golpeando o painel com um soco mais forte do que o necessário. A visão estava turva. Não era só a frustração da interrupção, nem a raiva do confronto. Era a dor. Sara estava com Doug depois da conversa no carro ontem, depois de deixar subentendido que eu tinha chances. Ela estava com ele na porra da casa dela. A intimidade daquele homem semi-nu me fez sentir uma raiva cega e uma rejeição profunda.
— Senhor, tudo bem? — Luke perguntou, preocupado, enquanto eu mantinha os olhos fechados, tentando me acalmar e falhando miseravelmente, pois a mente trazia a imagem nauseante do "namoradinho" de Sara descamisado.
— Não, mas vai ficar — responde ao abrir os olhos.
Respirei fundo, tentando forçar o retorno do Grissom racional, aquele que não agia por impulso. O que tinha feito? Destruí a oportunidade de falar com Sara, transformando uma tentativa de aproximação em um ataque territorial patético.
Olhei para a fachada da casa, estilo vitoriana. As janelas estavam escuras, mas eu sabia que a discussão estava começando lá dentro, por minha causa. O que Sara diria a ele? O que ele diria a ela?
— Para onde vamos? Sua casa, senhor? — Luke indagou, tirando-me dos questionamentos internos.
— Não. Mas pode ligar o carro e seguir, que já te digo para onde vamos — ordenei, querendo sair dali o quanto antes.
— Sim, senhor.
O som do motor diminuía, transformando-se rapidamente em um zumbido distante à medida que o carro se afastava pela rua. A quietude preencheu o espaço. Aproveitando a ausência, meus dedos deslizaram até o celular no bolso, a tela fria um contraste momentâneo com o calor da minha mão. Sem hesitar ou precisar buscar na lista de contatos, disquei o número de memória – três toques rápidos, cirúrgicos, a melodia familiar do teclado confirmando que eu estava alcançando a pessoa exata. Era o contato certo, para a conversa que não podia esperar.
— Está ocupada? — Do outro lado da linha, ouvi a resposta: "Não, muito." — Posso passar aí então para tomarmos uma e conversar? — A confirmação veio sem hesitar. — Ok! — Encerrei a chamada e repassei o endereço do meu destino ao Luke, que assentiu enquanto eu guardava o celular, encostando a cabeça no vidro do carro.
"Nos falamos depois, Sara. Quando a 'visita' for embora e você se lembrar de quem realmente importa aqui."
A promessa de acerto de contas que lancei não era mais uma ameaça vazia. Era uma missão. A guerra estava de pé, e agora o objetivo não era APENAS reconquistar o amor de Sara; era também tirá-la o quanto antes daquele sujeito que, claramente, a deixava desconfortável. Doug acabara de assinar seu próprio atestado de óbito. Eu não descansaria até que ele saísse da vida dela, ou, pelo menos, da nossa vida — a minha, de Sara e do nosso filho.
****
Duas batidas secas, exatas e ritmadas, contra a madeira escura da porta representaram o limite da minha paciência exaurida. A espera subsequente, de poucos e tensos segundos, se desdobrou em uma eternidade febril, com cada batida martelada do meu coração reverberando amplificada nos meus ouvidos. Quando a fechadura finalmente destrancou, o rangido mínimo da dobradiça ecoou no silêncio denso e pesado do corredor, um som quase insuportável.
Ali estava Teri, a figura que eu buscava, emoldurada pela moldura da porta e pela luz fraca e amarelada que vazava do seu flat. Ela estava quase engolida por um moletom cinza e folgado, cuja textura macia contrastava com a tensão do momento, e seu cabelo claro estava apanhado num coque desgrenhado, sinal de uma noite de trabalho ou insônia. O cansaço profundo era evidente, marcando o contorno dos seus olhos, mas dentro deles havia uma faísca imediata de algo mais — um alarme silencioso.
— Que cara é essa de quem está a ponto de cometer um crime, Gil? — A voz de Teri, grave e ligeiramente rouca, cortou o ar estático como uma lâmina fria. Ela permaneceu parada, bloqueando a entrada com o corpo, exigindo uma justificação inabalável antes de me conceder refúgio.
Inspirei fundo, um ato que parecia puxar chumbo para os meus pulmões, deixando o suspiro escapar longo e pesado. O ar à minha volta parecia frio e denso.
— Porque, de fato, estou a ponto de cometer um crime, Teri.
— Ok! Entra, Gil! — Ela finalmente cedeu, afastando-se com um gesto impaciente para o interior acolhedor. — E tranca essa porta.
Eu deslizei para dentro e, obedecendo à ordem, girei a chave na fechadura, sentindo o clique final da segurança como um pequeno alívio físico. A sala de estar era pequena, mas irradiava aconchego, impregnada por um cheiro familiar e reconfortante de café forte misturado ao aroma suave e persistente do incenso de sândalo. Sem etiqueta, fui direto para o sofá de tecido, afundando nele com um ímpeto desesperado, buscando refúgio como quem escapa de um naufrágio iminente. O corpo ainda tremia levemente, resquício da raiva do confronto anterior.
— Estava trabalhando? — Notei a desordem organizada de papéis e cadernos abertos sobre a mesa de centro de madeira escura.
— Sim. Mas não veio aqui para falar disso, né?
— Não. Mas...
— Sem "mas". O que quer beber? — Teri inquiriu, cortando minha tentativa de divagação com uma autoridade calma.
— Uísque sem gelo. — Pedi, o desejo de algo forte e puro.
— Não tenho. Até porque não tomo essa bebida horrível. Tenho cerveja, e está estupidamente gelada.
— É, vai ter que servir.
Observei Miller enquanto ela se dirigia à mini cozinha conjugada. Era um espaço funcional, de linhas limpas, com armários brancos e uma bancada de madeira escura que criava um contraste sóbrio com o acolhimento da sala. Uma pontada de curiosidade me atingiu: por que ela insistia naquele espaço compacto? Com o salário que recebia na Care, ela poderia arcar com algo infinitamente maior.
— Por que você não compra um apartamento maior, Teri? — Indaguei enquanto a observava abrir a geladeira com um whoosh de ar frio, que silenciou momentaneamente o ruído fraco e distante da rua. De lá, ela retirou duas garrafas long neck, o vidro completamente embaciado e úmido pelo gelo intenso. Pegou dois copos altos e cilíndricos no armário, dispensando qualquer formalidade de taças.
— Porque não tem necessidade. Além do mais, gosto de espaços compactos e funcionais. — Ela explicou, destampando as garrafas com um som metálico e satisfatório. O líquido dourado e efervescente jorrou nos copos, criando uma espuma densa. Ela depositou meu copo na mesinha de centro, à minha frente, e sentou-se na poltrona individual, de frente para mim, com as pernas cruzadas de forma relaxada, o moletom cinza realçando seu ar de desprendimento.
— Mas não é compatível com o cargo de Diretora Executiva que você ocupa na Care. — Comentei, quase sem querer.
— Foda-se! Agora, bebe e me conta o que foi que aconteceu que te deixou nesse estado de querer cometer um crime. — disse Teri, tomando um gole longo e despreocupado.
Eu peguei o copo. O frio cortante do vidro em minhas mãos trêmulas era um contraste bem-vindo, um âncora para o calor da minha raiva. Tomei um gole grande e rápido. O amargor intenso e o gás cortante da cerveja forçaram uma careta involuntária no meu rosto, mas a sensação era exatamente o choque químico que eu precisava para forçar as palavras a saírem.
— Eu fui na casa da Sara ainda pouco, como te falei mais cedo na Care, que faria — comecei, a voz saindo mais rouca e quebrada do que eu pretendia. A garganta estava seca, não pela cerveja, mas pelo nó de raiva que eu ainda tentava desalojar. — Não fui de qualquer jeito. Fui com um buquê de flores, determinado a começar a provar com ações que eu posso ser diferente, a pessoa que ela precisa e a insistir por aquele futuro que, eu sei, nós ainda podemos ter juntos...
Parei, a imagem daquele namoradinho dela sem camisa se formando, nítida e cruel, na tela da minha mente.
— E quem abriu a porra da porta para mim, ou melhor, quem estava lá dentro, atrás dela, com um sorriso cínico, seminu e com a presunção óbvia de ser o dono da casa? O "namoradinho" dela. O tal de Doug.
Teri, que estava prestes a levar o copo à boca, paralisou o movimento no ar. Os olhos dela, fixos em mim, não demonstravam surpresa, apenas uma aceitação fatalista. A luz fraca refletia, em um pequeno brilho, no gelo derretido do líquido dourado.
— Gil, você queria o quê? — A voz de Teri desceu a um tom baixo e terrivelmente pragmático, quase um sussurro que, paradoxalmente, carregava todo o peso da realidade. O copo na mão dela desceu com lentidão deliberada até a mesa de centro, a ação um prenúncio de que a conversa seria dura. — Ele é o namorado dela. É óbvio que ele deve ter passe livre. Se duvidar, eles já até dividem a cama.
— Merda, Teri Miller! Não me faça imaginar isso.
O grunhido escapou dos meus lábios antes que eu pudesse contê-lo. A bile subia na minha garganta, amarga pela admissão tácita daquela verdade. Dei outro gole generoso, engolindo o líquido gelado com a violência de quem tenta sufocar um pensamento.
— Foi mal. Continua. — Teri disse.
— E ele teve a audácia, a arrogância insolente, de me dizer que eu era cara de pau por trazer flores para a namorada dele.
— Mas você foi, Gil. — Teri manteve a calma, mas a ponta do seu lábio se curvou minimamente. Eu fechei a cara, a expressão azeda e incredulidade.
— Porra! Você é minha amiga ou o quê? — a encarei, cético, a testa franzida em ultraje.
— Sou sua amiga, mas você precisa ouvir o óbvio às vezes, Grissom. Ela está com ele. — Ela sustentou meu olhar desafiador. — E não digo que foi cara de pau levar flores, mas foi... — Teri fez uma pausa, escolhendo as palavras com precisão de bisturi. — Foi uma atitude ousada. Francamente, territorialista. Uma coisa que você sabe ser como ninguém, Grissom. Você invadiu o território.
— Foda-se!
O xingamento foi gutural, uma explosão sibilante de ressentimento que ecoou na sala silenciosa. Deixei a onda de indignação me consumir por um segundo inteiro, sentindo o calor febril subir pelas minhas têmporas. Quando prossegui, minha voz estava afiada, carregada de um veneno calculado, o tom de um sibilo vingativo. Eu me inclinei instintivamente sobre a mesinha de centro, quase invadindo o espaço de Teri, citando a mim mesmo com perversa satisfação:
— Eu disse a ele que, antes de ser namorada dele — o que, aliás, não vai durar muito tempo, fiz questão de enfatizar —, Sara é a mãe do meu filho. E que ele deveria se recolher à insignificância dele. — Minha voz se quebrou no final com o excesso de arrogância mal disfarçada. — Eu o fiz parecer ridículo.
Teri não expressou satisfação vingativa ou choque moral. Apenas manteve o olhar firme, avaliando a extensão do estrago com a frieza de uma analista — não o dano feito à auto-estima de Doug, mas o que eu tinha acabado de causar nas minhas próprias e frágeis chances de reatar. O silêncio que se seguiu não era vazio; era preenchido pelo zumbido distante da rua, que agora parecia amplificar a tensão entre nós.
A minha fúria inicial escoou subitamente, como um vazamento lento, deixando para trás apenas a cinza fria e pesada do arrependimento. Eu apertei o copo, quase vazio, sentindo o vidro úmido e gelado contra a palma da mão que permanecia estranhamente quente.
— Mas agora eu não sei se foi a melhor atitude, Teri — confessei, a voz voltando a ser um sussurro rouco de derrota, rasgando o silêncio. — Eu deveria ter focado nela, na Sara. Como ela disse, minha luta não é contra aquele sujeito, é contra o que fiz. Mas a raiva... O ciúme corrosivo de vê-lo ali, tão à vontade, seminu, com a chave do mundo dela na mão, me cegou completamente. A intimidade dele na casa dela... me fez sentir rejeitado, como se meu passado com Sara não valesse nada. Foi uma punhalada dolorosa, aqui. — Levei a mão ao centro do peito, indicando a dor.
Teri pousou o copo com um pequeno e final "clank" na mesa e inclinou-se para a frente, o cotovelo afundando no tecido macio do moletom. Seu olhar, que antes era difuso pelo cansaço, agora estava sério, focado, e brilhava com uma determinação fria.
— Calma. Respira, Gil. Você está agindo como se tivesse perdido a guerra por causa de uma escaramuça*. Você não fez algo totalmente estúpido. Pensa bem. O que você disse sobre ele se recolher à insignificância? — Um sorriso tênue e aprovador deslizou pelos lábios de Teri. — Isso foi... genial. Ele te provocou e você revidou de forma cirúrgica.
— Mas, algo me diz, que não é uma atitude que Sara veria com bons olhos. — Minha voz acelerou, entrando em espiral de ansiedade. — Agora ela deve estar furiosa comigo pelo meu comportamento, Teri! E ele está lá com ela, neste exato momento. Consolando-a, provavelmente, dizendo que sou um ex-louco e descontrolado.
Teri ignorou completamente minha espiral de ansiedade, estendendo a mão para tocar levemente meu braço, um gesto de ternura física.
— Você ainda ama a Sara muito, não é? De verdade.
Tomei o último gole da cerveja, sentindo o amargor metálico e azedo do fim da bebida misturado, de forma estranha e familiar, ao da minha própria confissão prestes a sair. O copo desceu para a mesa com um ruído quase inaudível, e eu olhei fixamente para a espuma residual por dois segundos, como se ela fosse a última prova material de um sentimento que não acabava. Só então ergui os olhos para Teri. Ela me olhava com uma ternura sem julgamentos, a aceitação melancólica que só se reserva para verdades dolorosas e auto impostas.
— Não consigo imaginar um dia da minha vida, desde que a conheci, em que eu não a ame, Teri. — Meus lábios se esticaram em um discreto, quase invisível sorriso, um reflexo involuntário, mas poderoso, que a simples menção do nome dela sempre provocava. Sara era, para mim, o ponto de origem de tudo que valia a pena, e a causa de toda a minha saudade eterna.
— E quem diria que o mais avesso dos homens ao sentimentalismo ia cair de amores assim? — Teri riu, balançando a cabeça. — O chá da Sara pegou pesado, te nocauteou de vez, hein, Gilbert Grissom.?
Sorri, o olhar distante.
— Pra ser honesto, ela já tinha me nocauteado bem antes do chá. — Confessei.
Teri levantou a garrafa vazia com a ponta dos dedos.
— Mais uma?
— Por favor.
Ela se levantou e cruzou a sala em direção à geladeira. Voltou em segundos, me entregando a cerveja gelada.
— Você disse que a conheceu numa festa.
— Obrigada. — Agradeci, pegando a garrafa. Comecei a despejar o líquido no copo, a espuma subindo. — A conheci em uma beneficente da Camille, uma conhecida em comum. Assim que a vi naquela festa, Teri... tive um único e claro pensamento.
— Qual?
Revelei, o sorriso se alargando:
— "Gostei. Essa mulher é minha, e eu fico com ela antes que a noite acabe."
Teri depositou a própria garrafa na mesinha, um brilho divertido nos olhos.
— O lendário Gilbert Grissom em modo ataque total.
Rimos juntos, brindando a velha confiança.
****
Sara...
O estalo seco da porta se fechando ressoou no silêncio da sala. Eu me virei, e a expressão no meu rosto era tudo, menos acolhedora.
Doug não perdeu tempo. Com os braços cruzados e o maxilar ainda tenso pela visita de Grissom, ele disparou:
— Esse cara é muito abusado e completamente sem noção.
A raiva me subiu à garganta. Apontei o dedo para ele, e minha voz era um chicote:
— E você também!
O cenho dele se franziu em confusão e ofensa:
— O quê?
— O cúmulo da cara de pau é você trazer flores para a MINHA namorada! — Devolvi, imitando, sem querer, o tom possessivo dele. Minha voz era alta, carregada de frustração acumulada. — Eu não sou sua propriedade, Doug. Pare de agir como se eu fosse!
Ele desviou o olhar, passando a mão pela barba por fazer, e respirou fundo, cedendo à pressão. A voz veio mais baixa e tensa:
— Droga. Ok. Me desculpe, Sara. Não vamos brigar por causa desse sujeito.
Ele deu um passo na minha direção, mas eu recuei instintivamente, barrando qualquer tentativa de toque.
— Você disse que tínhamos que conversar. Eu imagino o que seja. É sobre o meu... comportamento de ontem, né?
Ele se moveu e se sentou na ponta do sofá, curvado, com os braços apoiados nos joelhos. O olhar que me dirigiu — uma mistura de seriedade e uma doçura terrível — selou o meu destino. Eu soube, naquele instante, que era o fim da linha.
— Não, Doug. Não é sobre ontem. É sobre nós. E eu preciso que você me escute até o fim.
Doug absorveu a frase como um golpe físico. O ar pareceu denso demais para respirar. Ele não pediu que eu continuasse; a pergunta já estava escrita na sua testa.
Apoiei-me na coragem fria e dura que a certeza finalmente me trouxe. Dei um passo à frente, firmando os pés no chão da sala, minha postura exaustivamente ensaiada.
— Estou ouvindo, Sara. — Sua voz era controlada, quase um murmúrio gélido.
Fechei os olhos por um microssegundo, a dor cruzando seu rosto porque sei que vou magoá-lo, mas não há outro jeito. A confissão saiu dos meus lábios como um sopro de ar velho, carregado de peso.
— Não consigo mais, Doug. Eu... eu quero terminar.
Doug soltou uma risada curta, estrangulada, mais nervosa do que incrédula, e se levantou abruptamente do sofá. O tecido roçava enquanto ele se movia, a energia subindo em tensão.
— Essa não é uma piada engraçada, Sara. Estamos bem. Por que isso, agora?
— Não estamos bem, Doug. E eu não estou te tratando da forma que você merece. Estou sendo injusta com você. E eu não aguento mais carregar essa culpa pesada.
— Injusta como? Você está inventando um problema que não existe para destruir o que construímos.
— O problema existe, e ele tem nome. Grissom. — resolvi ser honesta, sentindo o nome cortar o ar.
Doug paralisou completamente, como se o chão tivesse sumido sob seus pés. A onda de raiva que estava prestes a explodir transformou-se em choque paralisante.
— Claro! Esse maldito sujeito! — sibilou ele, a voz baixa e venenosa.
— Eu tentei, eu juro que tentei viver o que temos, mas em todos os momentos, há sempre uma sombra gélida. Uma comparação silenciosa. E eu percebi que não consigo te dar um futuro limpo, um futuro que não seja contaminado pela minha incerteza. Você merece alguém que te escolha completamente, Doug, sem reservas ou fantasmas.
— Não, eu escolho você. — Ele balançou a cabeça em negativa frenética, as palavras apressadas e desesperadas. — Eu escolho as suas reservas, os seus medos, os seus e se. Eu te amo, Sara.
Sua declaração de amor, dita com uma intensidade crua e inesperada, me pegou desprevenida e abalou a parede de minha resolução.
— Você não pode jogar o que já temos, o pouco que construímos juntos, porque está pensando em algo que ficou para trás.
— Não estou jogando fora. Estou sendo honesta. — Falei, a voz um fio fino, mas firme. — Continuar seria mentir para você e para mim. Essa decisão é definitiva.
A recusa dele foi imediata, uma explosão de negação visceral.
— Não. — ele sibilou, a palavra áspera e afiada. Doug então começou a caminhar de um lado para o outro sobre o tapete persa, os passos curtos e rápidos, a energia irradiando um pânico contido, como um animal enjaulado. — Não, eu não aceito. É uma fase, Sara! Você logo vai ver que isso é um erro monumental. Não é sobre o Grissom, é sobre o seu medo de ser feliz, de seguir em frente, e eu estou aqui para lutar contra esse seu medo!
— A gente se beijou... Grissom e eu. — Minha confissão escapou dos meus lábios como um suspiro silencioso, quase inaudível, mas atingiu Doug com a força ensurdecedora de um golpe físico no plexo solar. Mantive o olhar fixo no dele, sem desviar, sentindo o peso da traição.
Doug parou de andar abruptamente, travando no meio do movimento, a rigidez de uma estátua. O sangue parecia drenar de seu rosto em segundos, deixando-o de um pálido doentio e frio. Ele se virou lentamente, como se estivesse sob a água, a incredulidade e a traição congeladas em seus olhos agora arregalados e vazios.
— Você e ele... — A voz dele mal passava de um sussurro rouco, um som quebrado. — Quando diabos isso aconteceu?
— Não importa quando foi. — respondi, a mão subindo instintivamente para tocar a clavícula, buscando um ponto de ancoragem no turbilhão. — O que importa é que isso me fez ter mais certeza de que ter começado essa relação com você foi um erro colossal, porque eu, mesmo não devendo, ainda tenho sentimentos pelo Gilbert.
— Esse sujeito te magoou, te feriu e te deixou no meio do nada, e ainda assim você me diz que tem sentimentos por ele? — A acusação era carregada de uma dor lancinante.
— A gente não manda no coração, Doug. — Minha voz estava carregada de uma tristeza genuína, não de raiva. — Eu queria, de verdade, ser recíproca com o seu amor, mas não consegui ir além de um simples gostar e do conforto.
— Porque aquele maldito sujeito voltou! — ele berrou, descontrolado, a voz estrondando na sala. O grito repentino foi o bastante para assustar Benny, que estava em seu carrinho, e o choro agudo e imediato do meu bebê rasgou o ar.
— Viu o que fez? — lancei um olhar feio, cortante, para ele enquanto me dirigia apressadamente ao carrinho do meu filho. Peguei Benny no colo, o cheiro de bebê e a pequena forma quente imediatamente me acalmando, e comecei a embalá-lo ritmadamente, sussurrando para acalmar meu bebê.
— Sara, não pode terminar assim. — Ele insistia, a voz agora desesperada.
— Doug, por favor. Eu já decidi. Acabou.
— Eu não vou aceitar. Você pode ter decidido unilateralmente, mas eu não. Eu vou te dar um tempo para você pensar de novo, para a poeira baixar. Eu estarei aqui.
— Você precisa aceitar. — retruquei com raiva, o tom baixo, mas frio, pelo fato de ele ter assustado meu filho com seu descontrole egoísta.
— Eu me recuso. Não vou perder você por causa de um fantasma maldito do seu passado que só te fez mal!
— Acabou, Doug. Não tem volta. — Falei, firme, com Benny aninhado no ombro. — Eu quero que você saia da minha casa. Agora.
O choque transformou seu rosto. A dor crua e a incredulidade entraram em conflito, congelando-o por um momento de paralisia.
— Você está falando sério mesmo? Depois de tudo? Depois desse tempo que passamos juntos?
— Depois desse tempo, eu estou, pela primeira vez, sendo honesta comigo mesma. E, o que é mais importante, com você.
Ele hesitou, os olhos fixos nos meus, procurando uma falha, qualquer fresta de dúvida ou recuo. Quando não a encontrou, apenas balançou a cabeça lentamente, a derrota se espalhando como uma mancha fria sobre ele.
— Certo. Certo, Sara. Se é isso que você realmente quer.
Ele pegou as chaves do carro na mesinha de centro, o movimento brusco, evitando olhar para mim novamente, e caminhou pesadamente em direção à porta.
— Depois devolvo a bermuda do seu irmão e pego o restante da minha roupa.
O clique final e seco do trinco, dessa vez marcando a saída definitiva de Doug, não sinalizou o silêncio, mas sim o início de um novo, e estranhamente leve, tipo de paz que há muito eu não sentia.
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