Narrador....

Doug irrompeu no apartamento. Seus olhos não estavam apenas injetados; eles ardiam, veias salientes na esclera vermelha, como brasas sob a testa franzida pelo ódio. Ele não fechou a porta, ele a esmagou contra o batente, um estampido seco e violento que ecoou como um tiro na quietude da noite. O clique agressivo e final do trinco selou o isolamento.

​O corpo de Doug paralisou-se, tenso e ereto, no centro do carpete. O ar estava eletricamente carregado, denso com a promessa de violência contida. Ele mal respirava, o peito subindo e descendo em espasmos controlados, absorvendo o silêncio antes da erupção.

​Um ronco baixo, animalesco, nasceu em seu peito, um som que lutava para escapar da garganta apertada, crescendo, distorcendo-se em um BERRO cru e rouco.

​— Não! Não, isso é impossível! Não pode ser!

​Seu olhar varreu a mesinha de centro. O copo esquecido, meio cheio, foi agarrado com ferocidade e lançado contra a parede de gesso. O estilhaço foi uma cascata vítrea e ensurdecedora, o líquido salpicando em manchas escuras que logo seriam absorvidas. Em seguida, ele apreendeu um calhamaço de capa dura — um livro — e o projetou na direção da estante, onde o volume atingiu a madeira com um baque surdo antes de deslizar para o chão, a lombada irremediavelmente rasgada e aberta.

​Doug cambaleou, virando-se para iniciar um vaivém frenético pela sala, a respiração sibilante. Suas mãos, garras crispadas, agarravam os cabelos, puxando os fios na agonia do desespero.

​​— Eu fiz exatamente o que era preciso! Eu cumpri cada maldito detalhe! — ele esbravejava para o teto vazio.

​O celular, um peso morto, foi arrancado do bolso. Doug encarou o aparelho, o dedo suspenso sobre o ícone do contato por uma eternidade tensa, antes de discar com uma decisão amarga. Apenas três toques antes que a voz atendesse do outro lado, áspera e impaciente.

​— Eu deixei claro para não me ligar que...

​Doug cortou o interlocutor com a força de um soco vocal.

​— A Sara terminou comigo! — Sua voz agora era um cochicho venenoso, vibrando com indignação e a pontada da traição. — Terminou por culpa exclusiva daquele desgraçado do Grissom.

​Do outro lado, o interlocutor manteve um tom estranhamente nivelado, perigosamente calmo.

​— Isso era inevitável. Eu já tinha te avisado que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer.

​— Avisado?! — Doug explodiu em um rugido que fez suas têmporas latejarem, um som que engoliu a sala. — É, você me avisou, mas eu não queria ter perdido a Sara! — Sua voz falhou, embargada por uma dor momentânea, um vislumbre de vulnerabilidade que ele sufocou instantaneamente na raiz do seu ódio.

​— Ah, não!... É sério? Você se apaixonou por ela? — A voz do interlocutor era fria, metálica, desprovida de qualquer paciência para o drama romântico.

​— E se eu tiver me apaixonado, qual é o problema? Não é nenhum crime.

​— O problema é que isso se torna uma distração, Doug. Seu objetivo principal não era a Sara. Esqueça-a. Agora, se recomponha. Não é hora de chilique. O plano está em andamento.

​— Aquele... — O nome do homem que causou o rompimento ficou preso na garganta, uma maldição inacabada, mas cheia de promessa. — Vai me pagar por isso também. E eu não vou esquecer a Sara. Ela é minha agora.

​— Ela era apenas um meio para que chegasse perto do Grissom, Doug. Não perca o rumo do plano por um rabo de saia. Mantenha o foco.

​— Meu foco não mudou. Apenas ganhou mais um aditivo, um sabor ainda mais pessoal.

​A respiração de Doug se tornou acelerada, transformando-se em ofegos curtos e irregulares. Seu ódio havia se acentuado, ganhando um corte mais afiado, mais preciso.

​— Vai ser um golpe e tanto na pose de Grissom, quando a verdade vier à tona.

​— Cada vez que estou diante dele, sinto vontade de jogar a merda toda na cara daquele desgraçado.

​— Não faça isso. Já te avisei que precisamos pegar o Gilbert desprevenido. Eu conheço aquele ali como a palma da minha mão. Atacá-lo de surpresa vai deixá-lo momentaneamente de guarda baixa.

​— Já sei disso. — Doug passou a mão pesadamente pelo rosto, forçando-se à sobriedade. — Não vejo a hora de ver aquele arrogante cair do seu pedestal... Quero Gilbert Grissom na ruína.

​— Você não é o único. A ruína ainda é pouco para esse escroto. Mas tudo no seu tempo. Não seja impulsivo. Siga minhas instruções e vai dar tudo certo, como tem dado até aqui.

​— Suas instruções? — Doug permitiu que um sorriso de escárnio frio torcesse seus lábios. — Não esqueça quem manda aqui — resmungou com uma aspereza calculada.

​— E não esqueça também que se não fosse por mim te encontrar, você não estaria tão perto do seu alvo como está agora, Doug. Não ponha as coisas a perder por causa da Sara.

​Doug suspirou, um som longo de desagrado, ignorando a provocação.

​— Vamos mudar para o plano B — disse Doug, impávido.

​— Ainda é muito prematuro. Seja cauteloso.

​— Faça o que estou mandando, caralho!

​— Veja bem como fala comigo. — O tom do interlocutor se tornou uma ordem inegociável. — Vamos esperar para ir ao plano B. E não me ligue de novo ou ele pode rastrear a ligação.

​A linha morreu com um clique seco. Doug encarou o celular, o metal frio e escorregadio em sua mão suada. O ódio não havia se dissipado, mas se transformou em um vazio frio, corrosivo, de propósito. Permitiu que o aparelho caísse no carpete. O som foi suave, quase insignificante, um contraste brutal com a violência da explosão anterior.

​Ele levantou o olhar, percorrendo o rastro do estrago — o copo estilhaçado, o líquido no gesso, o livro com a lombada rasgada. Pela primeira vez, viu o reflexo do monstro determinado, friamente calculista, que havia acabado de se revelar.

​Doug não se moveu por um longo minuto. Apenas a respiração sibilante preenchia o ar pesado e quieto. O calor frenético da raiva cedeu lugar a uma calma artificial, perigosa e precisa. Sentia o sangue pulsar na garganta, mas o coração, estranhamente, estava dormente, revestido de gelo. A perda de Sara não era mais um motivo para lamentar, mas sim uma ferramenta, a moeda de troca que ele usaria para alimentar sua vingança.

​Inclinou-se, devagar, apanhando o celular do chão. A tela estava milagrosamente intacta. Sua vingança não seria uma explosão irracional; seria uma tarefa fria, metódica, como havia sido traçada desde o início.

​Caminhou até a janela, colocando as pontas dos dedos contra o vidro gélido. A paisagem urbana noturna parecia distante, irreal, o burburinho da vida comum alheio à sua escuridão interior. "Precisamos pegar o Gilbert desprevenido," ele murmurou, repetindo a ordem como um voto sagrado. Fechou os olhos por um segundo, e o desespero de minutos atrás havia sido substituído por uma frieza de aço, calma e cirúrgica.

​Não era mais o homem que tinha hesitado; era uma máquina reconfigurada para um único objetivo. O pânico deu lugar a uma clareza cortante que lhe afiou os sentidos. A respiração estabilizou-se, lenta e profunda, e a rigidez que subia-lhe pela coluna não era de medo, mas sim de uma determinação implacável.

​Abriu os olhos. O reflexo no vidro mostrava agora um rosto sem emoção, os olhos fixos, analisando o plano com precisão cruel. Ele sorriu, um movimento pequeno e sem alegria que não alcançou os olhos. A necessidade de agir, pura e desprovida de sentimento, inundou-lhe o peito como água gelada, extinguindo a última brasa de culpa.

​Virou-se para a sala escura. A sombra estendeu-se, quase engolindo-o. "Desprevenido..." repetiu, desta vez não como uma ordem, mas como o sussurro de um caçador. O jogo tinha mudado, e ele não ia perder a única chance que lhe restava.

****

Sara...

Enquanto eu cortava um pedaço do quiche de legumes, Morgan inclinou-se sobre a mesa, diminuindo o volume da voz para um cochicho conspiratório. Seu cheiro de perfume misturava-se ao aroma da comida.

​— Chefe — ela começou, os olhos piscando rapidamente antes de desviar o olhar para além do meu ombro. — Eu imagino que ele deva estar louco para vir falar com você.

​Segui o olhar de Morgan. A algumas mesas de distância, perto da máquina de sucos, estava Doug. Sua postura parecia tensa e ligeiramente curvada, como se carregasse um peso invisível. Ele estava mexendo distraidamente na salada, parecendo mais absorvido em seus pensamentos do que na refeição ou na conversa com quem quer que estivesse à sua frente. Havia uma espécie de melancolia contida na maneira como ele passava a mão pela nuca.

​Morgan aproveitou o meu silêncio, voltando-se para mim com uma expressão de sincera confusão, quase de desaprovação fraterna.

​— Eu ainda não me conformo que você terminou com ele.

​Pousei o garfo e peguei um gole d'água, sentindo o olhar pesado de Morgan. O peso da fofoca e da expectativa alheia sobre minha vida pessoal era quase palpável, mais denso do que o vapor da travessa de arroz à sua frente.

​— Morg — respondi, a voz mantendo um tom baixo e controlado, mas com uma borda de firmeza que a fez encolher-se ligeiramente. — Isso não é assunto para o almoço. E não é assunto para o refeitório.

​Ela, porém, estava ligada no assunto e não se deu por vencida facilmente.

​— Mas, chefe... Vocês formavam um casal tão bonito. E ele está claramente sofrendo — Morgan insistiu, gesticulando discretamente com o garfo. — É só olhar para ele. Se você o quisesse de volta, ele...

​Interrompi minha assistente antes que terminasse, esboçando um sorriso pequeno e tenso.

​— Se eu o quisesse, Morg, ele não estaria ali e nós não teríamos terminado. Iniciar um relacionamento com o Doug, ainda gostando de outra pessoa, foi um tremendo erro da minha parte. Algo que espero ter corrigido, em parte, com o término, deixando Doug livre para encontrar alguém que realmente o mereça e que possa retribuir o sentimento de forma completa.

​Morgan absorveu a seriedade das minhas palavras em um silêncio pesado. O entusiasmo se esvaiu de seu rosto, e ela baixou o olhar para o prato com visível constrangimento.

​— Ah, Sara. Eu não sabia mesmo... — murmurou ela, a voz baixa, denunciando o peso de sua gafe. Eu havia apenas comunicado o fim com Doug, mais cedo, na minha sala — uma confissão rápida após Morg, com seu faro aguçado, notar que eu não estava bem.

​— Tudo bem, Morgan. Agora você sabe — respondi, suavizando o tom. — E por favor, mantenha isso entre nós. Não quero que o refeitório inteiro comece a especular sobre a minha vida amorosa ou, pior, que o Doug se sinta ainda mais exposto.

​Morgan assentiu com um vigor exagerado, selando o juramento de confidencialidade com a formalidade de uma ministra. Mudamos rapidamente de assunto, enterrando o drama pessoal sob a urgência prática dos prazos do novo lançamento.

​De volta à minha sala, o silêncio era uma armadilha, e a culpa que eu vinha tentando sufocar irrompeu com a força de uma maré. Lembrei-me do sorriso breve e ainda gentil de Doug quando passamos perto dele no caminho para a saída do refeitório, e essa imagem apertou meu peito com garras invisíveis. Por mais que a razão gritasse que o término era a decisão correta, a dor e a culpa de ter machucado alguém tão bom quanto Doug permaneciam, pulsando sob a superfície. Sua mágoa, real e evidente até para o radar de Morgan, era um lembrete constante do meu erro: ter permitido que ele se aproximasse quando meu coração ainda estava irrevogavelmente preso ao de Grissom.

​Respirei fundo, tentando injetar lógica na emoção. O único "conserto" possível agora era garantir que a transição de ex-namorados para colegas fosse a mais suave possível. Talvez, com o tempo e a distância, Doug pudesse, de fato, encontrar alguém que o fizesse esquecer o quanto eu fui um equívoco em sua vida.

​Retomei meu trabalho de ajustar os últimos detalhes do lançamento do "Canto da Sereia", mas volta e meia a lembrança do sorriso gentil e olhar triste de Doug vinha me açoitar com um chicote implacável. A culpa tinha um peso físico e insistente, uma opressão no diafragma que me impedia de me concentrar nas planilhas e cronogramas. A urgência do lançamento, discutida minutos antes com Morgan, parecia agora uma distração trivial diante do estrago emocional que eu havia causado.

​Decidi que precisava de um novo plano, algo além da mera "distância profissional". Talvez uma ação, por menor que fosse, pudesse aliviar um pouco a sensação de impotência e erro. Abri um novo e-mail, hesitando sobre o que escrever. Uma nota de desculpas mais formal? Um desejo sincero de que ele ficasse bem? Ambas as opções soavam vazias, insuficientes para remendar o quebrado.

​Fechei o e-mail sem enviar. A comunicação precisava ser sutil, vir do coração, não de uma tentativa egocêntrica de aliviar minha própria consciência.

​Levantei-me da cadeira, o corpo rígido. Olhei pela janela da minha sala para o movimento lá embaixo na rua, buscando um pouco de perspectiva. O sol da tarde pintava o céu de tons alaranjados, indiferente aos meus dilemas.

​O tempo avançava, mas a paz se recusava a chegar. O sorriso gentil de Doug e meu coração batendo por Grissom continuavam a dançar um tango doloroso na minha mente, enquanto eu tentava, em vão, focar no brilho e no glamour do lançamento de "Canto da Sereia". A ironia era cruel: eu estava prestes a lançar um produto sobre sedução e desejo, enquanto meu próprio mundo desmoronava sob o peso de um coração partido – o de Doug, por minha causa, e o meu, por Grissom, que permanecia uma chama acessa e incontrolável.

​O amor que sentia por Gilbert era algo indescritível e imensurável, uma melodia de fundo que, apesar de todo o caos, estranhamente ainda me mantinha viva e ancorada. Estava lá quando eu ria com Doug, estava lá quando eu o beijava e estava lá quando transei com ele, estava lá agora, em cada batida acelerada do meu peito. Grissom era a bússola do meu desejo, apontando sempre para uma direção que a realidade proibia, mas que, de alguma forma, por mais errada que fosse, inexplicavelmente, parecia certa e necessária.

​Fechei os olhos, a exaustão mental me atingiu em cheio. Abracei o dilema: a culpa por ter ferido Doug, e a dor por Grissom, a quem eu amava com uma intensidade que trazia consigo um medo antigo e bem fundamentado devido ao nosso histórico turbulento. Eu era a sereia do meu próprio projeto, atraindo pessoas para perto apenas para vê-las naufragar nas águas turbulentas da minha indecisão e do meu coração ferido.

​Talvez a única transição suave possível fosse a minha própria aceitação. Aceitar que eu havia machucado um homem bom por causa de um amor não curado. Aceitar que, no complexo mapa do desejo, às vezes as pessoas são apenas transeuntes em caminhos que nunca deveriam ter se cruzado.

​Respirei fundo. O ar pesado da sala parecia insuficiente. Não estava mais com cabeça para trabalhar. Eu precisava do refúgio da minha casa, da certeza do cheiro calmante de lavanda que meu pequeno Benny exala.

​Recolhi minhas coisas apressadamente e me dirigi à porta. Ao abri-la, dei de cara com Morgan com o punho fechado no ar, prestes a bater.

​— Que susto, mulher! — ela exclamou, com um sorriso que logo se desfez ao notar minha expressão. — Aconteceu alguma coisa?

​— Estou indo para casa. Vou trabalhar de lá.

​— Mas a gente tem reunião logo mais com o autor e seu agente para ajustar algumas coisas da festa de lançamento do livro.

​— Eu sei. Transfere para amanhã, Morgan. Pede desculpa para eles e inventa que houve um imprevisto. Preciso ir para casa agora. Até.

​Passei por ela sem lhe dar tempo para réplica, a urgência de escapar superando a cortesia. Enquanto seguia rumo ao elevador, escutei Morgan resmungar, resignado: "Ok, chefe!"

****

In the dark of night

Na escuridão da noite

Those small hours

Começo da madrugada

I drift away

Eu me perco

When I'm with you

Quando eu estou com você*

Ao entrar em casa, a meia luz da sala me acolheu como um abraço silencioso. A brisa que vinha da janela aberta era uma bênção, trazendo o familiar e suave aroma de lavanda que eu tanto ansiava – o cheiro de casa, o cheiro de Benny. No sofá, sob a luz fraca da tarde que se esvaía, encontrei Lina, imersa na leitura de um romance de capa grossa, com seus óculos de leitura equilibrados na ponta do nariz. A ausência imediata do carrinho de Benny por perto causou um leve sobressalto no meu peito, um instinto materno que exigiu a confirmação do paradeiro do meu filho.

​— Oi, Lina! — cumprimentei, minha voz soando mais exausta e áspera do que eu pretendia.

​Ela levantou o olhar do livro, um sorriso brando e acolhedor iluminando seu rosto.

​— Oi, Sara. Chegou cedo hoje. Aconteceu algo?

​— Só preferi vir trabalhar de casa. — Larguei minha bolsa sobre a poltrona, e, pela primeira vez no dia, senti o peso real escorrer dos meus ombros, substituído pelo vazio. — Benny está dormindo no quarto?

​— Até agora há pouco, ele estava acordado com o senhor Grissom. — Lina contou casualmente, voltando a atenção para a página onde havia parado.

​Meu coração falhou uma batida, depois disparou. A menção do nome dele soou como um sino ensurdecedor no silêncio da casa, um lembrete vívido e inevitável do tango doloroso que dançávamos em minha mente na editora. Lancei um olhar rápido e instintivo em direção às escadas, como se Grissom pudesse materializar-se no topo do lance a qualquer instante, um fantasma de desejo.

​— Ah! Grissom está aí? — A pergunta saiu mais como um sopro, uma admissão de que o universo tinha, de fato, um senso de humor sádico, orquestrando nosso encontro no exato momento em que minha vulnerabilidade atingia o pico. Não havia tempo para me recompor, para colocar a máscara da ex-namorada de Doug.

​— Sim! Ele chegou há meia hora — Lina confirmou, os olhos ainda presos ao romance.

​Assenti, o nó na garganta se apertando. O aroma de lavanda de Benny, lá em cima, de repente não era mais suficiente para me acalmar. Eu precisava de espaço, precisava de um minuto, precisava dela fora do meu campo de visão para processar.

​— Bom, se quiser ir, Lina, está dispensada. Eu assumo a partir de agora.

​Lina fechou o livro, levantando-se com a calma e a discrição de quem compreende a complexidade não dita da situação.

​— Certo, Sara. Até amanhã, então. — Ela pegou a bolsa e passou por mim, lançando um olhar discreto, quase de advertência, para as escadas antes de sair pela porta da frente, selando meu destino e o encontro inevitável.

Fiquei suspensa na sala vazia, o ar preso nos pulmões. O silêncio da casa era uma amplificação cruel da minha própria pulsação acelerada. Reuni a coragem que me restava e comecei a subir os degraus, sabendo que, no topo daquela escada, meu passado e meu presente estavam prestes a colidir.

​Cada passo era uma hesitação dolorosa, arrastada. Subi devagar, permitindo que a luz suave que escapava pela porta entreaberta do quarto de Benny me guiasse. Pressionei a mão contra a madeira e empurrei a porta, entrando.

​A cena que se abriu desarmou instantaneamente o turbilhão dentro de mim.

​Grissom estava sentado na poltrona de balanço, de costas para mim, e Benny aninhava-se, um peso quente e pacífico, em seu colo. Ele cantarolava uma melodia baixa e familiar, quase um murmúrio ritmado. Reconheci-a na hora: era a mesma canção daquela banda antiga, que Grissom cantou para mim uma vez, no carro, me deixando no antigo trabalho na NP. Eu não lembrava o nome da banda, mas a melodia e o refrão estavam indelevelmente gravados na minha mente desde então.

​A canção, ou talvez a voz rouca e suave de Grissom — a junção perfeita dos dois —, era um bálsamo para o nosso filho. Benny o observava, com os olhos curiosos e já pesados de sono, enquanto ele o embalava. O cheiro de lavanda, que vinha do corpinho dele, misturava-se agora ao perfume inconfundível de Grissom. Juntos, criavam uma nuvem de conforto que me envolveu, trazendo consigo a memória vívida de nós dois em seu carro, embalados pela melodia gentil daquela canção.

​Grissom não percebeu minha presença imediatamente. Observei o carinho em seu gesto, a forma como seus dedos traçavam suavemente o contorno do cobertor do bebê, um toque de dedicação que me tocou profundamente. Era uma cena de paz doméstica que contrastava violentamente com a guerra civil que eu travava internamente.

​Quando Grissom virou a cabeça e seus olhos azuis encontraram os meus no batente da porta, a música parou abruptamente, como um disco arranhado. O sorriso gentil que ele dirigia a Benny desvaneceu-se, substituído por uma expressão de surpresa, cautela e uma ternura que ele tentou, sem sucesso, disfarçar.

​— Sara — sussurrou ele, a voz baixa para não acordar o bebê, que agora fechava os olhos. — Você chegou cedo.

​Aproximei-me, fechando a porta atrás de mim para abafar os sons da casa. O ar no quarto pareceu rarear, carregado com tudo o que não havíamos dito sobre nós.

​— Precisava do meu filho.

​Grissom levantou-se, entregando Benny para os meus braços. A troca de calor dos corpos, o contato visual prolongado enquanto eu recebia meu filho, fez meu coração acelerar de uma forma que a culpa por Doug não conseguia sequer modular.

​— Aconteceu alguma coisa? — Seu olhar parecia me escanear, perspicaz, tentando decifrar o que de errado eu tinha.

​— Não. Cansaço apenas. — menti, embalando Benny em meus braços, buscando refúgio no peso dele. — Lina disse que você estava aqui. — forcei uma neutralidade na voz que não sentia.

​— Vim me despedi do camarada, pois ficarei ausente por uma semana. — Ele contou com certo pesar, desviando o olhar para o chão por um segundo.

​— Aconteceu alguma coisa? — foi a minha vez de fazer uso da frase, percebendo sua frustração genuína.

​— Nada sério, apenas minhas responsabilidades na Alemanha, cobrando a minha presença. E para completar tenho um compromisso em Copenhague. Um fórum entre CEOs da indústria farmacêutica, quinta e sexta-feira da semana que vem. Devo voltar somente no sábado, dia do mesário desse camarada. — ele comunicou, acariciando de leve a mão do nosso filho.

​— Você vai estar bem ocupado.

​— Bastante. Viajo amanhã cedo. E na minha ausência o Lewis vai cuidar das coisas do mesário. Mas gostaria de pedir que se você puder, que dê uma ajuda a ele. Meu irmão já está enrolado com as coisas do casamento dele.

​— Tudo bem. Ajudo, sim.

​— Eu queria muito poder cuidar de cada detalhe, como já vinha cuidando, mas ser CEO de uma empresa e ter inúmeras responsabilidades, tornam as coisas complicadas.

​Ele parecia claramente frustrado com a situação, a sombra de sua decepção visível em seu rosto. Tentei amenizar um pouco a sua frustração.

​— Você ainda tem muitos mesários e aniversários dele pela frente para organizar, Grissom. Não se preocupe.

​Seu leve sorriso não pareceu muito convincente, mas ele assentiu, aceitando o consolo que eu tentava oferecer.

​— Mas eu queria cuidar desse por ser o primeiro que estarei presente. Mas paciência.

​Um silêncio pesado caiu entre nós, um silêncio que falava volumes sobre o nosso passado, o nosso presente complicado e o futuro incerto.

​Naquele quarto, sob a luz suave do abajur, com meu filho dormindo tranquilamente entre nós, a realidade do meu dilema se solidificou. Grissom estava a centímetros de mim, real e presente, e o amor por ele era tão avassalador.

​— Sabe?... Vou sentir falta de vocês a cada dia que estiver longe. — ele confessou em um fio de voz, a vulnerabilidade nua e desprotegida. Seus olhos azuis, hipnotizantes, fixos em mim, buscando que eu lhe retribuísse aquelas palavras.

​O silêncio que se seguiu à sua confissão foi ensurdecedor. Meus olhos se encontraram com os dele, e naquele olhar compartilhado, uma torrente de memórias inundou o quarto: risadas, discussões acaloradas, beijos roubados, a dor da separação e a inexplicável atração que ainda nos unia, apesar de tudo.

​Hesitei, as palavras presas na garganta. Dizer "eu também sentirei sua falta" era fácil, mas o peso emocional por trás delas era imenso. Significava admitir a mim mesma, e a ele, que o amor por Grissom nunca havia diminuído, apenas ficado dormente sob as camadas de responsabilidades e as tentativas fracassadas de seguir em frente com outras pessoas, como Doug.

​Optei pela segurança da ambiguidade.

​— Uma semana passa rápido — respondi, minha voz um pouco mais rouca do que o normal. Forcei um leve sorriso, tentando mascarar o turbilhão de emoções que me consumia. — Aproveite a Alemanha e a Dinamarca. E cuide das suas responsabilidades.

​Grissom pareceu absorver minha resposta evasiva. O olhar de expectativa em seus olhos azuis esmaeceu, transformando-se em uma compreensão tácita, levemente tingida de decepção. Ele assentiu devagar, um movimento sutil que me dizia: ele sabia o quão difícil era para mim ser vulnerável, especialmente com ele, e não insistiria.

​— Certo. Bom, é melhor eu ir agora. Tenho que arrumar minhas malas para amanhã cedo.

​Acompanhei-o até a porta do quarto, com Benny aninhado em meus braços. A luz fraca do corredor esculpia o perfil de Grissom. Naquele instante, o amor e o desejo que eu sentia por ele cresceram numa proporção gigantesca. Eu o queria por perto, odiava a ideia de vê-lo partir para outro continente, mesmo que a viagem fosse durar apenas uma semana.

​— Não vi seu carro lá fora quando cheguei.

​— Eu vim de carro de aplicativo — ele respondeu, os dedos deslizando pela tela do celular. — E estou chamando outro agora para ir para casa.

​— O que houve com o Luke? — Minha curiosidade era palpável.

​— Foi à Alemanha visitar a filha e apresentar a namorada a ela — comentou, finalmente me encarando.

​— O Luke, namorando? Sério? — Minha surpresa não era forçada.

​— Sim — Grissom confirmou com um sorriso malicioso. — Se ficou surpresa ao saber disso, ficará mais ainda ao saber quem é a namorada.

​— Quem?

​— Hellen.

​— Mentira?!

​Meu queixo caído era a prova do espanto. Luke e Hellen, a sua secretária? A novidade, embora alheia ao meu drama principal, soou como uma nota aguda e inesperada na sinfonia caótica da minha vida. Grissom observava minha reação com um sorriso brando, parecendo se divertir com minha incredulidade.

​— Eles estão juntos há alguns meses já.

​— Uau!... Que sejam felizes. Todos precisam de um par na vida para caminhar ao lado, para compartilhar o fardo e a alegria da existência.

​A frase me escapou com uma ponta de melancolia. Grissom aproveitou a abertura, e sua pergunta veio direta e reta, como uma flecha:

​— Acha que Doug é o seu par na vida, Sara?

​— Grissom...

​— Sim ou Não?

​— Não!

​Minha negativa agiu como um ímã. Em um único passo, ele estava parado bem à minha frente, Benny sendo a única barreira, que evitava um contato mais íntimo entre nós.

​— Por que está com ele, então... honey?

​Aquele "honey" me atingiu com a precisão de uma chave mestra, destrancando as portas da minha resistência. A proximidade de Grissom era inebriante, o cheiro do seu perfume misturando-se ao de Benny, criando uma atmosfera que era só nossa e que se tornava mais densa a cada segundo. Benny, alheio à tensão erótica que se instalava, continuava a dormir tranquilamente em meu colo.

​Eu poderia ter lhe contado que já não estava mais com Doug, mas, estranhamente, não quis fazê-lo. A verdade tinha o potencial de explodir a bolha frágil de intimidade que Grissom acabara de criar, e aquela bolha, eu não queria estourar.

​— Eu... eu não sei — sussurrei, a voz me falhando. A mentira por omissão era um peso na garganta, mas a perspectiva de ver a expressão de Grissom mudar, de surpresa para algo que exigiria uma discussão completa sobre nós, me fez recuar.

​Grissom não recuou. Ele estendeu a mão, e seus dedos roçaram a bochecha macia de Benny. O gesto, embora direcionado ao meu filho, carregava uma intimidade que me fazia tremer por dentro.

​— Você sabe, Sara. Você sabe o que quer. — Sua voz era quase um murmúrio, uma promessa. — E assim que eu te provar com ações o que você e eu sabemos que quer... você vai externar o que está aí dentro do seu coração.

​Ele piscou, e um sorriso irrompeu em seu rosto — não o sorriso debochado de sempre, mas o carinho doce que ele reservava apenas para mim, para os nossos momentos particulares, felizes e íntimos no passado.

​Grissom retirou a mão de Benny, e seu olhar desviou-se do meu por um instante, a expressão voltando a ser mais contida.

​— Bom, agora eu tenho mesmo que ir. Meu carro de aplicativo chegou.

​Acompanhei-o até a porta. Com Benny ainda aconchegado em meu colo, senti a casa parecer imediatamente fria e vazia com a iminência da sua partida.

​Na porta de entrada, com a brisa noturna entrando e nos envolvendo, ele me encarou uma última vez.

​— Antes que eu me esqueça... Quero te pedir desculpas pelo meu comportamento de ontem. Agi por impulso. Chame de ciúmes, se quiser. Mas me arrependo da cena. Espero que aceite as minhas sinceras desculpas, Sara.

​Assenti, incapaz de formular qualquer palavra além de um gesto mudo.

​— Até semana que vem... honey.

​— Até... cretino.

​Ele soltou aquele sorriso que eu tanto amava, um brilho travesso antes de dar o passo decisivo para fora. Grissom seguiu em direção ao carro de aplicativo que esperava por ele no meio-fio. Ao abrir a porta do veículo escuro, acenou uma última vez e desapareceu no interior.

​Fiquei petrificada na porta, observando as luzes traseiras do carro sumirem na esquina. Suas palavras ainda ecoavam, não apenas na minha mente, mas em todo o meu peito: "Você sabe o que quer."

​E eu sabia. O problema era que o que eu mais queria, naquele momento, era que ele ficasse, que não viajasse, que voltasse. Mas a covardia me prendeu à soleira, impedindo-me de dizer a única coisa que realmente importava: que eu estava livre, e que a única pessoa que eu queria por perto, hoje, na próxima semana, e pelo resto da vida era ele.


Notas finais
*Trecho da canção By My Side - INXS Alguém já se rendeu, por completo. Só falta colocar para fora essa rendição.