After Separation - Livro 2
33 Capítulo XXXI
No dia seguinte, uma terça-feira, eu já estava na editora para mais um dia de trabalho. Pelos corredores se ouviam repercutir as boas novas dos noticiários a respeito do maior incêndio já registrado na Califórnia, o Thomas, que segundo o jornal matinal informou está 88% controlado e as autoridades deram o prognóstico de que não crescerá mais.
Lamentável esse incêndio. O fogo destruiu uma área de 1.140 quilômetros quadrados, nove vezes a cidade de São Francisco, desde que começou, há três semanas, em 4 de dezembro: 1.063 imóveis ficaram destruídos e 280 afetados, segundo um balanço dos bombeiros do estado. Mas felizmente parece que tudo caminha para um bom desfecho apesar dos pesares, e é isso que importa.
E enquanto no oeste foi o incêndio a preocupação, por aqui pelo norte, o problema são as temperaturas cada vez mais baixas. Segundo o mesmo telejornal, para os próximos dias são esperadas nevascas. Terei que comprar mais algumas roupas para o frio pelo jeito, porque congelar não está em meus planos.
- Bom dia, chefinha. Que frio, hein?! — comenta Morgan já seguindo em meu encalço até minha sala.
- Aí, nem me fale! A propósito, bom dia também. — digo enquanto vou me desfazendo do casaco, já que não há necessidade de ficar com ele, posto que na sala possui aquecedor. — E dizem que vem mais frio pela frente.
- Eu vi no jornal. Falaram até em uma possível nevasca em alguns dias.
- Pois é... Agora mudando de assunto... O que temos para hoje? — lanço um olhar a minha assistente depois de me acomodar na cadeira.
- Pouca coisa, já que adiantamos a maior parte semana passada. Vamos lá então... — observo Morg mexer no tablet em sua mão e então, retoma a fala: — Você precisa assinar algumas papeladas para serem despachadas... Avaliar alguns manuscritos que ficaram pendentes... E tem uma reunião com o pessoal do marketing para traçar novas estratégias de propaganda para o próximo lançamento.
- Ótimo! Então... Ao trabalho.
O restante daquela semana foi tranquilo no quesito "trabalho", posto que Morgan e eu já tínhamos adiantado nosso serviço bem antes do Natal chegar. Porém, tive que lidar com os "sintomas" da gravidez, que resolveram pegar pesado comigo. Os enjoos foram bem frequentes, principalmente no período matutino; sono em demasia, parecia um urso em época de hibernar; meu humor mudava da água para o vinho em questão de instantes; a frequência de idas ao banheiro me irritava, porque de tempinho em tempinho eu queria fazer xixi; e ainda tinham as cólicas e sensibilidade nas mamas. Eu era a própria bomba hormonal em pessoa, que estava quase deixando minha assistente louca. A pobrezinha e seu namorado vinham sendo uns anjos que me socorrem sempre que eu precisava, quer fosse quando passava mal, quer fosse para satisfazer um desejo absurdo como, por exemplo: salada vegana em cima de picles com molho picante. Morgan fez o pobre do Memo rodar a cidade atrás de um lugar que vendesse isso. O homem acabou achando um simplório restaurante de comida caseira onde vendia a salada, não do jeito que eu queria, mas a dona do estabelecimento acabou fazendo do meu jeito após ele relatar que era para uma mulher grávida. Assim que, Morgan entrou na minha sala, empunhando a marmita que Memo trouxe com a iguaria, eu caí de boca nela e antes da metade, sai correndo para o banheiro para vomitar a salada. Ô raiva!
- Fim de turno, chefinha.
- Amém! Juro, que estava rezando para que você cruzasse a porta com essa notícia.
Morgan ri se acomodando na cadeira diante de minha mesa.
- Tudo certo para amanhã, né?
Lanço um olhar para minha assistente enquanto guardo alguns manuscritos dentro da bolsa, para dar uma lida neles lá em casa.
- Sim, Morgan! Inclusive, meu irmão chega hoje.
Mais cedo, Sean mandou mensagem que estava chegando a noite. Infelizmente, não traria a namorada, pois ela ia trabalhar, já que folgou no Natal.
- Ai, super empolgada para conhecer seu irmão.
- Deixa o Memo saber da sua empolgação.
- Ai, mulher, credo!
Sorrio.
- Você viu se Julie e o Doug querem ir conosco? — indago ao me pôr de pé e ajeitar a bolsa em um dos ombros.
Quando comentei com Morgan dias atrás que meu irmão vinha passar o réveillon comigo e que, pretendíamos ir para a Times Square, a minha assistente contou que este também era seu plano com Memo. Então resolvemos ir juntos e dei a ideia de chamarmos o Doug, o Owen e a Julie, já que ela e eu temos ficado cada vez mais próximas. Enquanto o editor de artes e Julie ficaram a cargo de Morgan convidar, o Owen ficou por minha conta.
- Sim, eles irão. Inclusive, o Doug ficou todo animado quando soube que você ia, chefinha.
- Hum... — me limito em dizer.
- E o chefe máster, você convidou? — Morgan questiona toda empolgada, seguindo em meu encalço ao sairmos de minha sala.
- Convidei. Mas, infelizmente, ele não vai poder ir. Owen vai para Houston passar o ano novo com os pais. Parece que a mãe dele não está muito bem de saúde.
- Ah, que pena! Melhoras para a mamis do chefe máster. E, falando nele, lá vem ali. — avisa Morgan e avisto Owen vindo em passadas apressadas.
- Nossa, pensei que já tinha ido embora.
- Aconteceu alguma coisa? — franzo o cenho ao indagar.
- Não. Só queria me despedir mesmo. Já estou indo pegar meu voo.
- Ah, sim!
Sem se importar em nada que estávamos cercados por vários funcionários trabalhando por ali pela ampla redação, Owen me abraça enquanto me desejava antecipadamente um feliz ano novo.
Confesso que fico sem jeito com sua total falta de inibição. Observo por cima de seus ombros enquanto ainda estamos abraçados, algumas pessoas nos olhando e cochichando, outras sorrindo e até alguns olhares de reprovação como, por exemplo, de Mckeen que passa naquele instante por ali.
Algo me diz que esse abraço carinhoso sem qualquer fins amorosos, vai servir de pauta pelos corredores da BoB por dias, porque o povo ali adora fofocar. E, o fato de alguns por ali não gostarem de mim, aí mesmo que meu nome vai rolar na boca desse povo.
- Te desejo tudo de melhor nesse próximo ano que vai chegar, Sar.
- Obrigada, Owen. Mas tá todo mundo olhando. — cochicho para ele e só então, ele se dá conta da situação embaraçosa que nos meteu. Rapidamente, desfaz nosso abraço.
- O que estão olhando? — ele encara o pessoal que feito uns coelhos assustados voltam na hora aos seus serviços. — Foi mal! — me pede sem jeito.
- Tudo bem.
- Se preparem para serem alvo de cochichos maldosos. — alerta Morgan.
- Quero ouvir qualquer cochicho maldoso que será advertência na hora. — Owen diz em um tom de voz audível o suficiente para ser ouvido por quem estivesse por perto.
- Relaxa, Owen. Agora já foi. — tranquilizo meu chefe e amigo. — Que você também tenha um ótimo ano novo. E que a saúde de sua mãe se restabeleça o quanto antes.
- Obrigado, Sara. Que Deus te ouça.
- Chefinha, o seu Uber já está na frente da editora.
Ouvimos Morgan informar atrás de mim.
- Eita! Tenho que ir, Owen. Morg avisa que tô descendo. — peço e me viro outra vez para Owen. — Boa viagem, Owen. Tudo de melhor para você e seus pais.
- Pra você dois também. — ele murmura e lança um olhar rápido para minha barriga, e entendo que ele se refere ao bebê.
Sorrio e dou uma piscadela para o homem diante de mim, que retribui o sorriso. Me despeço dele e de Morga antes de partir. Ainda escuto minha assistente resmungar ao fundo para Owen um: e eu não ganho também abraços carinhosos e felicitações de ano novo?
***
Parada na aérea de desembarque do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, eu olho pela vigésima vez para o relógio: 08:40 PM. O voo do meu irmão está atrasado em vinte minutos e já fico impaciente com essa demora toda.
Cansada de esperar em pé, vou me acomodar em uma das cadeiras acolchoadas dali da área e exatos cinco minutos depois, avisto Sean. E para minha surpresa, ele não vinha só. Com um sorriso que vai se abrindo lentamente à medida que os dois homens vêm se aproximando de mim, eu ainda custo a crer em quem vejo.
Me levanto quando faltam alguns passos para eles chegarem em mim e meu gesto faz o acompanhante de meu irmão correr e só parar quando chega em mim. Seus braços se atiram em torno de minha cintura e o sujeito me ergue do chão, começando a rodopiar comigo.
- Chega, Greg! Tô ficando enjoada. — peço e ele prontamente atende rindo.
- E aí, priminha gostosa?
Ele me estala um beijo na bochecha.
- E aí?! E esse visual? — indago, querendo rir de seu cabelo raspado estilo moicano.
- Não ri. Perdi uma aposta e o resultado foi esse.
- Que aposta, criatura?
Antes que Greg dissesse, Sean que chega na gente naquele instante é quem conta aos risos, que nosso primo apostou com um amigo que conseguia ficar com a prima do sujeito, mas perdeu a aposta ao ser rejeitado em todas as suas investidas.
- Aí, descubro depois que... O filho da puta só esqueceu de avisar que a prima é lésbica e... Casada.
- Bem feito! Otário! — xingo, caindo na risada.
- Falei a mesma coisa. — Sean diz enquanto trocamos um abraço.
- Complô dos irmãos Sidle contra mim?
- Sempre! — respondemos juntos e inevitavelmente caímos na risada, os três.
Entre zoações para o lado de Greg e atualizações sobre como andava a vida de cada um ali de nós, seguimos dentro do Uber rumo à minha casa.
Nessa noite fomos dormir super tarde por ficar de papo os três. Felizmente, amanhã não tinha que ir trabalhar, senão estaria ferrada.
***
"Centenas de milhares de pessoas estão fazendo a peregrinação anual neste domingo (31) para a Times Square, em Nova York, para testemunhar a queda da gigante bola de Ano Novo à meia-noite, sem se deixarem abater pelo frio intenso e por uma operação de segurança sem precedentes.
A temperatura em Manhattan deve cair para cerca de 12 graus Celsius abaixo de zero nas últimas horas de 2017, com uma sensação térmica de 15 graus negativos, de acordo com o site AccuWeather.com."
- Caramba! Eu podia estar no Havaí em vez de tá nesse frio. — reclama Greg enquanto tomamos café da manhã com a tv ligada no Good Morning America.
- Ainda dá tempo de pegar um voo e ir para lá, reclamão.
- E perder a chance de passar a virada do ano ao lado da minha priminha gostosa e eterna crush? Negativo.
- Puxa saco! — mostro a língua para ele que sorri.
- Respeito que ela é uma mulher grávida!
- E daí, Sean?... Sara, se quiser eu posso assumir seu bebê? Prometo ser o melhor pai.
- Até parece! Um crianção desse, querendo ser pai de outra criança, vê isso Sean?!
Meu irmão cai na risada comigo o acompanhando enquanto Greg nos encara nada satisfeito pelo comentário.
- Desde que coloquei os pés aqui, vocês estão fazendo bullying comigo. Não venho mais! — indignado, ele diz apontando a colher de chá em nossa direção.
- Ah, coitado dele!
Nosso restante do dia se resumiu em perturbar o pobre Gregory e se preparar para a nossa saída à noite. Estávamos os três ansiosos por passar a virada na Times Square, já que seria a nossa primeira vez. E apesar da temperatura no horário ser baixa e alguns fatores negativos quanto passar a virada do ano no meio da muvuca, estávamos também empolgados.
Mas nossa empolgação só aumentou quando, após o almoço, Morgan ligou, avisando que Memo conseguiu com um amigo entradas para todos nós no 230 Fifth, o rooftop bar mais popular da cidade. Segundo minha assistente, veríamos de lá a queda da bola na Times Square, mas sem estar no meio da muvuca, o que na opinião dela seria muito melhor para mim que estou grávida. "Sar, a programação por lá é extensa e ótima, com DJs, pistas de dança, open bar e, ao invés de um jantar, é servido lanches leves e petiscos. O evento tem início às 20h e segue até às 2h da manhã. Ou seja, dá para aproveitar bastante.", ainda justificou Morgan.
- Mudança de planos, meninos. Vamos passar a virada em um bar na Times Square e não mais, no meio da muvuca. — comunico após a ligação.
- Agora gostei! — comemora Greg.
A empolgação dele se dava pelo fato de que se fôssemos passar no meio da muvuca haveria mais desvantagens que vantagens. Para começar, teríamos que enfrentar um frio de rachar. Não bastasse isso, ainda precisaríamos ficar nesse frio de rachar por horas. As filas começam a se formar em torno de meio-dia. Depois que você passa pela revista da polícia e adentra a área do evento, já era. Não pode mais sair nem para ir ao banheiro, porque lá na festa da Times Square não tem nem banheiro químico para quebrar o galho. Dizem à boca pequena que a plateia costuma ir com uma providencial camada extra por baixo da roupa (sim, de fralda) para eventuais emergências. Deus me livre!
E se não bastasse isso, não pode beber na rua, o que era o pior para Greg. Segundo ele, não seria nada legal esperar por horas, na maior friaca, sentado no chão, sem banheiro por perto e completamente sóbrio, sem nem uma sidrazinha para brindar, uma bola que leva 60 segundos para descer. E mais, em 15 minutos depois da meia noite é fim de festa e já não há uma alma viva na rua.
Olhando por essa ótica não seria muito divertido mesmo!
***
Por volta das dez da noite, chegávamos em frente ao 230 Fifth, localizado no 230 Fifth Avenue Building. À nossa espera já estavam Morgan, Memo e Doug, que veio junto com os dois primeiros.
Cumprimentei todos e na sequência, apresentei meu irmão e Greg ao trio.
- E a Julie?
- Mandou mensagem avisando que está a caminho, mas vai demorar um pouquinho por conta do trânsito. Portanto, é para nós esperarmos por ela lá dentro.
- Ok! Então vamos nessa.
Entramos no local e já tinha um número bem significativo de pessoas na parte interna onde tem o salão que fica o restaurante todo moderninho, com poltronas confortáveis e luz negra em toda parte. Um DJ tocava em um espaço central.
Morgan sugeriu de irmos para o terraço por ser mais arejado e sem tanta luz psicodélica, algo que não me faria bem. Assim, seguimos para lá e no local enorme e bem iluminado, outro bar e uma vista incrível para o Empire State e Midtown. Um show de música ao vivo estava rolando em um pequeno palco montado próximo ao bar. Por sorte, não precisaríamos nos preocupar com o frio, pois haviam aquecedores para deixar todo mundo confortável, mas ainda assim preferi manter-me com o casaco que vim por cima do vestido.
O conhecido de Memo conseguiu uma boa mesa para nós e após nos acomodar no lugar, deixou o cardápio de bebidas para que a gente escolhesse, avisando que depois voltava para anotar nossos pedidos.
- Você, obviamente, vai beber algo sem álcool, né?
- Evidentemente, né Morgan.
- Eu vou na cerveja. — Doug nem precisou olhar o menu. — A cerveja daqui é bem gelada.
- Já veio aqui antes? — olho curiosa para Doug.
- Sim, com um amigo. Ele só gosta daqui.
- Bom, se você diz que a cerveja é bem gelada então é nela que vou. — meu irmão sentencia sem também olhar o menu.
- Vou nesse EMPIRE KAMIKAZE SHOT, que leva Vodka, triple sec e suco de limão fresco. — Greg faz sua escolha.
- Eu vou de mojito de framboesa. E você, Memo?
- Vou no mesmo do primo da Sara.
- E você, Sar?
- Só me sobra esse, SKYLINE PUNCH, que é feito com suco de laranja, purê de pêssego, abacaxi, suco de limão, xarope simples e coberto com refrigerante de limão.
Memo sinaliza ao amigo dele que vem em segundos tomar nota dos pedidos. Momentos depois estávamos com nossas bebidas e uma cestinha com aperitivos bem gostosinhos e quentinhos, o que leva a conclusão de que são feitos na hora.
Julie chegou algum tempo depois, pedindo desculpas pelo atraso. Explicou que seu ex teve um problema e, se atrasou para buscar o filho deles, Chris. O garoto passará o réveillon com o pai e a madrasta, já que o natal ficou com a mãe.
Entre bebidas e conversas animadas, as horas voaram e logo já estávamos fazendo a contagem regressiva para o novo ano. Assim que terminamos, os fogos de artifício começaram a pintar o céu de várias cores enquanto assistíamos a bola de cristal descendo.
Em silêncio me vejo pedindo para este ano novo que se inicia, ser o melhor possível, cheio de prosperidade, felicidades e abençoado, para mim e, principalmente, para o meu bebê que vai chegar dali há uns meses.
Depois que o "show" da bola acabou, troquei abraços de felicitações e desejos de um ano maravilhoso a cada um do pessoal ali comigo. Finalizamos com um brinde e os melhores desejos para esse 2018.
***
- Esse cara tá afim de você.
Suspiro e reviro o olho em desagrado com o comentário repetido do meu primo.
- Greg para de besteira. — lanço um olhar nada contente para o sujeito. Estamos só os dois à mesa, já que os demais foram dançar na pista e já é a quarta vez que ele sai com essa.
- Não é besteira. Tô falando sério. E quer saber?... Não gostei dele, Sar. Ele não me traz uma boa sensação.
- Uma boa sensação? — indago, sorrindo em ironia. — Desde quando você é dado a ter esses lances de sensação?
- Debocha bem, viu?!
- Isso é ciuminho de primo. Cresce, Gregory.
- Não é ciúmes. Antes fosse. — retruca meu primo antes de bebericar seu drinque. — Sei lá... Ele é solícito e bom moço demais. Não gosto de gente assim, me passa a sensação de ser falsa.
- Essa é boa! Agora ser educado é motivo de desconfiança e falsidade?
- Não. Só que... Não sei explicar ao certo... Mas... Ele te olha de um jeito como se estivesse te estudando para dar o próximo passo.
- Que absurdo!... Gregory acho que chega de beber, que você já está alucinando. — tiro o copo de sua mão.
- Ei, Sara!... Para a sua informação, não estou bêbado ainda. Sei muito bem o que estou falando.
- Não sabe não. E deixa eu te perguntar... O que você acha que ele é?... Algum psicopata? Que vai me fazer alguma coisa? Deixa de loucura.
Me irrito com sua desconfiança sem precedentes. Doug nunca me deu motivos para pensar mal dele, muito pelo contrário. Ele é um amor de pessoa, um cara incrível e gente boa pra caramba.
- Só tome cuidado com esse cara bonzinho demais, por favor.
Não digo nada. Meus olhos estão observando Doug dançando com Julie. Eles sorriem de algo e parecem se divertir. Então, Doug me olha e sorri. Com a mão direita, ele acena para mim, juntamente com Julie.
- Sar!? Você ouviu o que eu disse?
- Ouvi. Só que ele não tem cara de que me faria mal, Greg. Não sei porquê acha que devo ter cuidado. — retruco enquanto aceno de volta para Doug e Julie.
- Ninguém traz na testa o letreiro de que seja uma pessoa ruim, Sara. Grissom foi um bom exemplo disso.
- Chega! Você foi longe agora. — olho para ele no mesmo instante, estampando meu descontentamento com sua fala em uma carranca séria e uma entonação de voz, que Gregory conhece quando fico puta com alguma besteira dita por ele.
A menção ao nome daquele cretino feita por meu primo, foi a pior parte de toda aquela conversa.
- Ok, desculpa. — ele pede imediatamente ao sacar que foi infeliz no que disse anteriormente.
- Vai à merda com a sua desculpa. — faço menção de me levantar da mesa, mas Greg me breca ao segurar em meu pulso.
- Só tô preocupado. Gosto de você, prima.
- Não há motivos para preocupação. Além do mais, ele é só um colega de trabalho. E, não que isso seja da sua conta, mas não estou interessada em romances. Agora me solta. Quero ir ao banheiro.
- Não fica brava comigo, Sar.
- Já estou. Me larga, agora.
Assim ele o faz e sigo sem olhar para traz.
***
- Tá tudo bem? Você me parece com uma carinha cansada já.
Olho para Doug e sorrio sem muita vontade.
Greg conseguiu tirar meu ânimo com suas desconfianças infundadas e o comentário infeliz ao mencionar Grissom. Ele não tinha nada que trazer o nome do sujeito para a conversa. Já fazia dias ou semanas, sei lá, que eu nem pensava nele. Mas bastou a menção de seu nome para aquele cretino povoar minha mente, ainda mais, depois que quase tive o desprazer de falar com ele.
Momentos atrás, após sair do banheiro, resolvi fazer uma nova tentativa de falar com meus pais, já que até então não havia conseguido devido ao sinal instável da internet e da operadora de telefonia que após a meia noite achou de cair.
No terceiro toque, mamãe me atendeu. Desejei a ela e ao papai um "Feliz Ano Novo" em meio a vuca do lugar onde me encontro e a barulhada onde eles estavam. Em seguida, fui surpreendida com o aviso de um deles de que Lewis insistia muito em falar comigo.
"Oi, Sara! Feliz ano novo pra você!", Lewis me deseja assim que o telefone é passado por minha mãe, ao irmão de Grissom, ao meu consentimento. Ao fundo ouço uma zoada.
"Feliz ano novo pra você, Lewis! E também ao Edgar. Como estão?"
"Sara, não estou te ouvindo direito. Só um segundo!", ouço Lewis avisar minha mãe que ia se afastar só um pouco com o celular dela para me ouvir melhor.
"Lewis??"
"Oi! Agora, sim, te ouço melhor. A zoada lá no salão não estava me deixando ouvir direito. O que tinha dito antes?
"Ah, desejei feliz ano novo pra você e o Edgar. E perguntei como estão?"
"Estamos bem. E você?
"Estou ótima!", respondo em uma falsa convicção. "E, a propósito, vi na televisão o comercial da sua marca de joias. Parabéns! Pelo visto está bombando!"
"Obrigado! De fato, está super bombando! E logo abriremos uma loja própria da marca."
"Que bom!"
"Lewis, me deixa falar com ela!"
Ouço a voz de Grissom ao fundo pedir e imediatamente, digo:
"Eu não quero falar com o seu irmão, Lewis!"
"Anda, cara! Me passa o telefone!"
"Você ouviu que eu não quero falar com ele, não é Lewis?!", repito a pergunta de modo apressado, temendo que Lewis obedeça ao irmão.
"Sim, Sara!", ele responde e respiro aliviada. "Gil, ela não quer falar com você, cara!", conta e fica um silêncio do outro lado da linha, que perdura por alguns segundos até a voz de Grissom se tornar audível para mim. "Então só diz que desejo um feliz ano novo para ela! Que esse ano que se inicia seja repleto de felicidades e conquistas na vida dela!"
Outra vez um instante de silêncio, que é quebrado por Lewis.
"Você..."
"Eu ouvi bem!", retruco antes que ele complete a frase. Queria não ter ouvido nada, sequer a voz de Grissom, porque mesmo não devendo, ele mexe comigo de um jeito que não deveria depois do que me fez.
"Ele sente sua falta e tá bem baqueado."
Engraçado que Lewis só se lembra de mencionar o lado de Grissom, o meu ele nem fala. Eu também fiquei baqueada. Mas também o que eu queria, Lewis é irmão do cretino, claro que vai puxar para o lado do irmão dele.
"Ele fez a escolha dele. Só está arcando com as consequências dessa escolha."
"Você tem razão!"
- Sara!
- Oi! Desculpa. Eu voei pra longe. — esclareço ao novo chamado de Doug. — Deve ser cansaço.
- Provavelmente. Se quiser ir, posso te acompanhar, porque ao que parece seu irmão e seu primo estão animados o bastante para irem embora agora.
Observamos Greg e Sean se acabando de dançar com Morgan, Memo, Julie e uma garota que meu primo fez amizade.
- Que isso, Doug. Eu vou sozinha.
- Imagina. Faço questão de te acompanhar. Além do mais, quero ir embora também. Tô me sentindo um pouco pesado pelas várias cervejas.
- Tá bem. — concordo e aviso que vou falar com os meninos para avisar que já vou com ele. Doug assente com um sorriso.
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