Munique, Alemanha... Alguns dias depois.

Observo aquele grupo todo de pessoas espalhadas pela sala de minha casa — que para Maryane inventei se tratar de um imóvel de um conhecido que me emprestou, já que ela acha que vendi a casa de Berlim — entre eles meus velhos amigos, uns integrantes da diretoria, três clientes mais próximos que viraram grandes amigos, meu irmão e meu cunhado, Matilde e meu advogado com a esposa, todos convidados que Maryane fez questão de chamar para nos exibir como um casal feliz e apaixonado em nosso primeiro evento como "família".

Por mim aquele circo nem estaria acontecendo. Primeiro, porque Natal perdeu seu completo brilho desde a morte da mamãe. Mas ainda assim, eu costumava sair para me embebedar com os amigos na data. Esse era meu jeito de festejar o Natal, enchendo a cara de álcool e curtindo mulheres a vontade em algum inferninho de Munique ou qualquer outra cidade da Alemanha ou até de outro país da Europa.

E o segundo motivo, não menos importante, porque casado com Maryane não há qualquer vontade minha em festejar nada. Porém faz parte do nosso acordo, além é claro de não levantar suspeitas de que aquele casamento é tão falso quanto o amor que finjo demonstrar aos outros que sinto pela minha esposinha querida.

Mas se fosse por vontade minha, estaríamos em casa em Berlim, comigo de preferência dormindo a esta hora da madrugada, porque esse ano não sinto ânimo nem para me embebedar, quanto mais comemorar o natal. Até porque não tenho nada o quê comemorar, ainda mais pelos últimos acontecimentos.

— Estou começando a me preocupar se você não está virando um alcoólatra, bebendo cada vez mais com frequência deste jeito.

Ouço Lewis reclamar ao parar perto de mim com os braços cruzados na altura do peito e uma cara amarrada, que em nada me assusta. Apenas reviro os olhos em desagrado a sua reclamação.

— Me deixa em paz! Já não basta Maryane azucrinando meus ouvidos, ainda tenho que aturar você me fiscalizando?

— Grosso!

Saio de perto dele e sigo no intuito de ir até a varanda para respirar um pouco o ar puro daquela madrugada fria.

— Aonde pensa que está indo? — Maryane me pára no meio do caminho e cochicha com um sorriso forçado por conta dos convidados.

— Respirar.

— Não será ligar pra ela?

Eu adoraria ligar nem que fosse para ouvir a voz de Sara me mandando ir para o inferno enquanto lhe desejo "Feliz Natal", mas ela me bloqueou. Sem contar que vou respeitar seu pedido de não entrar mais em contato. Vai ser dura tal tarefa, mas atenderei seu pedido não sei até quando.

— Bem que eu queria. — repondo com um falso sorriso.

— Pois te alerto que pelo horário ainda não são meia noite lá em Nova York, para ligar desejando "Feliz Natal" para sua ex-amante, mas também conhecida como "minha prima". — Maryane faz questão de frisar bem suas duas últimas palavras ditas em um sussurro.

— Olha aqui... Pode ficar tranquila, esposinha... A última pessoa de quem a sua prima quer ouvir a voz é a minha.

— Só por isso?

— E porque ela me bloqueou também.

— Ah, claro. Porque do contrário estaria ligando, não é?

— Não. Do contrário eu estaria lá, comemorando com ela e não aqui com você me enchendo a paciência. Com licença.

— Você não se atreva a sair daqui, Grissom! — ela resmunga enquanto está me segurando pelo pulso com uma das mais e a outra usa para acenar com um sorriso forçado, para um convidado que olho e se trata de alguém do escritório onde ela trabalha.

— Por quê, vai fazer o quê? Acabar com esse circo todo?... Vai em frente, esposinha querida. — sussurro ao mesmo tempo em que a faço me soltar com discrição. Em seguida, caminho apressado para a varanda do triplex. Preciso respirar. Preciso ficar um pouco só. Preciso deixar um pouco o personagem de lado.

Ao me ver sozinho na varanda, sinto vontade de gritar bem alto para extravasar minha raiva e a angústia de viver aquela situação em que me encontro.

Tem sido um martírio essa vida que EU escolhi. Tem sido um martírio ficar longe DELA.

Sinto que morro um pouco mais a cada dia longe de Sara e sem qualquer notícia dela. É horrível. É sufocante. É devastador e assustador.

Assustador se dar conta de que você precisa daquela pessoa na sua vida, tanto quanto precisa do ar para respirar.

Isso é novo para mim!

Até meses atrás, jamais precisei tanto de alguém como hoje me vejo precisando dela, nunca desejei tanto um sorriso como desejo o dela, nunca esperei tanto por um beijo como passei a esperar pelo dela... E eu nunca fui tão eu mesmo com alguém como fui com ela.

Sara foi a única mulher que conseguiu tirar o melhor de mim; a única que me deu motivos para querer o "algo mais" com alguém; e a única que me fez saber o quão bom é amar e ser amado.

— Pena que estraguei tudo! — sussurro antes de tomar em um gole só o restante do uísque em meu copo e depois passar a admirar a vista da cidade toda iluminada.

Adoro aquele apartamento. Só não me mudei para cá com Maryane, porque queria manter aquele local só meu. Não queria estragar as boas lembranças dali com a presença da minha desagradável esposa. Além do mais, ainda tenho esperança de em um futuro trazer Sara àquele lugar e com ela construir memórias muito melhores ali.

Só espero que minha decisão de término na nossa relação não tenha criado uma consequência irreversível quanto a nós, pois acho que não saberei lidar com ela.

"Grissom... Nem todo ponto final indica fim da história, pode ser só o começo de um parágrafo."

— Tomara que esteja certa, Hajna. — sussurro ao lembrar de sua fala de dias atrás.

Sinto o celular vibrar no bolso da calça social e ao puxar o aparelho, vejo que se trata de uma notificação de mensagem e sorrio ao ler o "nome" do contato: Mihály Vörösmarty.

"Feliz Natal, Senhor Grissom! Agradecemos demais pela parceria e confiança que nos ajuda a proporcionar o melhor serviço aos nossos clientes. Receba meus mais sinceros votos de um Natal mágico a você e sua família!!"

Meu sorriso se alarga mais ainda diante da formalidade da mensagem. Resolvo ligar de volta para agradecer a felicitação e conversar com alguém com quem consigo não ser um personagem, já que ultimamente só consigo atuar diante da maioria das pessoas.

No quarto toque uma voz masculina atende a chamada em meio a uma zuada alta de música misturada com vozes cantando uma música que não consigo identificar.

— Olá , Gil.

Um sujeito diz com certa hesitação ao mesmo tempo em que tenta soar um tanto amigável, como se fôssemos velhos conhecidos.

— Olá! Passa pra dona do celular. — peço em tom autoritário. Em segundos Hajna atende.

Para evitar problemas desnecessários com Maryane, troquei o nome do contato de Hajna para o nome do poeta húngaro que deu origem ao nome da prostituta, segundo uma vez ela mesma me contou. Inclusive, foi sugestão da própria Hajna isso. E fizemos um acordo de que, se ela precisar entrar em contato comigo, que seja por mensagem e sempre de modo formal, para não levantar suspeitas, já que Maryane anda em uma marcação cerrada para o meu lado.

Para todos os efeitos, o tal Mihály Vörösmarty é um velho conhecido meu, dono de uma prestadora de serviço para a Care.

— Grissom, seu maluco. Quase desfaleci quando vi a ligação. Achei que era sua esposa. — ela desata a falar enquanto a zuada do lugar parece diminuir. Provavelmente, ela deve ter saído de onde estava para me ouvir melhor.

— Ah, você tem medo? — sorrio.

— Não é bem medo... Enfim, deixa pra lá. Se está ligando, é porque a sua digníssima não está por perto.

— Não. Ela está lá pra dentro de casa com os convidados e eu vim aqui pra varanda respirar um pouco melhor, coisa que perto da Maryane não dá pra fazer.

— Ah, sim. E pelo visto o Natal por aí não tá sendo dos melhores, né?

— Tá uma merda isso aqui!

Ela ri do outro lado da linha.

— Por aqui tá é uma festa só.

— Deu pra ouvir. Achei que tinha dito que o Sacha não ia abrir para clientes.

— Mas não abriu. Ele resolveu fazer uma festinha só para nós, funcionárias e os meninos do bar que não tem parentes na cidade. Contratou até um DJ pra tocar aqui e tudo.

— Olha que legal.

Por mais uns poucos minutos nós ainda trocamos algumas palavras até que uma voz feminina requisita que Hajna volte para a festa, porque está perdendo-a.

— Preciso desligar.

— Tá bom. Feliz Natal pra você, Hajna.

— Obrigada. E nosso encontro está de pé para amanhã, senhor Grissom?

— Com certeza, senhor Mihály Vörösmarty.

Hajna deixa uma gargalhada escandalosa escapar e então desliga após se despedir.

— Eu acabei de encontrá-lo.

Me viro ao ouvir tais palavras e me deparo com Joshua falando ao celular. Ele ainda troca mais algumas palavras com sei lá quem na linha e então finaliza a chamada.

— Algum problema?

Ele está sério demais para o meu gosto.

— Sei que é madrugada de Natal, mas você disse que assim que eu tivesse notícias sobre aquela investigação particular... — ele sussurra esta última parte. — Era para te falar o quanto antes.

— Pois fale de uma vez, homem.

— Então... O hacker, amigo do meu contato que te falei, conseguiu descobrir em um paraíso fiscal das Ilhas Cook, na Oceania, uma offshore em nome de Dominique Tahoe....

— Winslow... A ex-esposa de Simons. — completo.

— Exato!

— Te peguei desgraçado. — concluo, abrindo um sorriso.

Há poucas semanas mandei fazer uma (atrasada) auditoria na conta da filial da Care da Alemanha, que deixei sob a responsabilidade do Bryan tomar conta quando ele ainda era meu advogado, bem como minha conta bancária particular. Senti que as contas não batiam. E por isso, mandei fazer esta auditoria tardia. Como desconfiava, ele desviava dinheiro meu, ou seja, me roubava.

Me pergunto o quão baixo será que Bryan ainda consegue ser e descer no meu conceito? Só vou descobrindo cada vez mais a escória que esse sujeito é.

— Você sabe o que fazer? — digo ao Joshua. Ele já havia sido instruído por mim sobre quais medidas tomar neste caso seja quem fosse o responsável pelo desvio.

— Não se preocupe que já foi feito. Pode conferir na sua conta bancária, se quiser.

— Depois me certifico disto. Mas foi feito sem deixar rastros, como disseram que fariam?

— Com certeza. Simons não terá como vincular ou provar quem mandou fazer a "limpa" na conta.

— Ótimo!

Preferi tomar o dinheiro de volta por meios ilegais mesmo, já que me foi tomado desta forma. Não quis entrar pelos meios legais como Joshua tanto me sugeriu, porque não seria visto com bons olhos para a diretoria que eu fui desfalcado enquanto estava a frente de uma filial da Care. Ainda mais agora, que sou o CEO da empresa e tenho sob minha supervisão todas as filiais. Seria um prato cheio para o Conrad me descredibilizar como gestor perante os sócios e diretores. Não preciso disso neste começo como presidente da Care.

— Queria ver a cara de bunda do Bryan quando ver sua conta com um enorme e redondo zero de saldo. Que ótimo presente de Natal me deu, Joshua. Conseguiu até melhorar meu humor e minha madrugada com essa notícia. — sorrio e noto uma cara estranha em meu advogado. — Que foi, homem?

— É que não pára só nisso. Tem mais uma coisa. Esta, por sinal, não é tão boa notícia assim, Gil. E creio que não gostará nada dela.

— Fale mesmo assim.

— Na investigação foi descoberto que a offshore que o Simons criou em nome da ex-esposa, fez algumas transferências para uma única offshore. Achando estranho isto, meu contato pediu ao hacker para rastrear e descobrir de quem é a conta.

— Sim. E de quem é?

— Da sua esposa.

— Maryane??

— Sim. A cada desvio que Bryan fazia, ele transferia no dia seguinte para a conta da Maryane uma quantia refente à 30 por cento do valor do montante desviado.

— Desgraçada! Ela estava me roubando junto com ele. — arremesso o copo com força na parede adiante e o objeto se espatifa em sabe lá quantos pedaços.

— Sinto muito por isto, Gil.

— Eu quero esse dinheiro também de volta. É meu, Joshua. — aponto para meu advogado, me abstendo do comentário feito por ele.

— Claro. Inclusive já foi retirado da conta dela e enviado para a sua também este dinheiro. Achei que ia mandar que fosse feito isto mesmo, então tratei logo de repassar a mesma ordem.

— Ótimo!... Caralho! Que filhos da puta os dois! E que burro eu fui! — resmungo inconformado por ter sido feito de idiota por aqueles dois. Eles me enganam direitinho e bem debaixo do meu nariz. E o tapado aqui, que se acha tão fodão, não percebeu isso.

— Como devo proceder com relação a Mary...

— Deixa que da Maryane, cuido eu pessoalmente. — corto Joshua. — E nem preciso dizer que isto fica entre nós, né?

— Absolutamente, Gil.

Não consigo acreditar que fui tão otário assim! Só de pensar nisso sinto vontade de me dar um soco e matar aqueles dois com minhas próprias mãos.

— Bem, era isto, Gil. Agora, acho melhor voltar para dentro da casa e te deixar digerir sozinha essa última notícia.

— Espera, Joshua. — peço antes que ele se vire.

Depois de hoje e fazendo um somatório de todos os serviços muito bem prestados, diga-se de passagem, que Joshua tem feito como meu advogado desde que assumiu o posto no lugar de Simons, e que só confirmam o quão qualificado e excelente profissional ele monstra ser, que acho que o momento se faz propício para minha proposta que há dias tinha em mente lhe fazer. Sei que o homem diante de mim será perfeito para isto.

— Algum problema, Grissom?

— Sei que trabalha para um dos escritórios mais bem renomados lá da América. E acredito até que ganhei bem por seus serviços. No entanto, quero te propor que assuma o comando do escritório que ganhei na justiça do Bryan. Preciso de alguém por lá sendo os meus olhos e gerenciando aquele lugar. Não quero gente do Simons a frente do meu escritório.

— Está falando, sério? — ele parece não acreditar.

— É, claro. Você se mostrou um ótimo advogado e alguém de caráter. Sem contar que foi indicado pela Catherine. E já mostrou que merece meu voto de confiança. Agora só não me decepcione, porque sabe como costumo agir com quem tenta bancar o esperto comigo.

— Claro, Grissom.

— Então, você aceita?

— Com certeza. Seria um louco se rejeitasse esta proposta. Obrigado, pela confiança, Gil, de verdade.

Assinto para ele e antes que mais qualquer coisa seja dita por um de nós, Maryane aparece ali.

— Gil, o seu amigo de Moscou já está indo e quer se despedir de você.

Olhar para a cara dela e escutar sua voz depois do que soube, faz minha raiva se multiplicar por cem por aquela mulher. Como consegui ser tão idiota com relação a ela e Bryan? E me pergunto desde quando esses dois se conhecem e foram amantes? Porque agora acredito que eles não sejam mais.

— O que foi? Por que está me olhando assim, querido?

— Nada, querida. — resolvo ser tão dissimulado quanto ela. Irei confrontá-la em outro momento. Ela não perde por esperar. — Diga ao Joachim que estou indo. Deixa só terminar de passar umas ordens ao Joshua.

— Gil é Natal! Será que pode deixar o trabalho para depois?

— Um segundo, Maryane. É importante. Com licença. — peço, apontando a saída da varanda e tentando não explodir em raiva com ela.

— Ok. Não demore, querido. — ela diz com um falso tom amável e aveludado de voz.

— Pode deixar, querida.

Assim que ela saiu dali, me dirijo ao Joshua.

— Quero os dados todos envolvendo a offshore em nome dela e as transações bancárias. Creio que o sujeito que conseguiu isto tenha te enviado, não?

— Sim. Amanhã mesmo estarei te enviando.

— Amanhã não. Hoje. Em... — checo as horas no relógio que ganhei de Lewis durante a troca de presentes muitos instantes atrás. — Um minuto, mais precisamente. — decreto antes de passar por Joshua e tomar o rumo para dentro de casa.