Enfim sábado!

Também conhecido como o dia do meu aniversário.

Ao abrir os olhos naquela manhã e encarar o teto do quarto, suspiro agradecida por mais um ano de vida alcançado.

Depois de atravessar tempestades turbulentas, consigo visualizar a calmaria. Apesar dos pesares, me sinto afortunada e feliz por estar onde estou, seguindo minha vida agora mais tranquilamente.

Sou grata pela família amorosa que tenho, os amigos incríveis, a boa saúde, o ótimo emprego; a casa bonita e bem localizada; e o principal de tudo: o bebê que carrego no ventre, que é o meu melhor presente do ano... Meu pequeno príncipe!

Instintivamente, minhas duas mãos vão parar espalmadas sobre a barriga aparente, e que só faz crescer e crescer.

- Você foi a única coisa boa que o seu pai deixou, porque nem mesmo as lembranças dele são mais. — conto, alisando a barriga.

As memórias bonitas que construí com aquele cretino ficaram manchadas pela forma como tudo terminou entre nós. Se há uma única coisa boa que ficou de todo esse último relacionamento turbulento que tive, foi o bebê que carrego.

Ele tem sido meu motivo de força. Ele trouxe a luz para minha vida outrora escurecida pela dor. Deu um novo sentido para os meus despertares a cada manhã. E se tornou o meu amor mais lindo e incondicional. O ser mais amado da minha vida.

- Não vejo a hora de você estar nos meus braços. — múrmuro.

Ouço o toque estridente da campainha reverberando logo cedo e estranho.

"Quem pode ser às seis e meia da manhã?", penso após consultar as horas no relógio digital sobre a mesinha de cabeceira.

Novamente a campainha ressoa e somando-se a ela, ouço batidas fortes na porta.

- Já vai! — grito em resposta, mas ciente que a pessoa estapeando a porta e tocando de modo insistente a campainha, certamente sequer me ouviu. E nem teria como!

Levanto nada contente por ter que sair tão prematuramente da minha cama quentinha e confortável, bem no dia do meu aniversário, quando eu pretendia permanecer nela até um pouco mais tarde.

Saio do quarto dando um nó no cordão do robe de seda, e andando devagar, porque a barriga já tem começado a pesar.

Como é meu aniversário, eu havia avisado a Morgan que chegaria uma hora mais tarde na editora, uma regalia me concedida por Owen ontem, justamente por conta da data de hoje.

- Meu Deus! Quem quer que você seja, vai arrebentar minha porta e escangalhar minha campainha! — reclamo, descendo as escadas já irritada pelas batidas insistentes e o toque estridente da campainha.

Tomando o devido cuidado, apresso o passo ao descer o último lance de escada e com uma das mãos apoiada na lombar que ultimamente tem doído devido ao peso da barriga, chego a porta e abro já tendo na ponta da língua "cobras e lagartos" prontinho para serem despejados no ser que resolveu me tirar da cama antes das setes da manhã.

- Parabéns pra você...

A boca que estava aberta para soltar palavras nadas gentis, vai se fechando lentamente diante da presença de papai, mamãe e Sean, empunhando um embrulho que pela tampa, vejo se tratar de um bolo e algumas sacolas de uma doceria, além das bagagens deles.

- Ô, Deus! — exclamo levando as mãos ao rosto.

À medida que eles vão dando segmento à cantoria, os olhos se enchem de lágrimas, que logo já escorrem pelo meu rosto.

- Parabéns, filha!

Mamãe é a primeira a me abraçar após a cantoria deles se encerrar. Em seguida é a vez de papai que passa o bolo para a mão de Sean, para poder me abraçar melhor. E, por fim, é o meu irmão quem me abraça e beija-me, felicitando pela data.

- Meu Deus, gente! O que fazem aqui a essa hora? Não chegariam somente no fim da tarde?

Havia combinado de buscá-los no aeroporto. Até sairia mais cedo do trabalho para isso. Mas, pelo visto, fui enganada e por uma boa causa.

- Uma pequena mentirinha.

- Vocês madrugaram pra essa surpresa, né?

- Foi por uma boa causa, filha.

- Entrem. — dou passagem ao trio.

- Queríamos tomar café com você e como disse uma vez pra mamãe que costuma sair cedo, então viemos mais cedo ainda. — conta Sean.

- Hoje irei trabalhar um pouco mais tarde. Portanto, teremos um bom tempinho para um café em família.

Eles deixam as bagagens encostadas em um canto da sala e então, vamos para a cozinha. Nenhum deles me deixa fazer nada, alegando que é meu dia. Papai me acomoda em uma cadeira e me "pede" para ficar quieta na baqueta. Deste modo, fico só assistindo os três ajeitarem tudo.

Enquanto Sean arruma a mesa comigo lhe dizendo do meu lugar onde ficam as louças e utensílios, papai faz o café e mamãe tira das sacolas as coisas que trouxeram e vai ajeitando na mesa.

- Onde compraram todas essas coisas?

- O motorista do táxi nos levou a uma doceria no caminho pra cá.

- Compramos tudo o que você gosta, filha.

- Tô vendo. Deve ter restado pouca coisa pra ser vendida nesse lugar, né? — brinco.

Eles tinham trago de tudo: waffles acompanhados de xarope de bordo, brownies, muffins de maçã e granola, donuts, cheesecake, torradas, geleia de morango e frutas vermelhas, bagel com gergelim e até cinnamon rolls, que são uns enroladinhos doce de canela com cobertura de cream cheese, tinha.

- Engraçadinha!

- É uma mesa de café para umas dez pessoas.

- Que nada! Só seu irmão come metade dessas coisas.

- Que absurdo, pai. Nem como tanto assim.

Caímos na risada da indignação do meu irmão.

O café fica pronto logo depois e com meus pais e meu irmão, tive o melhor café da manhã de aniversário, regado a muitas risadas e conversas sobre o dia do meu nascimento, que mamãe desata a contar. É sempre assim quando chega meu aniversário ou de Sean. Dona Laura abre sua caixinha de memórias e conta como foi o meu parto e do meu irmão (quando é a vez do aniversário dele). Eu adoro ouvir aquelas histórias, ainda que já soubesse a narrativa de cor, devido a mamãe sempre conta-la.

A verdade é que sempre é uma satisfação ouvi-la contar toda emocionada sobre os dois dias mais felizes da vida dela, quando veio ao mundo seus maiores amores.

Enquanto a ouço, não deixo de imaginar o dia que for eu a experimentar essa felicidade de ver chegar ao mundo meu menino. Tenho contados os dias para isso. O dia de ter em meus braços o maior amor da minha vida.

- Daqui a uns anos será você contando ao meu sobrinho como ele chegou a esse mundo louco, que nem a mamãe conta pra gente, maninha.

- Não vejo a hora.

Momentos mais tarde, estou na porta de casa me despedindo dos três para ir trabalhar.

- Qualquer coisa me liguem.

- Essa fala está invertida, não? — brinca papai antes de depositar um beijo em minha têmpora. — Vamos ficar bem, filha. Não se preocupe.

- Na porta da geladeira tem grudado um cartão de um delivery para pedirem comida, porque acho que...

- Sara, não se preocupe, querida. A gente se ajeita.

Eu pretendia passar no mercado depois que os apanhasse no aeroporto, já que ontem estava cansada demais para enfrentar fila de supermercado, fazendo compras para abastecer a dispensa.

- Vá trabalhar sossegada.

Me despeço deles com abraços e beijos, e sigo para meu carro. No caminho para a editora recebo a ligação de Dayse. Pelo viva-voz do carro, eu a ouço parabenizar-me emocionada por mais um ano de vida.

- Eu tenho muita sorte de ter você na minha vida, Dayse. Você é a irmã de outra mãe, que a vida me deu.

Dayse é, para mim, o que Maryanne poderia ter sido, mas nunca fez questão de ser... Uma irmã.

- Posso dizer o mesmo, Sara. E, eu sempre vou tá do seu lado para tudo, amiga.

- Eu sei. E você sabe que a recíproca é verdadeira, né?

- Sim, Sidle!

Trocamos mais poucas palavras até eu estacionar na garagem só prédio da editora ao mesmo tempo em que escuto a voz de Sullivan, quase berrando o nome de Dayse.

- Preciso desligar. A bruxa hoje tá atacada. Nos vemos a noite lá em casa.

- Ok!

***

Assim que saio do elevador na editora, esbarro com Julie e Doug. Ambos me felicitam pela data. Inclusive, o editor de artes avisa, tão logo Julie se afasta para resolver algo após receber uma ligação, que tem uma surpresa para mim logo mais.

- Não precisa.

- Precisa, sim, Sara. Só esperar que logo ela chega. Bom trabalho e um ótimo dia — ele pisca um olho e sai assobiando uma música que parece conhecida, mas que no momento não reconheço.

Sorrindo, balanço a cabeça e sigo meu restante de caminho até parar diante da mesa da minha assistente espalhafatosa.

- Ai, chefe! — ela exclama, dando um pulo de sua cadeira e vindo me abraçar. — Felicidades pela data. Saúde. E tudo de mais lindo e maravilhoso nessa vida.

- Obrigada, Morgan.

- Uma lembrancinha, porque o presente real só a noite. — ela me estende uma pequena sacola de papel com a logo de uma perfumaria.

Ao abrir encontro um frasco do meu perfume preferido. Lhe agradeço com um abraço apertado e um beijo no rosto.

Ao desfazer o abraço com Morgan, meu celular vibra em minha mão. Na tela vejo que se trata de uma chamada do Bolton. Sorrio e aviso para Morgan:

- Vou atender essa ligação, depois te chamo para repassarmos a agenda de hoje.

- Tá ok.

- Oi, Bol. — atendo já me afastando da mesa de Morgan.

Do outro lado da linha ouço um emaranhado de vozes cantando em total desarmonia "parabéns pra você". Consigo identificar a voz de Bolton e dos nossos demais amigos.

Sorrio adentrando em minha sala. Caminho até a mesa, ouvindo aquela cantoria desafinada. Não deixo de rir de tudo aquilo e sem perceber, algumas lágrimas também já me escapam. Me sinto a pessoa mais afortunada por ter amigos verdadeiros. São loucos? São! Beberrões? Também! Mas são pessoas que sei que posso contar a hora que for.

A cantoria acaba e dá lugar a uma enxurrada de felicitações. Um a um, meus amigos me parabenizam. Primeiro, Nina. Depois, Erick. Trent. Cris e Bolton.

- Obrigada, seus malucos adoráveis. — agradeço, enxugando uma lágrima que deixei escapar diante das palavras que cada um me dirigiu em seu discurso de parabéns.

- Você merece, Sara. E a noite tem mais, hein?

Ouço a Rafa dizer.

- Agora precisamos desligar, Sara. Estamos aqui na copa, fugidos do serviço, porque não queríamos esperar até o almoço pra te ligar, mas precisamos voltar ao trabalho antes que a chefia nos peguem a toa na hora do serviço. A noite papeamos.

- Tá bom.

Tão logo encerro a chama com ela, noto pela barra de notificação uma mensagem de Lewis. Entro em seu contato e há um pequeno texto:

"Felicidades para você por este dia tão especial que é o seu aniversário, Sara!

Que possa ter muitos anos de vida, abençoados e felizes e que estes dias futuros sejam todos de harmonia, paz e desejos realizados. Que seu coração esteja sempre em festa, porque você é um ser de luz e especial. Parabéns pelo seu dia!"

Trato de responder sua mensagem, agradecendo pelas felicitações e aproveito para passar o endereço de Dayse que eu havia esquecido de lhe enviar até agora. Logo em seguida, vejo pela barra de notificação uma mensagem de John. Vou até seu contato e abro a mensagem. Nela, John me parabeniza pelo aniversário e logo na sequência, avisa que infelizmente não poderá estar presente mais tarde em minha festa, devido a um imprevisto de trabalho. Mas afirma que assim que estiver de volta na cidade, saímos Dayse, ele e eu para almoçar ou jantar, para comemorar o meu aniversário.

***

- Sara, minha chefinha linda e maravilhosa!

- O que você quer agora, Morgan? — respondo com um sorriso a minha assistente e sem tirar os olhos da tela do notebook. Morgan só me bajula assim quando quer me fazer algum pedido.

- Ai, chefinha! Credo! Até parece que sou uma interesseira.

- E não, Morgan?

- Vou relevar isso, e colocar a culpa nos seus hormônios de futura mamãe.

Solto uma gargalhada.

- Fale logo o que quer. — digo ainda com a atenção no e-mail que recebi.

- Te entregar isso que um rapaz acabou de deixar pra você.

Ao olhar para Morgan, encontro a outra mulher segurando um lindo e maravilhoso buquê com magníficas rosas brancas e vermelhas misturadas. Sorrio ao ver aquilo. Só pode ser coisa do Doug. Ele disse que tinha uma surpresa para mim hoje por conta do meu aniversário. Creio que esta seja sua surpresa. E é linda!

- Me dê aqui essas flores. — peço levantando da cadeira.

Minha assistente vem toda saltitante e sorrindo de orelha à orelha, e me estende o buquê.

- Ai! Isso tem cheiro de ser de certo editor de arte bonitão. Ai, Jesus! — Morgan se abana com as mãos.

Sorrio sem jeito, alisando com a mão livre a minha barriga já volumosa enquanto lanço um olhar tímido a minha assistente.

- É bem capaz de ser.

Doug é um doce mesmo. Gentil, atencioso e sempre disposto a me mimar e agradar de tudo quanto é forma. Ele facilmente é o sonho de consumo de qualquer uma de nós mulheres.

- Não vejo cartão algum. Você vê? — observo.

- Está aqui ó, chefinha. — Morgan aponta o papel.

Apanho, sorrindo ao envelope pequeno de cor branca. De dentro puxo um papel onde leio:

"Felicidades pela data especial de hoje... meine liebe."

****

Munique, Alemanha

Caminho de um lado para ooutro, ansioso para saber se ela recebeu meu presente. Até porque não tenho como saber isso. Portanto, estava no escuro total.

Desde que escutei Maryanne mencionar dias atrás, durante uma ligação com Laura, sobre o aniversário de Sara ser hoje, que fiquei com essa informação na cabeça. Pensei muito se enviava algo, por saber que a Sara, provavelmente, iria desaprovar qualquer coisa mandada por mim. Porém resolvi arriscar e contei com a ajuda de um relutante Lewis.

Mais cedo liguei para o meu irmão e pedi, na verdade, implorei para que Lewis mandasse um buquê de flores em meu nome à Sara.

"Grissom, deixe a pobre em paz!"

"É apenas um presente. Hoje é aniversário dela!"

"Eu sei. Mas como soube disso?"

"Espera aí... Como assim você sabia? E não me contou por quê?"

"Não te contei porque a vida da Sara não te diz mais respeito. Agora como você soube?"

"Ouvi Maryanne comentar isso ao telefone com Laura. Sei que Sara não quer contato comigo, mas não posso ficar sem ao menos mandar algo, sabendo que hoje é uma data especial pra ela. Por favor, mano, me ajuda. Manda umas flores em meu nome."

"Você sabe que provavelmente, essas flores vão parar na lata do lixo, assim que a Sara ver que foram enviadas por você, né?"

"Sei, mas ao menos, ela saberá que eu sei que data é hoje e que independente de estarmos separados e dela estar com raiva de mim, eu fiz questão de parabenizá-la pelo aniversário. Vai, Lewis, me ajuda nisso, eu te imploro."

"Ok, Gil. Mas que fique bem claro... Essa vai ser a última vez que faço essa ponte. Depois não me peça para fazer mais nada que envolva a Sara e nem me ligue pedindo para saber se ela recebeu essas benditas flores."

"Tá bom. Obrigada, mano!"

Eu havia pedido que Lewis encomendasse um buquê bem bonito de rosas brancas e vermelhas, as mais lindas que tivessem na floricultura. Ditei ao meu irmão o que escrever no cartão. Optei por ser uma mensagem bem sucinta e fiz questão de, ao final, usar o apelido carinhoso pelo qual passei a chamá-la. Deste modo, não haveria a necessidade de assinatura. Sara saberia que fui eu o responsável pelo buquê, porque duvido muito que haja outra pessoa nesse planeta que a chama de "miene liebe", que não seja eu.

Não tinha expectativas de que Sara me mandasse uma mensagem agradecendo, ou ainda, que ligasse, porque sei que isso não acontecerá. Porém, eu precisava saber se ela havia recebido meu presente. Então me vi pegando o telefone e discando para a editora. Demorou intermináveis segundos até a voz da assistente dela atender a chamada.

- Bom dia. Aqui é da floricultura... Estamos ligando para saber se a Sara recebeu o buquê de rosas vermelhas e branca. É que nosso entregador ainda não

voltou e faz tempo que ele saiu daqui. — invento. Fui bem específico nas flores, porque vai que ela tenha recebido outras e a assistente diz que sim, mas não é a minha e sim de outra pessoa.

- Ela recebeu sim. Ainda agorinha.

- Ok. Obrigada. — desligo.