Notas iniciais
N/A: Salve, salve, meus amores! Demorou mais do que o esperado, mas estou aqui com 3 capítulos. Boa leitura

Você teve sua chance, você estragou tudo

Sem noção, fora de controle,

Cala a tua boca, eu não aguento mais isso,

De novo, de novo, de novo e de novo

(Since U Been Gone — Kelly Clarkson)


***


Em uma fração de segundos, eu reli aquele cartão por umas quatro vezes no mínimo e, ainda assim, me recusava a crer nas palavras transcritas nele. Parecia até uma piada aquilo. E uma piada de muito péssimo gosto aliás!

Obviamente, eu sabia o remetente responsável por trás daquele envio. Não era preciso assinatura "nominal" para eu chegar a brilhante conclusão que o dono daquilo atende pelo nome e sobrenome de: Gilbert Grissom!

Aliás, a assinatura estava ali, sim, de forma não nominal, através do termo em alemão pelo qual ela passou a me chamar: miene liebe!

A falta de noção desse cretino está além da minha compreensão. A pessoa sabe que não quero contato com ela, porque deixei isto muito bem claro e com todas as letras. Porém, ainda assim, faz o que faz?! É muita cara de pau mesmo.

Só me pergunto como ele soube de hoje. Porque duvido muito que sua intragável esposa diria. Maryanne não cometeria tal despautério, já que me quer bem longe de seu marido. E, muito menos, Lewis o faria, sendo que é ciente de que o que mais quero do irmão dele é distância.

Então, como ele soube??

Logo, me ocorre a lembrança do comportamento psicopata daquele cretino e começo a sentir indignação misturada com irritação por ele, que ainda de longe insiste em estar a par da minha vida, possivelmente continua a seguir meus passos e me perturbar, mesmo eu tendo dito com todas as letras para não entrar mais em contato comigo.

- Chefe, tá tudo bem? Você não está com uma cara boa.

Ouço a voz de Morgan e ergo os olhos do papel para encontrar minha assistente com um vinco na testa e olhar de preocupação.

- Preciso de um copo d'água. — é tudo o que consigo dizer antes de começar a rasgar o pequeno cartão após a saída apressada da minha assistente da sala.

Ao fundo escuto o telefone de Morgan tocar enquanto cheia de raiva termino te triturar o pobre cartão até reduzi-lo a vários pedaços picotados e, consequentemente, os descarta-los na lixeira.

Como ele ousa me enviar flores?

Esse homem é doente!

Quando ele vai me deixar em paz?

E o pior de tudo, é saber que temos um laço que nos unirá pelo resto da vida. Querendo ou não terei que conviver com ele depois que o bebê nascer e Grissom souber de sua existência.

"É, insolente, quem manda ter mais fogo no rabo, do que juízo!"

"Morre!"

"A verdade dói, eu sei!"

"Me deixa em paz!"

"Beijos de luz. Tchau!"

Lanço um olhar ao buquê, o qual larguei sobre a mesa assim que concluí de quem veio.

As rosas são lindas, exalam um aroma agradável e a combinação de cores, é perfeita. É algo, simplesmente espetacular, um verdadeiro presente para os olhos e o olfato. Porém, perdeu seu encanto para mim, agora que sei que são daquele cretino.

A vontade que dá é de dar uns bons tapas na cara daquele idiota abusado para ver se assim ele entende de uma vez por todas que não quero presentes vindos dele e, tampouco, contato com sua pessoa. É incrível a capacidade dele ignorar o que eu disse. Surdo, eu sei que ele não é. Idiota, sim. Sonso, bastante. Cretino até a alma. Queria apenas seguir minha vida em paz, mas pelo que vejo, Grissom torna isso uma tarefa impossível.

- Quer saber? Não posso te estapear, mas posso te dizer poucas e boas.

Enfurecida, pego o telefone e começo a digitar os números do telefone daquele cretino, entretanto antes de chegar ao último dígito me detenho ao concluir que ele pode ter enviado o presente com esse propósito mesmo de eu ligar, ainda que seja para lhe xingar, porque ele é doente o suficiente para sua mente perturbada pensar desta forma. Deste modo, refugo a ligação.

- Não lhe darei esse gosto. Que morra esperando que eu ligue. — verbalizo, batendo o telefone de volta à base.

- Chefe, aqui sua água.

Morgan anuncia, adentrando a sala de volta e empunhando um copo com o líquido transparente.

- A moça da floricultura ligou querendo saber se as flores foram entregues...

- Para os diabos a moça da floricultura e quem mandou essas benditas. — resmungo.

- Ave Maria! — ouço Morg resmunga baixo.

Quase que sem respirar, eu bebo toda água meio adocicada.

- Você colocou açúcar aqui? — questiono após terminar de beber.

- Só um pouco, porque achei você nervosa.

- Não estou nervosa, Morg, estou com ódio. E me faz um favor, joga essas flores no lixo.

Sei que é uma lástima imensa fazer isso, as pobres rosas não tem culpa de nada, mas não quero aquele buquê ai. Não quando foram enviadas por aquele cretino.

- Mulher do céu! Por quê? São tão lindas para irem parar no lixo.

- Morgan faz o que estou mandando.

- Tá! Mas posso saber quem enviou?

- Grissom!

- Ou! Cho-ca-da! — minha assistente verbaliza pausadamente, levando ambas as mãos a face.

- Ele não tinha que mandar nada. É muito sem noção. Que ódio dele!

- Como será que ele soube?

- Não faço ideia.

E juro que se soubesse a/o responsável por tal ação, essa pessoa ia ver só uma coisa!

— Não terá sido o seu cunhado, não, que contou para ele?

- Que cunhado, Morgan? Eu não tenho cunhado algum! — retruco azeda pela fala dela.

- Credo! Foi mal.

- Grissom teve a chance dele, mas estragou tudo. E agora fica querendo proximidade ou agindo como se não tivesse feito nada de mal. É um sem noção, idiota. — digo exasperada. — Só gostaria que ele esquecesse da minha existência, me deixasse em paz, caramba!

- Calma, chefe, o bebê. Não se exalta assim, pode fazer mal pra ele.

- Você tem razão. — resmungo e, logo em seguida, ponho em prática as técnicas de respiração profunda que minha médica me passou certa vez, para me acalmar quando ficar irritada: inspira lentamente pelo nariz, prende a respiração por um segundo e expira lentamente pela boca, Sara!

- Isso, chefe. Inspira e expira. Quer mais um pouco de água?

Antes que eu respondesse, escutamos uma voz masculina vindo lá de fora, perguntando se tinha alguém por ali, pois tinha uma entrega para fazer.

Morgan então foi lá atender quem quer que chamava. Segundos depois, minha assistente retorna carregando em uma das mãos outro buquê de flores; este mais modesto e multicolorido composto por margaridas, girassóis, cravos, astromélias e outras flores que não soube identificar. Já na outra mão há uma sacola de papel escura, tamanho médio, com a logo de uma joalheria.

- São pra você , chefe.

Meio reticente pego o buquê e a sacola de sua mão. Entre as flores de cores vibrantes e que exalam um aroma leve, floral e delicado, encontro um envelope. Apanho e abro. Dentro dele encontro a seguinte mensagem:

"Felicidades, Sar!

Que este novo ciclo seja tão especial quanto você e tão colorido quanto estas singelas flores.

Ass: Doug"


O outro presente na sacola trata-se de um estojo contendo: um colar com um coração enfeitado com uma pedra vermelha, um bracelete de muito bom gosto e um par de brincos vermelhos como as pedras do pingente do colar.

- Uau! Pelo visto o presente veio de alguém do seu agrado. Está até sorrindo.

- É do Doug. — revelo.

- Então essa é a surpresa que ele te disse quando se encontraram.

- Certamente.

- Vou apanhar um vaso bem bonito, com água para pôr as fores.

- Ok!

Sozinha na sala enquanto Morgan saiu, admiro as flores que foram presentes do Doug. São bonitas e alegres, tanto que conseguiram me tirar do estado de raiva e irritabilidade de segundos atrás; e o perfume que emana delas é tão delicado, que causa uma sensação de bem estar e leveza.

Inevitavelmente, lanço um olhar para a mesa onde está o buquê de rosas vermelhas e brancas, enviado por Grissom, um arranjo mais formal e clássico, carregado de simbolismo romântico e elegância... O luxo das rosas e a simplicidade das flores do campo, dois buquês que são um o contraste do outro.

Confesso que, em outros tempos, as rosas teriam me deixado em estado de graça, ainda mais por terem vindo de quem veio. Porém, os tempos mudaram, e no atual momento em que me encontro, ganhar o buquê de flores do campo me deixou mais feliz.

- Oi!

Me viro em direção a porta ao escutar a fala e encontro Doug parado lá.

- Oi! — o saúdo com um sorriso.

- Pelo visto já recebeu meus presentes.

- Nossa! São lindos, Doug. — digo enquanto o vejo entrar na sala e vir se aproximando de mim em poucas passadas.

- Que bom que gostou. Escolhi essas flores do campo coloridas, pois para mim, você é solar como elas. Além de alguém que tem uma disposição alegre e entusiástica para a vida, com uma aura brilhante e acolhedora.

- Nossa! Obrigada de coração. Não imaginava que achava isso de mim.

- Acho isso e muito mais. — ele sorri e noto que seu olhar curioso vai na direção do buquê de rosas sobre a mesa, mas antes que qualquer um de nós dois diga algo, Morgan adentra a sala de volta com um jarro transparente, contendo água para eu colocar as flores.

- Agradecida, Morg. — digo, pegando de sua mão o jarro. — Joga no lixo essas. — aponto com o queixo na direção das rosas.

- Ai! Tem certeza, chefe?

Minha assistente faz uma careta de reprovação total, que trato de ignorar veemente.

- Absoluta! Anda. — ordeno.

- Tá bom. Com licença, gente.

Morgan se retira da sala, levando consigo o buquê de rosas e assim que ficamos Doug e eu, ouço o editor de arte, se pronunciar enquanto ajeito suas flores no vaso que meu assistente deixou:

- Não querendo ser intrometido... Mas já sendo... Por que aquelas rosas vão para o lixo? São tão bonitas para ganharem esse destino.

- Presente de ex. — conto ainda atenta em ajeitar as flores.

- Hum... Por acaso, esse ex seria... O pai do seu bebê?

Ergo os olhos para encarar Doug.

- Por que o interesse nisso? É a segunda vez que me pergunta sobre o pai do meu bebê. — comento com o cenho franzido.

Vejo Doug ficar visivelmente desconcertado com meu questionamento.

- É... Desculpa, Sara. Eu não queria ser invasivo ou coisa do tipo. — ele pede logo após se recuperar.

Diante de sua fala e do modo explícito de seu desconcerto, acabo me sentindo mal pela forma meio rude como minha pergunta foi dirigida a ele. Então trato de me desculpar também.

- Não, Doug. Eu que peço desculpas. Fui rude no questionamento. É só que não gosto muito de tocar nesse assunto. Mas pra acabar de uma vez por todas com isso... Sim, essas flores são do pai do meu bebê. — resolvo dizer a verdade para ele, para acabar com mais futuros questionamentos iguais a este, e na sequência conto sobre Grissom e o nosso breve envolvimento, sem entrar em grandes detalhes. Apenas revelei que nos envolvemos, acabei engravidando, e, posteriormente, descobrindo que ele era comprometido. Fim de história. Sequer mencionei que a esposa dele é minha prima, nem nada.

- Uau! Você e o magnata das indústrias farmacêuticas.

Ele se mostra surpreso, porém fico com a ligeira impressão de que fala como se tivesse familiaridade com Grissom e isso me chama a atenção.

- Você o conhece? — não hesito em indagar.

- Pessoalmente? — faço um movimento positivo com a cabeça. — Não. Mas ele é um empresário conhecido. Inclusive, seu nome ficou muito mais em evidência na mídia após a morte do pai e o fato de assumir a gestão dos negócios da família no lugar do patriarca.

Assenti, concordando com o que ele diz, pois é a verdade. Desde que assumiu os negócios, Grissom vive e mexe sai em capa de revista ou tablóides, quer seja sozinho, quer seja com Maryanne à tira colo. Na mais recente notícia, que Dayse deixou escapar que viu sem querer em um site conhecido, o "casalzinho" mostrava o "herdeiro", que de herdeiro não tem nada, já que não tem o sangue de Grissom.

- Mas ele é passado pra mim, Doug.

"Mente que a cara nem treme, né insolente?!"

- Pra você pode até ser passado, mas a julgar pelo belo buquê que ele te enviou, acho que pra esse Grissom, você não virou passado ainda. O que é bem louco, porque ele está casado, né?

- Pois é.

- E a esposa dele sabe sobre você?

- Não sei, Doug. E nem quero saber. — minto. — Só sei que se eu pudesse apagar o Grissom da minha vida, já teria feito isso faz tempo.

"E não estou mentindo, sua intrometida!"

"Ah, coitada! Até parece!"

- Ia perguntar se você ainda sente algo por ele, mas a julgar pela forma como acabou de falar...

- Sinto... Raiva, Doug! Queria não poder ter contato mais com ele, só que temos um bebê nos unindo.

- Ele deve está se aproveitando disso para ficar mais ainda te cercando, né?

- Na verdade, ele ainda não sabe do bebê. — revelo. — Pretendo contar só após o nascimento dele. Quero ter uma gravidez tranquila e tendo Grissom por perto, isso não seria possível como tem sido.

- Você faz bem.

- Sério? — não escondo a minha surpresa diante de sua fala. — Não vai me julgar por ainda não ter contado pra ele? Porque quase todos julgam e dizem que devo contar e blá-blá-blá.

De um modo bem calmo, Doug responde:

- Você tem seus motivos e eles são bem plausíveis no meu entender. Se ter a presença desse cara põe em risco o andar da sua gravidez, então o deixe sem saber por hora. Priorize sua gravidez e esse garotão mesmo. Depois você conta para o pai do seu bebê e tudo certo.

- Nossa! Você é a primeira pessoa que concorda de cara comigo quando conto isso.

Ele esboça um sorriso sem mostrar os dentes enquanto ficamos nos encarando por alguns segundos até o toque de seu celular quebrar o silêncio na sala.

- Preciso atender. — diz ao checar a tela do celular e franzir a testa.

- Algum problema? — noto seu semblante se fechar.

- Espero que não. Deixa eu ir, Sar.

- Vai lá. Obrigada novamente pelos presentes, Doug. Amei ambos.

- De nada! Até mais.

- Até.

Ele se dirige até a porta, mas para antes de sair da sala e me chama:

- Sara...

- Oi!

- Gostei de saber que não nutre outro sentimento pelo Grissom que não seja raiva.

- Por que? — indago sem entender.

- Porque gosto de você!


***


Berlim, Alemanha...

Assim que toco as primeiras notas de "Somewhere over the rainbow" ao piano, em um ritmo bem mais lento, para tentar acalmar Will e fazê-lo dormir, já que ele está bem agitado; sinto uma onda de nostalgia e melancolia. Nostalgia, porque faz certo tempinho que não toco tal canção; e melancolia, porque ela me remete totalmente a minha mãe, posto que esta foi a primeira música que aprendi a tocar na escola e toquei especialmente para ela no dia das mães em uma apresentação escolar.

Ainda consigo lembrar de seus olhos marejados assim que terminei minha apresentação solo aos sete anos de idade e a vi na primeira fileira do pequeno teatro do conservatório.

"Parabéns, meu amor!", eu li em seus lábios enquanto ela batia palmas emocionada e feliz. Ao seu lado, o lugar destinado ao meu pai, vazio, ele não apareceu, provavelmente ficou resolvendo problemas na Care, como sempre.

Lanço um olhar para William em seu carrinho e sua inquietação diminui a cada nota da canção. Sigo então tocando em um ritmo lendo, com notas suaves e progressões harmônicas como sabia de cor, sempre revezando minha atenção entres as teclas do piano e em Will cada vez mais calmo.

Particularmente, amo essa música. A letra dela descreve um lugar idealizado, "além do arco-íris", onde os problemas desaparecem e os sonhos se realizam. Só gostaria de um lugar deste para morar atualmente, porque onde moro é um pesadelo horrendo, com problemas e estresse.

Não faço ideia de por quanto tempo toquei, só o que sei é que quando encerrei com a última nota e olhei para William, ele estava a sono profundo, feito um anjinho, algo que me faz sorrir.

"Você tem sido a pequena luz nessa escuridão a qual minha vida está passando.", penso sem tirar os olhos dele.

Meus únicos momentos felizes são quando estou com Will. Mas hoje, nem mesmo a companhia do meu "carinha" me tirou a tristeza do peito. Tristeza essa que vem da ausência de qualquer sinal de resposta de Sara ao meu envio. Tudo bem que eu já meio que desconfiava que não haveria resposta de agradecimento vinda dela, mas no fundo, criei aquela esperança ao longo do dia de, sei lá, vir algo. Ainda que não fosse um agradecimento educado, mas sim uma mensagem desaforada ou uma ligação mal criada, enfim qualquer coisa. Porém não veio absolutamente... NADA! E isso doeu.

- Acho que a Sara me odeia com toda força, carinha. — murmuro para não acordá-lo. Se bem que William não é tão fácil de acordar assim depois que pega no sono. — Tenho certeza de que ela seria uma mãezona pra você, Will. — sorrio.

Apesar de lembrar do seu pânico quando houve a possibilidade dela estar grávida de mim, eu tenho para mim que, ainda assim, Sara seria uma mãe incrível. Certamente, uma mãe melhor que Maryanne, ela será, porque a mulher com quem casei não serve para este papel. Ela sequer dá atenção ao filho e se recusou veemente a amamentar William, mesmo mediante a ameaças minhas, o que me deixou puto de ódio. Mas segundo Matilde, a decisão de amamentar ou não é de Maryanne e não deve ser algo forçado. Portanto, precisávamos respeitar à sua escolha.

E, por conta dessa situação, tivemos que recorrer a um banco de leite, porque não queria que Will fosse introduzido ao leite de fórmula artificial, sendo tão novinho.

- Gil??

Me viro no banco e colocando o dedo indicador sobre os lábios, sinalizo para Matilde que faça silêncio e aponto o carrinho de William.

- Dormiu? — ela gesticula com a boca sem emitir som, enquanto adentra na sala de leitura.

Balanço a cabeça em confirmação.

- O que foi? — indago baixo quando Matilde para próxima de mim.

- Já está tarde. Vim saber se conseguiu fazê-lo dormir, para levá-lo para o quarto... E, pelo jeito, conseguiu. — ela diz em um sussurro.

- Consegui, tocando uma música.

Estava orgulhoso de meu feito. Tinha sido a primeira vez que tocava para Will.

Li em algum lugar que estudos mostraram que a música pode reduzir a excitação do bebê, diminuir a frequência cardíaca e até mesmo influenciar positivamente o desenvolvimento cognitivo e emocional. Então, resolvi testar hoje com Will diante de sua inquietude toda vez que o colocamos para dormir. E para o primeiro teste o resultado não poderia ter sido melhor.

Ficamos, Matilde e eu em silêncio velando o sono de William até Tilde anunciar que levaria o bebê para dormir mais confortável em seu berço. Me despedi de Will lhe dando um beijo na testa e murmurando um baixo "durma com os anjos, meu carinha", em seguida fiquei observando Matilde sair com ele da sala.

Curioso como criei muito rapidamente um laço de amor grande por William. A cada dia procuro ser a minha melhor versão para ele. Até porque quando você teve um pai não carinhoso e se torna pai, esforçar-se para ser diferente, pelo mesmo no meu caso com Will tem sido assim.

Eu venho me esforçando para lhe dar todo o carinho e amor que ele não receberá do pai biológico, tampouco da mãe. Quero ser para William um pai totalmente diferente do que eu tive. E venho dia após dia tentando sempre ser a minha melhor versão para ele e por ele.

Ainda permaneço na sala por mais alguns minutos racionalizando. Até me levantar do banco, baixar a tampa do piano e sair dali rumo ao quarto. Ao adentrar no cômodo, para o meu desagrado, encontro Maryanne ainda acordada, acomodada a cabeceira da cama, lendo algum livro que não faço ideia de qual seja e nem me interessa saber.

- Conseguiu fazer o menino dormir?

- Qual a sua dificuldade em se referir a ele pelo termo "filho"? — indago sem me dar o devido trabalho de olhar em sua direção enquanto sigo rumo ao closet para pegar uma muda de roupa para ir dormir no quarto de hóspedes.

Desde que deixei claro para ela que entre nós não haveria mais relações, passei a dormir em outro quarto. Nem em pesadelos mais, eu dividiria o quarto, muito menos a cama com aquela mulher. Porém minhas coisas ainda estavam ali naquele quarto até o closet em meu novo quarto ficar pronto.

- Ai, Gil! Não seja apegado a termos.

- Ótimo! Pois quando ele crescer te chamando pelo nome, não o cobre para que chame de "mãe", quando você não o chama de "filho" e nem o trata com o carinho de uma mãe por um filho.

- Isso aí é você falando por conta da relação que tinha com o Joseph?

- Não me enche a paciência, Maryanne. — retruco alto de dentro do closet. Só por ela ter mencionado o nome do coroa, já conseguiu me tirar mais ainda do sério.

- Está irritado, querido?

Resolvo ignorar sua pergunta e não respondê-la. O simples fato de ouvir a voz de Maryanne já me irrita e ouvir mais ainda aos seus interrogatórios em tom irônicos é pior ainda. A verdade é que tudo nela me irrita. Tanto que tenho a evitado ao máximo dentro daquela casa. O pior de tudo é pensar que ainda tenho longos meses pela frente, de convivência com ela.

- Não vai responder? — a ouço, mas sigo ignorando-a.

Assim que acho um pijama, pego a peça e saio do closet sem dirigir qualquer palavra ou olhar na direção de Maryanne. Só quero sair dali o quanto antes e ficar longe dela para não cometer uma besteira.

- Já soube que você enviou flores para a minha prima.

Interrompo minha caminhada até a porta de saída do quarto ao ouvir tal fala dela. Bem, lentamente, me viro para encarar Maryanne.

- Anda me espionando?

Era só o que me faltava!

- Se estiver? — ela ergue o queixo em sinal de desafio, me enfrentando.

- Acho bom parar, se não quiser se dar mal. E eu estou falando muito sério.

Me pergunto o que ela sabe mais? Será que sabe de Hajna também? Duvido! Ou do contrário já teria feito um escândalo.

- Você quebrou uma regra do nosso contrato de casamento, lembra? — ela se pronuncia ignorando minha ameaça.

- Lembro! — digo simplesmente após jogar o pijama sobre um dos ombros e, em seguida, guardar as mãos fechadas dentro do bolso da calça. — Vai fazer o quê com isso? Me delatar para o Conrad e a diretoria? Ou melhor ainda... Terminar o nosso casamento de fachada? Porque se for isso, eu mesmo marco uma reunião para amanhã e você faz sua grande revelação. Quer?

Vejo sua expressão outrora altiva e arrogante por achar que sua fala fosse me abalar, se desfazer e a confusão tomar conta dela.

- Você não está preocupado com isso?

- Já estive mais preocupado antes. Agora nem tanto.

- Por que?

- Se me expor o que vai acontecer comigo vai ser somente eu ser tirado da presidência da Care. Já com você... — digo parando bem próximo da cama. — Nossa! Você vai pra cadeia por me roubar! Porque eu ainda tenho muito bem guardada as provas de que você junto com o seu amante me roubavam. — abro um sorriso sarcástico. — E aí? Ainda quer me dizer mais alguma coisa, esposinha?

- Não!

- Ótimo. Vou para o meu quarto. Tenha uma péssima noite... Querida! — pisco um olho para ela e giro em meus calcanhares, seguindo para a saída do quarto.

- Uma péssima noite pra você também, estúpido!