After Separation - Livro 2
26 Capítulo XXIV
Notas iniciais
"A felicidade consiste em vencer os inimigos, em vê-los de joelhos à nossa frente, em tirar-lhes as suas propriedades, em saborear o seu desespero..."
(Gengis Khan)
****
Berlim, Alemanha...
Com um sorrisinho no canto dos lábios e as mãos balançando em uma regência às notas musicais de L.O.V.E de Nat King Cole, que ecoam do sistema de som moderno, sigo em minha caminhada sobre a esteira da academia de casa naquela tarde.
Minha vida pode não estar como eu gostaria no atual momento, onde me encontro em um casamento de fachada e longe de quem verdadeiramente amo, mas nada como uma boa notícia para dar um UP e me trazer um leve conforto e uma breve satisfação, ainda mais quando já se estamos há menos de duas semanas do Natal. É como meu presente antecipado à data festiva.
A ligação de Nova York do meu advogado minutos atrás, contando a boa nova de que o juiz decretou ganho de causa a meu favor no caso da dívida de Bryan, foi como um facho de luz e alegria no meu monótono dia de merda.
— Parabéns, Grissom! Você acaba de se tornar o sócio majoritário de um escritório de advocacia.
O sorriso em meus lábios se alarga ao recordar de tais palavras de Joshua assim que atendi sua ligação.
— Sou o novo dono do seu escritório, Simons! — o sabor com que digo tal palavras não pode ser o melhor. Sabor de vitória!
Gostaria de ter ido à audiência com meu advogado, mas como moro em outro continente ficou inviável. Porém, exigi de Joshua que tão logo a sentença saísse, ele me ligasse dando notícias, e assim, meu advogado fez.
Joshua ainda me resumiu todo o trâmite legal em seus termos técnicos, a respeito de como seria passado para o meu nome as ações de Simons e outros imóveis como quitação pela dívida que ele tinha comigo. Todavia, eu sequer me atentei para o que Joshua explicava, pois estava mais feliz em digerir o doce sabor da vitória sobre aquele calhorda, que outrora cheguei a considerar como um amigo querido, ou melhor, irmão mesmo.
Eu venci, Bryan!, penso com satisfação e gosto. Queria estar na frente dele quando a sentença saísse, só para ter o prazer de esfregar na sua cara o doce sabor da vitória.
— Não devia ter mexido comigo, Bryan. — murmuro com um sorriso.
O toque do meu celular descansando sobre o suporte na esteira ergométrica profissional, chama a minha atenção.
— Isso será interessante! — sibilo ao ver o nome que pisca incessante na tela do celular. Dou o comando a Alexa de pausar a música que toca e só quando ela faz o que ordeno, que atendo a chamada.
— Olá, Simons! Que surpresa! — há um sorriso mais alargado em meu rosto e uma alegria e deboche explícito em saudar o sujeito que ainda ousa me ligar.
— Escuta aqui, seu infeliz! Vai te custar muito caro ter me tirado o escritório. Você não perde por esperar!
Alguém parece bravinho e se achando o todo fodão com essa marra toda ao me ameaçar. Só que ele esquece com que está falando. Eu não sou qualquer pessoa que ele vai amedrontar com suas ameças de quinta. Sou Gil Grissom e ninguém me apavora!
— Nossa, estou me borrando de medo da sua ameaça de bosta! — retruco sem me deixar abalar pelo seu xingamento e muito menos, por sua ameaça de quinta série. — Eu venci e você perdeu! Isso que importa no final para mim, Simons.
Tais falas finais nunca soaram tão doces e satisfatórias do que qualquer outra proferida por mim nos últimos tempos.
— Posso ter perdido agora, mas você também irá perder o que mais te importa, como eu perdi.
"Isso já me aconteceu, seu idiota!", penso ao me recordar de Sara. Não há um dia em que eu não me martirize com a lembrança de nosso término e a grande possibilidade de isso ter me custado para sempre a mulher que amo.
— Aprende a fazer uma ameaça que preste e depois vem falar comigo. — rebato em tom sério. — E outra coisa, aceita que seu escritório é meu agora, que é melhor, seu merda!
Encerro a ligação sem me dar ao trabalho de dizer mais um A àquele estupido, porque não vale a pena e, ainda por cima, é perda de tempo.
Devolvo celular ao suporte e dou o comando para Alexa voltar a tocar a música que tive que pausar para atender a chamada do calhorda do Bryan.
A canção L.O.V.E que estava nos seus últimos versos antes de ser interrompida, termina e na sequência toca os primeiros acordes de Fly me to the moon de Frank Sinatra. Sorrio apreciando a canção, que é uma das minhas preferidas da playlist.
A voz marcante de Sinatra então preenche a academia ao cantar os primeiros versos daquela canção. E quando a segunda estrofe vem, me vejo cantando-a junto com Sinatra em uma sincronia harmônica.
— In other words... Hold my hand... In other words... Baby, Kiss me! — cantarolo os versos daquele clássico enquanto aperto um botão no painel da esteira para acelerar a sua velocidade, saindo de uma caminhada acelerada para uma corrida leve.
As notas musicais do solo da canção que se segue, me faz balançar de leve o tronco do corpo em sincronia com a música, mas sem deixar de perder o compasso da corrida.
E quando o som das batidas da bateria ressoam já no final do curto solo, gesticulou com as mãos, simulando estar tocando a bateria da canção.
— Fill my heart with song... Let me song forever more...
— Acho que você é a única pessoa neste planeta a qual malha ouvindo Sinatra.
Ouço a voz de Maryane reverberar, cortando meu duo particular com Sinatra.
Ainda mantendo minha corrida na esteira, lanço um rápido olhar na direção da "minha adorável raposinha" que se encontra parada na soleira da porta da academia.
De fato, eu adorava malhar ouvindo Sinatra e outros cantores de Jazz e blues. Sei que esses dois estilos musicais e malhação não combinam em nada, mas para mim é ótimo. E enquanto a maioria por aí prefere ouvir as músicas modinhas do momento. Eu não, porque não sou como a maioria! Eu sou diferente em todos os sentidos.
— Tem que ter um diferencial dos demais para se destacar. — retruco já sem olha-la e com um sorriso no canto dos lábios.
— Parece feliz! Aconteceu alguma coisa?
Seu tom de voz mostra-se levemente desconfiado.
— Apenas consegui fechar um ótimo negócio. — me limito em responder. E antes que ela me interpele novamente, disparo sem lhe dirigir o olhar: — O que faz em casa? Não devia estar no trabalho?!
Se eu soubesse que ela chegaria cedo em casa nem teria vindo para cá depois da reunião com o gerente do banco. Iria para o escritório da Care mesmo e por lá ficaria fazendo hora até meu compromisso das cinco.
— Devia, mas não me senti bem. Aí, pedi para meu chefe me liberar para trabalhar em home office hoje e amanhã.
Dirijo meu olhar para Maryane e ao encara-la mais atentamente, que noto sua face um pouco abatida e pálida enquanto a mão direita descansa sobre a barriga arredonda, que parece crescer muito rápido a cada dia que passa.
Na mais recente consulta que acompanhei Maryane, a médica disse que o bebê está se desenvolvendo muito bem e que tem tudo para nascer um nenê forte, grande e muito saudável!
— O que houve? — indago-a.
— Nossa, que lindo! Meu maridinho preocupado comigo?... Quem vê até acreditaria que é verdade isso.
A encaro bem antes de dar um comando para Alexa encerrar a playlist que toca. Só então me dou o direito de responder à fala em tom provocativo de Maryane.
— Por mais incrível que pareça... — começo ao mesmo tempo que aperto de modo sucessivo o botão na tela da esteira, que reduz sua velocidade até que ela pare por completo. -... Estou realmente preocupado. Você só errou com quem é a minha preocupação. — apanho o celular do suporte, juntamente com a toalhinha e saio da esteira já desligada. — Estou preocupada é com o nenê e não com você! Como ele está? — aponto para a barriga de Maryane ao parar diante da mulher.
— Claro! O nenê!... Você se apegou a ele, não é?
— Sim! — admito.
Ainda que no início me fosse indiferente aquele nenê, eu fui com o passar do tempo me apegando a ideia de ser seu pai e adquirindo sentimentos genuínos por ele. Acho que a frustração por conta da não gravidez de Sara, me fez, de certo modo, transferir minhas expectativas de pai para aquele ser inocente que vem crescendo na barriga de Maryane.
— Ele está bem? — insisto já que não ouço até o momento uma resposta satisfatória da mulher.
— Ele está ótimo! Eu é que estou péssima. Esse nenê está acabando comigo e com meu corpo, me deixando gorda desse jeito. Não vejo a hora dele nascer de uma vez, para eu recuperar meu corpo de antes!
Não consigo acreditar que escutei o que escutei. Me assusta um pouco. Mas se bem que não deveria me surpreender vindo de quem vem, mas porra é o filho dela. Maryane não deveria falar desse modo tão insensível.
— Você me dá pena! — falo, balançando a cabeça em negativa.
— Por que?
— Ainda pergunta?... Você tem o privilégio de carregar um bebê, seu bebê, uma vida dentro de você e olha as coisas que diz dela? Se ouve?!
— Falou o sujeito que tinha aversão em ser pai e agora, está aqui na minha frente, tentando pagar pose nesse papel que não combina com ele.
Balanço a cabeça em concordância com sua fala até certo ponto.
— Não nego a minha... Aversão. Até porque sempre deixei claro que esse papel não era pra mim e não queria mesmo ele. Mas somos seres mutáveis!
— Sei. Acho que nem mesmo você acredita no que acabou de dizer.
Respiro fundo para não perder as estribeiras com Maryane. Não deixarei essa mulher acabar com minha alegria. Sairei de perto dela antes que isso aconteça.
— Se está tudo bem com o nenê, então vou tomar banho e me arrumar para sair.
— Vai para onde? — Maryane interpelar ao me segurar pelo braço quando vou passar por ela. — Pensei que estava em casa porque tinha tirado a tarde de descanso e não voltaria para o escritório.
— Pensou errado. Tenho um compromisso logo mais.
— Posso te acompanhar?
Sorrio com certo sarcasmo. Sério que ela acha que concordarei com isso?
— Óbvio que não! — decreto sem pestanejar. — Levarei um grupo de investidores para assitir à uma partida de futebol no estádio. Depois iremos jantar e... O resto não sei. Vai depender deles se quiserem esticar a noite.
— Desde quando gosta de futebol, Grissom? — ela me encara com o semblante sério e cruzando os braços sobre o peito. Provavelmente, achando que estou mentindo, o que não é caso.
— Desde sempre!... Só não fico falando sobre futebol com quem sei que não entende nada como, por exemplo, você. — revelo, tirando sua mão do meu braço. Em parte o que disse é verdade em outra não. Eu gosto de futebol, inclusive tenho meu time do coração o Hertha Berlin. Porém não sou tão aficionado por futebol assim e, tampouco acompanho assiduamente a liga alemã, mas Maryane não precisa saber deste detalhe. — Agora preciso ir tomar um banho e me arrumar. Tenho uma partida da Bundesliga para assistir às 17:30hs. Meu time o Hertha contra o Hannover. Até mais!... Não me espere acordada, porque chegarei bem tarde. — grito já longe de Maryane e ouvindo-a chamar pelo meu nome repetidas vezes, mas a ignoro por completo.
***
O Olympiastadion casa do Hertha em Charlottenburg, distrito de Berlim, está lotado. Do camarote assisto ao show da torcida com suas bandeiras, sinalizadores e suas vozes entoando cânticos. Acredito que por essa temporada o Hertha estar de volta à primeira divisão da liga justamente no seu 125° aniversário de fundação, os jogos todos em casa têm sido lotados e de festa.
Para essa noite terminar perfeita só falta meu time ganhar do Hannover, o que tenho certeza que vai acontecer.
— E ainda dizem que os alemães são frios! Olha isso! — um dos investidores, um sujeito de quase meia idade diz em um alemão meio embolado e apontado para os torcedores nas arquibancadas.
— Pois não é?! — digo ao sujeito vestido com a camisa do Hertha, presente meu a cada um dos cinco investidores do grupo ali comigo.
O "manto" titular que os presenteei tem a cor azul royal como predominante e possui quatro listras brancas verticais na frente do manto, além de faixas laterais na mesma cor. Nas costas, a camisa ganha um enorme box branco, com as mangas e a região das omoplatas em azul. A gola tem formato redondo e é careca, com uma faixa em azul marinho na nuca.
Já eu estou usando por baixo do Armani escuro, uma versão dourada da camisa do Hertha com sua logomarca no lado direito do peito, enquanto o escudo do clube de Berlim é colocado no lado esquerdo, em sua versão atual contornada de dourado, em homenagem aos 125 anos do time.
— Os alemães sabem ser quentes também. — outro sujeito diz empolgado e empunhando uma caneca de cerveja caríssima.
— E as alemãs principalmente. — digo com um sorriso malicioso.
— Espero que depois do jantar nos leve aquele lugar que disse, para comprovarmos essa sua fala na prática. — um terceiro diz erguendo o copo em um brinde.
— Deixem comigo. De alemãs, eu entendo como ninguém. — pisco para ele. — E onde os levarei só tem as mais quentes garotas.
— E por isso que adoro vir a Alemanha o "bordel da Europa" e fazer negócios com você, Grissom. Você sabe cativar seus parceiros.
Faço uma reverência com a cabeça e sorrio para o sujeito antes de bebericar meu uísque enquanto os cavalheiros comigo preferem cerveja alemão tradicional.
"Nada como futebol e mulheres para conquistar um grupo de homens!"
O jogo foi ótimo. O Hertha acabou vencendo o Hannover pelo placar de 3x1, para a minha alegria completa naquela noite.
Do estádio fomos ao restaurante jantar e comemorar a vitória do meu time. Depois seguimos rumo para a Alt-Tempelhof 17-19, 12099, no centro de Berlim, onde funciona o King Joel, um bordel.
Em Berlim, há meia dúzia deles. Mas meu preferido até meses atrás era o King. Perdi as contas de quantas vezes estive no lugar para beber e transar o quanto quis com Klaudia, Katja, Petronella, Alina, Barby e as outras 27 garotas da equipe, a maioria vindas do Leste Europeu, que se empoleiram em bancos de veludo ou botas de couro entre as muitas luzes vermelhas do lugar.
Deixei de frequentar o King depois que voltei para os USA, e quando retornei para a Alemanha após meu casamento com Maryane não coloquei os pés ali até esta noite.
Ao descer do carro já avisto Alina trabalhando na porta. A morena que diz que é de Nápoles e que sente saudades do mar e de casa. Mas Alina, eu e seu sotaque sabemos que ela não é da Itália. Provavelmente da Romênia, está usando um tubinho rosa. O vestido cobre seu corpo como um pão cobre a salsicha de um cachorro-quente. Mas quando ela se levanta para pegar algo, o vestido sobe acima da bunda e ela precisa ajeitá-lo de novo com as mãos.
— Preparados para a diversão, senhores? — lanço um olhar aos sujeitos que já me seguem até a entrada do nosso point de diversão da noite.
— Certamente, Grissom. — concorda um dos sujeitos.
— Ainda acho que isso pode dar ruim. — reclama outro. Desde o restaurante, ele era o único preocupado, por conta da esposa descobrir. Segundo ele, sua mulher corta suas bolas se descobrir que pisou em um bordel.
— Já falei que o que acontece lá dentro, fica lá dentro, como em Vegas. — tranquilizo.
Ao parar diante de Alina recebo um sorriso em cumprimento e ela me indica a porta de entrada, sem esboçar qualquer interação mais íntima. Ali as garotas são instruídas a não fazer grandes interações com os clientes, mesmo os que já são velhos conhecidos seus. Política da casa! O dono, Sacha Erden, preza pela discrição de seus clientes.
Dentro do bordel as outras garotas estão usando o mesmo vestido de Alina, porém em diferentes tons de rosa. É tipo o uniforme da casa. Subindo e descendo, mostrando bundas e partes da virilha enquanto andam pelo salão com saltos altos e finos, que as deixam parecendo uma palafita de pescador – do tipo que não resiste a uma tempestade mais forte ou vazamento de óleo. E todas fumam.
— Você poderia arrumar uma boa mesa para mim e meu grupo? — peço já estendendo algumas notas de dinheiro para Klaudia, uma loira mignon, mas com uma bunda avantajada, que já sentiu o peso da minha mão em uns tapas bem dados. A mulher oriunda da Áustria, logo nos acomoda em uma mesa na lateral do clube. Boa visão para o palco, próxima ao bar e a escada que leva para os andares de cima onde estão os quartos para transar.
— Sacha está aqui? — indago a Klaudia quando a mulher se curva com o decote quase esfregando em minha cara.
— Lá no escritório. — responde com um sorriso safado. — Vai querer meus serviços hoje?
Todas na casa tem sua fama, mas Klaudia é tipo uma celebridade em Berlim. Os clientes pagam bem caro por uma hora com ela. Mas também com sua habilidade com a boca, vale a pena cada euro gasto com a loirinha.
— Hoje não, baby. Mas, meus amigos irão adorar experimentar essa boquinha. — resmungo e em seguida me dirijo ao grupo de homens: — Preciso falar com uma pessoa, amigos, mas volto logo. A Klaudia aqui vai cuidar de trazer a bebida que quiserem e a menina do agrado vocês, não é Klau? — ela assente e saio dali para ir cumprimentar meu velho conhecido a quem não vejo há meses.
Pelo caminho sou abordado por Petronella e Barby em seu espanhol para lá de fajuto, que ambas aprenderam na Romênia, país natal delas, assistindo a novelas espanholas. Foram elas que me contaram isso certa vez, e ainda revelaram, que falam assim porque é divertido. Pode ser divertido fingir ser da Espanha, mas na Alemanha, onde ser romeno é a única coisa que emputece as pessoas tanto quanto os pedófilos, é o bom senso.
— Sacha! — chamo abrindo a porta após duas batidas.
— Olhos azuis! Quanto tempo, homem?! — ele vem até mim.
Trocamos um longo e apertado abraço. Regado de tapas nas costas.
Tenho em Sacha Erden um amigo, ou melhor, um tio, já que ele tem idade suficiente para tal. Sabe aqueles tios legais que te dá os melhores presentes? Este é Sacha. Só que para mim seus presentes se resumem a drinques grátis e horas extras com suas prostitutas.
— Pois é, muito tempo. Como vão as coisas, Sacha?! — indago ao desfazermos o abraço.
— Movimentadas como sempre, mas sente-se, Gil. — ele me indica o sofá e me acomodo no móvel. — Toma uma comigo?
— Só se for aquele escocês do bom.
— Você sabe, perfeitamente, que é só esse que tomo. — ele retruca em seu tom ranzinza que me faz sorri.
— E por aqui como vão as coisas, o movimento?
— Melhores como nunca. Faturamento alto, olhos azuis! — ele revela com um sorriso.
Erben me contou uma vez que comprou o King há mais de vinte anos, quando a prostituição nem era ainda legalizada na Alemanha (fato que ocorreu em 2002). Ali no local antes funcionava um clube de striptease, que ele transformou em prostíbulo clandestino.
Erben cresceu na Alemanha Oriental, onde o primeiro gostinho que teve da profissão mais antiga do mundo foi alugando apartamentos por hora para um amigo da família. Quando o Muro caiu, Erben se mudou para a Baviera antes de resolver voltar para Berlim. “O sorriso é a coisa mais importante numa prostituta”, ele me disse. “Elas não precisam ser bonitas; na verdade, muitas vezes é melhor que elas não sejam. O que você quer é o tipo de garota que ainda consegue jogar charme mesmo depois de 12 horas sentada sem fazer nada."
— Nada como faturamento alto para alegrar os olhos do patrão, não é velho Sacha?
— Com certeza! — seu sorriso é enorme enquanto se acomoda ao meu lado após me estender o copo de vidro com a bebida âmbar da minha preferência e da sua.
Apesar da carranca e as vezes jeito ranzinza, Erben é no fundo um cara simpático e gentil, e quem o conhece, como eu e as garotas sabe disso. Ele compra presente para as meninas, as trata com respeito e cordialidade.
Em uma das nossas primeiras conversas no bar, eu o indaguei se ele transava com as suas garotas. Em um tom quase que ofendido, Sacha negou. Segundo ele: “Se fizer isso, não estarei respeitando-as como funcionárias. E isso pode causar problemas entre as garotas.”
"E como supri suas necessidades ?"
“Tenho uma namorada, mas encontrar alguém com quem construir uma família, considerando meu negócio, é complicado.”
Já as garotas têm todas família. Klaudia, por exemplo, tem uma filha de 17 anos. Ela vai buscá-la no trabalho toda manhã e as duas saem para comer kebab. Klaudia também é enfermeira. Ela é útil aqui no bordel, mas bem menos no mundo real, onde uma enfermeira ganha apenas €1.300 (R$3.900) por mês. Numa noite boa no King, ela pode três vezes esse valor. Em uma conversa, Klau me revelou que vive bem como prostituta. Ela passa as férias em Ibiza no verão e nos Alpes no inverno.
“Muito do dinheiro nem vem do sexo. Os homens só querem alguém para conversar ou companhia para tomar uma garrafa de champanhe”, ela revelou. “Às vezes, atendo uns três ao mesmo tempo, todo mundo na jacuzzi, rindo.”
E não é somente sexo. Sacha tem tudo calculado. O cliente de taxa fixa médio transa com 2,7 garotas. O resto do tempo ele gasta bebendo no bar, jogando pôquer nos caça-níqueis ou até deitado sozinho em um dos quartos.
O King Joel fica aberto sete dias por semana, mas as garotas trabalham um máximo de cinco dias. “Para se regenerar”, diz Sacha, “mental e fisicamente”.
Uma funcionária pode transar até 20 vezes numa noite. Não consigo, nem quero, pensar em como alguém se regenera mentalmente disso.
As garotas vão e voltam. Katja, da Hungria, tem dois filhos e qualificação em assistência médica, mas não consegue arrumar emprego agora, então está da expediente no King por enquanto.
E ela gosta do trabalho? “Às vezes, não muito. Mas ninguém gosta do seu trabalho normalmente”, ela disse-me certa noite.
— Mas e você, Gil? Acompanhei notícias pelo jornal da morte de seu pai e que você se tornou o novo manda chuva da empresa da familia.
— Pois é.
— Sinto muito, pelo Grissom mais velho. — ele dá dois tapinhas em meu ombro.
— Não sinta, porque eu não senti. — digo em tom seco antes de virar meu copo de uísque.
— Por que sinto uma revolta em seu tom de fala? O que houve? Não quer desabafar com o velho Sacha?
— Valeu, mas não quero tocar nisso. Deixa quieto, que é melhor.
— Se você diz, eu respeito. — ele ergue as mãos em rendição. — Mas saiba que qualquer coisa, o velho Sacha está aqui pra você.
— Sei sim. Agora deixa eu voltar lá para baixo. Trouxe uns amigos e não é muito elegante deixar meus convidados sem seu cicerone.
— Aposto que estão adorando estarem sem ele. Se duvidar estão já nos braços de algumas das minhas meninas.
— Não duvido. Mas deixa eu ir, Sacha. Só vim dá um "olá".
— E tomar uma dose do meu melhor escocês, admita.
— Sim, admito. — ergo as mãos sorrindo e Sacha me acompanha no riso. Nos despedimos em seguida e quando já estou alcançando a porta para sair do escritório, Sacha me chama. — Diga! — me viro para ele.
— Tem uma garota nova na área. Seria legal saber sua opinião sobre os serviços dela, já que é o meu cliente preferido e bem exigente.
Sorrio. Depois que peguei amizade e me tornei um das principais clientes do Sacha alguns anos atrás, ele passou a sempre me oferecer as garotas novas para experimentar seus serviços e saber se elas são boas o suficiente para sua clientela exigente como eu. E dependendo da minha avaliação a garota ficava ou não no prostíbulo.
— Não posso mais fazer isso, Sacha! — mostro minha mão esquerda.
— Aliança, por acaso, virou sinônimo de cinto de castidade, Grissom? — ele me encara com a cabeça tombada para o lado direito.
— Não. Mas um contrato onde posso perder uma parte do meu patrimônio caso traía minha esposa é sim.
— Porra! Espertinha a moça, hein?!
— E como!
— Mas ainda assim, achei que Gil Grissom era mais corajoso e que não se deixava dobrar assim.
— Covardia sua mexer com meus brios! — aponto com o dedo indicador na sua direção.
Sacha cai na risada e saio da sala para voltar ao meu grupo. Encontro só dois dos homens. Os outros já tinham subido para os quartos acompanhados. Entre eles o que estava com medo da esposa descobrir que estava em um prostíbulo. O medo passou rapidinho, pelo visto!
***
— Olá!
Ergo os olhos do copo para me deparar com uma loira escultural postada ao meu lado com uma das mãos na cintura fina.
— Olá! — digo erguendo meu copo em cumprimento.
— Posso? — ela aponta o meu lado vazio no sofá. Estava sozinho na mesa, meus convidados estavam se divertindo no andar de cima com as garotas e eu fiquei ali. Umas e outras meninas da casa já tinham vindo me abordar e as recusei uma a uma. Em outros tempos isso jamais aconteceria. Mas atualmente as coisas estão outras diferentes. O Gil Grissom de antes teria pena e riria na cara deste patético Grissom que me tornei. — Se estiver esperando por mais do que apenas se sentar aí e jogar conversa fora, estará perdendo seu tempo. Não estou afim de foder ninguém, apesar de você ser uma baita gostosa.
— Uau! Obrigada pelo "baita gostosa". — há um sorriso em seus lábios vermelho sangue. Ela se acomoda ao meu lado com uma taça contendo um líquido azul. — Mas que pena que ainda assim, não queira foder comigo.
— Você deve ser novata aqui estou errado?
— Não. Estou há duas semanas aqui. E há quase uma hora te espreitando dali do bar.
— Hum... — resmungo antes de dar um gole em minha bebida. — E o que achou? — lanço um olhar a ela.
— Que poderia estar se divertindo melhor em outro canto desse lugar e com uma ótima companhia, do que aqui, bebendo solitário.
Sorrio.
— Meses atrás, eu estaria me divertindo deste exato jeito que falou, mas agora não.
— Por que?
Ergo a mão e mostro a aliança de casamento em meu dedo anelar.
— Sério?... — ela me encara incrédula. — Deixa só eu te contar um segredinho... A maioria que vem aqui, senão todos que frequentam esse lugar... Tem esse adereço no dedo e... — ela aproxima os lábios da minha orelha e cochicha: -...Nem se importam com isso.
— Touché! — sorrio de lado. — Me pegou!
— Não ainda do jeito que eu queria. — seu dedo indicador contorna minha mandíbula. — Então inventa outra desculpa melhor que essa da aliança ou sobe comigo e se diverte de verdade. O que me diz?
Encaro por alguns segundos sua mão estendida em minha direção antes de subir os olhos para o rosto da loira e lentamente abrir um sorriso a mulher.
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