After Separation - Livro 2
18 Capítulo XVI
Notas iniciais
Respeitável público
Um show tão maluco, essa noite, vai acontecer aqui
A gente vai armar um circo, um drama com perigo
E nessa corda bamba, quem vai caminhar sou eu
***
Em um verdadeiro circo de horror é no que estou prestes a me atirar. E o pior de tudo é ter que fingir para todos os convidados (exceto Lewis que sabe da verdade), algo parecido com alegria. Uma alegria que nem de longe estou sentindo e que a minha imagem refletida no espelho denuncia. Eu não estou feliz pelo casamento que vai acontecer na sala daquela casa dali algum tempo.
— Você terá que ser um ótimo ator para disfarçar sua cara de velório aos convidados que começaram a chegar.
Pelo espelho vejo meu irmão escorado ao batente da porta do quarto. Lewis está bonito em seu terno grafite com gravata borboleta roxa e sapatos pretos e brilhantes.
— Você está bonito. — comento com um fraco sorriso.
— Você também. — ele diz me analisando de cima abaixo em meu terno completo (calça, colete e palitó) na cor azul, na modelagem slim, mais ajustada ao corpo, mangas e calças mais justas e lapelas finas. Abotoaduras em ouro, da coleção do meu irmão, assim como o relógio e a pulseira que uso em cada um dos pulsos. Toda uma produção para um circo, uma farsa, um casamento tão falso, quanto o amor que devo deixar os convidados acharem, que sinto pela mulher com quem estarei me unindo em matrimônio hoje. — Uma pena sua cara não combinar com essa produção impecável.
— Assim que sair deste quarto, a cara vai combinar que é uma beleza. Serei para todos um ótimo ator hoje e pelos próximos 365 dias, se quiser que esta farsa não seja descoberta. — respondo, deslizando as mãos pelo tecido macio do meu terno.
— Ou pode, simplesmente, jogar tudo para o alto, irmão, e não casar com ela.
Me viro para encarar Lewis encostado a porta agora fechada do quarto de hóspedes onde eu venho ficando durante a estadia naquela casa.
— Queria que fosse assim tão simples, Lewis. — suspiro.
— E é, Gil. Basta você não seguir em frente com isto. — ele diz, caminhando até mim e parando bem a minha frente com os braços cruzados.
— Não é assim, Lewis, já te falei. Tem muita coisa envolvida. Muita gente sairá perdendo com a minha desistência do casamento.
— Você mais que todos. Sabe que está dando um tiro no seu pé com relação a Sara se seguir mesmo enfrente nessa história de casamento, não é?
Baixo a cabeça e sei que meu irmão está coberto de razão. A verdade é que já dei esse tiro no pé, um tiro daqueles que pode causar um estrago irreparável ou já está sendo isso. Ainda mais se lembro da noite que a vi nos braços de outro.
Pensar que ela agora está livre para encontrar alguém por quem ela se apaixone e me esqueça de vez, faz algo dentro de mim sangrar como nunca.
Diante do cenário nada favorável o qual me coloquei, tudo o que me resta fazer, é sonhar e torcer para que o cara com ela e qualquer outra pessoa com quem Sara venha a se envolver nesse período que estaremos separados, não seja alguém relevante o suficiente para me tirar do coração dela e fazê-la me esquecer. Egoísmo da minha parte desejar isto? Com toda a certeza!
— Ultimamente, você pegou apreço em jogar na minha cara coisas óbvias, né Lewis? — ergo a cabeça para encarar seriamente meu irmão nos olhos.
— Gil... Você não vai ser feliz nesse casamento. Desisti, por favor. Ainda dá tempo.
Eu queria muito atender ao pedido dele, de verdade. Porém sou covarde. Sem contar que sou responsável o suficiente para não jogar tudo para alto, quebrando promessas e compromissos já firmados, os quais este matrimônio me assegura.
— Não adianta pedir ou implorar, Lewis. Eu irei me casar com Maryane. Muitas pessoas dependem desse casamento.
— Que inferno! Você não a ama, porra!... Para de ser teimoso. Dane-se as outras pessoas, é a sua felicidade que importa nesta merda, Gil.
Meu irmão se exalta de um modo que raramente costuma acontecer. Lewis é uma pessoa estilo good vibes, porém quando se enfurece sai da frente.
— Entenda uma coisa... Eu já decidi sobre o que vai acontecer lá na sala e me comprometi por este casamento, portanto seus chiliques não mudarão a minha decisão.
Sei que acabo de ser duro com ele e até mesmo ríspido em minhas palavras, mas ele precisa parar de ficar nessa insistência toda. Isto já está se tornando chato.
— Ok! — vejo Lewis ergue as mãos em rendição. — Parei por aqui. Pode ficar tranquilo que os meus "chiliques" não irão mais acontecer.
Ele se vira, mas seguro em seu pulso direito antes de ele sequer dar o primeiro passo para me deixar sozinho ali.
— Desculpa. — peço.
Eu não posso perder também o amor, carinho e acolhimento da única pessoa que sei que me ama de verdade. Já basta ter perdido isso da Sara.
— Eu só quero a sua felicidade, mano. E, claramente, este casamento não trará felicidade alguma a você.
— Felicidade é o ato de não se importar com o próximo, ligar o "foda-se" e ser egoísta. É assim que eu penso, Lewis.
— Não, você não pensa assim. Porque do contrário...
— Chega, Lewis. — peço em alto e bom som, porque deu daquele assunto todo. O que decidi está decidido e nada do que ele disser, vai alterar a minha escolha. Gostaria muito de está fazendo diferente, porém estou impossibilitado por uma cláusula do testamento de Joseph e a promessa que ele me fez jurar que cumpriria. Sem contar no meu projeto hídrico. Aquelas pessoas na África precisam de mim para ajudá-las. — Vamos descer e começar de uma vez esta farsa. Vem! Você não pode ficar de fora deste circo.
Extra, extra! Não fique de fora dessa
Garanta seu ingresso pra me ver fazendo merda
Extra, extra! Logo logo o show começa
Melhor do que a subida só mesmo assistir a queda
Passo por meu irmão rumo a porta de saída do quarto. Assim que estiver lá fora, o circo começa e eu terei que ser um perfeito equilibrista andando na corda bamba.
— Gil!
— O que é? — me viro para Lewis com a mão já na maçaneta da porta, prestes a pôr em ação aquele casamento de circo.
— Eu não queria está participando disso. Não queria ver você fazendo essa merda com a sua vida, muito menos ser um dos expectadores da sua queda para a infelicidade, mano.
— Hoje será a queda, Lewis. Mas futuramente será minha redenção. A minha subida triunfal para dias gloriosos. — pisco um olho para ele, confiante que tudo vai passar rápido e logo estarei livre desta situação toda. — Agora, vamos.
Do topo da escada já enxergamos alguns convidados que haviam chego, espalhados pela sala. Uns são colaboradores e sócios minoritários da Care, incluindo meu primo esnobe Conrad, e outros alguns dos meus amigos que estavam comigo na festa de despedida.
— Vou ver com Matilde como estão andando as coisas. E você, seja um bom anfitrião e cuida dos seus convidados. — cochicha Lewis antes de se afastar de mim após descermos dos degraus da escadas.
"Meus convidados!"
Por mim nenhuma daquelas pessoas e, tampouco, as demais que ainda chegarão, estariam aqui. Minha vontade seria casar em um cartório sem convidados de testemunha e sem festa para comemorar um matrimônio de mentira.
"Maryane, você me paga por isso!", Penso antes de parar um garçom e pescar da bandeja que ele carrega um copo de uísque. No primeiro gole que desce queimando a garganta, vejo Conrad se aproximar acompanhado da esposa Waléria.
"Hora de começar a atuar, Gil Grissom!", Penso comigo mesmo.
— Primo! Até que enfim um dos anfitriões deu as caras.
Com um sorriso tão falso quanto o que eu abro para o meu primo, Conrad me abraça em cumprimento, me pegando desprevenido.
— Olá, Conrad! — saúdo após sair do abraço de modo rápido. — Waléria como vai? — estendo a mão para ela que aceita o cumprimento.
— Bem, obrigada, Grissom. Meus parabéns antecipado pelo casamento.
— Obrigado. — agradeço antes de dar outro gole generoso no meu uísque.
— Um casamento tão relâmpago, assim como a notícia da gravidez de sua futura esposa. — Conrad comenta com acidez, apertando meu ombro direito. — Dois fatos que vêem muito a calhar a você, não é priminho? Já que para assumir a presidência, você deve ser um "homem de família". E, agora, possui esse "requisito".
Tenho que respirar bem fundo para não soltar cobras e lagartos na cara daquele esnobe, filho da puta.
— Você sempre tão incoveniente e insuportavelmente maldoso, não é priminho? — com a mão livre, tiro a mão de Conrad do meu ombro. O calhorda do meu primo apenas sorri, sem esconder sua satisfação em me alfinetar. Tenho que tomar muito cuidado com ele, porque Conrad é astuto e sabe bem (não me pergunte como) que meu casamento é só de fachada, porém só não tem como provar. — Com licença.
Me retiro de perto de Conrad antes que voe na jugular dele e depois o atire porta fora daquela casa, caso solte outra alfinetada como a primeira.
Estou engasgado com ele que sempre vem soltando alfinetada atrás de alfinetada como esta, desde que contei sobre meu casamento na reunião, que ocorreu na Care com os sócios três dias após a morte de Joseph.
Sei que para o Conrad foi um tombo enorme a minha revelação do casamento e da gravidez da Maryane, pois meu primo já dava como certo ser o sucessor de Joseph, por reunir os "requisitos": ser casado e pai de família para assumir a presidência da Care. Tanto que quando acabou a reunião, ele veio me ameaçar na cara dura.
"Sei que seu casamento é uma mentira. Ele é só para que assuma a Care no meu lugar. Portanto, escuta bem, priminho, vou provar isto para os sócios."
"Vai em frente, seu merdinha. Não tenho medo de você."
— Bandeira branca entre você e o Conrad, foi? Até abraço rolou. — Jim não perde a chance de me importunar logo de cara. Ele sabe, assim como os demais ali na rodinha, que Conrad e eu temos uma relação nada amistosa.
— Conrad é um bastardo idiota. — resmungo com ódio, parando um garçom e entregando o meu copo já vazio e pegando outro cheio de uísque da bandeja. — Daquela boca só sai merda ou ataques a mim. E, ultimamente, mais até que o "normal". — digo antes de dar um gole generoso na bebida âmbar.
— Ei, vai devagar que você tem que casar sóbrio para depois ficar bêbado, viu?!
— Me erra, Jim.
O filha da mãe apenas ri.
— Aliás, Gil, você nem deveria estar bebendo. Esqueceu que está tomando remédio para esse corte na sua mão? — Catherine me olha em recriminação.
— Aff! Quando vocês dois estiverem menos chatos, eu volto. Rapazes falo melhor com vocês depois. — aceno para Warrick, Albert e Herinch.
Deixo o grupo ouvindo Catherine me chamar em um tom discreto, porém não lhe dou atenção. Sigo até a rodinha de sócios, mas antes sou parado para receber os cumprimentos de alguns poucos colaboradores com quem tenho mais contato na empresa e que foram convidados. Agradeço a cada e, logo em seguida, retomo meu caminho até quem era o meu alvo.
— Olá, senhoras e senhores. — cumprimento o grupo composto de três homens e duas mulheres.
Troco apertos de mãos com todos e por alguns instantes me prendo em conversa com eles sobre negócios e os novos rumos que a empresa tomará sob nova gestão, no caso a minha a partir de amanhã quando serei oficialmente empossado como Presidente das Indústrias Care.
— A princípio não pretendo implementar grandes mudanças. Até porque em time que está ganhando não se mexe. Mas, é óbvio, que tenho planos futuros de novas implementações, sim. — conto ao ser questionado por um dos sócios.
— Você voltará para Alemanha e de lá comandará o grupo Care. Mas a sede principal está em Nova York, como...
— Senhores... — corto o sócio mais velho. — Isso será tratado amanhã na reunião de posse. Deixarei tudo muito bem explicado e direcionado. Mas saibam que mesmo estando em outro continente, eu estarei de olho atento na sede daqui. Até porque como bem frisaram, ela é a principal.
Eles ainda tentam mais outras abordagens. Parecem bem preocupados com o fato de que a sede principal estará sem o seu presidente a frente. Mas não posso ficar aqui, ela me pediu para ir para a Alemanha e assim o farei. Até porque se eu ficar aqui, se tornará impossível conter meus ímpetos de procurá-la. Comigo longe, em outro continente, ela não correrá o risco de ser importunada por mim.
— Gente, amanhã, esclareço todas as dúvidas de vocês e dos demais. Se me dão licença, agora, vou cumprir outros convidados.
Saio dali antes que me aborreça mais do que já começo a me irritar com aqueles abutres, que só sabem questionar e questionar. Se soubesse que iam me crivar de perguntas sobre a empresa nem tinha ido lá.
Cumprimento algumas pessoas que vão chegando e surgindo no meu caminho. Alguns se apresentam como colegas de trabalho de Maryane, outros são empresários que conheço de vista, mas sequer me dou bem direito. "Deve ser coisa da Maryane.", Penso. Foi ela quem fez a lista de convidados.
— Olá! — digo em cumprimento para Edgar, e o pai de Sara que estão ali na companhia de Lewis.
— Se me dão licença, eu vou falar com um empresário conhecido ali.
Carl sai me ignorando completamente. Desde que chegou ali mais cedo com Laura, ele não me dirigiu uma palavra sequer. Se eu chegava em um lugar que Carl estava, ele saia na hora, não fazendo qualquer questão de esconder seu desagrado por me ter perto.
— Seu futuro sogro, não te quer por perto dele nem pintado de ouro, cunhado.
— Edgar! — Lewis dá um cutucão no namorado que tenta segurar o riso pelo que disse.
— Eu dei motivo suficiente para isto. — retruco.
— Sorte sua que ele mora na Califórnia e você estará se mudando em breve para a Europa, mano.
— Hum... — resmungo enquanto paro outro garçom e pego um novo copo e deixo o vazio na bandeja.
Olho para Lewis e no seu olhar vejo a mesma recriminação que vislumbrei em Catherine. Porém, eu preciso beber, porque só assim serei capaz de suportar todo aquele circo armado.
— Que horas sua futura esposa vai descer para começar o casamento, Gil?
— Por mim, ela já teria descido para casarmos logo.
— Quanta pressa cunhado! Tá doidinho pra casar é?
— Não faz ideia do quanto. — forço um sorriso.
Pobre Edgar, não sabe da missa um terço. Ele desconhece por completo que o casamento será meramente de fachada. Pedi ao Lewis que não contasse e assim, ele fez sob muitos protestos. Para o meu cunhado, eu estava casando porque gostava de Maryane que está grávida de mim. Mas para ele engolir isso foi difícil, pois havia Sara e para ele, eu estava apaixonado por Sara. Então tive que usar a mesma justificativa que dei aos pais de Sara no dia que foram lá em casa "achei que estava apaixonado por Sara, mas não estava. Foi só uma atração e nada mais. Por quem estou apaixonado mesmo e amo é Maryane. É com ela que vou casar e formar uma família."
— Para a informação dos dois, o juíz de paz ainda nem chegou. Portanto, ainda não tem como iniciar o casamento.
— Ainda não vi o Joshua. Vocês o viram? Ou melhor, será que Maryane o convidou? — revezo meu olhar entre meu irmão e meu cunhado.
— Ué?! Vocês não fizeram a lista de convidados juntos? — Edgar me encara surpreso.
— Não. Deixei nas mãos dela isso e tudo mais refente ao casamento, porque estava ocupado demais na Care. — me justifico enquanto Lewis me lança um olhar nada contente com aquela situação toda. Ele detesta mentiras e está, justamente, mentindo para o namorado.
— Gil se ela convidou, eu não sei, porque ainda não o vi também. — meu irmão se pronuncia.
Apenas balanço a cabeça de modo positivo. Fico ali com os dois e logo os meus amigos, se juntam a nós. Bem como Nick e Hodges que chegam depois, pois estavam em uma social de negócios deles. E com aquele grupo ali consigo suportar aquele circo armado.
Poucos instantes depois enxergo meu advogado cruzar a porta acompanhado da esposa. Ele me vê de imediato e vem na minha direção. Fala comigo e os demais, e apresenta sua esposa a todos nós. Logo em seguida, peço licença a todos e a esposa dele, para levar Joshua a um canto para tratar de um assunto.
— Alguma novidade sobre Bryan? — sondo meu advogado enquanto pego dois copos de uísque e estendo um deles ao Joshua.
— Obrigado. — ele agradece e toma um gole da bebida. — Falei com alguns contatos e Bryan está que nem louco tentando levantar a grana para não ver o escritório ir a penhora e ter seus bens bloqueados.
Sorrio. Uma boa notícia em meio aos maus tempos que venho enfrentando. Daria tudo para ver a cara daquele calhorda tentando de tudo para reaver grana para quitar sua dívida comigo.
— É bom mesmo, ele conseguir essa grana, porque o prazo dele está acabando.
A data para pagar a dívida em juízo já está bem próxima de vencer.
— Está disposto mesmo a tomar o escritório dele?
— Escritório, casa, carro, o que for preciso! Ele me deve e seus bens serão o meu pagamento.
— E o que fará com esses bens todos, principalmente o escritório, Gil? Pretende vendê-lo ou ficar?
— Ficar, óbvio.
Eu sei bem que aquele escritório rende que é uma beleza pela clientela de alto nível que tem, a maioria só está lá por minha causa que indiquei o escritório do Simons. Portanto, não pretendo me desfazer daquele negócio. Além, do mais, vai me dar um prazer imenso esfregar na cara de Bryan que o escritório que ele tanto se orgulhava, agora é meu.
— Mas você tem a Care para administrar, como fará para...
— Joshua... — lhe interrompo, colocando a mão em seu ombro. — Já falei para você que quero diversificar meus negócios. A Care é da minha família. Quero ter os MEUS negócios.
Dias atrás me peguei pensando nesta ideia de diversificar meus negócios. A Care não é minha, como disse ao meu advogado. Aquela empresa me foi herdada. Eu quero algo meu. E, daí, comecei a cogitar a possibilidade de investir meu dinheiro em alguns negócios menores ou até mesmo comprar pequenas empresas de ramos diferentes para torna-las grandes, porque sei que sou capaz disto. Inclusive, já estou de olho nas ações de uma empresa aérea que está saindo por uma bagatela no mercado.
— Deste jeito ficará sobrecarregado, não acha?
— Talvez. Mas eu darei um jeito.
— Se é assim. E sobre o lance de diversificar os negócios tenho uma sugestão para você. Ramo hoteleiro. Com o turismo em alta, é um ramo bem rentável.
— Eu tenho ouvido falar muito que esse ramo está em alta mesmo. Veja alguns negócios nesta área que valham a pena meu investimento ou até mesmo a compra.
— Já tenho um em vista.
— Mas já? — encaro com surpreso meu advogado.
— Sim. Já ouviu falar no Central London Hotel, um hotel aqui em Nova York, mais exatamente no Upper West Side? — assinto em afirmação.
— Pois então, eu presto assessoria jurídica ao dono deste hotel e o negócio dele tem ido muito bem. Com uma filial em Londres, além da matriz em Nova York, ele muito em breve abrirá outras filiais em Miami, Cancun e Rio de Janeiro.
— Ele quer criar uma rede de hotéis?
— Exato. E seria bom pra você e para ele se investisse. Como está em processo de expansão e tem ido muito bem de finança, será mais que viável investir nesse negócio.
— Então melhor compra-lo, não acha?
— Só que o dono não quer vender. Ele quer um investidor apenas.
— Só aceito se for para ser sócio-investidor. Negocie com ele.
— Na verdade, você mesmo pode negociar com ele.
— Então marque uma reunião para esta semana. Quero resolver isto antes de ir embora para a Alemanha na sexta-feira.
— Na verdade, ele...
— Gil, o juiz de paz já chegou. Vamos lá! Maryane já está descendo.
Lewis chega avisando e interrompendo a fala de Joshua.
— Preciso ir, Joshua. Depois acertamos isto.
Postado diante do juíz de paz, com Maryane ao meu lado, eu ouço o homem engravatado dissertar sobre a união de duas pessoas em matrimônio enquanto faço minha própria reflexão sobre o mesmo tema.
Ah, o casamento! Aquele dia em que tudo é belo: os noivos, o lugar, a decoração, os convidados, a música, as fotos para eternizar o momento que deveria ser o mais feliz da nossa vida. Mas no meu caso, não está sendo assim.
E, como são as coisas, eu nunca sonhei em me casar e minhas chances de sentir um amor arrebatador e verdadeiro eram mínimas. O amor para mim era um sentimento piegas, uma tolice, que servia apenas para destruir nossas defesas, e eu não poderia me dar esse luxo. Mas aí ele (o amor) me achou, me acertou em cheio, me fez pagar pela língua grande. E tudo que eu sempre rejeitei, fui passando a querer com a pessoa responsável por despertar esse sentimento em mim, Sara.
Com ela passei a querer, tudo até mesmo casamento. E esse casamento que está acontecendo agora era para ser com ela. Era para ser diferente do que estava sendo. Era para ser feliz. Era para eu estar feliz. Porém, nem sempre as coisas são como queremos.
Eu não estava ali me casando por amor, tampouco com a pessoa que eu queria. Muito pelo contrário. E, ciente destas coisas, sei que as dificuldades que enfrentarei com isso, serão grandes. Mas as dificuldades que enfrentamos na vida são para nos fortalecer para grandes conquistas futuras. Não importa às vezes que andamos perdendo na vida, temos que nos preocupar, na verdade, com quantas vezes mais somos capazes de cair e levantar. E, eu sei, que sou capaz de conseguir fazer isto quantas vezes forem preciso.
— Senhor Gilbert Arthur Grissom é de sua livre e espontânea vontade que você aceita a senhorita Maryane Sidle Stuart como sua legítima esposa? — o juíz de paz me indaga após terminar seu discurso formal.
"Não!"
— Sim!
Ele então faz a mesma pergunta a Maryane, que obviamente, dá a mesma resposta que eu. Em seguida houve a troca de alianças e a cerimônia é dada como finalizada após o beijo que sou obrigado a dar na minha esposa.
Oficialmente casados, pelos próximos 365 dias e nada mais, se depender de mim.
Uma fila indiana se forma então para nos desejar felicitações pelo enlace. Com um sorriso no rosto (sorriso esse que a muito custo estava conseguindo manter), fui agradecendo a cada pessoa que passava por mim desejando felicidades. Ao meu lado, eu notava de canto de olho Maryane toda empolgada e feliz ao falar com os convidados que iam passando por nós, principalmente quando foi seus pais. Inclusive, foi o único momento até ali que Carl me dirigiu alguma palavra.
— Felicidades! — foi tudo o que ele disse com uma carranca. Diferentemente dos demais, ele não me estendeu a mão, ao contrário da esposa.
A última pessoa da fila foi meu irmão.
— Parabéns! — ele se limita em dizer antes de me abraçar. — Não vou desejar felicidades, porque sei que isto não vai acontecer. — sussurra em meu ouvido. — Só desejo que tudo acabe o mais rápido para você ir atrás da sua verdadeira felicidade.
— Obrigado!
Quando penso que já estou livre de todo aquele cerimonial, Maryane me vem com a brilhante ideia de que eu faça um discurso de agradecimento aos nossos convidados.
Lanço um olhar a ela que está sorrindo de orelha a orelha. Juro, que faltou pouco, muito pouco mesmo, para que eu lhe xingasse ali na frente de todos, para ver sair aquele sorrisinho idiota da cara dela, mas segurei a minha onda.
"Atue, Gil!", Minha mente me lembra bem.
— Bom... — começo com um falso sorriso. — Senhoras... senhores... Agradeço a presença de cada um esta noite. Estou... — hesito por um breve segundo em dizer aquela palavra. Porém o lembrete de que devo ser convincente na minha atuação de marido apaixonado e feliz pelo casamento, me faz vestir o personagem e pronunciar aquela palavra, ainda que meu estômago se embrulhe em dizê-la. -... Feliz de poder celebrar esse momento especial com vocês. Obrigado a todos.
O sorriso que se forma em meus lábios após o discurso de agradecimento, é tão falso quanto as palavras proferidas por mim.
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