After Separation - Livro 2
19 Capítulo XVII
Notas iniciais
— Poxa, você nem elogiou minha produção para o nosso casamento, querido.
Me viro no susto ao ouvir a voz de Maryane sussurrada bem próxima a minha orelha.
Após o discurso, eu fiz uma social pela sala e depois dei um jeito de fugir um pouco para o lado de fora da casa, pois já me sentia sufocar lá dentro. Ficar sustentando um personagem estava sendo massacrante. Sorrir quando não se tem vontade é cansativo. Minha vontade era mandar a maioria daquela gente ir à merda, principalmente Maryane e meu primo que pareciam empenhados em testar a minha paciência em público àquela noite.
— E nem vou elogiar. — resmungo após encara-la de cima abaixo rapidamente em seu longo branco estilo tomara que caia, para em seguida voltar a encarar o jardim a frente de casa, que ganhou uma repaginada uns dias antes de Joseph morrer, segundo soube.
A iluminação do jardim em tom amarelado realça as plantas, destacando melhor as cores e criando um efeito mais real no espaço, sem contar que ficou lindo. A responsável pela repaginada ali foi uma paisagista amiga de Maryane, que ela indicou a Matilde na época. Devo reconhecer que a profissional fez um belo trabalho. Ficou de muito bom gosto aquilo ali, especialmente, à noite.
— Nossa! Quanta hostilidade, querido. Lembra que você tem que me tratar bem. É, uma cláusula do nosso contrato.
Respiro bem fundo antes de virar o copo com o restante do uísque. Já nem sei mais quantos copos tomei, parei de contar no terceiro. Em seguida me coloco de frente para Maryane, que exibe um sorriso triunfante.
— O contrato diz para tratá-la bem na frente de terceiros. — a recordo de modo pausado enquanto busco controle para conter a minha fúria por aquela mulher. — No momento estamos só você e eu aqui. Portanto, te trato como merece. E não me enche a paciência!... Você já está me testando demais para uma noite só, Maryane.
— Acho que você está bebendo demais.
Ela ri na minha cara.
— Então cuidado e pare de me aborrecer. Ou do contrário... acabo não resistindo e saindo do personagem uma hora, esposinha. Aí, adeus farsa, casamento e tudo mais.
O sorriso em sua cara evapora que nem fumaça.
— Você não teria coragem. — ela me encara séria. — Tem muito a perder.
Balanço a cabeça de leve em concordância.
— Realmente tenho, só que não me subestime. Ou vai... Querer pagar pra vê?
Ela que não brinque comigo, porque meu senso de juízo não está nada bom, ainda mais depois de ingerir várias doses de uísque. Sendo assim, para eu apertar o botão do "foda-se" e mandar tudo aos ares não está tão difícil.
— Ok! — ela diz erguendo as mãos em rendição. — Não irei mais te aborrecer, desde que... você volte lá para dentro e se mostre um marido feliz para os convidados, que por sinal estão perguntando por você. Vamos lá, querido?
O sorriso volta a aparecer em sua face. Enquanto isso a minha expressão endurece por isso.
— Eu não quero voltar pra lá.
— Então fico aqui te fazendo companhia, amor.
— Não me chame assim. — digo rápido e de modo rude. Só há uma pessoa que pode me chamar por aquele termo carinhoso, e esta pessoa não é Maryane.
— Nossa! Calma, querido.
— Maryane... — digo seu nome após respirar bem fundo para não gritar e manda-la ir à merda. — Me deixa em paz! — é quase que uma súplica isso.
Por um instante achei que meu pedido fosse causar algum tipo de complacência na mulher diante de mim, porém me equivoquei assim que ela me dirigiu as seguintes palavras:
— Paz será tudo o que você não terá casada comigo, querido. Vamos voltar? Os convidados nos esperam.
Onde eu estava com a cabeça por esperar complacência de um ser vil e egoísta como Maryane?
— Juro que farei você se arrepender amargamente dessa noite e dos próximos dias e meses de afrontas ao longo desse casamento. — resmungo, pegando na mão dela que sorri, e saio puxando-a para dentro da casa.
Por um tempo razoável fiz o melhor que pude enquanto pela segunda vez naquela noite, socializava e pousava agora de marido feliz e apaixonado. E, creio que estava sendo convincente, porque as pessoas pareciam comprar o meu personagem.
Maryane me fez conversar com uma boa parte do pessoal no casamento de novo, especialmente com seus ex-colegas de trabalho. Me senti o próprio troféu dela sendo exibido com gosto ao grupo com quem ela trabalhou por anos.
— Uma pena que teve que deixar o escritório.
Uma mulher de aparência asiática comenta em determinado momento. Minha língua coça em dizer a ela que deveria agradecer por se livrar da convivência com Maryane, no entanto nem ouso externar meu pensamento. Vontade não falta!
— Já arrumou um escritório para trabalhar na Alemanha?
— Ainda não. Mas meu querido marido aqui irá se incumbir de falar com alguns contatos dele por lá, não é querido?
Olho para Maryane tentando disfarçar a minha surpresa com tal fala. Além de me casar com ela contra a minha vontade, ainda terei que arrumar emprego pra ela? Essa é boa!
— Sim, querida! — resmungo com um falso sorriso antes de dar um gole na bebida em meu copo.
— Tenho um primo que trabalha no Tchoban Voss, em Berlim. Ele disse que é um dos melhores escritórios por lá.
Um sujeito calvo diz e sinto vontade de bocejar por conta do papo nada interessante ali, e desta vez, só para não ficar na vontade, eu cedo e bocejo, atraindo o olhar de todos do grupo para mim.
— Me desculpem. — peço de modo cínico.
— Querido, você conhece alguém nesse escritório?
Posso ver em seus olhos o desconforto pelo meu ato indelicado de segundos atrás na frente dos amiguinhos dela.
— Talvez... Querida. — forço um sorriso a ela. Maryane faz menção de se pronunciar outra vez, mas sou mais rápido que ela. — Pessoal se me dão licença, vou ali com meu cunhado. Ele está olhando pra cá. Acho que quer falar comigo.
Nem espero resposta alguma e já saio dali rapidamente. Chega daquela gente e de Maryane. Paciência tem limites e a minha já alcançou o seu.
Sorte a minha que Edgar olhou na minha direção bem no momento em que falava para o grupo sobre ele.
— Pensei que a patroa não ia te deixar mais socializar com a gente, os seus amigos.
Apenas abro um sorriso forçado para Hodges.
— Têm só umas poucas horas que está casado e você já a segue feito um cachorrinho atrás da sua dona, Grissom.
— É o amor, Jim. — Edgar opina segurando o riso junto com os demais.
— Vão a merda.
Eles não se aguentam e começam a rir da minha cara. E, o pior, é que ainda sou alvo de mais chacotas deles.
Certo momento em que falavam sobre um assunto qualquer, o meu olfato é agraciado pelo perfume inconfundível dela. É uma convidada que passa perto do meu grupo, usando o mesmo perfume de Sara. No mesmo instante minha mente é tomada pelo rosto da morena, emoldura pelos cabelos castanhos, o sorriso lindo e os olhos brilhantes que parecem até duas estrelas cadentes.
Céus! Como eu sinto falta dela!
Daria tudo para vê-la ou ouvir sua voz, mas infelizmente, não posso vê-la. Contudo, escutar sua voz posso. Sei que ela praticamente, me exigiu não entrar em contato com ela, porém eu preciso de uma sobrevida para aguentar os próximos meses longe dela. E minha sobrevida será ouvir sua voz, nem que seja por alguns segundos que deve durar para ela proferir a saudação ao atender a chamada e eu desligar ligação.
— Edgar vem comigo rapidinho.
Nem espero meu cunhado dizer algo e já saio arrastando o pobre do sujeito enquanto ouvimos ao fundo meus amigos chamarem meu nome, pensando que estava bravo com eles pela nova zombaria e que por isso estava saindo dali as pressas. Mal sabem eles que não estou nem aí no momento para as zombarias que provavelmente estavam fazendo a mim.
— Gil o que há? — meu cunhado indaga confuso.
O levo até próximo do bar montado no canto da sala para abastecer os garçons que servem os convidados.
— Me empresta seu celular?
Eu não posso ligar do meu número, porque obviamente Sara irá reconhecê-lo e assim, nem atenderá a ligação. E preciso que ela atenda, para que eu escute sua voz por um instante apenas. Preciso disso como um viciado que precisa de sua droga para saciar seu vício. Eu sei, a analogia é horrível, mas não consigo pensar em outra no momento.
O tanto de álcool que ingeri até ali já não me deixa raciocinar com clareza. Talvez por isso, eu esteja sendo tão imprudente em fazer aquilo de ligar para ela dali naquele momento.
— Ué?! Cadê o seu?
— Sem perguntas, Edgar. Anda, me empresta rápido o seu celular.
Um tanto contrariado, ele puxa o aparelho de dentro do bolso interno de seu blazer cor de marfim e me estende o celular.
— Já te devolvo. E nada de comentar nada com ninguém sobre este empréstimo, nem mesmo com Lewis.
— Gil o que está aprontando?
— Sem perguntas, Edgar.
Me fasto dele e vou para um canto mais escondido ali no bar.
— Não se preocupem comigo. Podem continuar o trabalho de vocês. — digo aos três barmans em serviço, que me olham sem entender quando me escondo ali próximo a eles.
Dígito o número dela que sei de cor e aberto para "chamar". A ligação chama e chama até que é rejeitada. No mesmo instante, volto a ligar para ela.
"Atende, miene liebe! Eu preciso ouvir sua voz."
Outra vez, ela rejeita a chama. Decerto por ser de um número estranho e pelo horário, ela não queira atender. Mas, eu não desisto e torno a ligar outra vez. Vou insistir até ela atender, algo que acontece nesta minha nova tentativa de contato.
— Alô!
Sua voz doce entra por meu ouvido como um bálsamo na alma, me aliviando a angústia por essas duas semanas sem contato direto. Tem sido um inferno longe dela e este é só o começo. Merda!
— Alô?!
Sara repete diante da minha ausência de resposta. Era para eu já ter desligado após o primeiro "alô", mas não consegui.
— É muito não ter o que fazer, né?... Liga insistentemente para depois não falar nada, não?... Então vou desligar.
Ela diz irritada e antes que bata o telefone na minha cara, eu abro a boca para dizer:
— Não desliga, Sara!
A linha fica por uns três segundos em silêncio até que Juliette se pronuncia outra vez.
— Grissom?!
— Oi!
Sei que é muita cara de pau minha ligar, ainda mais sendo que um tempo atrás casei com a prima dela.
— O que você quer me ligando? Eu pedi que não entrasse mais em contato comigo.
Deixo um suspiro longo escapar.
— Desculpa por ligar... Mas eu precisava... ouvir sua voz antes desses próximos... 365 dias que terei de ficar... Sem falar ou te vê.
Digo, fazendo um esforço para não me embolar com as palavras, já que aquela altura as muitas doses de uísque que ingeri, mostram seu efeito deixando minha fala arrastada e pastosa.
— Você está bêbado, Grissom!
— Só um pouquinho.
Esboço um sorriso ao falar, porque quando estou falando com ela sorrir se torna uma coisa tão natural quanto respirar. Só ela tem esse poder sobre mim.
— Não foi uma pergunta.
Pelo seu tom de fala identifico que está com raiva e isto é o suficiente para me deixar em silêncio por um breve instante.
E sem que me desse conta, segundos depois, eu já estava declarando a ela o que vinha me corroendo desde quando deixei seu apartamento, quinze dias atrás
— Tô com tanta saudades de você, meine liebe.
É a vez dela de ficar em silêncio por um curto período. E quando vou para me pronunciar de novo, ela é mais rápida que eu:
— Grissom me deixa em paz. Você fez sua escolha, então seja feliz com ela. Adeus!
A ligação é encerrada por ela logo depois disto.
— Eu sinto muito... Me perdoa. — sussurro para o nada, já que o outro lado da linha está mudo.
Inevitavelmente duas lágrimas me escapam, diante da possibilidade de ter perdido Sara, quem sabe, para sempre, depois das palavras proferidas daquele modo por ela.
"Que isso não aconteça!"
***
— Gil! — ouço a voz do meu advogado reverberar atrás de mim.
Me viro na banqueta para encarar Joshua e sinto o sangue em minhas veias entrar em ebulição ao enxergar junto ao meu advogado, o sujeito que vi aos beijos com Sara na última sexta em um bar.
— O que esse sujeito faz aqui? — tento ficar de pé, mas devido as várias doses de álcool as pernas vacilam e me apoio ao balcão do bar.
— Vocês já se conhecem? — Joshua se apressa em me auxiliar a sentar na banqueta de novo.
— Não! — o sujeito o qual gravei o rosto desde a noite no bar, responde me encarando sem entender.
— Eu quero este homem fora daqui. — digo sem me importar com o tom mais elevado que a minha voz alcança e percebo alguns convidados olharem.
— Mas Grissom, ele é o dono do hotel que te sugeri a...
— Pois com ele não faço negócio algum. Que ele vá para o raio que o parta!
Ao fundo ouço os murmúrios dos convidados pelo modo alto e sem qualquer filtro que uso para falar.
— Qual o seu problema? Eu não lhe fiz nada para me tratar assim.
— Vá... À... Merda!... Alguém tire este homem daqui. — digo alto e apontando para o sujeito.
— Gil o que está havendo aqui?
Reconheço a voz do meu irmão que chega acompanhada de Maryane.
— Manda tirarem este bastardo daqui!
— Olha como fala comigo. Não é porque...
— Cala a boca, caralho! Cadê o Luke, para tirar esse cara.
— Gil, pelo amor de Deus, tá todo mundo olhando.
— Dane-se! — retruco para Maryane e me desvencilho de seu toque. — Se manda cara. Mas fique certo de uma coisa... — aponto para o sujeito. — Você... Não vai... Ficar com ela. Nem você... Nem ninguém. Agora, vaza da minha frente!... Anda!
O sujeito teve ainda a ousadia de me xingar de "louco" e "bêbado" enquanto Joshua o levava para longe.
— O que estão olhando? O show acabou! — falo para os convidados todos que tinham os olhos voltados para mim.
— Chega de bebida pra você. — Lewis tira o copo da minha mão e entrega ao barman.
— Ei! — reclamo.
— Você vai subir e dormir. Passou da conta, Gilbert Grissom. Vamos? — ouço meu irmão falar como se eu fosse uma criança. — Nick e Warrick me ajudem a subir com ele.
Mesmo contra a minha vontade os rapazes se põem um de cada lado meu, e me levantam da banqueta para me tirar dali sob os olhares dos convidados.
— Que papelão, hein priminho?
— Cala a boca, Conrad! Ninguém pediu sua opinião — meu irmão se adianta em falar.
Com dificuldade vou subindo os degraus da escadas.
— Pelo andar da sua coordenação motora para subir as escadas só terminamos semana que vem.
— Cala a boca, Jim. — resmungo para Jim que vem atrás de mim e dos rapazes que praticamente me carregam.
— Também te amo, Gil.
Assim que chegamos ao quarto, os rapazes me colocam deitado na cama e ao encarar o teto, tudo ao me em torno parecer girar como se eu estivesse em um carrossel.
— Vou despachar os convidados, porque não tem mais clima para continuar a festa e venho ficar com você.
Ouço meu irmão falar e logo em seguida Maryane se intromete dizendo que ELA quem irá cuidar de mim, porque é a minha esposa. No mesmo instante, eu interveio, porque não a quero ali comigo.
— Eu não preciso de você. E nem quero que cuide de mim.
— Você o ouvi. Portanto, eu venho...
— Ele agora é minha obrigação, Lewis. Sendo ou não do seu gosto, querido, estamos casados e quem vai cuidar de você sou eu, a sua mulher. Agora, se nos dão licença.
A maldita praticamente expulsa meu irmão e os meus amigos do quarto. Assim que eles saem, ela faz questão de trancar a porta, depois caminha para perto da cama, parando diante de mim de braços cruzados.
— Quem é aquele homem, Gil?
— Um fodido!... Ele vai pagar caro, por ter se metido com ela.
— Ela quem?
Com dificuldade consigo me sentar na cama e sinto o mundo a minha volta girar em 360 graus.
— Não te interessa. — digo, tentando me levantar da cama, mas sem conseguir.
— Interessa sim. — ela rebate apoiando aos mãos nas minhas coxas e ficando com o rosto na mesma altura do meu. — Se bem que acho que faço ideia de quem seja ela. É à minha prima quem você se refere, não é?
— Sim! — respondo depois de alguns segundos olhando bem para a cara duplicada de Maryane. — Aquele filho da puta, não ficará com ela.
Vejo um sorriso surgir bem lentamente nos lábios da mulher diante de mim.
— Pois eu espero que ele fique, porque você mesmo que não vai ficar, meu bem!
A maldita diz toda confiante e, ainda por cima, me rouba um beijo.
— Agora, vem, você precisa de uma ducha para despertar, porque tem que cumprir com sua obrigação de marido em nossa noite de núpcias.
Franzo a testa.
— Você não está falando sério?!
— É, claro que estou. Anda, Gil. Vamos, que eu te ajudarei, já que não dá conta de ficar de pé.
— Não vê o meu estado? Não estou em condições disso.
— Grissom, nós já fizemos antes com você muito mais bêbado que isso, querido, e foi maravilhoso. Vamos lá que eu te ajudo.
— Não quero sua ajuda. — afasto suas mãos de mim.
Eu só posso estar pagando por todos os meus pecados na terra ao ter casado com essa mulher.
— Vou te esperar aqui na cama. — ouço a desgraçada pronunciar enquanto me direciono ao banheiro, me apoiando nos móveis para não cair.
— Eu irei transar com você... — digo me virando para ela. — Pensando na sua prima, que é quem amo.
O sorriso dela se desfaz no mesmo instante e me dou por satisfeito com isso.
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