Notas iniciais
N/A: Salve, salve, meus amores! Bora lá para atualização? Simbora. Boa leitura.

Entramos Grissom, eu e seu advogado na sala de depoimento. O oficial nos acomodou em cadeiras, e começou a fazer perguntas:

- Senhora Sidle, você confirma a denúncia de sequestro? — o oficial tinha um tom de voz séria ao me questionar.

- Não — respondi, a voz firme. — Não houve sequestro.

Ainda que eu tenha ameaçado aquele cretino no carro a caminho do veleiro, que o denunciaria por sequestro, eu jamais faria isso. Grissom me olhou, um alívio momentâneo passando por seus olhos. Ele estava com medo de que eu o incriminasse. Talvez considerando o fato de tê-lo ameaçado disso em seu carro um tempo atrás. Mas eu não podia fazer isso.

- O que estava acontecendo, então? — o delegado insistiu, a desconfiança ainda pairando em sua voz.

- Estávamos conversando — respondi, a voz suave, mas firme. — Fomos para o veleiro do Grissom apenas para conversar em particular.

Grissom assentiu, e seu advogado, que o acompanhava, tomou a palavra.

- O senhor Grissom não fez nada de errado. A denúncia foi um mal-entendido.

O oficial nos olhou, desconfiado, mas a expressão dele, que parecia mais irritada do que surpresa, me fez perceber que ele estava acostumado a lidar com a bagunça dos outros.

- A pessoa que ligou, foi incisiva em afirmar que a senhora foi carregada e posta a força dentro de um carro pelo senhor Grissom, isso procede? — ele perguntou, o tom sério, mas com um toque de impaciência.

- Na verdade, o Gilbert tem esse péssimo hábito de me levar assim — respondi, lançando um olhar reprovador aquele cretino. — Era algo que acontecia às vezes quando namorávamos.

- Foi a força ou não? — o oficial insistiu, a desconfiança e a impaciência ainda pairando em sua voz.

- Não! Foi uma brincadeira sem graça dele — tentei contornar a situação, a voz firme, mas sentindo o peso daquela mentira. A verdade era que, naquele momento, a ação de Grissom foi impulsiva e imprudente, mas não violenta.

O oficial desconfiava que havia mais na história, mas não tinha provas que sustentassem a denúncia de sequestro.

- Certo. Vocês podem ir, mas se eu precisar de vocês, as ligo — ele disse, com a voz séria.

Saímos da sala de depoimento. A porta de metal se fechou com um baque surdo, o som ecoando pelo corredor. Nós três seguimos em silêncio, passos pesados no chão de linóleo. Lá fora, o ar daquela manhã, pareceu um choque, dissolvendo a tensão sufocante daquele lugar. Grissom soltou um suspiro lento, os braços cruzados sobre o peito. Ele se virou para mim.

- Obrigado. Achei que ia cumprir sua ameaça.

- Deveria ter cumprido.

O advogado dele consultou o relógio e perguntou, formal e impessoal:

- Gil, ainda vai precisar de mim?

- Não, Joshua. Já está tudo bem. Obrigado.

O tal Joshua fez um gesto de cabeça em minha direção antes de entrar em seu sedan escuro mais adiante. Assim que o carro partiu, o silêncio entre nós voltou, mais pesado que antes.

- Viu o que a sua imprudência e impulsividade te custaram? — perguntei, a voz baixa, mas afiada.

- Quem será que fez a denúncia? — ele perguntou, ignorando completamente a minha provocação

- Alguém que não viu a sua ação como uma brincadeira — respondi, mantendo o tom gélido.

- Muito estranho isso! A pessoa foi certeira em dar meu nome, não acha? — a sobrancelha de Grissom se ergueu enquanto ele falava, como se estivesse montando um quebra-cabeça invisível, tentando ignorar a repreensão na minha voz.

- Gilbert, você é conhecido. O que queria? — soltei, o peso do meu desdém evidente.

Ele balançou a cabeça, o gesto rápido e irritado.

- Não. Alguma coisa não está se encaixando. Tá muito suspeito isso.

O eco da sirene de uma viatura distante se misturou ao silêncio.

- O que não se encaixa é você pensar que pode fazer o que fez sem consequências. — retruquei, minha voz baixando para um sussurro tenso, mas o peso da verdade era mais palpável. — Você precisa entender que não se pode simplesmente sair por aí causando caos e esperar que não haja consequências, Grissom. — Eu não me referia ao ocorrido de hoje, mas ao passado, a nós. O tempo tinha passado, mas as feridas permaneciam, e com o retorno dele, reabriram.

Grissom respirou fundo, a raiva se esvaindo, dando lugar a uma ponta de incerteza.

- Eu sei que o que fiz foi errado, mas...

- Mas o quê? — interrompi, a voz dura como uma pedra. Meus olhos eram uma tempestade de ressentimento acumulado, e a forma como o olhava revelava a extensão da dor que ele havia me causado. — Você queria que eu simplesmente esquecesse? Que fingisse que nada aconteceu? Que continuasse a te amar como se o meu mundo não tivesse sido virado do avesso por sua causa?

Minhas palavras atingiram Grissom como golpes. Ele tentou se defender, mas minha voz era um muro impenetrável.

- Eu não esperava isso...

- E o que você esperava, Grissom? Que eu relevasse o preço do que você me fez sentir? — sorri, um som sem alegria, mais doloroso do que qualquer grito. — As consequências chegam, Grissom. Elas sempre chegam. E a sua é voltar e me ver com a vida refeita, um reflexo do que a sua decisão causou.

Um silêncio pesado se instalou entre nós, preenchido apenas pelo eco do passado. Grissom suspirou, um som profundo e sentido. Ele sabia que não podia fugir das consequências, não da ferida que ele mesmo havia provocado.

- Eu sinto muito — ele sussurrou.

- A desculpa não conserta o que quebrou — respondo, sem suavizar o olhar. — Você precisa encarar as consequências do caos que você plantou. Sozinho. Agora, entregue minha bolsa e meu celular. Preciso ir para a editora. Minha assistente deve estar louca atrás de mim.

- Eu te levo — ele ofereceu, a voz mais uma súplica do que uma proposta.

- Não, obrigada — cortei, a frieza voltando à tona. O tom da minha voz era uma barreira, finalizando qualquer abertura para uma conversa. — E nem ouse repetir a cena que fez lá na frente de casa. Estamos na frente da delegacia. Desta vez, não aliviarei para o seu lado com o delegado, como fiz lá dentro.

Grissom assentiu, o gesto rápido e submisso, a incerteza ainda em seu olhar. Ele se virou e foi até o carro onde seu motorista o aguardava, a figura esguia se movendo com uma resignação inesperada. Abriu a porta e, de dentro, pegou minha bolsa. Voltou até mim, estendendo a peça escura como quem devolve algo que não a pertence mais.

- Obrigada — falei, pegando a bolsa e ajeitando a alça no ombro. O contato com o tecido, familiar e ao mesmo tempo distante, foi a única troca que aceitaria. — Meu celular — cobrei, lembrando que ele havia guardado o aparelho no bolso do blazer.

- Já está dentro da bolsa — respondeu, a voz quase inaudível.

- Ótimo. Até, Gilbert — encerrei, o "até" soando como um adeus casual, mas para mim, era apenas um interlúdio. Algo ainda precisava ser resolvido, algo que atendia pelo nome de Benjamin, meu filho, ou melhor, nosso filho, um segredo que ele nem sonhava ser dele também.

Não olhei para trás enquanto me afastava, mas pude sentir o peso do meu segredo reverberando no ar, uma promessa silenciosa de mais caos. A vida que ele destruiu não tinha apenas me afetado; tinha criado uma nova, e agora, essa nova vida era a minha prioridade.

***

Ao sair do elevador da editora, caminhei alguns passos e enxerguei Doug e Morg, telefones na orelha e os semblantes fechados, deixando clara a preocupação pelo meu sumiço. Assim que me aproximei o suficiente da mesa da minha assistente, eles notaram minha presença. Doug desligou a chamada com um ar de alívio e correu ao meu encontro.

- Sara! Onde você estava? Sumiu! — ele disse, a voz cheia de censura e preocupação.

Morgan se aproximou mais devagar, com a expressão ainda tensa.

- Mulher, ligamos tanto para o seu celular e nada de conseguir falar com você. O que aconteceu?

Eu respirei fundo, ainda sentindo o peso da minha última conversa com Grissom. A história toda era complicada, e eu não sabia por onde começar.

- Longa história — falei, a voz cansada. — E não é algo que eu queira falar agora.

Doug me olhou, percebendo que algo sério tinha acontecido.

- Ok. — Ele suspirou, derrotado, mas não convencido. — Mas assim que tiver um momento, vou querer saber de tudo. — Seus olhos, no entanto, não deixavam os meus, como se quisesse ler a história inteira na minha expressão.

- O que importa agora é que você está de volta e bem — disse Morgan, com a voz mais suave. — Então vamos trabalhar, chefe. Temos uma reunião importante em meia hora para discutir o lançamento do novo livro.

A menção ao trabalho me trouxe de volta à realidade. O drama pessoal precisava ser colocado de lado, por enquanto. Assenti, agradecendo a preocupação deles com um sorriso forçado.

- Vamos lá. Tenho que resolver isso. — Peguei o celular na bolsa e liguei. As notificações e chamadas perdidas explodiram na tela: Morgan, Doug, Dayse e até Owen, um bombardeio de mensagens e alarmes que me lembrou de quão desconectada eu havia estado nas últimas horas.

Com um suspiro, guardei o aparelho e me despedi de Doug com um beijo rápido, sua expressão de alívio sendo um pequeno bálsamo na minha tormenta interior. Em seguida, segui para minha sala com Morgan em meu encalço, sabendo que a calmaria era apenas temporária. As consequências daquela conversa com Grissom ainda me seguiriam, assim como as do passado. E, no meio de tudo, a bomba-relógio chamada Benjamin continuava correndo, à espera do momento certo para explodir.

O som do meu salto ecoava pelo piso de porcelanato, uma marcha forçada para dentro do meu lugar de controle, mas minha mente estava longe. Abri a porta da minha sala, um refúgio forçado. A mesa impecável, a vista da janela... tudo parecia inalterado, exceto por mim.

- O que não queria falar na frente do Doug? — perspicaz como só ela, Morgan perguntou, fechando a porta com suavidade. Sua voz era baixa e séria.

Enquanto me sentava na minha cadeira, encarei a tela do computador, que refletia minha imagem perturbada. A pergunta de Morgan me trouxe de volta à conversa com Grissom, tanto no veleiro quanto na delegacia. As cenas, as revelações que ele me fez sobre as reais razões de ter me deixado, a discussão na delegacia, a frieza nas minhas palavras... Tudo se repetia em câmera lenta.

- O Grissom apareceu lá em casa quando eu saía para trabalhar — eu disse, a voz quase inaudível. — Ele me levou para conversar no veleiro dele e depois acabamos indo parar em uma delegacia, alguém denunciou o Grissom por me sequestrar... — fui contando tudo embolado

Morgan franziu a testa, os olhos se estreitando, a incredulidade marcando seu rosto. Ela se encostou na minha mesa, o olhar fixo no meu.

- O quê? Veleiro? Delegacia? Sequestro? Como assim? Explica isso direito, chefe! — As perguntas saíram em um fôlego só, sua voz baixa e tensa.

Eu suspirei, a exaustão pesando nos meus ombros. Então relatei de forma resumida e atropelada a sequência de eventos, a voz embargada pela exaustão e pelo choque.

- O Grissom apareceu horas atrás na minha porta, querendo conversar, mas como me recusei, ele me carregou até seu carro e me levou até a marina, onde fica o veleiro dele. — Eu pausei, buscando ar, e continuei: — Lá, ele me revelou que só aceitou casar com Maryanne porque seu pai, Joseph, ameaçou de arruinar a minha vida e da minha família.

Morgan recuou, como se tivesse levado um tapa. A incredulidade e a raiva misturadas em seu rosto eram palpáveis.

- O pai dele? Mas... por quê? — Ela gaguejou, ainda processando a informação.

- Porque ele não aceitava nosso relacionamento. E preferia Maryanne com o Grissom — expliquei, a voz, um sussurro carregado de ressentimento.

- E como foram parar na delegacia? — Morgan interrompeu, a voz aumentando de volume, a confusão e o choque nítidos em sua expressão.

- Alguém da minha vizinhança denunciou anonimamente o Grissom por me sequestrar, porque o inconsequente me carregou até seu carro. Aí, a polícia, não sei como, bateu lá na marina e nos conduziu à delegacia para prestar esclarecimentos.

Morgan levou as mãos à cabeça, a descrença estampada em seu rosto.

- Jesus! Mas por que não avisou, mulher?

- Como? Se aquele idiota tomou meu celular enquanto ainda estávamos no carro a caminho da Marina? — retruquei, a voz carregada de ironia. O absurdo da situação me dominou por um instante. — Ele me deixou incomunicável. Não tive como avisar ninguém. O celular só voltou para mim quando estávamos na porta da delegacia, após ter prestado depoimento.

O silêncio na sala foi pesado. A história era tão absurda e cheia de reviravoltas que parecia saída de um roteiro de cinema. Exceto que era a minha vida.

- E o que aconteceu com o Grissom? — Morgan perguntou, em curiosidade.

- O delegado o liberou, já que não confirmei a denúncia de sequestro — falei, a voz firme. — Agora, chega dele. Vamos trabalhar. Preciso ocupar a cabeça com isso.

Minha prioridade agora era a reunião para discutir o novo lançamento, meu primeiro projeto após o retorno da licença-maternidade.

Horas mais tarde, durante um pequeno intervalo, lá estava eu em minha sala, tendo que voltar de novo ao assunto do meu sumiço com Doug que teimou em querer saber sobre o motivo disso. Tive que lhe relatar o mesmo que contei a Morgan, e a raiva tomou conta do meu namorado ao descobrir que Grissom era o responsável por aquilo.

- Esse cara não sabe o significado da palavra "limite"? — Doug me encarou, com raiva transbordando em seu olhar. Sua mão apertou a minha com força, mas não de forma violenta, e sim como se quisesse me proteger.

- Doug se acalma. — respondi, mas eu entendia a raiva dele. A história era surreal, e o fato de eu ter sido arrastada por Grissom para o meio de uma loucura daquelas o atingia em cheio.

- Você devia ter confirmado a denuncia. — insistiu, a voz transbordando de indignação. — Assim, esse tal de Grissom ia aprender que suas ações não ficam impunes. — seu tom defensivo na resposta era perceptível.

- Por mais que ele tenha agido de forma completamente idiota, denunciá-lo seria ir longe demais.

- Ir longe demais?? — ele repetiu, a voz mais baixa, mas carregada de dor. — Esse louco te arrastou contra a sua vontade, e você não acha que isso é ir longe demais?

- Doug... — tento intervir, a voz sumindo.

- Repito — ele cortou, sem me dar espaço para réplica. — Esse cara é um descompensado.

Um silêncio pesado se instalou, a tensão do conflito inicial dando lugar a uma ansiedade palpável. A preocupação nos olhos de Doug era um espelho da minha própria. Sua voz, agora mais suave e cansada, quebrou o silêncio:

- Eu só queria que esse sujeito ficasse longe de você. Ele não pode simplesmente aparecer e causar esse caos. — disse ele, a frustração ainda presente, mas misturada com um medo real pelo que eu passei.

- Eu sei. — assenti, o pensamento da cena no veleiro ainda fresco na minha mente. — Mas a história é mais complexa do que isso.

- O que você quer dizer? — ele perguntou, sua voz baixa e cautelosa, sentindo que algo mais estava por vir.

Hesitei por um momento. A revelação de Grissom era como uma caixa de Pandora que eu não tinha certeza se deveria abrir, especialmente para Doug. Mas ele merecia a verdade. Ele tinha estado comigo o tempo todo, passando por essa montanha-russa de emoções.

- No veleiro, Grissom... me disse algo. Algo sobre o porquê ele me deixou de verdade. — comecei, a lembrança daquele momento voltando. — Ele disse que o pai o chantageou. Ameaçou destruir minha vida e da minha família se ele não terminasse comigo para casar com outra.

Os olhos de Doug se arregalaram, a incredulidade marcando suas feições. Ele se afastou, o choque impedindo de processar a informação de imediato.

- O pai dele? Por quê? — sua voz mal passou de um sussurro.

- Porque ele não aceitava nosso relacionamento. — expliquei, a mágoa e a impotência se misturando na minha voz. — Preferia que o Grissom ficasse com a 'nora perfeita' que ele queria, em vez de comigo.

Doug balançou a cabeça em negação, um gesto rápido e incrédulo.

- Você realmente acredita nisso?

- E por que não acreditaria? — Franzi a testa, a incerteza dele me irritando. A história de Grissom parecia ter a consistência da verdade, alinhada com tudo que eu sabia sobre o pai dele manipulador.

- Porque ele pode ter inventado isso para te quebrar, Sara. O pai dele nem está mais vivo para confirmar. — Doug argumentou, a voz firme. — Como pode saber que não é só mais uma jogada do Grissom para se reaproximar de você?

As palavras dele me atingiram com a força de um soco. Doug não estava reagindo por impulso, estava analisando a situação friamente, e sua lógica era impecável. Por mais que eu quisesse acreditar em uma redenção de Grissom, a hipótese de ser mais um de seus jogos era uma possibilidade real. Ainda assim, por um impulso que eu mal conseguia entender, recusei-me a aceitar a mentira. Preferia dar a ele um voto de confiança, mesmo que isso fosse arriscado.

- Doug, eu entendo sua revolta, mas não acho que Grissom mentiria nisso — defendi, a voz um pouco mais fraca do que eu pretendia.

Ele soltou um som de descrença.

- Nossa! Já está defendendo-o? Esqueceu o que ele fez? — O aborrecimento em sua voz era evidente, e a frustração subia em ondas. — Talvez o intuito desse sujeito com toda essa história nem seja, a princípio, se reaproximar de você. Talvez seja minar a nossa relação.

Ele gesticulou entre nós, a mão tremendo de frustração.

- Começa com esse primeiro desentendimento, e quando formos ver, estamos discutindo direto por causa dele.

A preocupação em seu olhar era genuína, e a possibilidade que ele levantou me assustou. Eu me senti dividida entre a vontade de acreditar em Grissom e o medo de que Doug estivesse certo. A voz da razão versus a voz do coração, que insistia que, desta vez, as coisas poderiam ser diferentes. A tensão entre nós, silenciosa e pesada, era a prova viva de que a manipulação, real ou não, já estava fazendo estragos.

- Doug, não é nada disso. — tentei consertar, a voz apressada. Mas era tarde.

- Preciso voltar, meu intervalo acabou. — ele anunciou, a voz cortante e impessoal enquanto checava o relógio. Aquele gesto parecia mais uma barreira do que um hábito, encerrando a conversa de forma unilateral.

- Doug... Espera. — supliquei, mas a urgência em minha voz não o deteve.

Ele me deu um beijo rápido e tenso na testa, um beijo que parecia mais um selo de descontentamento, e se virou. O som da porta fechando ecoou pela sala, com a força de um disparo, deixando-me sozinha com o peso da minha confusão e o eco de uma discussão inacabada.

- Merda, Gilbert! Por que tinha que voltar?! — praguejei em voz baixa.

Encostei a cabeça na porta, fechando os olhos com força. A raiva de Doug tinha razão de ser, mas a minha própria frustração com o retorno de Grissom era ainda maior. A revelação sobre seu pai Joseph, as ameaças... tudo era um caos. E agora, Doug estava no meio, e eu não queria que ele fosse a primeira vítima dessa nova guerra.

Se não bastasse a ocultação sobre Benjamin ser um peso insuportável, a dúvida plantada por Doug sobre as intenções de Grissom era uma nova âncora para me afundar. O que era real e o que era invenção?

Caminhei atordoada até a minha mesa, o pensamento nublado por uma mistura de confusão e pânico. Peguei o celular e disquei o número já tão familiar. Mal a chamada completou e a voz de Dayse soou do outro lado.

- Amiga, preciso da sua ajuda. É urgente.

***

Sentada à mesa de um restaurante, fixei os olhos no relógio de pulso. Pela décima vez em dois minutos, conferia a hora, enquanto a impaciência me consumia. O peso das minhas preocupações tornava a espera por Dayse insuportável. Peguei a taça de água e tomei um gole, mas o líquido não me acalmou; ao contrário, desceu como uma bola coberta de arame farpado, arranhando cada centímetro da minha garganta.

O celular apitou sobre a mesa, arrancando-me do meu torpor. Estendi o braço e o peguei, deslizando o dedo pela tela para ver a notificação: era uma mensagem de Lina, a babá de Benny.

"Ele está dormindo tranquilo agora. Pode ficar tranquila, ficarei o tempo que precisar para você resolver as coisas no seu serviço."

Senti um alívio momentâneo. Agradeci por sua compreensão, digitando um rápido "Muito obrigada, Lina". Minutos antes, havia enviado uma mensagem avisando que me atrasaria e, usando o trabalho como desculpa, pedi para que ela ficasse além do horário, garantindo que seria remunerada pelas "horas extras".

A ideia original era conversar com Dayse em casa, pois o assunto era delicado, mas ela avisou que não poderia dormir lá, pois tinha um compromisso importante mais tarde. A urgência de desabafar e, quem sabe, encontrar um rumo para o emaranhado de dúvidas e incertezas que me atormentava, fez com que eu aceitasse o encontro no restaurante. A ansiedade era tamanha que eu precisava despejar a história inteira: os temores de Doug e a revelação de Grissom sobre a chantagem de Joseph. Embora já tenha falado em parte com Morgan, a presença de Dayse era outra coisa. Minha melhor amiga quase sempre sabia me dar um caminho com seus conselhos. A conversa com ela seria a única chance de colocar os pensamentos em ordem e decidir qual seria o próximo passo.

Quinze minutos depois, quando ouvi sua voz, não pude evitar um suspiro de alívio. Ela era meu porto seguro em meio à tempestade que se anunciava.

- Dayse, ainda bem que você chegou. Preciso te contar tudo, do início ao fim. Acho que vou enlouquecer se não desabafar com você, amiga.

Ela sentou-se à minha frente, a preocupação estampada no rosto. Seus olhos me examinaram com atenção, e sua mão estendeu-se para tocar a minha sobre a mesa.

- Calma, respira fundo. Eu estou aqui agora, Sar. O que aconteceu? Começa do começo.

Atendendo ao seu pedido, iniciei o monólogo, relatando os acontecimentos que se desenrolaram desde o início da manhã. Falei sobre como Grissom, contra a minha vontade, me arrastou para uma conversa. Minha voz embargada, narrei suas revelações sobre os verdadeiros motivos que o levaram a se casar com Maryanne, uma história que me deixou atordoada. A isso, somei as suspeitas de Doug, que acabaram culminando em um pequeno, mas significativo, atrito entre nós.

Dayse me ouvia com atenção profunda, seus olhos fixos nos meus, sem fazer interrupção. Ela sabia que eu precisava desabafar, despejar toda a história e a enorme frustração que me consumia. Após meu relato, um silêncio pesado preencheu o espaço entre nós.

- Que manhã agitada, hein amiga? — Dayse comentou para quebrar a tensão no ar e amenizar o clima.

- Nem me fale.

- Tá! Vamos por partes — começou Dayse, dando um gole em seu copo de água. — Primeiro de tudo... Que velho filha da puta! — xingou, com raiva. — Como ele faz uma coisa dessas? Chantagear o próprio filho?

Seu comentário, embora cheio de indignação, me fez dar um meio sorriso. Era estranho que, diante de toda aquela loucura, a raiva dela fosse um alívio. Era um sentimento simples, direto, que não se perdia nas complexidades do que eu tinha acabado de contar.

- É uma loucura, eu sei — respondi, balançando a cabeça.

- E a Maryanne será que estava a par disso junto com esse velho do capeta? — Dayse questionou, sua voz cheia de desconfiança.

Eu suspirei, a dúvida dela era a mesma que estava me corroendo por dentro.

- Eu não sei. Minha prima sempre se mostrou muito segura de que seria ela quem casaria com Grissom no fim das contas. E... o que você disse me faz pensar. A Maryanne é ambiciosa. Mas não sei se o pai de Grissom seria capaz de manipular até a minha prima.

- Ou o contrário é capaz, não acha? — Dayse retrucou, com uma sobrancelha arqueada. — Maryanne manipular o Joseph.

Eu a encarei, perplexa.

- Duvido muito que Maryanne manipular Joseph — respondi, balançando a cabeça em negação. — O pai de Grissom era frio e calculista. Ele sempre soube o que queria e como conseguir, mesmo que para isso tivesse que pisar em todo mundo. Maryanne é... ambiciosa, mas não a esse ponto.

- Se você diz... — a voz de Dayse começou, mas logo a pausa dela trouxe uma mudança de tom, menos cética e mais ponderada. — Agora, sobre as desconfianças do Doug... Primeiro, a de que o Grissom pode te tirar a guarda do Benny e usar isso como moeda de troca para te ter de volta... Amiga, desculpa, mas... Gosto do editor gato, mas, para mim, ele deu uma bola fora. — Dayse balançou a cabeça em negativa, reforçando sua convicção. — Não acredito que o Grissom faria isso. Aquele cretino pode ter todos os defeitos do mundo e te magoado profundamente, mas ele não é mal-caráter a esse ponto. Ele não usaria o Benny para te atingir.

- Você acha? — perguntei, incerta.

- Sim. Você não? — Dayse devolveu, e a pergunta ecoou na mente da amiga, deixando-a pensativa.

Meus ombros caíram levemente e encarei as minhas próprias mãos, que repousavam sobre a mesa.

- Eu... — comecei, a voz falhando. — Eu não sei. É o meu ex, né? A gente tem um histórico... É difícil ser imparcial. — solto um suspiro pesado, sem coragem de olhar para a minha amiga.

Dayse se inclinou para a frente e colocou a mão sobre a minha, apertando-a com firmeza.

- Entendo. Mas pense bem — insistiu. — O Grissom sempre foi uma pessoa que jogou limpo, apesar de toda a bagunça que a gente sabe que ele é. Ele te faria sofrer, claro, mas usar o filho de vocês, como uma arma? Não, amiga. Isso é ser mal caráter demais, e o Grissom não é uma pessoa mal caráter.

- Mas e se o Doug estiver certo? — murmuro, finalmente levantando os olhos para encontrar os de Dayse. — E se ele estiver vendo algo que eu, por ainda ter resquícios de sentimentos por Grissom, não consigo enxergar?

- E se ele estiver apenas com ciúmes? — Dayse rebateu, sem perder tempo. — Ele é o seu novo namorado, é normal que se sinta ameaçado pelo seu ex, especialmente porque a história de vocês foi intensa, amiga. Ele está vendo as coisas de uma perspectiva diferente, de quem está de fora e quer te proteger. Mas isso não significa que a dele seja a visão mais clara.

- Você está certa — concordei, massageando as têmporas. A insegurança sobre o julgamento do Doug me pesava, mas a perspectiva de Dayse trazia uma estranha calmaria.

- E quanto ao Grissom ter inventado as coisas que te disse sobre a chantagem do pai dele? — Dayse se pronunciou novamente, a voz suave, mas firme, como quem não queria deixar escapar nenhum ponto. — Talvez seja um ponto a considerar, mas também não acho que ele mentiria. Eu fui espectadora da história de vocês e do quão maluco apaixonado aquele cretino era, e, pelo que parece, continua por você. Só mesmo uma chantagem desse calibre o faria te deixar, porque nós duas... — Ela apontou de mim para si mesma. — ... sabemos bem que ele estava decidido a manter o compromisso com você. Lembra que o pai dele até ameaçou deserdar o Grissom?

Assenti, lembrando-me da confissão de Grissom, a voz dele carregada de desespero e convicção.

- O que foi que ele te disse? — Dayse questionou, como se precisasse ouvir aquilo de novo.

- Que não se importava em ser deserdado — respondi, e a lembrança trouxe um nó à garganta.

- Só por aí você tira o quão decidido ele estava em manter vocês juntos — Dayse reafirmou, seu tom agora mais conclusivo.

Sim. Era verdade. Grissom não estava se importando com o fato de Joseph lhe deserdar, contanto que nós continuássemos juntos. Isso era um fato irrefutável e, de certa forma, consolador. Essa lembrança servia como um pequeno farol de sanidade em meio à tempestade de incertezas.

- Então, talvez, ele não esteja inventando — arrisquei.

- Não, amiga. Eu acho que isso é real. Não invenção.

Engolindo a seco, assenti, deixando que a compaixão de Dayse me ancorasse. A certeza em seus olhos era um farol na minha própria tempestade de incertezas. Eu me agarrava àquele olhar, como a um colete salva-vidas, pronta para aceitar sua força emprestada até encontrar a minha própria.

Notas finais
Dayse sensata e jogando um pouco de luz para a Sara enxergar as coisas melhor. Xero e até.