After Separation - Livro 2
50 Capítulo XLVIII
Notas iniciais
Uma semana se arrastou, e o silêncio de Grissom era perturbador. Ele não me procurou na editora e nem em casa, não ligou e tampouco mandou mensagem. Uma ausência tão completa era, no mínimo, curiosa. Eu não sabia se interpretava isso como um bom ou péssimo sinal. Um bom, talvez, por significar que ele havia parado de me perturbar. Ou péssimo, se fosse o presságio de algo pior. De repente, a ausência dele era mais intimidante que a presença. Algo me dizia que essa calmaria era apenas a espera pela tempestade.
Apesar da inquietude que me consumia, a ausência de Grissom trouxe uma paz artificial para a minha rotina com Doug. Aliviado, ele deixou a raiva de lado, e o clima entre nós finalmente se normalizou. Mas eu não conseguia relaxar. A falta de notícias dele me soava mais como um alerta do que como um alívio genuíno. Sabia que, no momento em que ele reaparecer, a insegurança e o ciúmes de Doug iriam ressurgir com força total, assombrando-nos novamente.
Além do sumiço de Grissom, outra preocupação me corroía: a necessidade inevitável de contar a ele sobre Benny. A incerteza era grande: como ele reagiria? O que faria com essa informação? Embora Dayse tivesse me tranquilizado no restaurante semana passada, afirmando que uma atitude baixa vinda de Grissom era improvável, eu tinha minhas reservas. Gilbert era, afinal, imprevisível.
Além do meu próprio medo, a pressão de Lewis se intensificava. Ele insistia para que eu revelasse a verdade ao irmão, alegando que não suportava mais guardar o segredo. Sentia-se um traidor e achava injusto esconder algo tão importante. Eu me via, então, espremida entre proteger a mim e ao meu filho, e a pressão de contar a verdade a alguém que poderia usar isso contra mim.
Minha mente se transformou em um campo de batalha, onde a lógica e o medo travavam uma guerra silenciosa. A decisão parecia impossível, e a cada dia que passava sem agir, a sensação de que estava prestes a explodir aumentava. Foi então que, na noite anterior, a mensagem de Lewis chegou, trazendo um tom de ultimato:
"Sara
Estou no meu limite. Preciso que você resolva isso logo. Se não contar, eu mesmo vou contar ao Gil."
Um calafrio gelado percorreu-me a espinha, confirmando o fim da trégua. A madrugada, após aquela mensagem, transformou-se em uma tortura silenciosa, um desfile ininterrupto de imagens e temores que me roubaram o sono.
O receio de que Grissom não reagisse bem à minha revelação, e ao fato de eu ter omitido a verdade dele por tanto tempo, me assombrava. No entanto, esse medo empalidecia diante de algo pior: a possibilidade de ele receber a notícia de Benny por um intermediário, de forma abrupta e cruel.
Essa perspectiva me consumia por completo. Eu precisava ser a mensageira; era minha responsabilidade inquestionável, a minha cruz a carregar.
A manhã seguinte trouxe consigo uma clareza inegável: era hora de encarar a verdade. A tempestade se formava no horizonte, e eu preferia enfrentá-la de pé, munida da dignidade que me restava, a ser covardemente tragada por ela. O medo persistia, um zumbido constante, mas a convicção do inevitável atuava como a âncora que me impulsionava para frente.
"Contarei amanhã"
Enviei para Lewis, uma decisão firme enquanto embalava Benny em meu colo, aguardando a chegada da babá antes de seguir para a editora.
Embora o receio de contar ao Gilbert fosse grande, a certeza de que adiar a situação só traria piores consequências e, inquestionavelmente, sua ira superava qualquer hesitação.
Um tempo mais tarde, ao estacionar o carro em frente ao prédio da editora, minha mão buscou o celular com um gesto de firmeza renovada. As palavras foram digitadas, carregadas com o peso brutal da decisão que eu mesma escolhi confrontar. O tempo da espera havia, enfim, se esgotado, substituído por completo pela inevitabilidade do que estava por vir.
"Grissom, podemos conversar? Em particular. É importante."
A mensagem foi enviada, selando o destino. O clique final ecoou mais alto que o silêncio da manhã. A resposta, cirúrgica e sem rodeios, chegou minutos depois de eu alcançar a minha sala.
"Onde e quando?"
A calmaria forjada da última semana desabou. A contagem regressiva havia começado.
"Amanhã à noite na minha casa."
A minha resposta foi tão direta quanto a dele, sem margem para floreios. A mensagem foi visualizada. Mas o silêncio que se seguiu pesava mais que qualquer palavra. Nenhum emoji, nenhum simples "ok". Apenas o abismo da espera.
Respirei fundo, o ar parecendo denso em meus pulmões. O computador da editora à minha frente, os papéis espalhados sobre a mesa, tudo parecia estranhamente inexpressivo, um borrão sem importância. Minha atenção, minha alma, estava presa à tela do celular, que me devolvia apenas o vazio. A calma artificial chegava ao fim, e a incerteza, a cada segundo que passava, me corroía por dentro.
***
Grissom...
Depois de visualizar a resposta de Sara — cuja mensagem me surpreendeu e acendeu uma curiosidade febril sobre o encontro em sua casa -, voltei minha atenção para o homem que me encarava escorado a sua mesa. Ele sustentava a expressão de poucos amigos e os braços cruzados, um sinal de impaciência que eu já conhecia bem.
- Pode continuar — autorizei, deslizando o celular para dentro do bolso interno do blazer. Eu o interrompera abruptamente ao ver a notificação da mensagem de Sara, no meio de uma conversa tensa.
- Ah, obrigado, vossa majestade — ele retrucou, a ironia escorrendo na voz, completando com uma reverência teatral e idiota que me fez revirar os olhos, incapaz de esconder minha irritação.
- Não seja ridículo, homem. Prossiga logo — ordenei, batendo a mão levemente na coxa, um gesto de impaciência.
- Como eu estava dizendo... — ele continuou, a voz retomando o tom sério e profissional. — Você realmente acha que ela vai aceitar isso numa boa? A Sara, no mínimo, vai achar a situação estranha
Um suspiro de impaciência, quase um bufo, escapou dos meus lábios. A frustração borbulhava.
- Você que dê um jeito de contornar a estranheza dessa situação. Afinal, está me devendo, e muito, por sua omissão todos esses meses.
- De novo isso, Grissom? — ele chiou, exasperado, a expressão fechando-se ainda mais. — Eu te disse lá atrás que não ia mais bancar seu informante. Não estava certo. Além do mais, ela virou minha amiga.
- E eu sou seu amigo há mais tempo! — retruquei, estreitando os olhos num olhar de aço. A raiva, antes contida, subiu pela minha garganta. — Podia ao menos ter me avisado que ela estava namorando um filho da puta de editor, que eu tenho a ligeira impressão de que conheço de algum canto, só não estou lembrando da onde!
- Isso ia te prejudicar na época, Grissom. E você sabe disso.
- Foda-se, Owen! — Levantei-me do sofá, a irritação explodindo. Estávamos em pleno acerto de contas, aguardando Richard, meu sócio na BoB, para o anúncio oficial de que eu era o novo dono da editora. — Eu te mandei trazê-la para cá com o intuito de que você ficasse de olho nela durante esse um ano!
- Espere aí! — ele agitou as mãos, a exasperação pintando seu rosto. — Eu não trouxe a Sara só para ser seu olheiro e a babá da mulher que você não escolheu.
Ele apontou para mim e essas últimas palavras foram um golpe baixo, preciso e proposital em mim. Senti o impacto como um soco no estômago.
- Eu a trouxe, porque ela é uma profissional excelente. Não se esqueça disso.
- Jamais esqueceria — retruquei, a amargura impregnando minha voz. A verdade por trás daquela admissão, contudo, era inegável: Sara era brilhante, e fora por isso que a sugeri em primeiro lugar. — Tanto que te dei o nome dela quando comentou comigo que um dos seus editores anunciou a saída. Naquela altura, eu sequer sabia que você e ela tinham trocado salivas. E depois, quando soube, ainda assim o convenci a trazê-la, mesmo ciente de você ter ficado com a minha mulher.
- Ah! Não a trate como um objeto de posse, Grissom. É uma atitude bem babaca — ele rebateu, a voz carregada de reprovação. — Além do mais, como eu saberia da história de vocês, na época em que fiquei com ela? Fui descobrir muito tempo depois, durante nosso jantar, quando você me mostrou uma foto dela e sugeriu o nome para a vaga. E, só muito depois que ela também me contou mais detalhes sobre vocês. Mas aí, eu já sabia que o Gil dela era você.
Um silêncio pesado e incômodo instalou-se entre nós, preenchendo a sala. A tensão pairava no ar, suspensa como uma nuvem escura antes da chuva. Os olhos de Owen fixaram-se nos meus, a paciência no limite. Desviei o olhar, incapaz de sustentar o peso daquele momento. O tempo se arrastou, alongando cada segundo.
- Até hoje, eu não consigo acreditar que não reconheci a sua voz ao telefone naquela noite — Owen murmurou, quebrando o silêncio.
- Nem eu a sua — concordei, a voz baixa.
Talvez minha raiva me cegou na ocasião, pensei comigo mesmo. A fúria de ouvir um cara desconhecido dizer ao atender o celular de Sara, que eu estava atrapalhando a transa deles, foi tão avassaladora que ofuscou minha capacidade de reconhecer a voz familiar de Owen ao telefone.
- Além do mais, Sara não me disse seu sobrenome. Se ela tivesse dado o sobrenome, certamente, eu ligaria os pontos e saberia que era você.
Um novo e breve silêncio se fez após nossas trocas de palavras, até que eu, novamente me pronunciei, a voz mais controlada, mas ainda cortante, quebrei a quietude:
- Há quanto tempo eles estão juntos?
- Pensei que você já tivesse um dossiê completo dele, com essa e todas as outras informações possíveis, dada a sua psicopatia.
- Ainda não tenho, mas meu encarregado já está trabalhando nisso.
Havia pedido a Ian quando eu estive na Alemanha durante essa semana que passou.
- Essa sua coisa de investigar a vida dos outros é bizarra. Não é normal, devia se tratar.
Lancei um olhar severo para ele, que sorriu de forma irônica.
- Anda, responde logo o que perguntei.
- Pouco mais de três meses, eu acho — ele contou, com clara insatisfação.
- E você nem para me avisar. Belo amigo — murmurei, o sarcasmo escorrendo pelas palavras.
A história entre Owen e eu era longa e cheia de arestas. Nossas mães, amigas de longa data, compartilharam a maternidade simbólica, com minha mãe sendo sua madrinha. A infância e a adolescência nos separaram pela distância, quando sua família se mudou para Houston, mas a vida adulta, com seu senso de humor cruel, nos colocou frente a frente novamente. O reencontro veio por meio de Catherine, sua namorada na época, que serviu de ponte para a nossa amizade. Há alguns anos, construímos uma relação complexa, forjada por lealdades testadas e uma teia invisível de ressentimentos, alguns silenciosos, outros explosivos.
- Eu pensava que o namorado dela fosse aquele outro sujeito que vi com ela e um bebê, assim que cheguei de volta aos EUA. Pareciam uma família feliz — comentei, sentindo o peso da dor em cada palavra dita.
- Que sujeito? — Owen perguntou, a curiosidade, velando o resto da irritação.
- Um que ela estava aos beijos em uma boate, dias após nosso rompimento. John Vincent Smith — pronunciei o nome com um amargor que só o tempo parecia ter intensificado. O nome desse filho da puta ficou gravado em minha mente, uma cicatriz indelével. — O mesmo cara que meu advogado me apresentou no dia do meu casamento para fazermos negócios — adicionei, com um sorriso irônico que não alcançou meus olhos.
- Hum... — Owen retrucou, os olhos fixos em mim, a dúvida se espalhando em seu olhar.
- Não é o namorado dela, mas eles acabaram tendo um filho juntos. Vai ver que essa criança é fruto do envolvimento daquela noite, porque o tempo bate perfeitamente — confessei, sentindo a dor das minhas próprias palavras reverberar em mim.
Visualizar Sara com um filho era uma tortura; na minha mente, qualquer criança que ela viesse a ter, seria minha, não de um "João ninguém".
- Foi ela quem te disse que o filho é dele?
- Não. Mas é óbvio que é — insisti, a lógica, ainda que torta, parecendo inabalável na minha cabeça. — Do babaca plastificado do namorado dela é que não é, porque você acabou de dizer que eles estão juntos há pouco mais de três meses.
- Grissom...
Qualquer palavra que Owen diria a seguir foi engolida por uma batida firme na porta. Em seguida, a voz da secretária anunciou a chegada de Richard.
O homem adentrou a sala, seu rosto polido e profissional, mas com um sorriso gentil que não alcançava seus olhos. A presença dele preencheu o ambiente, dissipando a atmosfera carregada que nos envolvia até segundos atrás. Owen e eu, agora, tínhamos que vestir a máscara da formalidade.
- Senhor Grissom... Como vai? — Richard estendeu-me a mão, que aceitei com um aceno educado.
- Vou bem, senhor Richard. Estou ansioso por essa apresentação.
Um sorriso fino delineou meus lábios. A surpresa que o anúncio causaria no corpo dos colaboradores era algo que eu aguardava com uma satisfação velada, especialmente pela reação que sabia que provocaria em Sara.
- Imagino — Richard retrucou, desfazendo o contato de nossas mãos para, em seguida, cumprimentar o editor-chefe ao meu lado. — Owen!
- Senhor, é sempre bom revê-lo.
- Já sabe se estão todos os colaboradores no auditório?
- Sim! — Owen respondeu, sem desviar o olhar do meu, um brilho de advertência escondido em suas pupilas. Ele não estava de acordo com essa minha ideia de apresentação, porque sabia que estava fazendo isso para pegar Sara de surpresa.
- Então, senhor Grissom... — Richard se virou para mim, a formalidade impecável. — Vamos acabar com a sua ansiedade e falar com seus novos comandados?
- Por favor! — A resposta saiu rápida, um reflexo condicionado.
Enquanto seguia Richard para fora da sala, sentia o peso do olhar de Owen nas minhas costas. A sua frase incompleta martelava na minha mente, mas a iminência do que estava por vir me impedia de focar naquilo no momento. A cortina se abriria para o primeiro ato da tempestade, e eu estava pronta para subir ao palco.
***
Sara...
O auditório da editora estava lotado. Acomodado nas cadeiras acolchoadas, o corpo de colaboradores formava um mar de rostos curiosos, e o burburinho constante era o som ambiente que tomava conta do local. Acomodada entre Morgan e Doug, eu já me impacientava com aquela espera.
Ontem, uma circular foi emitida convocando todos os funcionários para uma reunião extraordinária, com a presença do presidente da BoB. O assunto, mantido em sigilo, alimentou especulações de todos os tipos na "rádio fofoca" da empresa. As teorias variavam: desde demissões em massa e substituição de cargos, até a mais improvável de todas, a venda da editora e um novo comando na companhia.
Qualquer que fosse o motivo daquela convocação e do pronunciamento que seria feito pelo dono da editora, uma coisa era certa: o clima estava carregado de ansiedade e preocupação.
- Estou quase pra botar um ovo de nervoso com tanta espera.
Sorri de leve com o comentário exagerado de Morgan, um alívio cômico bem-vindo na atmosfera pesada da sala.
- Não sei pra quê tanto suspense — foi a vez de Doug comentar, inquieto, batucando os dedos no braço da poltrona. — O que acha que vem, Sar?
- Espero que coisa boa — respondi, tentando disfarçar minha crescente apreensão. A verdade é que me sentia estranha; meu estômago estava um bolo de nervos e eu nem entendia bem o motivo. Talvez fosse apenas um presságio, ou a simples antecipação da conversa difícil que pretendia ter com Grissom amanhã.
Enquanto tentava me distrair com a conversa fiada, a porta lateral do auditório se abriu, e Richard, o dono da editora, adentrou o recinto, seguido por Owen. O burburinho cessou instantaneamente, substituído por um silêncio sepulcral.
Richard caminhou até o púlpito com um sorriso polido, a imagem do profissionalismo. Owen se posicionou logo atrás dele, como uma figura em um quadro, o semblante sério, e seu olhar parecia buscar alguém na plateia.
- Bom dia a todos — a voz de Richard soou alta e clara pelo sistema de som. — Agradeço a presença de cada um de vocês. Há anos estou à frente desta companhia como proprietário e administrador. Todos aqui sabem que comecei vendendo livros de porta em porta, e me orgulho imensamente disso. Naquela época, eu tinha apenas 18 anos e, com pouco mais do que a roupa do corpo e uma bolsa surrada cheia de volumes de segunda mão, embarquei em uma jornada que mudou minha vida para sempre. Para mim, não se tratava apenas de vender livros; era sobre compartilhar conhecimento, despertar a curiosidade e levar um pouco de magia a cada lar.
Eu ouvi encantada a sua narrativa sobre o começo de sua história, que, inclusive, virou uma biografia de sucesso. Richard era um homem admirável, que criou um império com trabalho e suor.
O ponto de virada de Richard, que o transformou de um simples livreiro andarilho no proprietário de uma das editoras mais importantes do país, ocorreu quando ele conheceu uma escritora. Ela era uma mulher talentosa, cujo sonho era publicar seu livro de poesias, e com quem ele acabou se casando depois.
Encantado com os versos dela, Richard decidiu apostar na obra. Ele usou todas as suas economias para financiar a impressão de uma pequena tiragem do livro.
As poesias da autora foram um sucesso instantâneo. Richard, com seu faro para o que o público desejava, viu ali uma oportunidade de ouro. Ele começou a procurar outros escritores talentosos, dispostos a arriscar em um mercado dominado por grandes editoras.
Com o tempo, a demanda por seus livros aumentou. Richard alugou um pequeno escritório, contratou uma equipe enxuta e fundou a "Bag of Book", sua própria editora. O nome refletia sua realidade no começo das andanças: uma bolsa de livros.
A BoB se especializou em autores independentes, em vozes novas e em histórias que as grandes editoras ignoravam. O modelo de negócio de Richard, baseado na paixão e na conexão pessoal, provou ser um diferencial em um mercado competitivo.
Décadas depois, a BoB se tornou uma editora de renome, com um catálogo diversificado e autores premiados. Richard, o livreiro andarilho, transformou sua paixão em um império literário.
- Como sabem, a BoB está sempre em busca de excelência e de novos desafios. Hoje, estamos aqui para anunciar uma mudança significativa na liderança da editora que, temos certeza, nos levará a um novo patamar de sucesso.
Richard fez uma pausa dramática, varrendo o auditório com o olhar. Senti o peso da expectativa, a respiração de todos suspensa. Meu olhar cruzou o de Owen, que sustentava o meu com um sorriso fino.
- Recentemente, indo contra toda e qualquer ideia que eu tinha de jamais vender minha companhia, eu acabei vendendo 51% das ações da BoB.
Após essa fala, um burburinho imediato tomou conta do auditório. Era de conhecimento geral que Richard sempre deixava claro sua postura irredutível de não vender a empresa para ninguém. Agora, ele nos dizia que havia se desfeito de uma parte significativa dela; em outras palavras, ele não era mais o proprietário total da editora.
- Estou em uma idade em que, a qualquer momento, posso não estar mais aqui, e não quero que meu legado se desfaça — explicou. — Por isso, e também por uma razão bem significativa que a pessoa que comprou me deu, resolvi vender a maior parte das ações para alguém que, tenho certeza, saberá conduzir este negócio tão bem quanto tem feito com o da sua família. A área de atuação não é a que ele está acostumado, mas negócios são negócios, e ele é um ás nisso.
- Ele? — Morgan cochichou para mim. — Bem que poderia ser uma Manda-Chuva mulher, né?
- Mas pelo visto se trata de um homem. — confabulou, Doug.
Eu permaneci calada, dividida entre escutar os dois e absorver cada palavra de Richard, que seguia falando no palco. O sorriso de Owen agora parecia mais um aviso.
O dono da BoB ainda discursou mais algumas palavras sobre negócios, exaltando a pessoa que apresentaria. Até que, por fim, fez seu grande anúncio:
- É com grande prazer que anuncio o novo dono da Bag of Book...
Richard fez outra pausa, saboreando o suspense, o sorriso se alargando. Olhei para Morgan e Doug, que me encaravam com a mesma confusão e expectativa que eu sentia. Quem seria o novo chefe, afinal?
- Gilbert Grissom! — anunciou o homem, batendo palmas e olhando na direção da porta lateral.
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